{"id":1010,"date":"2012-06-10T14:45:46","date_gmt":"2012-06-10T14:45:46","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/d-waldyr-calheiros-luta-armada-contra-ditadura-foi-legitima-2\/"},"modified":"2012-06-10T14:45:46","modified_gmt":"2012-06-10T14:45:46","slug":"d-waldyr-calheiros-luta-armada-contra-ditadura-foi-legitima-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/d-waldyr-calheiros-luta-armada-contra-ditadura-foi-legitima-2\/","title":{"rendered":"D. Waldyr Calheiros: luta armada contra ditadura foi leg\u00edtima"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.outraspalavras.net\/files\/2012\/06\/120606-Calheiros2b.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"238\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Bispo rebelde de Volta Redonda conta como empres\u00e1rios e clero apoiaram golpe-64 e relembra resist\u00eancia oper\u00e1ria no Vale do Para\u00edba  <!--more-->  <\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013<span class=\"s1\"><br \/><\/span>Sobre o tema: esta \u00e9 a 13\u00aa de uma s\u00e9rie de entrevistas de Ana Helena Tavares sobre a ditadura. Para ler as anteriores, em Quem tem medo da democracia,\u00a0\u00a0<a href=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/golpe-civil-militar\/\">clique aqui<\/a>.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem anda pela cidade de Volta Redonda, no Vale do Para\u00edba, sul do estado do Rio de Janeiro, fatalmente passar\u00e1 pela ponte Presidente M\u00e9dici. Cruz\u00e1-la indo para a casa de um bispo que lutou contra a ditadura \u00e9, no m\u00ednimo, uma experi\u00eancia inusitada, que mostra o quanto o Brasil ainda precisa avan\u00e7ar no esclarecimento de sua hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dom Waldyr Calheiros Novaes, bispo em\u00e9rito de Volta Redonda e Barra do Pira\u00ed, abriu as portas de sua casa para conceder entrevista exclusiva ao \u201c<a href=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/\">Quem tem medo da democracia?<\/a>\u201c\u00a0e se mostrou surpreso com o nome da ponte: \u201cVou tirar essa placa de l\u00e1\u201d, disse rindo, mas expressando um desejo s\u00e9rio. \u201cM\u00e9dici foi o mais criminoso dos ditadores brasileiros\u201d, completou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Atraso para o Brasil<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele acredita que, com o golpe de 64, \u201chouve atraso para o desenvolvimento do pa\u00eds\u201d. E prossegue: \u201cDali n\u00e3o poderia sair nenhum futuro, aquilo n\u00e3o poderia dar em nada. Os l\u00edderes trancados, proibidos de falar\u2026 Quem \u00e9 que ia tomar iniciativas?\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A interven\u00e7\u00e3o sindical em Volta Redonda<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAqui, em Volta Redonda, o problema foi que interferiram diretamente no sindicato (dos metal\u00fargicos da CSN). Tiraram todos aqueles que eram independentes da ditadura e colocaram, dentro do sindicato, os seus assessores de confian\u00e7a, afastando os outros. Ainda hoje tem gente a\u00ed que foi afastada naquela \u00e9poca. Hoje o sindicato n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo, porque a luta \u00e9 contra a empresa, n\u00e3o contra a ditadura\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1988, durante o governo Sarney, os oper\u00e1rios da CSN (Companhia Sider\u00fargica Nacional) entraram em greve. Em 9 de Novembro daquele ano, o Ex\u00e9rcito invadiu a f\u00e1brica deixando tr\u00eas mortos. Oscar Niemeyer fez um memorial para homenage\u00e1-los. Memorial este que foi atacado a bomba em 89. No mesmo ano, um dos l\u00edderes da greve, Juarez Antunes, que havia sido rec\u00e9m eleito prefeito de Volta Redonda, foi morto num suposto acidente de carro. Dom Waldyr acompanhou toda essa hist\u00f3ria e at\u00e9 hoje acredita que foi atentado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u00c1lbum de recorda\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/dom-waldyr-celebrando-a-missa-do-velc3b3rio-dos-3-funcionc3a1rios-da-csn-mortos-na-greve-de-1988-1024x704.jpg\" border=\"0\" width=\"512\" height=\"352\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Na foto hist\u00f3rica, o bispo em\u00e9rito de Volta Redonda, Dom Waldyr Calheiros, aparece de microfone em punho celebrando missa do vel\u00f3rio dos 3 funcion\u00e1rios da CSN mortos na greve de 1988.<\/address>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/bispodwaldyr-003-1024x768.jpg\" border=\"0\" width=\"512\" height=\"384\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address>No quadro, pendurado na parede da casa de Dom Waldyr, o registro do momento em que os oper\u00e1rios da CSN decidiram aderir \u00e0 greve. Foto: Ana Helena Tavares<\/address>\n<address style=\"text-align: justify;\"><\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O banqueiro e as tropas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Falando sobre a influ\u00eancia do capital financeiro na sustenta\u00e7\u00e3o da ditadura, Dom Waldyr lembrou que um banqueiro mineiro mobilizou tropas de Juiz de Fora para ajudar no golpe. \u201cVieram para o Rio de Janeiro e no meio do caminho houve uma negocia\u00e7\u00e3o. Um dos coron\u00e9is era meu conhecido, general Cesar Neves, e ele me contou como foi aquilo tudo.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O poder econ\u00f4mico \u201cdominou, animou e impulsionou\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuer dizer, houve iniciativa de empres\u00e1rios. N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida nenhuma, porque os militares sozinhos, por serem militares, n\u00e3o tinham interesse pessoal em torno disso, tinham que ter o poder econ\u00f4mico por tr\u00e1s. Era o econ\u00f4mico que estava dominando, animando e impulsionando\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Omiss\u00e3o da m\u00eddia<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para o bispo, \u201ca m\u00eddia se manteve ausente diante da extravag\u00e2ncia da ditadura. Foi omissa, porque tinha interesses econ\u00f4micos. Nossa democracia n\u00e3o deve nada a eles, a n\u00e3o ser a um ou outro, como o Pasquim.\u201d Mesmo sabendo que havia censura por parte do governo, ele acredita que \u201cos grandes meios de comunica\u00e7\u00e3o, se quisessem, poderiam divulgar informa\u00e7\u00f5es sem assumi-las como posi\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPorque o problema \u00e9 que, muitas vezes, havia jornalistas com coragem, dispostos a assinar not\u00edcias denunciando o que estava acontecendo, mas os pr\u00f3prios donos n\u00e3o permitiam a veicula\u00e7\u00e3o. Para eles, aquilo era comum. Havia todo um comprometimento. O Roberto Marinho de bra\u00e7os dados com Figueiredo n\u00e3o me deixa mentir.\u201d, ironiza Dom Waldyr.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O apoio da Igreja Cat\u00f3lica ao golpe<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando \u201cestourou\u201d o golpe, que Dom Waldyr garante ter sido em 1\u00ba de Abril de 1964, ele era bispo auxiliar do Rio de Janeiro. \u201cNaquela ocasi\u00e3o, o cardeal Dom Jaime de Barros C\u00e2mara e Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, que era o secret\u00e1rio da CNBB, pediram uma audi\u00eancia ao general de plant\u00e3o (Castelo Branco). Eles se encontraram em Laranjeiras, numa casa pertencente ao governo, junto com mais uns cinco bispos, dentre eles Dom Sigaud, que era da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 renova\u00e7\u00e3o da Igreja. H\u00e9lder ali falou claramente que apoiava as decis\u00f5es do poder militar e que a Igreja n\u00e3o se ausentava daquela situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o tomou a iniciativa nem estimulou.\u201d, contou Dom Waldyr.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A rea\u00e7\u00e3o da Igreja<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cNo entanto, quando, no mesmo ano, come\u00e7aram as torturas, que chegaram dentro de casa, houve uma persegui\u00e7\u00e3o a muitos membros da Igreja que lutaram contra a ditadura. A\u00ed, houve outra reuni\u00e3o. Foi para desfazer o contentamento da Igreja com o golpe.\u201d<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/bispodomwaldyr-1024x680.jpg\" border=\"0\" width=\"512\" height=\"340\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address>Dom Waldyr Calheiros: A Igreja, depois que viu que seus membros n\u00e3o foram livrados das pris\u00f5es e das torturas, come\u00e7ou a mudar sua postura.\u201d<\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cNaquela \u00e9poca, havia muitos movimentos sindicais, que faziam passeatas. Naturalmente, aquilo, para a Igreja, era um pouco de desordem. Mas j\u00e1 era uma rea\u00e7\u00e3o dos oper\u00e1rios \u00e0 ditadura que foi estabelecida. Eles \u00e9 que reagiram num primeiro momento. A Igreja, depois que viu que seus membros n\u00e3o foram livrados das pris\u00f5es e das torturas, come\u00e7ou a mudar sua postura.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O Cardeal que mudou de lado<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDentro da Igreja, um dos defensores do golpe era o Cardeal-Arcebispo do Rio de Janeiro, Dom Jaime de Barros C\u00e2mara. Ele, por sua vez, teve um de seus sobrinhos atingido pela ditadura. Foi na Bahia. Colocaram-no no 5\u00ba andar de um pr\u00e9dio e come\u00e7aram a maltrat\u00e1-lo. Ele, ent\u00e3o, pulou para se livrar daquilo. Suicidou-se. Esse suic\u00eddio desse menino serviu para Dom Jaime refletir e rever sua posi\u00e7\u00e3o. Ele afastou toda possibilidade de dar apoio \u00e0 ditadura\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A morte do representante do papa<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dom Waldyr relatou que, na ditadura, teve contato com o representante do papa no Brasil, que \u00e9 chamado \u201cn\u00fancio\u201d (palavra que significa anunciador). \u201cEu me dirigi ao n\u00fancio apost\u00f3lico, o nome dele era Lombardi. Ele era totalmente contra o regime e, assim, foi instigado pela ditadura a se afastar do Brasil para vir outro n\u00fancio. Naquela \u00e9poca, a sede dos representantes do papa era no Rio de Janeiro, mas, nessa luta, Lombardi precisou ir at\u00e9 Bras\u00edlia. Contrariado, porque as autoridades estavam quase colocando a m\u00e3o em cima de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, que era a voz da Igreja contra a ditadura, ele quis se entender com as autoridades. L\u00e1, em Bras\u00edlia, ele teve um enfarto e morreu.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAntes da morte dele (do n\u00fancio), houve aqui um problema bastante antip\u00e1tico. O comandante do Batalh\u00e3o de Infantaria Blindada (BIB), que era localizado em Barra Mansa, bem perto de Volta Redonda, para tomar conta da Companhia Sider\u00fargica, um bem nacional, achou de convocar as autoridades locais para fazer uma exposi\u00e7\u00e3o muito negativa de mim. Disseram que eu tinha rela\u00e7\u00f5es com todas as organiza\u00e7\u00f5es comunistas internacionais.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cRespons\u00e1vel pela subvers\u00e3o no Vale do Para\u00edba\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO comandante dizia que tinha cartas minhas trocadas com revolucion\u00e1rios do Uruguai, do Paraguai, etc\u2026 E convocou delegados, promotores, todas as autoridades da sociedade, para ouvir a exposi\u00e7\u00e3o dele. Alguns membros da Igreja que foram ouvi-lo me contaram tudo. Ele me acusava de ser o respons\u00e1vel por toda a subvers\u00e3o no Vale do Para\u00edba. Falava: \u2018o bispo comunista incita as pessoas a ingressarem na luta\u2019. E atribuiu a isso a pris\u00e3o, dentre outros, de Waldyr Bed\u00ea, que era um professor aqui em Volta Redonda, um homem muito conceituado e esclarecido, sem compromisso com a ditadura, e que trabalhava comigo. Ent\u00e3o, eu tive que reagir um pouco. Pedi uma audi\u00eancia a ele.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cN\u00e3o posso prender um bispo\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cIsso foi depois do AI-5. Fui acompanhado do meu vig\u00e1rio-geral, Monsenhor Barreto, disse que tinha conhecimento do que ele (o comandante do BIB) havia dito. \u2018Sei o conceito que o senhor tem de mim\u2019. E disse mais: \u2018Se o senhor acha que prendem pessoas pelo crime de trabalharem comigo, o criminoso sou eu, me prenda\u2019. Ele respondeu: \u2018Pode me dar um tiro, pode jogar uma bomba no batalh\u00e3o, n\u00e3o posso prender um bispo\u2019\u201d, lembrou Dom Waldyr.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nesse dia, o bispo permaneceu l\u00e1 das 8h \u00e0s 22h. Queria mesmo ser preso junto com aqueles que trabalhavam com ele, o que deixou os militares incomodados. \u201cN\u00e3o podemos mant\u00ea-lo aqui\u201d, diziam. Dom Waldyr conseguiu com isso a liberta\u00e7\u00e3o de alguns, mas houve um pre\u00e7o. \u201cCobraram deles que dissessem tudo o que tinham contra mim. Alguns sa\u00edram incumbidos de procurar coisas ruins a meu respeito para permanecerem soltos.\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Facilitando fugas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cUma vez, veio me pedir socorro uma pessoa que se apresentou dizendo que trabalhava com Dom Pedro Casald\u00e1liga (bispo prelado em\u00e9rito de S\u00e3o F\u00e9lix do Araguaia, no Mato Grosso). Queria que eu o ajudasse a fugir do pa\u00eds. Como ele trazia o nome de Dom Casald\u00e1liga, j\u00e1 tinha uma credencial\u2026 E ele tinha que fugir, pois estar com Pedro n\u00e3o era poss\u00edvel\u2026 Fiz o que estava ao meu alcance, me dirigi ao bispo da fronteira, Foz do Igua\u00e7u, e disse: \u2018tem um fulano aqui que eu gostaria que voc\u00ea desse uma ajuda para ele passar para o Uruguai\u2019 Ele atendeu. Esse eu sei que encaminhei.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cE houve tamb\u00e9m certos companheiros que eu ajudei a fugir daqui (de Volta Redonda) pela persegui\u00e7\u00e3o que estava em cima deles. Entre eles, tem um jornalista chamado Aur\u00e9lio, que ainda \u00e9 vivo. Ele me disse (naquela \u00e9poca) que estava com receio de que lhe acontecesse alguma coisa. Eu disse a ele: \u2018Olha, Aur\u00e9lio, s\u00f3 h\u00e1 um caminho: \u00e9 fora daqui, saia daqui\u2019 Ele, ent\u00e3o, \u2018desapareceu\u2019 por algum tempo. Passada a ditadura, ele voltou e \u00e9 dono hoje do \u201cDi\u00e1rio do Vale\u201d, que \u00e9 o jornal da cidade.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cConfessar-se num livro n\u00e3o redime ningu\u00e9m\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dom Waldyr comentou a atitude do ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra, que foi um matador na ditadura e resolveu escrever um livro \u2013 \u201cMem\u00f3rias de uma guerra suja\u201d \u2013 contando o que sabe: \u201cO arrependimento \u00e9 uma coisa muito pessoal. Alguns usam isso em proveito pr\u00f3prio, aproveitando-se da situa\u00e7\u00e3o atual para se sentirem ainda acolhidos na comunidade, mas n\u00e3o acredito em convers\u00e3o no caso dele. Se fosse dentro da sujeira que ele estava fazendo, tudo bem. Converter-se agora? N\u00e3o acredito. E confessar-se num livro n\u00e3o redime ningu\u00e9m. Se a Comiss\u00e3o da Verdade existir mesmo, ele tem que ser ouvido e acho que n\u00e3o seria perdoado.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Tortura:\u00a0\u201cum peda\u00e7o da sua carne sofrendo no outro irm\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPorque o que a gente espera \u00e9 que essa Comiss\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 descubra os criminosos, mas fa\u00e7a justi\u00e7a com rela\u00e7\u00e3o aos que ainda est\u00e3o vivos. \u00c9 uma satisfa\u00e7\u00e3o para os familiares das v\u00edtimas e para a sociedade. Os torturadores t\u00eam que ser julgados e punidos. Porque isso que eles fizeram foi muito doloroso e essa atitude n\u00e3o se faz sem uma op\u00e7\u00e3o pessoal. Torturar uma pessoa, sem ela ser criminosa, e mesmo que fosse, \u00e9 inadmiss\u00edvel. \u00c9 um peda\u00e7o da sua carne sofrendo no outro irm\u00e3o.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Luta armada: \u201cum instrumento de liberta\u00e7\u00e3o\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Dom Waldyr, a luta armada de esquerda foi \u201ctotalmente leg\u00edtima\u201d a partir do momento que funcionou como \u201cum instrumento de liberta\u00e7\u00e3o para os que lutaram e uma forma de exigir que a pr\u00e1tica de tortura n\u00e3o continuasse\u201d. Para ele, \u201cningu\u00e9m tem uma voca\u00e7\u00e3o suicida, maltratando o seu direito de viver, ent\u00e3o eles (os guerrilheiros) fizeram o que era necess\u00e1rio.\u201d E vai al\u00e9m: \u201cQuando um pa\u00eds \u00e9 oprimido e sofre, por estar sob dom\u00ednio, a Igreja defende uma guerra justa e admite que aqueles que est\u00e3o sofrendo e passando mal se levantem para se defender dessas torturas. Uma guerra justa.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><a href=\"http:\/\/www.youtube.com\/watch?v=cmp6Of3CeuI\">Assista ao bispo Dom Waldyr Calheiros falando da legitimidade da luta armada<\/a><\/p>\n<p> <object width=\"480\" height=\"360\"><param name=\"movie\" value=\"http:\/\/www.youtube-nocookie.com\/v\/cmp6Of3CeuI?version=3&amp;hl=en_US&amp;rel=0\" \/><param name=\"allowFullScreen\" value=\"true\" \/><param name=\"allowscriptaccess\" value=\"always\" \/><embed type=\"application\/x-shockwave-flash\" width=\"480\" height=\"360\" src=\"http:\/\/www.youtube-nocookie.com\/v\/cmp6Of3CeuI?version=3&amp;hl=en_US&amp;rel=0\" allowscriptaccess=\"always\" allowfullscreen=\"true\"><\/embed><\/object> <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Comiss\u00e3o da Verdade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">O bispo considera que os nomes escolhidos para integrar a Comiss\u00e3o \u201cs\u00e3o confi\u00e1veis, s\u00e3o pessoas que passaram pela experi\u00eancia (da ditadura) e n\u00e3o falar\u00e3o genericamente, porque s\u00e3o testemunhas da verdade\u201d. Mas n\u00e3o entende o porqu\u00ea do espa\u00e7o de tempo de 1946 a 1988: \u201cS\u00f3 se for para atrasar o resultado\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Uma sugest\u00e3o para a Comiss\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cTem um casal conhecido meu que o filho deles trabalhava no Ex\u00e9rcito, no batalh\u00e3o de Barra Mansa, na \u00e9poca da ditadura. Uma vez, ele vinha de l\u00e1 para Volta Redonda, num jipe do Ex\u00e9rcito. Era noite e prenderam um rapaz que estava pintando uma propaganda da Casa Confian\u00e7a. Colocaram-no dentro da caminhonete, onde come\u00e7aram a soc\u00e1-lo. Nisso, ele caiu, bateu com a cabe\u00e7a numa pedra e morreu. At\u00e9 hoje a fam\u00edlia \u00e9 enganada pensando que houve um acidente, mas tem uma irm\u00e3 dele consciente de que o mataram. Esse \u00e9 um caso que a Comiss\u00e3o da Verdade deveria apurar e descobrir o que aconteceu, porque ele morreu dentro do quartel.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Um coment\u00e1rio sobre FHC<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cEu conheci Fernando Henrique Cardoso quando a ditadura ainda o amarrava. Ele era um dos conferencistas privilegiados pela CNBB (Confedera\u00e7\u00e3o Nacional dos Bispos do Brasil). Quando o regime come\u00e7ou a se endurecer, a CNBB o convidava para ele expor qual seria a melhor atitude. N\u00f3s fomos companheiros dele, quando tivemos oportunidade de estudar como nos libertarmos disso. O que aconteceu depois da ditadura foi que os homens come\u00e7aram a querer tirar vantagem.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>A import\u00e2ncia do passado para o presente<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201c\u00c9 importante (que haja o esclarecimento dos crimes da ditadura) primeiro para que o Brasil supere a falta de mem\u00f3ria dos que viveram e n\u00e3o se interessaram pelo bem da sociedade. Talvez alguns tenham se afastado, valendo-se daquele velho ditado \u2013 \u2018Como o fogo n\u00e3o \u00e9 na minha casa, que os outros tomem conta que n\u00e3o \u00e9 comigo\u2019. Somente esses \u2013 os que n\u00e3o foram atingidos \u2013 \u00e9 que podem ficar indiferentes ao que se passou. \u00c9 uma esp\u00e9cie de ego\u00edsmo exaltado ao m\u00e1ximo. Quem perde a mem\u00f3ria do passado n\u00e3o pode saber, diante do presente, que passou aquela experi\u00eancia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>\u201cSe eu souber de um torturador, abro o bico\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Perguntado sobre sua opini\u00e3o a respeito dos jovens que tem pintado muros e colocado faixas em locais onde moram ou trabalham ex-torturadores, Dom Waldyr reagiu positivamente: \u201cAcho que \u00e9 uma boa contribui\u00e7\u00e3o. Uma atitude dessas \u00e9 uma participa\u00e7\u00e3o da comunidade ao rep\u00fadio que se tem diante da ditadura e do seu modo de tratar, que foi uma mis\u00e9ria, tratavam as pessoas como se fossem animais. Acho que \u00e9 uma ajuda importante, porque foi injust\u00edssimo aquilo. Ent\u00e3o que se fa\u00e7a justi\u00e7a hoje, quando se tem um ambiente para isso. Se eu souber de um torturador, abro o bico, grito claramente com os instrumentos de que eu puder dispor. Porque a impunidade dos criminosos de ontem \u00e9 a pior coisa para que outros cometam novos crimes.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>\u201cQuem vai para a delegacia \u00e9 pobre\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Falando sobre o Brasil de hoje, o bispo pergunta-se: \u201cQuem vai para a delegacia?\u201d. Ele mesmo responde: \u201c\u00c9 pobre!\u201d E prossegue: \u201cTudo o que fazem l\u00e1 com ele (com o pobre) \u00e9 justificado, porque ele fez isso, aquilo e aquilo outro\u2026 A\u00ed aparecem pessoas delatando a vida do povo, testemunhas \u00e0s vezes falsas. Acho que \u00e9 indecente por parte daqueles que se aproveitam disso.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Dilma: \u201cuma esperan\u00e7a\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cAcho que Dilma \u00e9 uma esperan\u00e7a. Tenho estado de pleno acordo com a maioria das atitudes que ela vem tomando.\u201d, diz o bispo. E conclui: \u201cEspero que ela consiga fazer com que essa Comiss\u00e3o da Verdade funcione, n\u00e3o s\u00f3 reconstituindo a verdade, mas punindo os crimes dos agentes do Estado\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Ana Helena Tavares, editora de\u00a0<a href=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/\">Quem tem medo da democracia?<\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Bispo rebelde de Volta Redonda conta como empres\u00e1rios e clero apoiaram golpe-64 e relembra resist\u00eancia oper\u00e1ria no Vale do Para\u00edba<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1010"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1010"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1010\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1010"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1010"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1010"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}