{"id":1201,"date":"2012-06-15T22:36:53","date_gmt":"2012-06-15T22:36:53","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/15\/padre-henrique-na-pauta-da-verdade-2\/"},"modified":"2012-06-15T22:36:53","modified_gmt":"2012-06-15T22:36:53","slug":"padre-henrique-na-pauta-da-verdade-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/15\/padre-henrique-na-pauta-da-verdade-2\/","title":{"rendered":"Padre Henrique na pauta da Verdade"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Investiga\u00e7\u00e3o sobre o assassinato do religioso, que foi auxiliar de dom Helder C\u00e2mara, abrir\u00e1 a pauta de trabalho da Comiss\u00e3o Estadual da Mem\u00f3ria e Verdade. An\u00fancio foi feito em 6\/06\/2012.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1192\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/padre_henrique_2.jpg\" border=\"0\" width=\"170\" height=\"224\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O assassinato do padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira, ocorrido em maio de 1969, vai abrir a pauta das investiga\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Estadual da Mem\u00f3ria e Verdade Dom Helder C\u00e2mara, instalada na semana passada para apurar den\u00fancias e informa\u00e7\u00f5es sobre pernambucanos mortos e desaparecidos durante o regime de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O tema foi definido ontem, ap\u00f3s um encontro entre o jurista Jos\u00e9 Paulo Cavalcanti Filho e o presidente estadual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB-PE), Henrique Mariano. Integrante da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, Jos\u00e9 Paulo anunciou o repasse \u00e0 comiss\u00e3o estadual de todos os documentos e informa\u00e7\u00f5es colhidos pela nacional sobre a morte do religioso, cujo caso se tornou um s\u00edmbolo dos crimes pol\u00edticos cometidos no Estado por agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDecidimos come\u00e7ar pelo caso do padre Henrique porque al\u00e9m de simb\u00f3lico, j\u00e1 existem muitas informa\u00e7\u00f5es levantadas, houve processo e at\u00e9 decis\u00e3o judicial. A partir dele, vamos levantar outros processos. J\u00e1 temos mais uns tr\u00eas ou quatro casos em vista\u201d, informou o coordenador da comiss\u00e3o estadual, Fernando Coelho. O grupo tamb\u00e9m receber\u00e1 da nacional uma lista de todos os pernambucanos mortos ou desaparecidos durante a ditadura militar, com o objetivo de comparar os casos com os que j\u00e1 est\u00e3o em an\u00e1lise em n\u00edvel local.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A convite de Jos\u00e9 Paulo, Henrique Mariano e o professor Manoel Moraes representar\u00e3o a comiss\u00e3o estadual em Bras\u00edlia, no pr\u00f3ximo dia 18, durante a sess\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade em que ser\u00e1 ouvido o depoimento do jornalista Elio Gaspari, autor de As ilus\u00f5es armadas e O sacerdote e o feiticeiro \u2013 premiadas s\u00e9ries de livros-reportagem sobre os bastidores da ditadura militar. Ap\u00f3s isso, ser\u00e1 definida a data da reuni\u00e3o conjunta das duas comiss\u00f5es, que acontecer\u00e1 em Pernambuco. \u201cFechamos uma agenda conjunta de coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica e jur\u00eddica, para que as duas comiss\u00f5es possam agir de forma integrada, sempre que necess\u00e1rio\u201d, afirmou Mariano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Desde ontem, a comiss\u00e3o estadual da verdade j\u00e1 disp\u00f5e de endere\u00e7o fixo. Os trabalhos v\u00e3o funcionar num conjunto de salas na sede da Secretaria de Direitos Humanos, no bairro da Benfica. De acordo com o coordenador Fernando Coelho, que comandou a reuni\u00e3o de ontem da comiss\u00e3o j\u00e1 no novo escrit\u00f3rio, o governo do Estado tamb\u00e9m vai ceder pessoal t\u00e9cnico, assessores e secret\u00e1rias, at\u00e9 que o grupo defina sua sede permanente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Padre Henrique<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Auxiliar direto de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara \u2013 que, \u00e0 \u00e9poca os militares rotulavam de arcebispo vermelho \u2013, o padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira da Silva Neto foi torturado at\u00e9 a morte, no Recife, entre a noite e a madrugada de 26 e 27 de maio de 1969. O crime, nunca esclarecido at\u00e9 a prescri\u00e7\u00e3o do processo aberto para apurar os fatos, teve o objetivo claramente pol\u00edtico de tentar barrar, atrav\u00e9s da viol\u00eancia f\u00edsica, o arcebispo nas suas a\u00e7\u00f5es e prega\u00e7\u00f5es em defesa da liberdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A macabra l\u00f3gica dos torturadores era esta: se a elimina\u00e7\u00e3o do pr\u00f3prio Dom H\u00e9lder n\u00e3o era recomend\u00e1vel porque repercutiria internacionalmente, deixando o governo brasileiro em situa\u00e7\u00e3o delicada, o caminho era o assassinato de um auxiliar direto da Arquidiocese. Desta forma, deduziam eles, o arcebispo recuaria e o crime n\u00e3o teria grande repercuss\u00e3o porque a v\u00edtima, digamos assim, era \u201cmenos importante\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Respons\u00e1vel pelo setor da Arquidiocese de Olinda e Recife que prestava assist\u00eancia \u00e0 juventude, o padre Henrique mantinha encontros inclusive com estudantes cassados e, em v\u00e1rias ocasi\u00f5es, recebeu liga\u00e7\u00f5es telef\u00f4nicas com amea\u00e7as de morte. A maioria delas partidas da organiza\u00e7\u00e3o denominada Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas (CCC). O padre n\u00e3o se curvou \u00e0s amea\u00e7as e pagou um alto pre\u00e7o por isso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O padre Henrique foi sequestrado na noite de 26 de maio, no bairro de Parnamirim, depois de participar de uma reuni\u00e3o com um grupo de jovens cat\u00f3licos. De acordo com uma testemunha, ele acabava de sair do local do encontro, quando foi abordado por tr\u00eas homens armados que o levaram em um ve\u00edculo de marca Rural, de cor verde e branca. \u00c0s 10 horas do dia seguinte, o corpo seria encontrado num matagal da Cidade Universit\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca, o governo ainda n\u00e3o havia institu\u00eddo formalmente a censura \u00e0 imprensa, mas, mesmo assim, os jornais foram proibidos de noticiar o assassinato do padre. A not\u00edcia s\u00f3 foi dada pelo Boletim Arquidiocesano (um informativo mimeografado da Igreja) e lida pelos padres de todas as par\u00f3quias recifenses. Mesmo sem not\u00edcias na imprensa, cerca de 20 mil pessoas acompanharam o enterro, numa caminhada entre igreja do Espinheiro e o cemit\u00e9rio da V\u00e1rzea.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Departamento de Ordem P\u00fablica e Social (DOPS) de Pernambuco n\u00e3o h\u00e1 nenhum registro sobre o Padre Henrique, antes da sua morte. Os arquivos come\u00e7am com o laudo t\u00e9cnico do Instituto de Pol\u00edcia T\u00e9cnica do Estado sobre o seu assassinato.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>\u201cSei quem matou meu filho e nada posso fazer\u201d<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O assassinato do padre Henrique n\u00e3o funcionou para calar Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, que continuou denunciando as injusti\u00e7as sociais e lutando por liberdade, mas destruiu praticamente toda a fam\u00edlia do sacerdote. Em depoimento ao extinto seman\u00e1rio recifense Jornal da Cidade, a 24\/07\/1981,dona Isa\u00edras Pereira da Silva, m\u00e3e do padre, narraria o que se seguiu ao crime:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDepois de assassinarem meu filho, come\u00e7aram as persegui\u00e7\u00f5es. Um dia depois do enterro, o meu marido foi preso e, sob amea\u00e7a de tortura, foi obrigado a relatar nomes de pessoas que vinham aqui em casa e que eram amigas de Ant\u00f4nio Henrique.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Adolfo, meu segundo filho, que na \u00e9poca havia sido aprovado no concurso de oficial da Pol\u00edcia Militar, passou a exercer dentro da PM fun\u00e7\u00f5es de servente, sendo depois transferido para a Pol\u00edcia Rodovi\u00e1ria, coisa que n\u00e3o tinha nada a ver com o concurso a que foi submetido. Fizeram o poss\u00edvel para sujar o seu nome, at\u00e9 que o ex-agente Wilson Maciel o envolveu com uns roubos de imagens sacras. Passou 11 meses preso e foi absolvido por falta de provas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pouco tempo depois, um outro roubo de objetos sacros ocorrido em Natal foi motivo para que o meu filho ficasse mais um tempo preso. No terceiro, o da imagem do Carmo em 1979, Wilson Maciel tenta culp\u00e1-lo e, como n\u00e3o consegue, o amea\u00e7ou de morte. Por conta disso, teve que viver foragido com a mulher e filhos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Justo Henrique, um outro filho, foi preso tr\u00eas vezes como subversivo, porque na \u00e9poca era seminarista e isso tinha muito a ver com o irm\u00e3o. Tanto fizeram que atualmente ele vive no exterior e, por medida de seguran\u00e7a, n\u00e3o mantemos nenhuma comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Existe um quarto filho que usa nome falso por ter fugido da pris\u00e3o. Sofreu torturas e, para castig\u00e1-lo, eles disseram que meu filho andava espalhando por a\u00ed que ia se vingar.Meu marido, com os aperreios, morreu com uma \u00falcera g\u00e1strica. E eu, eu sou o palha\u00e7o da hist\u00f3ria. Sei quem matou meu filho e nada posso fazer.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Uma vers\u00e3o na imprensa<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1975, o Jornal da Cidade, ve\u00edculo recifense da chamada imprensa alternativa, reconstituiu o epis\u00f3dio assim:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA corda aperta-lhe o pesco\u00e7o e o homem dobra as pernas, semi-asfixiado e cai de joelhos. Uma pancada de faca ou canivete no rosto e o sangue escorre, grosso, molhando o dorso nu e as cal\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os vultos, ao seu redor, come\u00e7am a se tornar ainda mais difusos e ele sente um impacto na face e, certamente, n\u00e3o sente o segundo, \u00e0 queima-roupa, pouco acima da orelha. Dois tiros de mestre, convergindo para um s\u00f3 ponto do c\u00e9rebro. O homem estende-se em meio \u00e0 pequena clareira aberta no matagal e, nos \u00faltimos estertores da morte, agarra, com a m\u00e3o direita, crispada, um tufo de capim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Passava da primeira hora da madrugada de 27 de maio de 1969 e n\u00e3o era chegada, ainda, a terceira hora. Os olhos do homem estavam abertos, como abertos e cheio de espanto estavam os olhos do vigia S\u00e9rgio Miranda da Silva, quando o encontrou, estirado no ch\u00e3o, \u00e0s seis e meia da manh\u00e3.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Antes das dez, o corpo estava identificado: era do padre Ant\u00f4nio Henrique Pereira da Silva Neto, 28 anos de idade, visto com vida, pela \u00faltima vez, por uma testemunha, quando era obrigado a entrar numa rural verde e branca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No final da tarde, a igreja do Espinheiro, no Recife, estava abarrotada de gente para assistir \u00e0 missa de corpo presente, celebrada por 40 sacerdotes. Durante toda a noite houve vig\u00edlia e, no dia seguinte, a p\u00e9, por mais de 15 quil\u00f4metros, uma multid\u00e3o de 20 mil pessoas acompanhava o enterro at\u00e9 um cemit\u00e9rio pr\u00f3ximo \u00e0 Cidade Universit\u00e1ria, a mesma regi\u00e3o onde aconteceu o crime.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sil\u00eancio no cemit\u00e9rio<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1989, numa entrevista para a emissora de televis\u00e3o estatal de Pernambuco, Dom H\u00e9lder C\u00e2mara revelaria que, al\u00e9m de assassinar o Padre Henrique, a ditadura militar tamb\u00e9m proibiu toda e qualquer manifesta\u00e7\u00e3o de protesto contra aquela viol\u00eancia:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Quando n\u00f3s cheg\u00e1vamos ao cemit\u00e9rio, eu recebi um aviso de que, se no cemit\u00e9rio houvesse a menor palavra contra os militares, a palavra de ordem era reagir de vez. A\u00ed, quando terminou o enterro, eu disse: meus irm\u00e3os, tudo o que n\u00f3s poder\u00edamos fazer aqui na terra pelo nosso irm\u00e3o Padre Henrique, n\u00f3s j\u00e1 fizemos. Vamos rezar mais um Pai Nosso e, depois, vamos fazer uma experi\u00eancia que nunca foi feita aqui em nossa terra: vamos oferecer a homenagem do sil\u00eancio, vamos sair do cemit\u00e9rio sem uma palavra, sil\u00eancio profundo!\u2026 Nunca eu ouvi um sil\u00eancio t\u00e3o impressionante. Era um sil\u00eancio que gritava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O Padre Henrique por Dona Isa\u00edras<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ant\u00f4nio Henrique Pereira Neto nasceu no Recife, a 28 de outubro de 1940, filho de Jos\u00e9 Henrique Pereira da Silva Neto e Isa\u00edras Pereira da Silva. Era soci\u00f3logo e professor. No depoimento a seguir, prestado ao Grupo Tortura Nunca Mais, que organizou o Dossi\u00ea dos Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos na Ditadura Militar de 1964,Dona Isa\u00edras fala um pouco do filho:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cPadre Henrique era o meu filho primog\u00eanito, muito alegre e brincalh\u00e3o. Escolheu sua miss\u00e3o de sacerdote aos 16 anos e tomou v\u00e1rias iniciativas na profiss\u00e3o escolhida: n\u00e3o cobrava para fazer batizados, celebrar casamentos, porque, dizia ele, \u201ca palavra de Deus n\u00e3o tem pre\u00e7o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tinha muitos amigos, era professor de tr\u00eas col\u00e9gios e com o sal\u00e1rio ajudava as pessoas realmente carentes. N\u00e3o gostava de conflitos, nem de ver pessoas sofrendo. Por isso, quando balearam, por quest\u00f5es pol\u00edticas, o estudante C\u00e2ndido Pinto, Henrique procurou os grupos de estudantes que planejavam viol\u00eancias e sugeriu-lhes que pedissem ajuda aos governantes. Come\u00e7aram da\u00ed os telefonemas amea\u00e7adores que se identificavam como CCC (Comando de Ca\u00e7a aos Comunistas); mas Henrique dizia que aquilo n\u00e3o passava de piadas, porque \u201cse eles tocassem num fio de cabelo de um padre, o mundo os derrubaria\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E as amea\u00e7as foram aumentando (\u2026), at\u00e9 metralharam a sala onde ele trabalhava no Giriquiti, gritando, segundo testemunhas, \u201cViva o CCC!\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas Henrique n\u00e3o temia (\u2026) at\u00e9 que no dia 26 de maio de 1969, ap\u00f3s uma reuni\u00e3o com fam\u00edlias amigas, quando Henrique voltava para seu lar, uma rural verde e branca com policiais armados levaram-no do Parnamirim at\u00e9 a Cidade Universit\u00e1ria e depois de v\u00e1rias horas de torturas (das 10 \u00e0s 4 da madrugada), segundo um morador de um barraco de t\u00e1buas, mandaram ele se ajoelhar e dispararam, \u00e0 queima-roupa, tr\u00eas tiros na cabe\u00e7a do padre indefeso. Para que n\u00e3o fosse identificado, tiraram-lhe os documentos e iam enterr\u00e1-lo como \u201ccad\u00e1ver desconhecido\u201d. Por\u00e9m, um rapaz desconhecido passou e disse: \u201cN\u00e3o \u00e9 um desconhecido. \u00c9 o padre Henrique\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Prenderam o rapaz, mas muita gente que havia escutado o coment\u00e1rio espalhou a not\u00edcia e n\u00e3o dava mais para esconder.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Padre Henrique, depois de passar pelo IML, foi levado para a Igreja do Espinheiro, onde foi velado por milhares de pessoas. No dia seguinte, foi levado em passeata at\u00e9 o Cemit\u00e9rio da V\u00e1rzea, onde, no percurso, muitas pessoas foram presas como comunistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao chegarmos em casa, ap\u00f3s o sepultamento, levaram preso o meu marido Jos\u00e9 Henrique, para que ele identificasse num \u00e1lbum de fotografias os comunistas que freq\u00fcentavam a nossa casa (\u2026) e, como ele dizia que n\u00e3o sabia, foi tamb\u00e9m torturado e, \u00e0s 11 da noite, quando chegou em casa, estava vomitando sangue e n\u00e3o conseguiu recuperar-se: depois de v\u00e1rias hemorragias, tamb\u00e9m faleceu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E eu, continuei perseguida (\u2026) at\u00e9 que, com a prescri\u00e7\u00e3o do crime, cessaram as amea\u00e7as\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Os supostos matadores e mandantes<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sob o t\u00edtulo Sepultamento do Insepulto, o Blog Metropolitano \u2013 O Lado Positivo da Not\u00edcia, do jornalista Ernesto Neves e dos empres\u00e1rios F\u00e1bio Lira e Nellyann Carneiro, veiculou o seguinte texto sobre os autores do assassinato do Padre Henrique:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO Padre Henrique Pereira da Silva, trucidado em novembro de 1969 e cujo cad\u00e1ver foi abandonado no Campus da UFPE, nunca teve os seus assassinos revelados e ningu\u00e9m foi responsabilizado pelo ato. Apesar de seu cad\u00e1ver ter sido sepultado, por conta disso, simbolicamente, continuava insepulto. Ontem, durante as discuss\u00f5es sobre o Centen\u00e1rio de Nascimento de Dom H\u00e9lder C\u00e2mara, o editor do Blog Metropolitano, jornalista Ernesto Neves, narrou as informa\u00e7\u00f5es de dom\u00ednio da imprensa nacional e que, at\u00e9 hoje, nunca foram esclarecidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo ap\u00f3s a morte do ent\u00e3o secret\u00e1rio do Arcebispo de Olinda e Recife, que trabalhava na recupera\u00e7\u00e3o de dependentes qu\u00edmicos, surgiu a informa\u00e7\u00e3o que sua morte significava a morte simb\u00f3lica de Dom H\u00e9lder, uma forma de faz\u00ea-lo recuar das den\u00fancias que fazia nos principais f\u00f3runs de todo o mundo. A informa\u00e7\u00e3o dava conta de que a decis\u00e3o de executar o Padre Henrique nasceu no DOI\/CODI e concretizada pelo DOPS da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica de Pernambuco, que tinha como coordenador o delegado Moacir Salles, sobrinho de Apol\u00f4nio Salles, fundador da Chesf.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ordem foi dada aos policiais Rivel Rocha, Henrique Pereira Silva, conhecido por X9, e Rog\u00e9rio Matos do Nascimento, que serviu como isca para atrair o Padre Henrique, o fazendo entrar numa rural verde e branca e s\u00f3 reaparecendo morto no Campus da UFPE. Nenhum dos supostos matadores ou mandantes sofreu qualquer puni\u00e7\u00e3o. A poetisa Isa\u00edras Pereira da Silva, m\u00e3e do sacerdote morto, faleceu sem ver a puni\u00e7\u00e3o dos culpados. O crime prescreveu e os criminosos se beneficiaram pela omiss\u00e3o da pol\u00edcia e da justi\u00e7a. A revela\u00e7\u00e3o dos supostos respons\u00e1vel pelo menos sepulta o cad\u00e1ver do insepulto Padre Henrique\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta O Berro.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Investiga\u00e7\u00e3o sobre o assassinato do religioso, que foi auxiliar de dom Helder C\u00e2mara, abrir\u00e1 a pauta de trabalho da Comiss\u00e3o Estadual da Mem\u00f3ria e Verdade. 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