{"id":1085,"date":"2012-06-12T14:40:48","date_gmt":"2012-06-12T14:40:48","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/12\/os-rastros-de-maio-de-2006-2\/"},"modified":"2012-06-12T14:40:48","modified_gmt":"2012-06-12T14:40:48","slug":"os-rastros-de-maio-de-2006-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/12\/os-rastros-de-maio-de-2006-2\/","title":{"rendered":"Os rastros de maio de 2006"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ainda impunes, os 493 assassinatos ocorridos naquele per\u00edodo mostram que m\u00e9todos utilizados na \u00e9poca da ditadura militar continuam atuais. E o poder p\u00fablico se omite diante da injusti\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>\u201cQuando li aquilo, eu comecei a entender o arquivamento dos casos, do caso do meu filho. Foi muito duro. Uma carta dos promotores do F\u00f3rum da capital, cheia de carimbos, com 58 assinaturas, dizendo que sentiam muito pelos agentes perdidos e parabenizando o comando por ter restabelecido a ordem.\u201d  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A carta, citada de cor por D\u00e9bora Maria da Silva, dizia que os promotores paulistas \u201creconheciam a efici\u00eancia\u201d da pol\u00edcia e a preocupa\u00e7\u00e3o da corpora\u00e7\u00e3o em \u201crestabelecer a ordem p\u00fablica violada, defendendo intransigentemente a popula\u00e7\u00e3o do nosso estado\u201d. D\u00e9bora, de 52 anos, \u00e9 m\u00e3e de uma das 493 pessoas mortas entre 12 e 20 de maio de 2006, a maioria durante o per\u00edodo classificado na carta como um retorno da ordem. Mas, para D\u00e9bora e outras m\u00e3es que est\u00e3o no grupo que ela coordena, e para diversas entidades de defesa dos direitos humanos, a suposta defesa \u201cintransigente\u201d da popula\u00e7\u00e3o, na verdade, foi o maior exterm\u00ednio ocorrido no Brasil no s\u00e9culo XXI. Um revide b\u00e1rbaro executado por agentes de seguran\u00e7a do estado de S\u00e3o Paulo, que permanece impune seis anos depois.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Aquele maio a que D\u00e9bora se refere entrou para a hist\u00f3ria de S\u00e3o Paulo. O notici\u00e1rio foi tomado de imagens de rebeli\u00f5es simult\u00e2neas em pres\u00eddios, \u00f4nibus queimados, batalh\u00f5es de pol\u00edcia metralhados e informa\u00e7\u00f5es sobre a morte de agentes de seguran\u00e7a, entre eles agentes penitenci\u00e1rios, bombeiros, guardas, policiais militares e civis. O caos se espalhou pela capital paulista. Supostos toques de recolher fizeram com que lojas e empresas fechassem mais cedo. No dia 15, segunda-feira ap\u00f3s aquele fim de semana do Dia das M\u00e3es, 5 mil dos 15 mil \u00f4nibus da frota paulistana deixaram de circular, segundo o Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana \u2013 S\u00e3o Paulo (Condepe). \u00c0s 18 horas, as ruas da maior cidade do pa\u00eds j\u00e1 estavam praticamente vazias em raz\u00e3o do medo que tomou conta da popula\u00e7\u00e3o. Nas primeiras 48 horas da onda de viol\u00eancia, 40 agentes p\u00fablicos foram assassinados, segundo relat\u00f3rio da Justi\u00e7a Global e da Cl\u00ednica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard. At\u00e9 20 de maio, seriam 43.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, a vers\u00e3o oficial divulgada para explicar os acontecimentos informava que membros do PCC, o Primeiro Comando da Capital, estavam promovendo os ataques em rea\u00e7\u00e3o \u00e0 transfer\u00eancia de pres\u00eddio de alguns de seus principais l\u00edderes, entre eles Marcos Willians Herbas Camacho, conhecido como Marcola. Cinco anos depois, o estudo da Justi\u00e7a Global e da Faculdade de Harvard apontou que, na verdade, as raz\u00f5es para os ataques foram a revolta contra esquemas de corrup\u00e7\u00e3o de policiais que extorquiam fam\u00edlias de membros do PCC e o sequestro do enteado de Marcola, realizado por policiais. Justamente por isso, o t\u00edtulo do relat\u00f3rio \u00e9 \u201cS\u00e3o Paulo sob Achaque\u201d, denunciando um esquema de corrup\u00e7\u00e3o e extors\u00e3o praticadas por agentes p\u00fablicos, que deveriam cumprir a fun\u00e7\u00e3o de defender o Estado de Direito.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os atentados contra agentes de seguran\u00e7a promovidos pelo PCC s\u00f3 teriam cessado depois de um encontro, na tarde do dia 15, entre Marcola e uma advogada e ex-delegada da Pol\u00edcia Civil, que dizia ter influ\u00eancia sobre a fac\u00e7\u00e3o. A reuni\u00e3o foi articulada pelo governo do estado, que inclusive providenciou um jato da Pol\u00edcia Militar para transportar a advogada, como indica o relat\u00f3rio da Justi\u00e7a Global. No entanto, um acordo entre o governo e a fac\u00e7\u00e3o criminosa foi veementemente negado pelas autoridades.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mas assim como a maioria dos civis mortos entre 12 e 20 de maio de 2006, o filho de D\u00e9bora n\u00e3o morreu no per\u00edodo em que predominaram as a\u00e7\u00f5es atribu\u00eddas ao PCC. Os relat\u00f3rios mostram que a morte de civis se intensificou a partir do dia 15, quando as a\u00e7\u00f5es da fac\u00e7\u00e3o j\u00e1 arrefeciam, chegando \u00e0 chocante marca de 493 pessoas. Parte delas ocorreu em supostos confrontos com a pol\u00edcia, em muitos casos com ind\u00edcios de adultera\u00e7\u00e3o e forja de provas. Houve tamb\u00e9m casos de pessoas v\u00edtimas de grupos de exterm\u00ednio, perpetrados por homens encapuzados em carros escuros, em que tamb\u00e9m havia sinais da participa\u00e7\u00e3o de policiais. \u201cFoi como se uma nuvem assassina tivesse passado pelo estado\u201d, relembra o m\u00e9dico Henrique Carlos Gon\u00e7alves, membro do Conselho Regional de Medicina do Estado de S\u00e3o Paulo (Cremesp).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O Cremesp teve um papel fundamental para a compreens\u00e3o dos fatos ocorridos naquele per\u00edodo. Ao tomar conhecimento da viol\u00eancia que se propagava, o conselho se uniu \u00e0 comiss\u00e3o independente montada pelo Condepe, composta por diversos \u00f3rg\u00e3os de defesa dos direitos humanos, e acompanhou as necr\u00f3psias nos Institutos M\u00e9dicos Legais (IML). \u201cHavia uma grande preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s necr\u00f3psias que davam entrada. At\u00e9 por antecedentes hist\u00f3ricos \u2013 a ditadura, mortes no Carandiru \u2013, a per\u00edcia m\u00e9dica legal foi considerada suspeita de falta de imparcialidade. Isso nos chamou a aten\u00e7\u00e3o porque a per\u00edcia \u00e9 um ato m\u00e9dico\u201d, explica Gon\u00e7alves.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os laudos eram checados em tempo real. \u201cReceb\u00edamos um rascunho da necr\u00f3psia para garantir que n\u00e3o houvesse supress\u00e3o ou coloca\u00e7\u00e3o. S\u00f3 o que o perito viu ali\u201d, relata. \u201cAquela imensid\u00e3o de cad\u00e1veres, parecia uma guerra. Foi muito marcante para mim. Era tr\u00e1gico, brutal com a vida humana, um enorme desrespeito \u00e0s leis e cidadania. Para mim, aquela vis\u00e3o s\u00f3 se compara com o acidente da TAM [de 2007], mas com uma caracter\u00edstica mais degradante em fun\u00e7\u00e3o de todo o processo de viol\u00eancia\u201d, lembra o m\u00e9dico.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A imagem que marcou o m\u00e9dico para sempre \u00e9 chocante, mas sua atua\u00e7\u00e3o valeu a pena. Gra\u00e7as ao trabalho feito pelo \u00f3rg\u00e3o nos IMLs, foi poss\u00edvel constatar que 60% dos 493 corpos registrados no per\u00edodo receberam pelo menos um tiro na cabe\u00e7a. \u00a0Quase 13% dos tiros encontrados em todos os baleados foram dados \u00e0 curta dist\u00e2ncia ou \u00e0 queima-roupa. Em 14,4% dos casos, os tiros atingiram o abd\u00f4men; em 30,5%, o t\u00f3rax e em 27,5%, a cabe\u00e7a ou pesco\u00e7o, regi\u00f5es consideradas de alta letalidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Um relat\u00f3rio feito em 2008 pelo Laborat\u00f3rio de An\u00e1lise da Viol\u00eancia da Universidade Estadual do Rio de Janeiro chamou aten\u00e7\u00e3o, ainda, para o fato de que 27% das v\u00edtimas apresentavam pelo menos um disparo na regi\u00e3o posterior da cabe\u00e7a, \u201cregi\u00e3o de alt\u00edssima letalidade e muito dif\u00edcil de ser atingida em um confronto genu\u00edno\u201d. E 57% dos cad\u00e1veres teriam recebido pelo menos um disparo pelas costas. \u00a0Diante dessas evid\u00eancias, Gon\u00e7alves n\u00e3o tem d\u00favidas: \u201cD\u00e1 pra dizer que foram execu\u00e7\u00f5es. Tiros de cima para baixo, nas costas, em gente ajoelhada. Foi uma guerra n\u00e3o divulgada, porque na guerra voc\u00ea n\u00e3o fere, n\u00e3o prende porque vai te dar trabalho. Na guerra a inten\u00e7\u00e3o \u00e9 matar, eliminar. E foi isso que ficou caracterizado\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Impunidade<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Edivaldo Soares de Andrade, filho de Helenita, foi morto na frente do port\u00e3o de sua casa enquanto conversava com vizinhos, no Parque Bristol, zona sul de S\u00e3o Paulo. Na \u00e9poca, Dona Helenita contou \u00e0 F\u00f3rum que assistia \u00e0 TV e tinha acabado de se emocionar com a not\u00edcia das mortes de policiais, quando ouviu tiros na rua. Seus dois filhos foram baleados com outras duas pessoas. Apenas um deles sobreviveu. Os atiradores estavam encapuzados, mas h\u00e1 ind\u00edcios de que eram policiais. \u201cQue prote\u00e7\u00e3o a gente tem? S\u00f3 de Deus\u201d, declarou \u00e0 F\u00f3rum em 2006. Hoje, com o inqu\u00e9rito arquivado, ela diz n\u00e3o ter esperan\u00e7a de ver o caso solucionado. \u201cEu n\u00e3o acredito, n\u00e3o. Quem viu tem medo de falar\u201d, desabafa.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Segundo o defensor p\u00fablico Ant\u00f4nio Jos\u00e9 Maffezzoli Leite, o caso de Helenita e das outras m\u00e3es ouvidas pela reportagem n\u00e3o s\u00e3o exce\u00e7\u00e3o. Todos foram arquivados. O inqu\u00e9rito do homic\u00eddio de Edson Rog\u00e9rio Silva dos Santos, filho de D\u00e9bora, mencionada no come\u00e7o da mat\u00e9ria, tamb\u00e9m foi. O rapaz, de 29 anos, trabalhava como gari na Baixada Santista, e tinha ido com um amigo a um posto de gasolina abastecer uma moto quando um grupo de policiais os abordou, questionando se eles estavam armados. Conforme relatos contados a D\u00e9bora, Edson respondeu que era trabalhador, e um dos oficiais teria dito: \u201cMorreu, voc\u00ea \u00e9 ladr\u00e3o.\u201d Os policiais o agrediram, mas foram embora. Edson foi para outro posto buscar gasolina, quando ent\u00e3o foi assassinado com um tiro no cora\u00e7\u00e3o e um em cada pulm\u00e3o. Minutos depois, uma viatura chegou ao local do crime, mas Edson n\u00e3o resistiu e morreu.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">D\u00e9bora diz ter implorado aos delegados que cuidaram do inqu\u00e9rito para que as imagens das c\u00e2meras de vigil\u00e2ncia do posto fossem apreendidas, o que levou meses para ser feito \u2013 e s\u00f3 aconteceu quando as filmagens do dia j\u00e1 haviam sido apagadas. Por seu pr\u00f3prio esfor\u00e7o, ela conseguiu demonstrar falhas nas investiga\u00e7\u00f5es oficiais e provar que os policiais que chegaram \u00e0 cena do crime logo em seguida tinham apresentado vers\u00f5es contradit\u00f3rias sobre o que os motivou a ir at\u00e9 l\u00e1. Ela desconfia que os homens que discutiram com seu filho, os que o mataram e os que supostamente o socorreram s\u00e3o as mesmas pessoas. A participa\u00e7\u00e3o de policiais e de grupos parapoliciais foi reconhecida pelo promotor que cuidou do inqu\u00e9rito de Edson, e ela conseguiu uma indeniza\u00e7\u00e3o do Estado, que reconheceu as falhas na investiga\u00e7\u00e3o, mas a autoria do crime \u00e9 at\u00e9 hoje desconhecida, e o caso permanece arquivado.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">D\u00e9bora \u00e9 coordenadora das M\u00e3es de Maio, grupo que re\u00fane m\u00e3es de v\u00edtimas dos crimes de maio e luta para que a justi\u00e7a seja feita. \u201cEu sou uma mulher amputada. Sou um lixo humano. Tiraram meu filho de mim. A \u00fanica coisa que me sustenta \u00e9 a luta\u201d, conta. Antes da morte de Edson, D\u00e9bora n\u00e3o era engajada em nenhuma causa, mas a perda do filho mudou sua vida. \u201cEu queria mostrar que a ditadura n\u00e3o acabou. Ela continua at\u00e9 hoje. Mais dura, mais violenta. Em uma semana se matou mais de 400 pessoas, fora as outras que a gente n\u00e3o sabe. A ditadura durou 21 anos e matou menos gente. Nos crimes de maio, eles mataram trabalhadores empobrecidos, estudantes. A periferia est\u00e1 agonizando. O pobre est\u00e1 sendo exterminado no Brasil. A popula\u00e7\u00e3o est\u00e1 sendo exterminada.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Depois do epis\u00f3dio, D\u00e9bora ficou doente, deprimida e se afastou do resto da fam\u00edlia, mas abriu seus horizontes para a necessidade de lutar. \u201cEsse neg\u00f3cio de paz&#8230; N\u00e3o existe paz se n\u00e3o houver justi\u00e7a. Eu digo que quem vai para a cadeia \u00e9 o crime desorganizado, porque o crime organizado est\u00e1 blindado, protegido pelas institui\u00e7\u00f5es. Debaixo do capuz que mata est\u00e1 o Estado.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria se repete<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quatro anos depois dos crimes de maio, outros eventos com as mesmas caracter\u00edsticas acometeram a Baixada Santista. Pelo menos 26 jovens foram mortos. Entre eles estava Marcos Paulo Soares Canuto, filho de Fl\u00e1via Gonzaga. O garoto de 18 anos foi a uma festa de anivers\u00e1rio na periferia de S\u00e3o Vicente e, ao voltar para casa, foi abordado por homens encapuzados. Segundo testemunhas, que n\u00e3o quiseram prestar depoimento \u00e0 pol\u00edcia por medo de repres\u00e1lias, um dos homens chegou a dizer que haviam pegado a pessoa errada, ao que o outro respondeu: \u201cEst\u00e1 na chuva \u00e9 para morrer\u201d. Marcos Paulo foi alvejado por dez tiros. O amigo que o acompanhava, por sete.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO meu filho n\u00e3o era bandido \u2013 e mesmo que fosse. N\u00e3o existe pena de morte no Brasil. Mas as pessoas ficam sempre perguntando o que ele estava fazendo naquele bairro \u00e0quela hora, porque n\u00f3s n\u00e3o moramos na periferia. Quer dizer, voc\u00ea n\u00e3o pode ter um amigo em outro bairro? S\u00f3 porque ele est\u00e1 em um bairro afastado, pobre, ele \u00e9 bandido?\u201d, questiona. \u201cOu seja, quem mora l\u00e1 \u00e9 marginalizado. A gente v\u00ea que a maioria dos mortos \u00e9 preto, pobre. Os ataques de abril [de 2010] s\u00f3 cessaram quando o Consulado Americano pediu para que os turistas n\u00e3o viessem para Santos porque estava perigoso. Da\u00ed, os prefeitos e o pr\u00f3prio governador disseram que a situa\u00e7\u00e3o estava sob controle e que os problemas s\u00f3 estavam acontecendo na periferia. Ou seja, se voc\u00ea n\u00e3o mora na orla, voc\u00ea n\u00e3o vale nada\u201d, desabafa. Assim como os demais, o processo da morte de Marcos tamb\u00e9m est\u00e1 arquivado. \u201cSe eu n\u00e3o correr atr\u00e1s para provar que ele foi morto pela pol\u00edcia, ele vira estat\u00edstica, vai ser criminalizado. E ele n\u00e3o \u00e9 estat\u00edstica. Ele \u00e9 meu filho. Metade do sangue que derramou ali era meu.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">D\u00e9bora acredita que os crimes de abril de 2010 n\u00e3o teriam acontecido se os de maio de 2006 tivessem sido solucionados. Rose Nogueira, que era presidente do Condepe naquele m\u00eas de maio, tamb\u00e9m avalia que a impunidade em outros processos de crime e tortura no Brasil est\u00e1 na origem das duas s\u00e9ries de crimes. \u201cH\u00e1 mais de uma centena de casos que foram registrados como resist\u00eancia seguida de morte. Como uma pessoa pode estar resistindo com tiros na cabe\u00e7a, na nuca, nas costas? Esses crimes aconteceram porque os crimes da ditadura e os que aconteceram depois da ditadura n\u00e3o foram punidos. Na ditadura, n\u00f3s tivemos o esquadr\u00e3o da morte, que trabalhava para a repress\u00e3o, e os agentes depois foram condecorados. Os m\u00e9todos que eles usam hoje s\u00e3o os mesmos da ditadura\u201d, aponta.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Federaliza\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">D\u00e9bora explica que o movimento busca, desde 2010, a federaliza\u00e7\u00e3o dos crimes arquivados. Esse, de acordo com Maffezzoli, \u00e9 um mecanismo recente da legisla\u00e7\u00e3o brasileira, que permite o deslocamento de compet\u00eancia para julgar crimes contra os direitos humanos. Isso pode acontecer quando a Justi\u00e7a local n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es para investigar o caso. Pelas circunst\u00e2ncias dos eventos de maio e de abril, os movimentos acreditam que a Justi\u00e7a paulista est\u00e1 dando demonstra\u00e7\u00f5es de que n\u00e3o tem interesse em investigar a fundo aquelas mortes.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO ouvidor federal falou para n\u00f3s que o procurador n\u00e3o ia pedir a federaliza\u00e7\u00e3o porque o estado de S\u00e3o Paulo tinha tecnologia de primeiro mundo para tocar a investiga\u00e7\u00e3o. Agora, vamos pedir por escrito e denunciar para a OEA [Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos]\u201d, explica D\u00e9bora. \u201cEu temo pela minha vida, mas n\u00e3o tenho medo, porque n\u00e3o tenho mais o que perder, o bem maior era meu filho.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEstou esperando ela chegar at\u00e9 hoje\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Depoimento de M\u00e1rcia Aparecida de Almeida Silva Ferreira, m\u00e3e de Talita Cristine de Almeida Silva, morta aos 20 anos no Guaruj\u00e1, em 14 de maio<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEra dia das m\u00e3es. Estava todo mundo bebendo, farreando na casa do meu sogro. Minha filha estava na casa da av\u00f3. A\u00ed eu disse que estava mal, angustiada, e meu marido e eu voltamos para casa. Quando chegamos, tinham tocado fogo em um \u00f4nibus aqui perto. E depois tentaram invadir a casa de um policial que morava na vizinhan\u00e7a. Liguei para a minha m\u00e3e para ela impedir que a Talita voltasse para casa. Depois de 15 minutos a menina chegou em casa, brava porque eu tinha assustado a av\u00f3.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A\u00ed ficamos no port\u00e3o conversando. Os olhos dela brilhavam, a pele estava limpinha. Estava toda brilhosa. Eu comentei que ela estava linda. Ela se levantou, me deu um beijo e brincou. \u2018Sou filha da M\u00e1rcia, sou gostosa\u2019. A\u00ed um rapaz da frente chamou ela. Ele queria um celular emprestado. Ela pediu para o irm\u00e3o ir buscar. N\u00f3s entramos e ela ficou l\u00e1. De repente, eu escutei os cinco pipocos. Parecia que era dentro de casa. Na hora, eu botei a m\u00e3o na cabe\u00e7a e gritei: \u2018Minha filha!\u2019 Quando olhei, vi meu marido gritando com a m\u00e3o na cabe\u00e7a no meio da rua. Ele s\u00f3 disse que ela e o vizinho tinham tomado um tiro de rasp\u00e3o. S\u00f3 depois minha filha mais velha disse que ela n\u00e3o ia voltar. Ela levou dois tiros na cabe\u00e7a. Eu entrei em desespero. Quase enlouqueci.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Disseram na rua que um policial viu tudo e s\u00f3 deu um tiro para cima, a\u00ed eu reclamei com ele: \u2018S\u00f3 atirou para cima por qu\u00ea? Era seu colega?\u2019. Depois disso, ele foi embora do bairro. Os outros vizinhos que viram os homens tamb\u00e9m foram embora do bairro. Eles estavam de capuz, mas s\u00f3 cobriam os olhos e foram reconhecidos pelo rapaz que estava com a Talita. Ele chegou a gritar, antes de ser baleado: \u2018Pai, \u00e9 o fulano!\u2019 Mas ningu\u00e9m quer falar sobre isso, todos est\u00e3o com medo. Todos os que viram foram embora do bairro. Ningu\u00e9m fez nada. Arquivaram o caso. Meu marido foi tentar ver o inqu\u00e9rito e brigaram com ele: \u2018O que voc\u00ea quer com isso depois de todo esse tempo?\u2019<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Eu quero que seja investigado. Minha filha n\u00e3o era vadia, n\u00e3o era suja. Mesmo que fosse, n\u00e3o merecia isso. Eu s\u00f3 quero justi\u00e7a. Eu n\u00e3o sou mais a mesma mulher. Eu n\u00e3o tenho mais paz, n\u00e3o tenho mais sossego. O que eu sinto n\u00e3o desejo para mulher nenhuma.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A menina trabalhava. Cuidou de mim quando eu estava doente. Era amada por todos. Ela era muito amada. Isso destruiu minha fam\u00edlia. Mas eu quero limpar o nome dela. A gente sabe que ela n\u00e3o devia nada para ningu\u00e9m. Ela tinha trabalho. Tinha 20 anos, mas era uma crian\u00e7a. Eu estou esperando ela chegar at\u00e9 hoje para p\u00f4r ela na cama.\u201d<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ainda impunes, os 493 assassinatos ocorridos naquele per\u00edodo mostram que m\u00e9todos utilizados na \u00e9poca da ditadura militar continuam atuais. E o poder p\u00fablico se omite diante da injusti\u00e7a \u201cQuando li aquilo, eu comecei a entender o arquivamento dos casos, do caso do meu filho. Foi muito duro. 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