{"id":1016,"date":"2012-06-10T18:04:18","date_gmt":"2012-06-10T18:04:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/de-volta-ao-passado-2\/"},"modified":"2012-06-10T18:04:18","modified_gmt":"2012-06-10T18:04:18","slug":"de-volta-ao-passado-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/de-volta-ao-passado-2\/","title":{"rendered":"De volta ao passado"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cMino Carta \u00e9 um chato, se pudesse reescreveria os Evangelhos. Inimigo do regime, Geisel o detestava, mas n\u00e3o tinha rabo preso.\u201d De um depoimento de Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, gravado em 1988 durante um churrasco amigo e divulgado ap\u00f3s a morte do \u00faltimo ditador da casta fardada.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Veja-final-300x188.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"188\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>No final de 1969, esta capa foi o maior desafio de Veja \u00e0 ditadura, mas j\u00e1 a da primeira edi\u00e7\u00e3o dera problemas  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 do conhecimento at\u00e9 do mundo mineral que nunca escrevi uma \u00fanica, escassa linha para louvar os torturadores da ditadura, estivessem eles a servi\u00e7o da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes ou do DOI-Codi. Ou no Rio, na Bar\u00e3o de Mesquita. E nunca suspeitei que a esta altura da minha longa carreira jornal\u00edstica me colheria a tra\u00e7ar as linhas acima. Meu desempenho \u00e9 conhecido, meus comportamentos tamb\u00e9m. Mesmo assim, h\u00e1 quem se abale a inventar hist\u00f3rias a meu respeito. Algu\u00e9m que, obviamente, fica abaixo do mundo mineral.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o me faltaram detratores vida adentro, ningu\u00e9m, contudo, conseguiu provar coisa alguma que me desabonasse. Os atuais superam-se. Um deles se diz jornalista, outro acad\u00eamico. Pannunzio &#038; Magnoli, bin\u00f4mio perfeito para uma dupla do picadeiro, na hip\u00f3tese mais generosa de uma farsa cinematogr\u00e1fica. Esmeram-se para demonstrar exatamente o que soletro h\u00e1 tempo: a m\u00eddia nativa prima tanto por sua mediocridade t\u00e9cnica quanto por sua invej\u00e1vel capacidade de inventar, omitir e mentir.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Afirmam que no meu tempo de diretor de reda\u00e7\u00e3o de Veja defendi a pena de morte contra \u201cterrorristas\u201d, al\u00e9m de enaltecer o excelente trabalho da Oban. Outro inquisidor se associa, colunista e blogueiro, de sobrenome Azevedo. E me aponta, al\u00e9m do j\u00e1 dito, como um singular profissional que n\u00e3o aceita interfer\u00eancia do patr\u00e3o. Incr\u00edvel: arrogo-me mandar mais do que o pr\u00f3prio. Normal que ele me escale para o seu auto de f\u00e9. O Brasil \u00e9 o \u00fanico pa\u00eds do meu conhecimento onde os profissionais chamam de colega o dono da casa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 nas cal\u00fanias que me alvejam o mais p\u00e1lido resqu\u00edcio de verdade factual. Os textos que me atribuem para base\u00e1-las nascem de uma mistifica\u00e7\u00e3o. Pin\u00e7ados ao acaso e fora do contexto, um somente \u00e9 de minha autoria e nada diz que me incrimine. E pouparei os leitores de disquisi\u00e7\u00f5es sobre minha repulsa visceral, antes ainda que moral, \u00e0 pris\u00e3o sem mandado, \u00e0 tortura e \u00e0 pena de morte. Quando o Estad\u00e3o foi pioneiro na publica\u00e7\u00e3o de um artigo assinado Magnoli, limitei-me a escrever um breve texto para o site de CartaCapital, destinado a contar a hist\u00f3ria de outra pe\u00e7a de humorismo, escrita em 1970 por um certo Lenildo Tabosa Pessoa, redator, vejam s\u00f3, do Estad\u00e3o, e intitulada O Senhor Demetrio. Ou seja, eu mesmo, marcado no batismo por nome t\u00e3o pesado.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Ernesto-Geisel81-235x300.jpg\" border=\"0\" width=\"235\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>A bem de minha honra, Geisel me detestava. Foto: AE<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Lenildo pretendia publicar seu texto no jornal, os patr\u00f5es, Julio de Mesquita Neto e Ruy Mesquita, n\u00e3o deixaram. Surgiu em mat\u00e9ria paga o retrato de um hip\u00f3crita pretensamente refinado que, como Arlequim da pol\u00edtica, servia ao mesmo tempo M\u00e1fia e Kremlin. O senhor Demetrio, de codinome Mino. Diga-se que Lenildo encontraria eco tr\u00eas anos depois no programa global de um fac\u00ednora chamado Amaral Neto, tamb\u00e9m identificado como Amoral Nato, que repetia Lenildo no v\u00eddeo. Como se v\u00ea, tom e letra das cal\u00fanias est\u00e3o sujeitos a mudan\u00e7as ideol\u00f3gicas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ao negarem espa\u00e7o nas p\u00e1ginas da sua responsabilidade \u00e0 diatribe de Lenildo, os herdeiros do doutor Julinho quiseram respeitar a mem\u00f3ria do meu pai, que trabalhou noEstad\u00e3o por 16 anos, e meu honesto e leal desempenho na cria\u00e7\u00e3o da Edi\u00e7\u00e3o de Esporte e doJornal da Tarde. O Estad\u00e3o, evidentemente, n\u00e3o \u00e9 mais o mesmo. Lenildo e Amaral Neto me tinham como perigoso subversivo de esquerda. Em compensa\u00e7\u00e3o, hoje sou acusado de ter dirigido naquele mesmo 1970 uma Veja entregue \u201c\u00e0 bajula\u00e7\u00e3o, subservi\u00eancia e propaganda da ditadura\u201d. \u00c9 espantoso, mas a semanal da Abril em 1970 era submetida \u00e0 censura exercida na reda\u00e7\u00e3o por militares. Eu gostaria de saber o que acham os senhores Pannunzio, Magnoli e Azevedo a respeito de quem na m\u00eddia brasileira se perfilava illo tempore ao lado da ditadura. Ou seja, quase todos.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Millor-e-Golbery-300x196.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"196\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>E Arci, imp\u00e1vido, ofereceu a cabe\u00e7a de Mill\u00f4r Fernandes ao ministro Golbery. Fotos: Marcelo Carnaval e Manoel Amorim\/Ag O Globo<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Quem, de fato foi censurado? Os alternativos, ent\u00e3o chamados nanicos, em peso, do Pasquim a Opini\u00e3o, que depois se tornaria Movimento, sem exclus\u00e3o de O S\u00e3o Paulo, o jornal da C\u00faria paulistana regida por dom Paulo Evaristo Arns. A Veja, primeiro por militares, depois por policiais civis no per\u00edodo M\u00e9dici. Com Geisel, passou a ser censurada diariamente, de ter\u00e7a a sexta, nas depend\u00eancias da Pol\u00edcia Federal em S\u00e3o Paulo, e aos s\u00e1bados, \u00e0 \u00e9poca dia de fechamento, na pr\u00f3pria resid\u00eancia de censores investidos do direito a um fim de semana apraz\u00edvel. Enquanto isso, Geisel exigia que os alternativos submetessem seu material \u00e0s tesouras cens\u00f3rias em Bras\u00edlia, toda ter\u00e7a-feira.<\/p>\n<p class=\"p1\">Sim, o Estad\u00e3o tamb\u00e9m foi censurado e com ele o Jornal da Tarde. A puni\u00e7\u00e3o resultava de uma briga em fam\u00edlia. O jornal apoiara o golpe, mas sonhava com a devolu\u00e7\u00e3o do poder a um civil, desde que se chamasse Carlos Lacerda. Este n\u00e3o deixava por menos nas suas aventuras on\u00edricas. O Estad\u00e3o acabou sob censura, retirada contudo em janeiro de 1975, no quadro das celebra\u00e7\u00f5es do centen\u00e1rio do jornal. Carlos Lacerda foi cassado. Diga-se que ao Estad\u00e3o permitia-se preencher os espa\u00e7os vagos deixados pelos cortes com versos de Cam\u00f5es, em geral bem escolhidos, e aoJornal da Tarde com receitas de bolo, \u00e0s vezes discut\u00edveis. O resto da m\u00eddia n\u00e3o sofreu censura. N\u00e3o era preciso.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Mesquita-300x119.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"119\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Julio Neto e Ruy Mesquita n\u00e3o dariam espa\u00e7o \u00e0s cal\u00fanias de um tal de Magnoli. Fotos: Alfredo Fiaschi\/AE e AE<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Quando me chamam para fazer palestras em cursos de jornalismo, sempre me surpreendo ao verificar que o enredo que acabo de alinhavar \u00e9 ignorado pelos alunos e por muitos professores. Acham que a censura foi ampla, geral e irrestrita. Meus cr\u00edticos bot\u00f5es observam que me surpreendo \u00e0 toa. Pois n\u00e3o se trata de futuros Pannunzios, Magnolis e Azevedos? No caso deste senhor Reinaldo, vale acentuar uma nossa espec\u00edfica diferen\u00e7a. N\u00e3o me refiro ao fato de que eu reputo Antonio Gramsci um grande pensador, enquanto ele o define como terrorista. A quest\u00e3o \u00e9 outra.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ocorre que, ao trabalhar e ao fazer est\u00e1gios na Europa, entendi de vez que patr\u00e3o \u00e9 patr\u00e3o e empregado \u00e9 empregado, e que para dirigir reda\u00e7\u00f5es o profissional \u00e9 chamado por causa de sua exclusiva compet\u00eancia. Ao contr\u00e1rio do que se d\u00e1 no Brasil, por l\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 diretores por direito divino. Por isso, ao deixar o Jornal da Tarde para tomar o comando dos preparativos do lan\u00e7amento de Veja, me senti em condi\u00e7\u00f5es de exigir certas garantias.<\/p>\n<p class=\"p1\">No Estad\u00e3o tivera um excelente relacionamento com a fam\u00edlia Mesquita, fortalecido pela lembran\u00e7a que cultivavam de meu pai, iniciador da reforma do jornal que Claudio Abramo aprofundou e completou. Gozei na casa ent\u00e3o ainda do doutor Julinho, filho do fundador, de grande autonomia, aquela que facilitou a cria\u00e7\u00e3o de um di\u00e1rio de estilo muito pr\u00f3prio, arrojado na diagrama\u00e7\u00e3o, em busca de qualidade liter\u00e1ria no texto. Estava claro, por\u00e9m, que a linha pol\u00edtica seria a da fam\u00edlia. Com os Mesquita me dei muito bem, foram de longe meus melhores patr\u00f5es, talvez os remanescentes n\u00e3o percebam que por eles tenho afeto, embora, sa\u00eddo do Estad\u00e3o, n\u00e3o me preocupasse em mostrar que minhas ideias n\u00e3o coincidiam com as deles.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Golbery-do-Couto-e-Silva-300x195.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"195\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>E Golbery, g\u00e9lido, disse: &#8220;Eu n\u00e3o pedi a cabe\u00e7a de ningu\u00e9m, senhor Civita&#8221;. Foto: AE<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Convidado finalmente pelos Civita para a empreitada de Veja, solicitei uma liberdade de a\u00e7\u00e3o diversa daquela de que gozara no Jornal da Tarde. S\u00f3 aceitaria o convite se os donos da Abril, uma vez definida a f\u00f3rmula da publica\u00e7\u00e3o, se portassem como leitores a cada edi\u00e7\u00e3o, pass\u00edvel de discuss\u00e3o est\u00e1 claro, mas a posteriori, quer dizer, quando j\u00e1 nas bancas.<\/p>\n<p class=\"p1\">Pedido aceito. A primeira Veja, esp\u00e9cie de newsmagazine \u00e0 brasileira, foi um fracasso. Al\u00e9m disso, j\u00e1 irritou os fardados por trazer na capa a foice e o martelo. A temperatura subiu com a segunda capa, a favor da Igreja politicamente engajada. A quinta, com a cobertura do congresso da UNE em Ibi\u00fana, foi apreendida nas bancas. E tamb\u00e9m o foi aquela que celebrou a decreta\u00e7\u00e3o do AI-5 no dia 13 de dezembro de 1968. Tempos dif\u00edceis. Mas a edi\u00e7\u00e3o de mais n\u00edtido desafio aos algozes da ditadura \u00e9 de mais ou menos um ano depois. A chamada de capa era simples e direta: \u201cTorturas\u201d, em letras de forma.<\/p>\n<p class=\"p1\">A hist\u00f3ria desta reportagem come\u00e7ou cerca de tr\u00eas meses antes, com uma investiga\u00e7\u00e3o capilar conduzida por uma equipe de oito rep\u00f3rteres encabe\u00e7ada por Raymundo Rodrigues Pereira. Foram levantados 150 casos, tr\u00eas deles nos detalhes m\u00ednimos. Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici acabava de ser escolhido para substituir a Junta Militar e pela pena do ent\u00e3o coronel Octavio Costa acenava em discurso, pretensamente po\u00e9tico ao declinar a origem do novo ditador por diz\u00ea-lo vindo do Minuano, \u00e0 necessidade do abrandamento da repress\u00e3o. Raymundo e eu recorremos a um estratagema, e sa\u00edmos com uma edi\u00e7\u00e3o an\u00f3dina para celebrar o vento ga\u00facho. Fal\u00e1vamos da posse, da composi\u00e7\u00e3o do minist\u00e9rio, do discurso. Chamada de capa: \u201cO Presidente N\u00e3o Admite Torturas\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ofere\u00e7o este n\u00famero de Veja \u00e0 aguda an\u00e1lise de Pannunzios, Magnolis, Azevedos e quejandos. (Nada a ver com queijo.) Bajula\u00e7\u00e3o e subservi\u00eancia est\u00e3o ali expostas da forma mais redonda. Naquele momento, a m\u00eddia foi atr\u00e1s de Veja, e por tr\u00eas dias falou-se mais ou menos abertamente de tortura. Logo veio a proibi\u00e7\u00e3o, que Veja ignorou. Na noite de sexta-feira a reportagem da equipe de Raymundo descia \u00e0 gr\u00e1fica para arrolar 150 irrefut\u00e1veis casos de tortura, dos quais tr\u00eas em detalhes. Ao mesmo tempo, eu mandava cortar os telefones da Abril para impedir liga\u00e7\u00f5es de quem pretendesse interferir, autoridades, patr\u00f5es e intermedi\u00e1rios. A edi\u00e7\u00e3o foi apreendida nas bancas, e logo desembarcou na reda\u00e7\u00e3o a censura dos militares.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Armando-Falcao1-300x273.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"273\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Este sim, &#8220;nosso Trotski&#8221;, a Arci pediu minha cabe\u00e7a e conseguiu. Foto: AE<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Quando ouvi falar em distens\u00e3o pela primeira vez, meados de 1972, pela boca do general Golbery, \u00e0 \u00e9poca presidente da Dow Chemical no Brasil, pareceu-me poss\u00edvel alguma mudan\u00e7a na sucess\u00e3o de M\u00e9dici. De fato, Golbery, que vinha de conhecer, articulava na sombra a candidatura de Ernesto Geisel, t\u00edtere sob medida para as suas artes de titereiro. Meados de 1973, assenta-se a candidatura obrigat\u00f3ria de Geisel. Alguns meses ap\u00f3s, minist\u00e9rio em gesta\u00e7\u00e3o, Golbery, futuro chefe da Casa Civil \u00e0 revelia de M\u00e9dici, me sugere uma conversa com o rec\u00e9m-convocado para a pasta da Justi\u00e7a, Armando Falc\u00e3o. Assunto: fim da censura em clima de distens\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Conversei duas vezes com Falc\u00e3o enquanto Roberto Civita entre janeiro e fevereiro de 1974 apontava em Hugh Hefner um not\u00e1vel fil\u00f3sofo da modernidade. Mal assumiu a pasta, dia 19 de mar\u00e7o de 1974, Falc\u00e3o chamou-me a Bras\u00edlia para comunicar que a censura se ia naquele instante. Sublinhei: \u201cSem compromisso algum de nossa parte\u201d. \u201cClaro, claro\u201d, proclamou, e me deu de presente seu livro de recente publica\u00e7\u00e3o, intitulado A Revolu\u00e7\u00e3o Permanente. Mais tarde Golbery comentaria: \u201cFalc\u00e3o \u00e9 o nosso Trotski\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Tr\u00eas semanas ap\u00f3s, a censura voltou, mais feroz do que antes. Duas reportagens causaram a costumeira irrita\u00e7\u00e3o, fatal foi uma charge de Mill\u00f4r Fernandes. Em revide, decretava-se que a censura seria executada em Bras\u00edlia \u00e0s ter\u00e7as-feiras. Fui visitar Golbery no dia seguinte, eu estava de veneta rebelde, levei meus dois filhos meninotes, e andei pela capital federal de limusine. No meu livro de pr\u00f3xima publica\u00e7\u00e3o, O Brasil, a sair pela Editora Record como O Castelo de \u00c2mbar, descrevo assim a visita ao chefe da Casa Civil.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cA secret\u00e1ria do ministro, dona Lurdinha, senhora de modos caseiros, redonda rola sobre o carpete sem perder o sorriso, chega-se ao meu ouvido, murmura: \u201cVeio tamb\u00e9m o senhor Roberto Civita, quer ser recebido mas n\u00e3o tem hora marcada\u201d. N\u00e3o deixo que o tempo se estique inutilmente, tomo a vis\u00e3o panor\u00e2mica da antessala e vejo Arci, entalado em uma poltrona com express\u00e3o perdida na paisagem da savana descortinada al\u00e9m das vidra\u00e7as. \u201cQue faz aqui?\u201d E ou\u00e7o meu pr\u00f3prio latido.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>\u201cVici me contou que voc\u00ea viria, e eu gostaria\u2026\u201d<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>\u201cVoc\u00ea n\u00e3o pediu audi\u00eancia, n\u00e3o tem hora\u201d, proclamo.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ele insiste, \u00e0 beira da implora\u00e7\u00e3o. O meu tom chama a aten\u00e7\u00e3o de Manuela e Gianni, encaram a cena sem entender o assunto, percebem por\u00e9m que o pai est\u00e1 muito irritado, enquanto o outro tem jeito de pedinte. Lurdinha traz uma laranjada para as crian\u00e7as e avisa que o general est\u00e1 \u00e0 espera. Admito: \u201cVoc\u00ea entra comigo, mas se compromete a n\u00e3o abrir a boca\u201d. Ele promete.<\/p>\n<p class=\"p1\">Na conversa que se segue no gabinete da Casa Civil, o meu argumento \u00e9 \u00f3bvio, Veja \u00e9 uma revista semanal que encerra o trabalho na noite de s\u00e1bado e vai \u00e0s bancas \u00e0s segundas-feiras, obrig\u00e1-la a submeter textos e fotos aos censores na ter\u00e7a significa inviabiliz\u00e1-la. Pergunto a Golbery: \u201cOs senhores pretendem que Veja simplesmente acabe?\u201d N\u00e3o, nada disso. \u201cEnt\u00e3o \u00e9 preciso p\u00f4r em pr\u00e1tica outro sistema.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">O chefe da Casa Civil entende e concorda. Diz: \u201cV\u00e1 at\u00e9 o Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, fale com Falc\u00e3o, a Lurdinha j\u00e1 vai avis\u00e1-lo, diga a ele que vamos procurar uma sa\u00edda at\u00e9 amanh\u00e3 no m\u00e1ximo, a pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o tem de sair regularmente\u201d.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Golbery fica de p\u00e9, hora da despedida. O general n\u00e3o conhecia o patr\u00e3ozinho que at\u00e9 aquele momento cumpriu a promessa feita na antessala. E de supet\u00e3o abre a boca: \u201cGeneral, se o senhor acha que devemos tomar alguma provid\u00eancia em rela\u00e7\u00e3o ao Mill\u00f4r Fernandes\u2026\u201d<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Golbery fulminou-o: \u201cSenhor Civita, n\u00e3o pedi a cabe\u00e7a de ningu\u00e9m\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/Emilio-Garrastazu-M%C3%A9dici-x-235x300.jpg\" border=\"0\" width=\"235\" height=\"300\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Poucos entenderam que o Minuano poderia despertar ciclones. Foto: Reprodu\u00e7\u00e3o<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Vici e Arci, ou seja, Victor Civita e Roberto Civita, assim se chamavam no castelo envidra\u00e7ado \u00e0 beira do Tiet\u00ea, esgoto paulistano ao ar livre. Esse entrecho j\u00e1 o desenrolei em O Castelo de \u00c2mbar sem merecer desmentido e o pr\u00f3prio Mill\u00f4r o colocou no ar do seu blog logo ap\u00f3s a publica\u00e7\u00e3o no final de 2000. Ao sair do gabinete de Golbery, eu disse a Roberto Civita \u201cvoc\u00ea \u00e9 mesmo cretino\u201d, como depois o definiria na conversa de despedida com o pai Victor, mas poderia dizer coisa muito pior. Quanto \u00e0 minha sa\u00edda da dire\u00e7\u00e3o de Veja e de conselheiro board abriliano, descrevi o evento em editorial de poucas semanas atr\u00e1s. Fa\u00e7o quest\u00e3o de salientar, apenas e ainda, que n\u00e3o fui demitido, e sim me demiti para n\u00e3o receber um \u00fanico centavo das m\u00e3os de um Civita, nem que fosse a comiss\u00e3o pelo empr\u00e9stimo de 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares recebidos pela Abril da Caixa Econ\u00f4mica Federal, juntamente com o fim da censura, em troca da minha cabe\u00e7a. A revista prontamente caiu nos bra\u00e7os do regime.<\/p>\n<p class=\"p1\">A partir da\u00ed, tive de inventar meus empregos para viver. Ou por outra, para viver com um sal\u00e1rio infinitamente menor (insisto, infinitamente) do que aquele dos importantes da imprensa, e nem se fale daqueles da televis\u00e3o. Ganham mais que os europeus e de muitos americanos. Em outro pa\u00eds, um jornalista com o meu passado n\u00e3o sofreria as cal\u00fanias de Pannunzios, Magnolis e Azevedos, e de v\u00e1rios que os precederam. Muito representativos de uma m\u00eddia que manipula, inventa, omite e mente. Observem os fatos e as mentiras da atualidade imediata, o caso criado pelo protagonismo de Gilmar Mendes e pela ferocidade delirante dos chapa-branca da casa-grande. Al\u00e9m do mais, h\u00e1 em tudo isso um tra\u00e7o profundo de infantilidade, um rasgo abissal, a provar o est\u00e1gio primitivo da sociedade do privil\u00e9gio, certa de que a senzala aplaude Dilma e Lula e mesmo assim se conforma, resignada, dentro dos seus habituais limites.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os caluniadores s\u00e3o, antes de mais nada, covardes. Sentem as costas protegidas pela falta generalizada de mem\u00f3ria, ou pela pronta inclina\u00e7\u00e3o ao esquecimento. Pela impunidade tradicional garantida por uma Justi\u00e7a que n\u00e3o pune o rico e poderoso. Pelo respaldo do patr\u00e3o comprometido com a manuten\u00e7\u00e3o do atraso em um pa\u00eds onde somente 36% da popula\u00e7\u00e3o conta com saneamento b\u00e1sico, e 50 mil pessoas morrem assassinadas ano ap\u00f3s outro. Confiam no naufr\u00e1gio da verdade factual, pela en\u00e9sima vez, e que tudo acabe em pizza, como outrora se dizia, a come\u00e7ar pela CPI do Cachoeira e pela pantomima encenada por Gilmar Mendes. E que o tempo, vertiginoso e fulminante como sempre, se feche sobre os fatos, sobre mais uma grande vergonha, como o mar sobre um barco furado.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMino Carta \u00e9 um chato, se pudesse reescreveria os Evangelhos. Inimigo do regime, Geisel o detestava, mas n\u00e3o tinha rabo preso.\u201d De um depoimento de Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, gravado em 1988 durante um churrasco amigo e divulgado ap\u00f3s a morte do \u00faltimo ditador da casta fardada. 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