{"id":12107,"date":"2017-12-14T00:28:08","date_gmt":"2017-12-14T00:28:08","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12107"},"modified":"2017-12-14T00:28:49","modified_gmt":"2017-12-14T00:28:49","slug":"minas-gerais-teve-1-531-presos-politicos-durante-ditadura-militar","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2017\/12\/14\/minas-gerais-teve-1-531-presos-politicos-durante-ditadura-militar\/","title":{"rendered":"Minas Gerais teve 1.531 presos pol\u00edticos durante ditadura militar"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">De Minas Gerais partiram as primeiras tropas militares para o golpe de 1964. Se o Estado foi protagonista na derrubada de Jo\u00e3o Goulart, tamb\u00e9m teve um importante papel na resist\u00eancia \u00e0 ditadura e, consequentemente, nos atos de repress\u00e3o. O relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais (Covemg), que vai ser lan\u00e7ado nesta quarta-feira (13), somente em seu primeiro volume, detalha mortes e desaparecimentos for\u00e7ados de 17 militantes no Estado e o assassinato e \u201csumi\u00e7o\u201d de 49 mineiros pelo pa\u00eds, al\u00e9m de identificar 1.531 presos pol\u00edticos em Minas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses n\u00fameros se transformaram em hist\u00f3rias nos relatos e em documentos coletados pelos pesquisadores durante quatro anos. Exemplo disso \u00e9 o jornalista Fl\u00e1vio Ferreira da Silva. Ele era prefeito de Barreiro Grande, atual Tr\u00eas Marias, quando houve o golpe militar. Por ter participado de um evento com o presidente Jo\u00e3o Goulart, foi considerado subversivo e, por isso, foi cassado, preso e torturado na base a\u00e9rea de Lagoa Santa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s ser libertado, respondeu a processo por subvers\u00e3o, mas foi inocentado pelos pr\u00f3prios militares. Segundo familiares, o ex-prefeito nunca se recuperou do trauma de ter tido sua carreira pol\u00edtica interrompida com pancadas na cabe\u00e7a e choques el\u00e9tricos. Por isso, passou a ter problemas psicol\u00f3gicos. Dez anos depois, ele matou a mulher e suicidou em seguida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Hoje, ele \u00e9 reconhecido como mais uma das v\u00edtimas da ditadura. \u201cForam v\u00e1rias as formas de tortura aplicadas, e \u00e9 leg\u00edtimo acrescentar que algumas foram decisivas, deixando sequelas mentais pelo resto dos poucos anos de vida que lhe restaram\u201d, contou a filha do pol\u00edtico, Glaucy, em depoimento \u00e0 Covemg.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O caso de Fl\u00e1vio n\u00e3o \u00e9 isolado. Terceiro motivo mais recorrente de falecimentos em v\u00edtimas do regime militar, segundo o documento, as sequelas psicol\u00f3gicas e f\u00edsicas deixadas pela tortura s\u00e3o respons\u00e1veis por 10% do total de mortes ou desaparecimentos for\u00e7ados causados pelos militares no Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O militante mineiro Juarez Guimar\u00e3es fez um pacto com a mulher, Maria do Carmo de Brito, que, se fosse preso pelos militares, se mataria. Em 1970, durante persegui\u00e7\u00e3o no Rio de Janeiro, ele deu um tiro no ouvido. Maria, conhecida como Dora, foi presa, torturada e exilada no Chile ap\u00f3s ser libertada com resgate do sequestro do embaixador da Su\u00ed\u00e7a. No ex\u00edlio, morando na Alemanha, Dora matou-se ap\u00f3s se jogar na linha do trem em 1976.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Traumas.<\/strong>\u00a0A tortura durante o regime militar deixou marcas nas v\u00edtimas que perduram at\u00e9 hoje. Em um dos relatos, D\u00e9lio de Oliveira Fantini, que diz ser o preso pol\u00edtico mais novo do Estado, conta que teve todo o corpo queimado por choques e cigarros; os dentes da frente foram arrancados; teve uma les\u00e3o no cr\u00e2nio e fraturas no nariz, em v\u00e1rios ossos dos p\u00e9s e no osso r\u00e1dio (antebra\u00e7o) \u2013 sendo necess\u00e1ria a coloca\u00e7\u00e3o de uma haste. \u201cQuer dizer, n\u00e3o sei se foi sorte ou azar esse chute na cabe\u00e7a, pois a partir da\u00ed houve a necessidade de ser deslocado para o pronto-socorro\u201d, contou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em Maria Dalce Ricas, ent\u00e3o estudante de direito da UFMG que ficou presa no pr\u00e9dio do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (Dops), as marcas da viol\u00eancia ainda s\u00e3o vis\u00edveis. \u201cFisicamente, ainda tenho marcas nos dedos m\u00ednimos dos p\u00e9s e das m\u00e3os, onde o fio el\u00e9trico era enrolado, e a marca nos pulsos. At\u00e9 cerca de cinco anos atr\u00e1s tinha uma insensibilidade parcial no p\u00e9 e n\u00e3o suportava sapatos fechados por muito tempo\u201d, detalha.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de outro preso em Minas, o documento mostra que uma das sequelas foi a esterilidade, que o impediu de ter filhos, e as hemorroidas decorrentes do fato de os torturadores terem introduzido um cabo de vassoura em seu \u00e2nus.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Evento.\u00a0<\/strong>O relat\u00f3rio vai ser lan\u00e7ado nesta quarta-feira (13) \u00e0s 9h30, em audi\u00eancia na Assembleia Legislativa de Minas. \u00c0s 16h30, o documento ser\u00e1 entregue aos representantes dos Tr\u00eas Poderes, no Pal\u00e1cio da Liberdade.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">RECOMENDA\u00c7\u00d5ES<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Documento.<\/strong>\u00a0Com 1.781 p\u00e1ginas e dividido em cinco volumes, o relat\u00f3rio final da Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais (Covemg) detalha fatos que ocorreram na ditadura militar, entre 1964 e 1988, e tamb\u00e9m traz uma s\u00e9rie de recomenda\u00e7\u00f5es aos Tr\u00eas Poderes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A\u00e7\u00f5es.\u00a0<\/strong>Entre elas est\u00e1 altera\u00e7\u00e3o dos nomes dos locais p\u00fablicos que fa\u00e7am men\u00e7\u00e3o a respons\u00e1veis por viola\u00e7\u00f5es de direitos humanos e a substitui\u00e7\u00e3o por nomes de v\u00edtimas do regime militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Decreto.<\/strong>\u00a0Na \u00faltima semana, o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), decidiu prorrogar at\u00e9 7 de fevereiro de 2018 os trabalhos do colegiado, criado em 2013.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Relat\u00f3rio cita 125 torturadores<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o da Verdade em Minas Gerais (Covemg) aponta que nos depoimentos das v\u00edtimas da ditadura no Estado foram identificados 125 torturadores. Cinco deles s\u00e3o citados por mais de 60 vezes. O nome do coronel Hilton Paula da Cunha Portela \u00e9 o mais recorrente nos relatos. Ele serviu no 12\u00ba Regimento de Infantaria do Ex\u00e9rcito em Belo Horizonte, entre os anos de 1969 e 1970.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos trechos do relat\u00f3rio aponta que, al\u00e9m de usar pau de arara e afogamentos, ele esbofeteava presos at\u00e9 quebrar os dentes e mandava arrancar as unhas. \u201c(Ele) tamb\u00e9m usava a t\u00e9cnica de amea\u00e7ar de morte os familiares dos torturados. Obrigava mulheres presas a desfilar nuas diante dos torturadores e espremia seus mamilos at\u00e9 sangrar para, em seguida, aplicar choques el\u00e9tricos ligando os fios nos seios feridos\u201d, diz o documento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os 98 locais utilizados para tortura e repress\u00e3o, se destacam o Dops, localizado na avenida Afonso Pena, no centro da capital mineira, onde hoje funciona o Departamento de Investiga\u00e7\u00e3o Antidrogas da Pol\u00edcia Civil, e o pres\u00eddio de Linhares, em Juiz de Fora.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi do pres\u00eddio da Zona da Mata que militantes dos grupos de resist\u00eancia Colina e Corrente conseguiram enviar cartas com os relatos de tortura sofridas pelos presos pol\u00edticos. Um dos que assinaram as Cartas de Linhares foi o ex-prefeito de Belo Horizonte Marcio Lacerda (PSB). Tamb\u00e9m estiveram presos em Linhares o governador de Minas, Fernando Pimentel (PT), e a ex-presidente Dilma Rousseff (PT).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O coordenador do colegiado, Robson S\u00e1vio Reis Souza, diz que esse relat\u00f3rio n\u00e3o \u00e9 uma entrega ao mundo oficial ou uma tese de doutorado para uma gaveta. \u201cEsperamos que, em posse desse material, a sociedade possa avaliar esse trabalho, aprofund\u00e1-lo e cobrar das autoridades p\u00fablicas e Poderes formas de mitiga\u00e7\u00e3o de viola\u00e7\u00e3o de direitos humanos no presente\u201d, afirmou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; O Tempo -13\/12\/17<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De Minas Gerais partiram as primeiras tropas militares para o golpe de 1964. 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