{"id":1043,"date":"2012-06-10T19:25:18","date_gmt":"2012-06-10T19:25:18","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/memoria-da-ditadura-exclusivo-dossie-aponta-sevicias-e-assassinato-de-militante-do-pcbr-2\/"},"modified":"2012-06-10T19:25:18","modified_gmt":"2012-06-10T19:25:18","slug":"memoria-da-ditadura-exclusivo-dossie-aponta-sevicias-e-assassinato-de-militante-do-pcbr-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/10\/memoria-da-ditadura-exclusivo-dossie-aponta-sevicias-e-assassinato-de-militante-do-pcbr-2\/","title":{"rendered":"Mem\u00f3ria da ditadura \u2013 Exclusivo: Dossi\u00ea aponta sev\u00edcias e assassinato de militante do PCBR"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ela nasceu no interior de Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, na cidade de Martins (regi\u00e3o serrana do Estado), em 9 de julho do ano de 1945. Recebeu o nome de Anat\u00e1lia, uma esp\u00e9cie de equ\u00edvoco ortogr\u00e1fico, que evidencia a pouca escolaridade dos pais, ou do tabeli\u00e3o. Coisas do interior, de um Brasil t\u00e3o diverso e gigante, que quando se diz Nat\u00e1lia no Sul, ecoa no Norte como Anat\u00e1lia e assim fica sendo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1030\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-foto1.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-foto1-719x480.jpg 719w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-foto1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 300px) 100vw, 300px\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo, quando tinha apenas cinco anos, a fam\u00edlia se transferiu para Mossor\u00f3, onde ela fez o curso prim\u00e1rio, o gin\u00e1sio e, por fim, cursou o cient\u00edfico, conclu\u00eddo em 1967. Trabalhava durante o dia, na Cooperativa de Consumo Popular, para estudar \u00e0 noite. Em 1966, um ano antes da formatura, se apaixonou e iniciou namoro com um banc\u00e1rio, Luiz Alves Neto, emprego fixo no Banco do Brasil. Dava para se casar, e assim o fizeram, em 1968. Parou de trabalhar fora de casa, dedicando-se \u00e0 atividade de costureira. A vida seguia sem sobressaltos, casa popular comprada pelo financiamento do Fundo de Habita\u00e7\u00e3o Popular do Estado de Pernambuco (FUNDHAP), lou\u00e7a e mob\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Certo dia, em 1969, Luiz chamou-a para uma conversa s\u00e9ria. Precisavam deixar a cidade, onde ele se sentia mal visto. Anat\u00e1lia questionou, quis entender melhor a decis\u00e3o da transfer\u00eancia repentina. Neto, por\u00e9m, s\u00f3 revelou suas liga\u00e7\u00f5es com o PCBR e seu papel de lideran\u00e7a nas Ligas Camponesas na noite do embarque. Por decis\u00e3o do partido, daquele dia em diante iriam para Pernambuco. Anat\u00e1lia vivia seu amor pelo marido e seguiu \u00e0 risca as suas orienta\u00e7\u00f5es. Ficou na casa dos pais o tempo suficiente para vender lou\u00e7a e mob\u00edlia \u2013 com o que arrebanhou pouco mais de \u201cum mil cruzeiros novos\u201d \u2013 e esperou o aviso de seguir viagem ao encontro de Luiz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dez dias depois recebeu uma carta do marido, dizendo que estava \u00e0 sua espera em Natal. Ela embarcou \u00e0s seis da manh\u00e3 e juntos seguiram para Pernambuco. Era dezembro de 1969 e Anat\u00e1lia partira para uma vida totalmente diferente da rotina pacata de dona de casa, que vivera at\u00e9 ent\u00e3o. Agora atendia pelo codinome de \u201cMarina\u201d e dividia um \u201caparelho\u201d com \u201cMaia\u201d- nome adotado por Luiz, seu marido -, \u201cAlex\u201d e \u201cAdriana\u201d. Anat\u00e1lia havia se transformado, por amor, em uma militante de esquerda. Aos olhos do governo militar de ent\u00e3o, numa \u201cterrorista\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muitos \u201caparelhos\u201d depois, o casal foi designado para uma casa pr\u00f3xima ao Esporte Clube do Recife. A m\u00e1quina de costura foi trocada pela de escrever. Os moldes para as roupas que costurava, por manifestos. Anat\u00e1lia podia n\u00e3o ter forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, mas seguia \u00e0 risca as orienta\u00e7\u00f5es do marido e seu grupo, no enfrentamento ao regime militar. Na luta, foi adquirindo consci\u00eancia do que se passava \u00e0 sua volta. A movimenta\u00e7\u00e3o da casa, sempre com, no m\u00ednimo, tr\u00eas moradores, no entanto, chamou a aten\u00e7\u00e3o da vizinhan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 13 de dezembro de 1972, o casal foi preso junto com o militante Jos\u00e9 Adelino Ramos, o \u201cLino\u201d, detido em frente ao ponto marcado nas imedia\u00e7\u00f5es da churrascaria \u201cGaiola de Ouro\u201d. Os presos foram levados, segundo descri\u00e7\u00e3o contida em jornal da \u00e9poca, fornecida pela Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Pernambuco, para \u201clocal desconhecido\u201d. Pode-se imaginar pelo que passaram at\u00e9 serem transferidos para a sede da Secretaria, o DOPS local, em 15 de janeiro de 1973, conforme o prontu\u00e1rio n\u00ba 38.216, daquela delegacia. Ali, depois de devidamente fichados e de darem entrada oficialmente como presos sob a cust\u00f3dia do Estado, voltaram a ser barbaramente torturados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Anat\u00e1lia levava uma bolsa de couro marrom, arrematada por franjas, contendo uma carteira de trabalho falsa e uma identidade tamb\u00e9m falsa (n\u00ba 79.028), em nome de Maria Lucia dos Santos. Tinha, ainda, 20 cruzeiros e trinta centavos, e as chaves de casa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tamanho trabalho de \u201cconvencimento\u201d os levou, a ela e o marido, a redigir, de pr\u00f3prio punho, depoimentos detalhados confessando suas participa\u00e7\u00f5es nas atividades do PCBR. N\u00e3o omitiram nomes, pontos, nada, rendidos pela a\u00e7\u00e3o violenta dos agentes e, talvez, por um rasgo de ingenuidade, de acharem que confessando estariam a salvo de novas jornadas de tortura. Luiz Neto escapou. Anat\u00e1lia, no frescor de seus 28 anos, 1,58m, bom corpo, bonita para os padr\u00f5es da \u00e9poca, foi derrubada em uma cama de campanha, numa das salas da Secretaria, e seviciada at\u00e9 a morte.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1033\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-foto2-247x300.jpg\" border=\"0\" width=\"247\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Seu corpo foi entregue a um perito, que faz no laudo emitido, uma descri\u00e7\u00e3o, digamos, \u201col\u00edmpica\u201d, do que viu no cad\u00e1ver da jovem. O torso com equimoses, o pesco\u00e7o com um sulco de tr\u00eas cent\u00edmetros, evidenciando a esganadura e, o pior: suas partes pubianas com queimaduras que se estendiam at\u00e9 a altura inicial da coxa. O laudo descreve tamb\u00e9m hemorragia interna, nos \u00f3rg\u00e3os do t\u00f3rax e pulm\u00f5es e conclui que Anat\u00e1lia morreu em decorr\u00eancia de asfixia mec\u00e2nica.<\/p>\n<p class=\"p1\">O delegado adjunto, Amauri Le\u00e3o Brasil, respons\u00e1vel pela presa naquele dia, viu ali uma boa oportunidade de montar uma explica\u00e7\u00e3o que, a seu ver, era veross\u00edmil. Descreveu a morte da presa como \u201csuic\u00eddio\u201d. Ali\u00e1s, n\u00e3o foram poucos, na \u00e9poca, a serem \u201csuicidados\u201d. Wladimir Herzog, \u00e9 o mais emblem\u00e1tico deles, seguido do oper\u00e1rio Manoel Fiel Filho e tantos outros que se \u201cjogaram\u201d sob carros pelas ruas das principais capitais do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\">Segundo a explica\u00e7\u00e3o do adjunto, \u00e0 imprensa, que cobriu o caso sob censura, a presa teria usado a al\u00e7a de sua bolsa \u2013 curt\u00edssima, por sinal \u2013 encontrada presa ao seu pesco\u00e7o para, em seguida ao pedido feito ao agente Artur Falc\u00e3o Vizeu, para ir ao banheiro tomar um banho, se matar. O fato se deu \u00e0s 17h20, no plant\u00e3o do delegado adjunto. Segundo ele, Anat\u00e1lia foi encontrada morta no banheiro, de onde foi retirada para tentativas de socorro, na presen\u00e7a dos funcion\u00e1rios Genival Ferreira da Silva e Hamilton Alexandrino dos Santos, mas j\u00e1 estava morta.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em uma das fotos feitas pela per\u00edcia no local, e contida no seu dossi\u00ea, a militante aparece de corpo inteiro, e h\u00e1 a seguinte legenda: \u201cO cad\u00e1ver jazia sobre uma cama de campanha, que se encontrava no interior do local em que funciona a Sec\u00e7\u00e3o do Comissariado da Delegacia de Seguran\u00e7a Social da Secretaria de Estado dos Neg\u00f3cios da Seguran\u00e7a P\u00fablica de Pernambuco\u201d. Ou seja, muito pr\u00f3ximo ao poder do Estado. Em depend\u00eancias vizinhas \u00e0 sala do delegado de plant\u00e3o, e n\u00e3o no banheiro, conforme descreveu o Dr. Delegado.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1038\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-foto3-200x300.jpg\" border=\"0\" width=\"200\" height=\"300\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dif\u00edcil, hoje, pela exaustiva quantidade de relatos de ex-presos, acreditar que durante sess\u00f5es de tortura houvesse banho ou qualquer benesse desse tipo concedida aos presos. Ademais, o tempo, (20 minutos, descrito pelo carcereiro) n\u00e3o teria sido suficiente para criar a situa\u00e7\u00e3o que a levou a falecer naquelas circunst\u00e2ncias. Seu cad\u00e1ver n\u00e3o estava atado a ponto nenhum, quando foi encontrado. E custa crer que algu\u00e9m possa ter usado apenas as m\u00e3os para manter o la\u00e7o da al\u00e7a da bolsa retesado at\u00e9 alcan\u00e7ar a pr\u00f3pria morte.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Observando-se uma das fotos tiradas pela per\u00edcia, e preservadas entre a documenta\u00e7\u00e3o do Arquivo Estadual de Pernambuco, v\u00ea-se Anat\u00e1lia em posi\u00e7\u00e3o de defesa, com uma das m\u00e3os \u00e0 frente do corpo e a outra como quem afasta o agressor ou tenta se apoiar na parede. As fotos da regi\u00e3o pubiana, por\u00e9m, n\u00e3o deixam d\u00favidas. Ali se cometeu do modo mais literal e cruel a chamada \u201cqueima de arquivo\u201d. Sua calcinha est\u00e1 descida e atearam fogo \u00e0s suas partes genitais, numa tentativa grotesca de apagar os vest\u00edgios da pr\u00e1tica mais comum entre os torturadores, contra as mulheres, na \u00e9poca: o estupro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para os respons\u00e1veis pela pris\u00e3o e guarda de Anat\u00e1lia, pouco importou que ela j\u00e1 tivesse fornecido e detalhado todas as informa\u00e7\u00f5es que eles queriam lhe arrancar. Anat\u00e1lia pagou com a vida o pre\u00e7o de ser mulher, jovem, bonita e, \u201csubversiva\u201d, como o aparato policial classificava os militantes de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No dia 23 de janeiro daquele ano, poucos dias depois do fato, o delegado titular, Redivaldo Oliveira Acioly, corroborou a vers\u00e3o de suic\u00eddio engendrada pelo colega Amaruri Le\u00e3o Brasil, enviando \u00e0 7\u00ba Circunscri\u00e7\u00e3o Juduci\u00e1ria Militar um of\u00edcio comunicando o \u201csuic\u00eddio\u201d da \u201csubversiva\u201d Anat\u00e1lia Melo Alves, vulgo \u201cMarina\u201d, e dando o caso por encerrado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Luiz Alvez Neto cumpriu pena e foi anistiado. Anat\u00e1lia \u00e9 nome de escola em Mossor\u00f3, e um prontu\u00e1rio amarelecido guardado no Arquivo Estadual de Pernambuco. L\u00e1 permanecem, ainda hoje, a sua bolsa de couro marrom, os documentos com nome falso de Maria Lucia dos Santos e as chaves da casa para onde ela jamais voltou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Gota d\u2019\u00e1gua<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em setembro de 1967, quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) perpetrou a expuls\u00e3o de um dos seus mais importantes quadros, Carlos Marighella, outros nomes de peso do partido, tais como Jacob Gorender, Apol\u00f4nio de Carvalho e M\u00e1rio Alves, decidiram que era hora de empreender um rompimento e fundar um novo partido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De uma reuni\u00e3o em Niter\u00f3i, com a presen\u00e7a de trinta membros, entre eles Fl\u00e1vio Koutizii, do Rio Grande do Sul, H\u00e9lcio Pereira Fortes, de Minas e Bruno Maranh\u00e3o, de Pernambuco, saiu o n\u00facleo de fundadores do PCBR. As conversas entre os insatisfeitos com o PCB continuaram e geraram uma fragmenta\u00e7\u00e3o ainda maior, que deram origem ao PCdoB e \u00e0 ALN, bem como outras dissid\u00eancias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de in\u00fameras discuss\u00f5es que envolveram Maur\u00edcio Grabois, Jo\u00e3o Amazonas e demais l\u00edderes, em um encontro acontecido em 17 de abril de 1968, num s\u00edtio fluminense, situado na Serra da Mantiqueira, a assembleia fundadora do Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio (PCBR) se reuniu para montar o programa do partido. Estiveram presentes cerca de 25 pessoas, entre ex-membros do Comit\u00ea Central do PCB e delegados de base de v\u00e1rios Estados. O programa, um texto ecl\u00e9tico, se baseou no esbo\u00e7o redigido por M\u00e1rio Alves que condensou o pensamento das variadas tend\u00eancias em vigar na \u00e9poca. Sua tentativa foi a de enla\u00e7ar a tradi\u00e7\u00e3o doutrin\u00e1ria marxista, \u00e0 press\u00e3o avassaladora pela luta armada imediata. Sua meta era a revolu\u00e7\u00e3o popular, destinada a destruir o estado burgu\u00eas e a conquista de um governo popular revolucion\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Desde abril de1969, o PCBR se ocupou com opera\u00e7\u00f5es armadas urbanas, essencialmente voltadas para a propaganda revolucion\u00e1ria. O acirramento da repress\u00e3o no segundo semestre daquele ano obrigou o partido a refor\u00e7ar sua clandestinidade e lan\u00e7ar opera\u00e7\u00f5es mais ousadas. No primeiro assalto a banco feito pelo PCBR no Rio, teve in\u00edcio uma s\u00e9rie de pris\u00f5es que atingiram o Comit\u00ea Central, levando centenas de militantes para os por\u00f5es da repress\u00e3o. Segundo levantamento feito pelo \u201cBrasil: Nunca Mais\u201d, houve 31 processos referentes ao PCBR, somando 400 cidad\u00e3os atingidos como r\u00e9us ou como indiciados nos inqu\u00e9ritos. (O epis\u00f3dio de cria\u00e7\u00e3o do PCBR est\u00e1 bastante detalhado no livro de Jacob Gorender, Combate nas Trevas, da Editora \u00c1tica)<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>As Ligas Camponesas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Originalmente surgidas com a organiza\u00e7\u00e3o dos camponeses na Europa durante a Idade M\u00e9dia, no Brasil, as ligas camponesas s\u00e3o conhecidas como a associa\u00e7\u00e3o de trabalhadores rurais que se iniciou no Engenho Galil\u00e9ia, no Estado de Pernambuco, em 1955, a partir da reivindica\u00e7\u00e3o de caix\u00f5es para os camponeses mortos.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1040\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/ditadura-juliao.jpg\" border=\"0\" width=\"162\" height=\"218\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O movimento ganhou for\u00e7a com a lideran\u00e7a do advogado e deputado pelo Partido Socialista, Francisco Juli\u00e3o, e teve amplitude nacional, empunhando a bandeira pelos direitos \u00e0 terra e em defesa da Reforma Agr\u00e1ria. Juli\u00e3o aglutinou o movimento em torno do seu nome, conseguindo reunir idealistas, estudantes, alguns intelectuais e projetando-se como presidente de honra das Ligas Camponesas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As primeiras Ligas surgiram no Brasil, em 1945, logo ap\u00f3s a redemocratiza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds depois da ditadura do presidente Get\u00falio Vargas. Primeiro, sob a iniciativa e dire\u00e7\u00e3o do rec\u00e9m-legalizado Partido Comunista Brasileiro (PCB), quando camponeses e trabalhadores rurais se organizaram criando ligas e associa\u00e7\u00f5es rurais em quase todos os estados do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1948, no entanto, com a proscri\u00e7\u00e3o do PCB as organiza\u00e7\u00f5es de trabalhadores no Brasil enfrentaram muita dificuldade para manter a mobiliza\u00e7\u00e3o. Entre 1948 e 1954, eram poucas as organiza\u00e7\u00f5es camponesas que funcionavam e rar\u00edssimas as que ainda conservavam o nome de Liga, como a Liga Camponesa da Iputinga, dirigida por Jos\u00e9 dos Prazeres, um dos l\u00edderes do movimento em Pernambuco e localizada no bairro do mesmo nome, na zona oeste da cidade do Recife.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em janeiro de 1955, com a cria\u00e7\u00e3o da Sociedade Agr\u00edcola de Plantadores e Pecuaristas de Pernambuco, a SAPP, localizada no Engenho Galil\u00e9ia, em Vit\u00f3ria de Santo Ant\u00e3o, (PE) houve o ressurgimento das Ligas Camponesas no Nordeste. A esta altura, as ligas deixaram de ser organiza\u00e7\u00f5es e passaram a ser um movimento agr\u00e1rio, que contagiou um grande contingente de trabalhadores rurais e tamb\u00e9m urbanos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em agosto de 1955, realizou-se no Recife, o Congresso de Salva\u00e7\u00e3o do Nordeste, que teve grande import\u00e2ncia para o movimento campon\u00eas, uma vez que foi a primeira vez no Brasil, que mais de duas mil pessoas, entre autoridades, parlamentares, representantes da ind\u00fastria, do com\u00e9rcio, de sindicatos, das Ligas Camponesas, profissionais liberais e estudantes, reuniram-se para discutir abertamente os principais problemas socioecon\u00f4micos da regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o de Pol\u00edtica da Terra era composta por mais de 200 delegados, em sua maioria, camponeses representantes das Ligas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As Ligas Camponesas expandiram-se para diversos munic\u00edpios de Pernambuco e tamb\u00e9m para outros estados brasileiros: na Para\u00edba, onde o n\u00facleo de Sap\u00e9 foi um dos mais expressivos e importantes, chegou a congregar mais de dez mil membros. Rio Grande do Norte, Bahia, Rio de Janeiro (na \u00e9poca, estado da Guanabara); Minas Gerais, S\u00e3o Paulo, Paran\u00e1, Rio Grande do Sul, Goi\u00e1s, Mato Grosso, Acre e tamb\u00e9m no Distrito Federal, Bras\u00edlia, foram outros pontos onde as Ligas tiveram papel de destaque em defesa dos trabalhadores rurais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1962, foi criado o jornal A Liga, ve\u00edculo de divulga\u00e7\u00e3o do movimento. Com a aprova\u00e7\u00e3o do Estatuto do Trabalhador Rural, nesse mesmo ano, muitas Ligas transformaram-se em sindicatos rurais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No final de 1963 o movimento estava concentrado nos estados de Pernambuco e Para\u00edba e o seu apogeu como organiza\u00e7\u00e3o ocorreu no in\u00edcio de 1964, quando foi criada a Federa\u00e7\u00e3o das Ligas Camponesas de Pernambuco, da qual faziam parte 40 organiza\u00e7\u00f5es, com cerca de 40 mil filiados no Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na Para\u00edba, Rio Grande do Norte, Acre e Distrito Federal (Bras\u00edlia), onde ainda funcionava o movimento, o n\u00famero de filiados era de aproximadamente 30 mil, congregando assim as Ligas Camponesas entre 70 e 80 mil pessoas na \u00e9poca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Com o golpe militar de 1964, o movimento foi desarticulado, proscrito, sendo seu principal l\u00edder preso e exilado. O movimento funcionou ainda durante algum tempo, atrav\u00e9s da Organiza\u00e7\u00e3o Pol\u00edtica Clandestina, que possu\u00eda uma dire\u00e7\u00e3o nacional formada por assalariados rurais e camponeses, que se infiltraram em sindicatos agr\u00edcolas, passando a ajudar presos e perseguidos pol\u00edticos.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio do Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ela nasceu no interior de Mossor\u00f3, no Rio Grande do Norte, na cidade de Martins (regi\u00e3o serrana do Estado), em 9 de julho do ano de 1945. Recebeu o nome de Anat\u00e1lia, uma esp\u00e9cie de equ\u00edvoco ortogr\u00e1fico, que evidencia a pouca escolaridade dos pais, ou do tabeli\u00e3o. Coisas do interior, de um Brasil t\u00e3o diverso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":1030,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1043"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1043"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1043\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/1030"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1043"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1043"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1043"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}