{"id":117,"date":"2012-05-08T16:32:08","date_gmt":"2012-05-08T16:32:08","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/08\/reencontro-com-a-historia-3\/"},"modified":"2012-05-08T16:32:08","modified_gmt":"2012-05-08T16:32:08","slug":"reencontro-com-a-historia-3","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/08\/reencontro-com-a-historia-3\/","title":{"rendered":"Reencontro com a hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O lugar do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart na hist\u00f3ria do Brasil come\u00e7a a ganhar contornos mais n\u00edtidos<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/www.institutojoaogoulart.org.br\/upload\/noticias\/120507200436_jango_reformas.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>Penso que o lugar do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart na hist\u00f3ria do Brasil come\u00e7a a ganhar contornos mais n\u00edtidos. Fui alertado pela primeira vez sobre os equ\u00edvocos hist\u00f3ricos em torno do papel dele quando me deparei h\u00e1 alguns anos com o livro de Moniz Bandeira: &#8220;O governo Goulart \u2013 as lutas sociais no Brasil: 1961-1964&#8221;, numa edi\u00e7\u00e3o da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, de 1977. Ali, comecei a repensar n\u00e3o s\u00f3 a singularidade da atua\u00e7\u00e3o do ex-presidente, como de toda uma gera\u00e7\u00e3o que lutou, a seu modo, para construir um pa\u00eds soberano e mais justo.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Waldir Pires, protagonista pol\u00edtico do Brasil desde o in\u00edcio dos anos 50, foi outro a me fazer repensar o papel do ex-presidente. J\u00e1 n\u00e3o eram mais leituras, mas o testemunho pessoal de quem conviveu com Goulart at\u00e9 os \u00faltimos instantes de sua presen\u00e7a na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, e que o acompanhou em sua dura experi\u00eancia de ex\u00edlio, vivida tamb\u00e9m por Waldir. Agora, fui surpreendido com uma extraordin\u00e1ria biografia: &#8220;Jo\u00e3o Goulart&#8221;, tamb\u00e9m da Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, de 2011, do professor Jorge Ferreira, da Universidade Federal Fluminense, j\u00e1 em terceira edi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 a pretens\u00e3o de produzir uma resenha. O livro j\u00e1 \u00e9 conhecido. Limito-me, aqui, a impress\u00f5es, quem sabe a autocr\u00edticas, a revis\u00f5es hist\u00f3ricas provocadas pela riqueza do livro. N\u00e3o tenho, com esse texto, quaisquer pretens\u00f5es acad\u00eamicas. Diria que ele tem mais uma face militante, de quem est\u00e1 imerso na pol\u00edtica e que sobre ela procura refletir para n\u00e3o se ver engolfado por cl\u00e1usulas p\u00e9treas conceituais e nem pelos modismos do momento, o que n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Quem est\u00e1 na pol\u00edtica, corre os dois riscos, e n\u00e3o sei qual o mais prejudicial. Talvez, a rigor, nunca consigamos nos livrar deles.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Goulart, se me lembro bem, aparecia para n\u00f3s, os que hav\u00edamos aderido \u00e0 luta armada contra a ditadura, com nossas m\u00faltiplas concep\u00e7\u00f5es estrat\u00e9gicas e t\u00e1ticas, como um reformista da pior esp\u00e9cie \u2013 e por reformista entendia-se, ent\u00e3o, tanto aqueles que se vinculavam ao PCB, o Partid\u00e3o, quanto um pol\u00edtico burgu\u00eas, como Goulart. Ou, se quisermos ir adiante na caracteriza\u00e7\u00e3o, como um populista. O populismo, desenvolvendo-se como conceito hist\u00f3rico, pretendeu dar conta de m\u00faltiplas experi\u00eancias da Am\u00e9rica do Sul, especialmente do Brasil e Argentina, com destaque para as figuras de Vargas e Per\u00f3n.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Das leituras que faz\u00edamos ent\u00e3o, em geral muito aligeiradas, quase restritas a orelhas ou a coment\u00e1rios de terceiros, surgiu com destaque, em 1968, o livro de Octavio Ianni, O colapso do populismo no Brasil. A interpreta\u00e7\u00e3o dele sobre o golpe de 1964 virou uma esp\u00e9cie de cl\u00e1usula p\u00e9trea \u2013 tanto as causas estruturais quanto o diagn\u00f3stico dos personagens passaram a ser vistos a partir daquela vis\u00e3o, ao menos para n\u00f3s, os que diverg\u00edamos da linha do Partid\u00e3o. E o termo populismo passou a explicar o per\u00edodo da emerg\u00eancia das massas urbanas, da industrializa\u00e7\u00e3o do Brasil, e de manipula\u00e7\u00e3o dos trabalhadores por parte das lideran\u00e7as pol\u00edticas \u2013 lideran\u00e7as populistas, naturalmente.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 disse: Moniz Bandeira me salvou dessa armadilha. Me livrou da cl\u00e1usula p\u00e9trea. Quem disse que a id\u00e9ia de populismo d\u00e1 conta de tudo e que pode enquadrar cada personagem daquele rico per\u00edodo? N\u00e3o pode. N\u00e3o consegue ser um conceito totalizante, por obviedade. Carrega uma boa dose de vis\u00e3o estruturalista, calcada numa abordagem quase estereotipada da luta de classes e que, ao mesmo tempo, subestima a pr\u00f3pria capacidade da classe oper\u00e1ria por d\u00e1-la como absolutamente suscept\u00edvel \u00e0 manipula\u00e7\u00e3o de l\u00edderes que n\u00e3o tinham quaisquer compromissos com a melhoria real das condi\u00e7\u00f5es de vida do povo, salvo para aproveitar-se dele. Curiosamente, uma abordagem marxista que desconsiderava a possibilidade de interven\u00e7\u00e3o pol\u00edtica da classe oper\u00e1ria, t\u00e3o subserviente aos l\u00edderes populistas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O livro de Jorge Ferreira \u00e9 outra excepcional contribui\u00e7\u00e3o ao entendimento do per\u00edodo, e rep\u00f5e a figura de Goulart com outro olhar, como um pol\u00edtico profundamente comprometido e ligado aos trabalhadores durante toda sua vida, sem desconhecer suas contradi\u00e7\u00f5es, ou suas ambig\u00fcidades, como ele a chama. Contradi\u00e7\u00f5es que n\u00e3o faltam a nenhuma pessoa humana e naturalmente a nenhuma lideran\u00e7a pol\u00edtica.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ajudou-me em minha jornada de compreens\u00e3o do Brasil recente, a entender como foi poss\u00edvel, em t\u00e3o pouco tempo, construir-se um Pa\u00eds industrial, \u00e0 base de um projeto que pressupunha tamb\u00e9m distribui\u00e7\u00e3o de renda, projeto que fixou seus objetivos mais claramente a partir de 1950, quando Goulart come\u00e7a a despontar com uma lideran\u00e7a profundamente vinculada aos trabalhadores, para al\u00e9m de sua condi\u00e7\u00e3o pessoal. Goulart era um homem rico, como se sabe, e sempre teve talento para ganhar dinheiro, como a biografia revela. E revela, tamb\u00e9m, que nunca se apropriou do dinheiro p\u00fablico para proveito pessoal.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Esse projeto de constru\u00e7\u00e3o de um Brasil soberano e socialmente justo, pretens\u00e3o do governo Goulart, especialmente em sua fase final, que dava seq\u00fc\u00eancia ao projeto de Vargas, foi interrompido pelo golpe militar \u2013 golpe que teve o apoio de pol\u00edticos de direita, da Igreja Cat\u00f3lica, e de vastos setores das camadas m\u00e9dias, assustadas com a movimenta\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria e popular, com as articula\u00e7\u00f5es e movimentos de pol\u00edticos de esquerda, como Brizola e Juli\u00e3o, para citar dois deles. A discuss\u00e3o sobre as causas do golpe ainda se arrastar\u00e3o por algum tempo, certamente.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 ineg\u00e1vel, no entanto, que Goulart, como diria Darcy Ribeiro, cai por seus m\u00e9ritos, e n\u00e3o por seus defeitos. Na fase final de seu governo, viu-se numa encruzilhada: ou rendia-se \u00e0 proposta dos militares de afastar-se dos comunistas, de Arraes, de Juli\u00e3o, de Brizola e tantos outros setores de esquerda, ou, ent\u00e3o, levava \u00e0 frente a id\u00e9ia de implantar as chamadas reformas de base, entre as quais a reforma agr\u00e1ria. Com o com\u00edcio de 13 de mar\u00e7o de 1964, ele revelou ao pa\u00eds sua posi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Parecia que a presen\u00e7a daquelas 200 mil pessoas no Com\u00edcio da Central do Brasil evidenciava uma correla\u00e7\u00e3o de for\u00e7as favor\u00e1vel \u00e0s reformas de base. Dali em diante, tudo correu aceleradamente, e Goulart cai no dia 1\u00ba de abril, e segue logo depois para o Uruguai, certo de que n\u00e3o havia quaisquer condi\u00e7\u00f5es para a resist\u00eancia, nem entre os militares, nem entre as for\u00e7as de esquerda, como se comprovou.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Durante algum tempo, uma historiografia prec\u00e1ria, fundada numa vis\u00e3o individualista da hist\u00f3ria, pretendeu culp\u00e1-lo pela n\u00e3o resist\u00eancia. Os fatos que se seguiram demonstraram o quanto era inconsistente essa interpreta\u00e7\u00e3o. O chamado esquema militar do governo n\u00e3o existia \u2013 e a\u00ed, sem d\u00favida, houve falhas, e graves, de Goulart \u2013 e n\u00e3o havia praticamente nada de organiza\u00e7\u00e3o popular para o enfrentamento do golpe \u2013 nem os &#8220;grupos dos onze&#8221; de Brizola, nem as ligas camponesas de Juli\u00e3o, nem as for\u00e7as sindicais, nada. Os golpistas e os EUA haviam se preparado para uma resist\u00eancia prolongada. Equivocaram-se. Havia mais barulho que realidade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 evidente que a movimenta\u00e7\u00e3o das massas era ampla. Que o proletariado urbano dava seus mais fortes sinais de organiza\u00e7\u00e3o do p\u00f3s-guerra. Que havia um in\u00edcio de movimenta\u00e7\u00e3o de trabalhadores e camponeses no campo. Nada, no entanto, que autorizasse a vis\u00e3o triunfalista de um Brizola, de um Juli\u00e3o, at\u00e9 de um Prestes. Goulart, naquele 13 de mar\u00e7o, j\u00e1 estava isolado. O golpe caminhava celeremente, tinha bases sociais, e apesar de ter sido deflagrado por um general desacreditado, Ol\u00edmpio Mour\u00e3o Filho, e parecer sem for\u00e7a nas primeiras horas, consolidou-se diante da fraqueza e desorganiza\u00e7\u00e3o das chamadas for\u00e7as populares e de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o faltou ao encontro. N\u00e3o resisto \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o de recuperar t\u00edtulo de um livro de Daniel Aar\u00e3o Reis filho. Dito de outra maneira, o que cham\u00e1vamos revolu\u00e7\u00e3o brasileira, nossa musa inspiradora, sofria uma derrota de grande impacto. Um impacto de 21 anos. A democracia s\u00f3 voltaria em 1985. Vivemos, de l\u00e1 at\u00e9 os dias de hoje, o maior per\u00edodo democr\u00e1tico de nossa hist\u00f3ria, que devemos celebrar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">E quero dizer, ainda, para brincar com as palavras, se me permitirem, que a revolu\u00e7\u00e3o voltou a nos encontrar. E pelos caminhos da democracia, do debate de projetos, e da consolida\u00e7\u00e3o de um desses projetos, ao menos nesses \u00faltimos quase dez anos, desde que Lula venceu as elei\u00e7\u00f5es, por decis\u00e3o livre do povo brasileiro.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O projeto neoliberal foi derrotado. E desenvolve-se, desde l\u00e1, o que alguns importantes autores, como Juarez Guimar\u00e3es, chamam revolu\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica. E h\u00e1, no curso dessa revolu\u00e7\u00e3o, onde se afirmam direitos democr\u00e1ticos, onde h\u00e1 distribui\u00e7\u00e3o de renda como nunca houvera antes, onde h\u00e1 emprego, onde se afirma a soberania do Pa\u00eds, um reencontro de gera\u00e7\u00f5es. N\u00e3o sei se ironia da hist\u00f3ria, mas pode-se afirmar que muito daquilo que foi sonhado por Goulart, por aquele projeto generoso dos anos 50, est\u00e1 em curso hoje.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Finalizo, embora desnecess\u00e1rio pelo valor intr\u00ednseco da obra, agradecendo ao professor Jorge Ferreira. \u00c9 uma bela obra. Para al\u00e9m desses aspectos mais gerais, de natureza pol\u00edtica, d\u00e1 uma li\u00e7\u00e3o de como fazer uma biografia. O indiv\u00edduo surge com toda sua complexidade, revelado em sua singularidade, em sua humanidade, mas nunca desconectado do quadro hist\u00f3rico mais amplo. No singular, entre tantas revela\u00e7\u00f5es, \u00e9 dram\u00e1tica a revela\u00e7\u00e3o de que Goulart morreu de tristeza, um mal geral que Freud a seu modo detectou. Um mal espec\u00edfico, e dele me falou tamb\u00e9m Waldir, que costuma afetar os exilados quando n\u00e3o conseguem voltar \u00e0 sua terra natal. Nunca os militares permitiram que Goulart pisasse novamente o seu solo. S\u00f3 p\u00f4de faz\u00ea-lo morto. Um homem a quem o Pa\u00eds deve muito, com sua mem\u00f3ria aos poucos recuperada.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Instituto Jo\u00e3o Goulart<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O lugar do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart na hist\u00f3ria do Brasil come\u00e7a a ganhar contornos mais n\u00edtidos Penso que o lugar do ex-presidente Jo\u00e3o Goulart na hist\u00f3ria do Brasil come\u00e7a a ganhar contornos mais n\u00edtidos. 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