{"id":1032,"date":"2012-06-10T18:48:49","date_gmt":"2012-06-10T18:48:49","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/e-quem-foi-mesmo-que-financiou-a-repressao-2\/"},"modified":"2012-06-10T18:48:49","modified_gmt":"2012-06-10T18:48:49","slug":"e-quem-foi-mesmo-que-financiou-a-repressao-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/e-quem-foi-mesmo-que-financiou-a-repressao-2\/","title":{"rendered":"E quem foi mesmo que financiou a repress\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O depoimento de Claudio Guerra, em \u201cMem\u00f3rias de uma guerra suja\u201d, detalha o envolvimento de empres\u00e1rios com a ditadura. Esse \u00e9 o aspecto que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski. Sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e integram a lista dos desaparecidos. Bernardo atesta: \u201cEst\u00e1 tudo l\u00e1: empresas como Gasbras, White Martins, Itapemirim, grupo Folha e o banco Sudameris; o dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas\u201d.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O livro \u2018Mem\u00f3rias de uma guerra suja\u2019, depoimento do ex-delegado do DOPS, Claudio Guerra, a Marcelo Netto e Rog\u00e9rio Medeiros, foi recebido inicialmente com certa incredulidade at\u00e9 por setores progressistas. H\u00e1 revela\u00e7\u00f5es ali que causam uma rejei\u00e7\u00e3o visceral de auto-defesa. Repugna imaginar que em troca de cr\u00e9ditos e facilidades junto \u00e0 ditadura, uma usina de a\u00e7\u00facar do Rio de Janeiro tenha cedido seu forno para incinerar cad\u00e1veres de presos pol\u00edticos mortos nas m\u00e3os do aparato repressivo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O acordo que teria sido feito no final de 1973, se comprovado, pode se tornar o s\u00edmbolo mais abjeto de uma faceta sempre omitida nas investiga\u00e7\u00f5es sobre a ditadura: a colabora\u00e7\u00e3o funcional, direta, n\u00e3o apenas cumplicidade ideol\u00f3gica e pol\u00edtica, mas operacional, entre corpora\u00e7\u00f5es privadas, empres\u00e1rios e a repress\u00e3o pol\u00edtica. Um caso conhecido \u00e9 o da \u2018Folha da Tarde\u2019, jornal da fam\u00edlia Frias, que cedeu viaturas ao aparato repressivo para camuflar opera\u00e7\u00f5es policiais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Todavia, o depoimento de Guerra mostra que nem o caso da usina dantesca, nem o repasse de viaturas da Folha foram exce\u00e7\u00e3o. Esse \u00e9 o aspecto do relato que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski, que acaba de ler o livro. Sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e desde ent\u00e3o integram a lista dos desaparecidos pol\u00edticos brasileiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Bernardo atesta:\u2019 Esta tudo l\u00e1: empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha e o banco Sudameris, que era o banco da repress\u00e3o; o dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar os bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas\u2019.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No livro, Claudio Guerra afirma que Ana Rosa e Wilson Campos \u2014 a exemplo do que teria ocorrido com mais outros oito ou nove presos pol\u00edticos \u2014 tiveram seus corpos incinerados no imenso forno da Usina Cambahyba, localizada no munic\u00edpio fluminense de Campos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A incredulidade inicial come\u00e7a a cair por terra. Familiares de desaparecidos pol\u00edticos tem feito algumas checagens de dados e descri\u00e7\u00f5es contidas no livro. Batem com informa\u00e7\u00f5es e pistas anteriores. Consta ainda que o pr\u00f3prio governo teve acesso antecipado aos relatos e teria conferido algumas vers\u00f5es, confirmando-as. Tampouco o livro seria propriamente uma novidade para militantes dos direitos humanos que trabalham junto ao governo. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O depoimento de Guerra, de acordo com alguns desses militantes, teria sido negociado h\u00e1 mais de dois anos, com a participa\u00e7\u00e3o direta de ativistas no Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A escolha dos jornalistas que assinam o trabalho \u2013 um progressista e Marcelo Netto, ex-Globo simp\u00e1tico ao golpe de 64 \u2013 teria sido deliberada para afastar suspeitas de manipula\u00e7\u00e3o. Um pedido de prote\u00e7\u00e3o para Claudio Guerra j\u00e1 teria sido encaminhado ao governo. Sem d\u00favida, o teor de suas revela\u00e7\u00f5es, e a lista de envolvimentos importantes, recomenda que o ex-delegado seja ouvido o mais rapidamente poss\u00edvel pela Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Bernardo Kucinski, autor de um romance, \u2018K\u2019, \u2013 na segunda edi\u00e7\u00e3o \u2013 que narra a angustiante procura de um pai pela filha engolida no sumidouro do aparato de repress\u00e3o, respondeu a quatro perguntas de Carta Maior sobre as \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <br \/> <\/span><strong>Carta Maior \u2013 Depois de ler a obra na \u00edntegra, qual \u00e9 a sua avalia\u00e7\u00e3o sobre a veracidade dos relatos?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Kucinski \u2013<\/strong> As confiss\u00f5es s\u00e3o congruentes e n\u00e3o contradizem informa\u00e7\u00f5es isoladas que j\u00e1 possu\u00edamos. Considero o relato basicamente veraz, embora claramente incompleto e talvez prejudicado pelos mecanismos da rememora\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que se trata da confiss\u00e3o de uma pessoa diretamente envolvida nas atrocidades que relata.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CM \u2013 Por que um depoimento com tal gravidade continua a receber uma cobertura t\u00e3o rala da m\u00eddia? Por exemplo, n\u00e3o mereceu capa em nenhuma revista semanal \u2018investigativa\u2019. <span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Kucinski \u2013<\/strong> Pelo mesmo motivo de n\u00e3o termos at\u00e9 hoje um Museu da Escravatura , n\u00e3o termos um memorial nacional aos mortos e desaparecidos da ditadura militar, e ainda ensinarmos nas escolas que os bandeirantes foram her\u00f3is; uma quest\u00e3o de hegemonia de uma elite de forma\u00e7\u00e3o escravocrata.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CM \u2013 Do conjunto dos relatos contidos no livro, quais lhe chamaram mais a aten\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Kucinski \u2013<\/strong> O epis\u00f3dio espec\u00edfico que mais me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi a participa\u00e7\u00e3o direta do mesmo grupo de exterm\u00ednio no golpe organizado pela CIA para derrubar o governo do MPLA em Angola, com viagem secreta em avi\u00e3o da FAB.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CM \u2013 O que mais ele revela de novo sobre a natureza da estrutura repressiva montada no pa\u00eds, depois de 64?<span class=\"s1\"><br \/><\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><strong>Kucinski \u2013<\/strong> Fica claro que as For\u00e7as Armadas montaram grupos de captura e exterm\u00ednio reunindo matadores de aluguel, chefes de esquadr\u00f5es da morte, banqueiros do jogo do bicho, contrabandistas e narcotraficantes. Chamaram esses bandidos e seus m\u00e9todos para dentro de si. Esses criminosos, muitos j\u00e1 condenados pela justi\u00e7a, dirigidos e controlados por oficiais das For\u00e7as Armadas, a partir de uma estrat\u00e9gia tra\u00e7ada em n\u00edvel de Estado Maior, executavam opera\u00e7\u00f5es de liquida\u00e7\u00e3o e desaparecimento dos presos pol\u00edticos, o que talvez explique o barbarismo das a\u00e7\u00f5es. Tamb\u00e9m me chamou a aten\u00e7\u00e3o a participa\u00e7\u00e3o ampla de empres\u00e1rios no financiamento dessa repress\u00e3o, empresas importantes como a Gasbras, a White Martins, a Itapemirim, o grupo Folha \u2013 que emprestou suas peruas de entrega para seq\u00fcestro de ativistas pol\u00edticos -, e o banco Sudameris, que era o banco da repress\u00e3o; dinheiro dos empres\u00e1rios jorrava para custear as opera\u00e7\u00f5es clandestinas e premiar os bandidos com bonifica\u00e7\u00f5es generosas. Est\u00e1 tudo l\u00e1 no livro.<\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O depoimento de Claudio Guerra, em \u201cMem\u00f3rias de uma guerra suja\u201d, detalha o envolvimento de empres\u00e1rios com a ditadura. Esse \u00e9 o aspecto que mais impressionou ao escritor e jornalista Bernardo Kucinski. Sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski, e o cunhado, Wilson Silva, foram sequestrados em 1974 e integram a lista dos desaparecidos. 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