{"id":1222,"date":"2012-06-18T18:49:15","date_gmt":"2012-06-18T18:49:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/18\/questao-de-ordem-a-esquerda-comeca-a-discutir-os-justicamentos-2\/"},"modified":"2012-06-18T18:49:15","modified_gmt":"2012-06-18T18:49:15","slug":"questao-de-ordem-a-esquerda-comeca-a-discutir-os-justicamentos-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/18\/questao-de-ordem-a-esquerda-comeca-a-discutir-os-justicamentos-2\/","title":{"rendered":"Quest\u00e3o de ordem. A esquerda come\u00e7a a discutir os justi\u00e7amentos"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Tabu por quatro d\u00e9cadas, os justi\u00e7amentos entram na pauta da esquerda. Embora fa\u00e7a, em livro, cr\u00edticas incisivas \u00e0 pr\u00e1tica, Bernardo Kucinski v\u00ea &#8220;diversionismo&#8221; na discuss\u00e3o. Nilm\u00e1rio Miranda considera as mortes &#8220;degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;. E a direita infla os n\u00fameros, na inten\u00e7\u00e3o de igualar v\u00edtimas nos dois lados.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quarenta anos depois, a esquerda come\u00e7a a debater os justi\u00e7amentos. Em seu rec\u00e9m-lan\u00e7ado &#8220;K.&#8221; [Express\u00e3o Popular, 178 p\u00e1gs., R$ 15], romance que tematiza a luta contra a ditadura, o jornalista Bernardo Kucinski narra a hist\u00f3ria de um jovem casal: uma professora de qu\u00edmica da Universidade de S\u00e3o Paulo e um f\u00edsico que trabalha na iniciativa privada. Eles desaparecem misteriosamente em 1974, durante uma das fases mais violentas da ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O livro \u00e9 um dos 60 primeiros pr\u00e9-selecionados para o Pr\u00eamio Portugal Telecom, um dos mais importantes do pa\u00eds, com pr\u00eamios que podem chegar a R$ 100 mil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Jornalista e professor, Kucinski trabalhou no Pal\u00e1cio do Planalto, no primeiro mandato do governo Lula (2003-07), como assessor do presidente, elaborando uma cr\u00edtica di\u00e1ria da imprensa e sobre a conjuntura do pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sob a narrativa ficcional -ou &#8220;transcendental&#8221;, como o autor prefere-, a hist\u00f3ria contada \u00e9 a de sua irm\u00e3, Ana Rosa Kucinski Silva, e seu marido, Wilson Silva. Militantes da ALN, os dois foram vistos pela \u00faltima vez em abril de 1974, nos arredores da pra\u00e7a da Rep\u00fablica, no centro de S\u00e3o Paulo. O casal integra a lista de desaparecidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos cap\u00edtulos finais, &#8220;Mensagem ao companheiro Klemente&#8221;, \u00e9 uma carta de tr\u00eas p\u00e1ginas que muitos ex-militantes pensaram ser real, endere\u00e7ada a Carlos Eug\u00eanio Paz, o Clemente, um dos \u00faltimos comandantes da ALN.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A missiva \u00e9 repleta de cr\u00edticas \u00e0 &#8220;cegueira&#8221; da organiza\u00e7\u00e3o naquele momento de intensa repress\u00e3o, caminhando quase para um suic\u00eddio consciente, com um &#8220;sacrif\u00edcio in\u00fatil&#8221; de muitas vidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O relato, assinado por um certo &#8220;Rodriguez&#8221;, interpela &#8220;Klemente&#8221; sobre mortes como a de M\u00e1rcio Leite de Toledo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;As \u00faltimas &#8216;quedas&#8217; [pris\u00f5es] provam o que n\u00f3s j\u00e1 desconfi\u00e1vamos: o M\u00e1rcio n\u00e3o era o informante. Ele foi executado porque havia pedido \u00e0 Coordena\u00e7\u00e3o Nacional que o deixasse se afastar. A organiza\u00e7\u00e3o mentiu no comunicado. M\u00e1rcio n\u00e3o foi executado para resguardar a Organiza\u00e7\u00e3o. Foi executado para dar um recado: quem vacilar vai ser julgado como traidor&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A carta critica ainda aqueles justi\u00e7amentos cujas v\u00edtimas morreram por delatar companheiros em sess\u00f5es de tortura: &#8220;O recado era que quem &#8216;abre&#8217; [delata], mesmo sob tortura, \u00e9 um traidor. Como se fosse poss\u00edvel julgar quem foi torturado. Criaram um tabu em torno do assunto&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mais adiante, ele escreve: &#8220;Ficamos cegos; totalmente alienados da realidade, obcecados pela luta armada&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo o narrador, at\u00e9 na &#8220;justi\u00e7a capitalista, quando n\u00e3o h\u00e1 unanimidade, n\u00e3o se condena \u00e0 morte&#8221;, referindo-se ao &#8220;tribunal revolucion\u00e1rio&#8221; que decidiu pela morte de M\u00e1rcio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos &#8220;ju\u00edzes&#8221; que participou da decis\u00e3o, amigo da v\u00edtima, foi contra a execu\u00e7\u00e3o. &#8220;Voc\u00eas condenaram sem prova, sem crime tipificado. Incorporaram o m\u00e9todo da ditadura at\u00e9 na linguagem da pol\u00edtica; no comunicado a Organiza\u00e7\u00e3o chama M\u00e1rcio de &#8216;elemento'&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Procurado pela Folha para comentar a cr\u00edtica feita no livro \u00e0 atitude da esquerda em rela\u00e7\u00e3o aos justi\u00e7amentos, Bernardo Kucinski n\u00e3o se disp\u00f4s a falar do tema e disse que p\u00f4s no livro tudo o que pensa a respeito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o \u00e9 um assunto importante na atual conjuntura, \u00e9 um tema diversionista, t\u00edpico da pol\u00edtica editorial da Folha nos \u00faltimos anos&#8221;, disse. &#8220;O importante \u00e9 explicar os crimes da ditadura e os m\u00e9todos usados pelos militares para tantas atrocidades.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Questionado se os justi\u00e7amentos poderiam ser considerados crimes da ditadura, mesmo n\u00e3o tendo sido cometidos pelo Estado, Kucinski disse: &#8220;N\u00e3o sei, n\u00e3o quero entrar nessa discuss\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>NILM\u00c1RIO<\/strong> Ex-ministro de Direitos Humanos no governo Lula, Nilm\u00e1rio Miranda \u00e9 um dos poucos \u00e0 esquerda que fala do tema sem exalta\u00e7\u00f5es. E diz que o assunto deve ser tirado do limbo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos anos 70, Miranda militou na Polop (Organiza\u00e7\u00e3o Revolucion\u00e1ria Marxista &#8211; Pol\u00edtica Oper\u00e1ria), tendo ficado preso por tr\u00eas anos e meio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nos anos 1990, quando era deputado federal pelo PT e presidiu a Comiss\u00e3o Externa para os Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos da C\u00e2mara, Miranda prop\u00f4s uma legisla\u00e7\u00e3o semelhante \u00e0 do Chile.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a proposta, a lei abrangeria n\u00e3o s\u00f3 os mortos e desaparecidos pela repress\u00e3o do Estado, mas tamb\u00e9m em decorr\u00eancia de viol\u00eancia pol\u00edtica. Isso permitiria incluir os &#8220;justi\u00e7ados&#8221; e at\u00e9 as v\u00edtimas civis de balas perdidas em a\u00e7\u00f5es armadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O justi\u00e7amento \u00e9 inc\u00f4modo, ningu\u00e9m gosta de discutir. N\u00e3o h\u00e1 como igualar isso aos crimes do Estado&#8221;, afirma. &#8220;Mas esse \u00e9 um lado totalmente &#8216;dark&#8217; da resist\u00eancia. \u00c9 uma forma de degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Conselheiro da Comiss\u00e3o de Anistia do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a e coautor do livro &#8220;Dos Filhos deste Solo&#8221; (Boitempo, 1999), importante levantamento de mortos e desaparecidos, ele diz que sempre se &#8220;incomodou&#8221; com a morte de M\u00e1rcio Leite de Toledo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Essas pessoas foram v\u00edtimas da viol\u00eancia pol\u00edtica provocada por um ambiente de autoritarismo&#8221;, diz Miranda. &#8220;\u00c9 preciso encerrar essa quest\u00e3o. As pessoas falam que tem muita coisa para fazer, poderiam come\u00e7ar levantando esses casos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O recado era que quem &#8216;abre&#8217; [delata], mesmo sob tortura, \u00e9 um traidor. Como se fosse poss\u00edvel julgar quem foi torturado. [&#8230;]Incorporaram o m\u00e9todo do terror da pr\u00f3pria ditadura&#8221;, escreve Kucinski<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O justi\u00e7amento \u00e9 inc\u00f4modo, ningu\u00e9m gosta de discutir. N\u00e3o h\u00e1 como igualar isso aos crimes do Estado&#8221;, disse Nilm\u00e1rio Miranda, um dos poucos a falar abertamente do tema<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Os crimes da direita na conta da esquerda<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao inflar os crimes da esquerda na tentativa de igualar os dois lados, militares difundiram nos \u00faltimos anos listas de supostos justi\u00e7amentos, algumas com at\u00e9 30 nomes. Francisco, M\u00e1rcio, Carlos e Salatiel est\u00e3o nelas, al\u00e9m de nomes desconhecidos ou sem v\u00ednculo com as organiza\u00e7\u00f5es indicadas. Muitos foram inclu\u00eddos maldosamente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o caso de Ari da Rocha Miranda, morto acidentalmente em uma a\u00e7\u00e3o da ALN, em junho de 1970. Baleado por um colega ao se posicionar, desastradamente, na linha de tiro, ele n\u00e3o resistiu \u00e0 hemorragia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 tamb\u00e9m o caso de Amaro Luiz de Carvalho, membro do PCR (Partido Comunista Revolucion\u00e1rio) e l\u00edder campon\u00eas de Pernambuco. Segundo livros e sites (tais como o de Carlos Alberto Brilhante Ustra ou o da organiza\u00e7\u00e3o &#8220;Terrorismo Nunca Mais&#8221;), Amaro foi justi\u00e7ado por envenenamento, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife, em agosto de 1971, por colegas de organiza\u00e7\u00e3o. A afirma\u00e7\u00e3o \u00e9 falsa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Amaro morreu um m\u00eas antes de deixar a pris\u00e3o. Odiado pelos usineiros locais, era um dos nomes mais visados no Estado. Documentos indicam que o delegado Fleury esteve na Casa de Deten\u00e7\u00e3o na semana em que Amaro morreu, mas \u00e9 imposs\u00edvel, pela aus\u00eancia de provas, relacionar um fato a outro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do depoimento de presos que conviveram com Amaro, a necropsia desmente a vers\u00e3o dos militares, indicando como causa mortis &#8220;hemorragia pulmonar, decorrente de traumatismo do t\u00f3rax, por instrumento contundente&#8221;. Em 1996, o Estado o reconheceu como um dos mortos da ditadura, assassinado quando estava sob sua responsabilidade.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Folha de S.Paulo<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tabu por quatro d\u00e9cadas, os justi\u00e7amentos entram na pauta da esquerda. Embora fa\u00e7a, em livro, cr\u00edticas incisivas \u00e0 pr\u00e1tica, Bernardo Kucinski v\u00ea &#8220;diversionismo&#8221; na discuss\u00e3o. Nilm\u00e1rio Miranda considera as mortes &#8220;degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;. E a direita infla os n\u00fameros, na inten\u00e7\u00e3o de igualar v\u00edtimas nos dois lados.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1222"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1222"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1222\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1222"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1222"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1222"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}