{"id":1249,"date":"2012-06-19T18:17:52","date_gmt":"2012-06-19T18:17:52","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/19\/o-lado-dark-da-resistencia-a-luta-armada-e-o-justicamento-de-militantes-na-ditadura-2\/"},"modified":"2012-06-19T18:17:52","modified_gmt":"2012-06-19T18:17:52","slug":"o-lado-dark-da-resistencia-a-luta-armada-e-o-justicamento-de-militantes-na-ditadura-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/19\/o-lado-dark-da-resistencia-a-luta-armada-e-o-justicamento-de-militantes-na-ditadura-2\/","title":{"rendered":"O lado &#8216;dark&#8217; da resist\u00eancia. A luta armada e o justi\u00e7amento de militantes na ditadura"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>No auge da repress\u00e3o da ditadura militar (1964-85), nos anos 70, grupos armados de esquerda recorreram a &#8220;justi\u00e7amentos&#8221; -execu\u00e7\u00f5es de militantes acusados de trai\u00e7\u00e3o. Nos quatro casos investigados pela Folha, sobreviventes recordam lances de hero\u00edsmo e expressam desejo de vingan\u00e7a e de repara\u00e7\u00e3o.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O ex-capit\u00e3o do Ex\u00e9rcito Cl\u00e1udio Heitor de Alvarenga n\u00e3o esconde o inconformismo com a morte do irm\u00e3o, Francisco Jacques de Alvarenga, em 28 de junho de 1973.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Militante que se insurgiu contra a ditadura (1964-85), foi executado aos 27 anos com quatro tiros, que acertaram a cabe\u00e7a, o pesco\u00e7o e o peito, na sala dos professores do col\u00e9gio Veiga de Almeida, no bairro carioca da Tijuca, onde dava aulas de hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em seguida, os atiradores picharam na parede a sigla &#8220;ALN&#8221;, de A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional -uma das maiores organiza\u00e7\u00f5es da luta armada no Brasil- e fugiram.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Francisco foi v\u00edtima dos dois lados: os loucos da extrema direita o torturaram, e os loucos da extrema esquerda o mataram&#8221;, disse \u00e0 Folha o ex-capit\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era o primeiro caso de justi\u00e7amento na esquerda brasileira. No auge da repress\u00e3o, entre 1971 e 1973, quando o governo de Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici apertou a persegui\u00e7\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es clandestinas, elas lan\u00e7aram m\u00e3o de um expediente revolucion\u00e1rio extremo: mataram alguns de seus pr\u00f3prios quadros, sob acusa\u00e7\u00e3o de trai\u00e7\u00e3o, vacila\u00e7\u00e3o ou discord\u00e2ncia quanto aos rumos da luta armada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os justi\u00e7amentos eram precedidos por &#8220;tribunais revolucion\u00e1rios&#8221;. N\u00e3o havia direito de defesa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">TABU Quarenta anos depois, essas mortes ainda s\u00e3o tabu. Em geral, militantes e ex-militantes preferem deix\u00e1-las de lado, sob o argumento de que primeiro \u00e9 preciso apurar os crimes cometidos pelo Estado, tais como o desaparecimento, ainda n\u00e3o explicado, de 136 pessoas. E criticam com dureza ex-companheiros que assumiram em p\u00fablico ter participado delas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 agora a esquerda trata do tema, de forma mais ou menos aberta, por\u00e9m sempre cr\u00edtica: &#8220;Esse \u00e9 um lado totalmente &#8216;dark&#8217; da resist\u00eancia. \u00c9 uma forma de degenera\u00e7\u00e3o pol\u00edtica&#8221;, disse \u00e0 Folha o ex-titular da Secretaria de Direitos Humanos, Nilm\u00e1rio Miranda, ex-militante da Polop (veja reportagem \u00e0 p\u00e1g. 8).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Verdade, criada em maio pela presidente Dilma Rousseff, n\u00e3o dever\u00e1 apurar esses casos, considerados por membros do colegiado como crimes comuns, portanto j\u00e1 prescritos. O grupo quer apurar somente as viola\u00e7\u00f5es cometidas pelo Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Militares reformados e da reserva usam essas mortes para tentar justificar sua pr\u00f3pria viol\u00eancia e inflam os casos de justi\u00e7amento, pondo na conta da esquerda assassinatos cometidos pelas for\u00e7as da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Folha investigou, nos \u00faltimos seis meses, os casos de justi\u00e7amento na esquerda durante a ditadura. Quatro foram confirmados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Francisco Jacques, foram condenados \u00e0 morte e executados pela ALN M\u00e1rcio Leite de Toledo e Carlos Alberto Maciel Cardoso. No PCBR (Partido Comunista Brasileiro Revolucion\u00e1rio), o &#8220;justi\u00e7ado&#8221; foi Salatiel Teixeira Rolim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os crimes s\u00e3o confirmados por parentes, militares, ex-guerrilheiros, al\u00e9m de registros oficiais. A reportagem se limitou a casos de esquerdistas assassinados por colegas. Nenhum dos quatro, perseguidos e presos pela ditadura, \u00e9 reconhecido pelo Estado como v\u00edtima do per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">FRANCISCO JACQUES O irm\u00e3o de Cl\u00e1udio foi preso no DOI-Codi (centro de repress\u00e3o do Ex\u00e9rcito) carioca, na Tijuca, em abril de 1973. Embora militasse na nanica RAN (Resist\u00eancia Armada Nacional), n\u00e3o era da ala armada: agia entre professores e intelectuais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De acordo com uma obra oficiosa produzida pela intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito a partir de 1985 para dar sua vers\u00e3o sobre o per\u00edodo, intitulada &#8220;Orvil &#8211; O Livro Negro do Terrorismo&#8221;, antes da pris\u00e3o Francisco Jacques &#8220;recebeu de um colega algumas armas do lote roubado da Guarda Noturna&#8221; do Rio. Pelo relato, as armas foram repassadas a Merival de Ara\u00fajo, da ALN, amigo e ex-aluno que Francisco Jacques convidou para a luta contra a ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na pris\u00e3o, o professor foi submetido a choques el\u00e9tricos, espancamentos, queimaduras. &#8220;Ele ficou desfigurado, a cabe\u00e7a estava toda queimada de cigarro. Foi horr\u00edvel&#8221;, conta sua irm\u00e3 mais velha, a aposentada Consuelo Alvarenga, 83, que o viu ao ser libertado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um de seus algozes, revela agora o irm\u00e3o Cl\u00e1udio Heitor, foi o major Euclides da Silva Chignall, seu ex-colega na Academia Militar das Agulhas Negras. Daquela turma de 1954 sa\u00edram outros tr\u00eas militares que, anos mais tarde, seriam acusados de crimes de lesa-humanidade na ditadura: Carlos Alberto Brilhante Ustra, Audir Maciel e \u00c1tila Rohrsetzer.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chignall n\u00e3o foi localizado pela Folha. Ustra afirma que o viu pela \u00faltima vez h\u00e1 &#8220;uns seis anos, numa festa militar&#8221;, e que nunca mais teve not\u00edcias dele.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As diferen\u00e7as entre Cl\u00e1udio e seus quatro colegas de Agulhas Negras j\u00e1 eram claras em 1954. Em agosto, Cl\u00e1udio se manteve longe da Rep\u00fablica do Gale\u00e3o, grupo de civis e militares que se reunia na base a\u00e9rea para conspirar contra Get\u00falio Vargas: juntou-se \u00e0 defesa do Pal\u00e1cio do Catete, logo ap\u00f3s o suic\u00eddio do presidente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fez amizades na esquerda, conheceu Carlos Marighella, ex-deputado e fundador da ALN, figura central na luta contra a ditadura. Legalista, se op\u00f4s ao golpe em 64 e acabou expulso da corpora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O Francisco me contou que, na tortura, Chignall o chamava de &#8216;filho da puta&#8217;, &#8216;irm\u00e3o de filho da puta'&#8221;, disse Cl\u00e1udio, 79, no apartamento paulistano onde passa parte do ano, quando n\u00e3o est\u00e1 no sul de Minas, trabalhando com caf\u00e9. &#8220;Queriam obrig\u00e1-lo a entregar Merival, seu ex-aluno. Para isso, o levaram para uma sess\u00e3o de tortura no apartamento da minha m\u00e3e, na frente dela. Amea\u00e7aram espanc\u00e1-la, ele cedeu.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Francisco Jacques marcou um encontro com Merival de Ara\u00fajo, como a repress\u00e3o exigiu, pr\u00f3ximo ao apartamento onde ele vivia com a m\u00e3e, Clymene, no bairro das Laranjeiras. Entregue pelo amigo, Merival foi morto no DOI-Codi. O corpo, mutilado segundo a aut\u00f3psia, foi enterrado como indigente num cemit\u00e9rio da zona norte do Rio. A fam\u00edlia nunca viu os restos mortais, removidos mais tarde para uma vala clandestina.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A morte do Merival foi muito chocante&#8221;, diz Maria do Amparo de Ara\u00fajo, 62, ex-integrante da ALN. &#8220;Ele tinha o Jacques quase como um pai, o respons\u00e1vel por sua forma\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Guerrilheira aguerrida, Amparo ficou vi\u00fava tr\u00eas vezes na ditadura -seus companheiros foram todos mortos pela repress\u00e3o- e tem o irm\u00e3o, Luiz, desaparecido desde 1971. Com a morte de Merival, foi escalada para organizar o justi\u00e7amento de Francisco Jacques.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Recebi a tarefa de observar uma pessoa, como observava muitas outras coisas&#8221;, disse Amparo, hoje secret\u00e1ria de Direitos Humanos da prefeitura do Recife. &#8220;Monitorei ele por uma semana.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Seu companheiro \u00e0 \u00e9poca, Thomaz Meirelles, \u00e9 apontado pela intelig\u00eancia do Ex\u00e9rcito com um dos quatro participantes da a\u00e7\u00e3o. Preso em 1974, permanece desaparecido. Amparo evita comentar a participa\u00e7\u00e3o dele: afirma que tomou conhecimento do assassinato pelos jornais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fazia parte da conjuntura da \u00e9poca. Est\u00e1vamos preparados para tudo. E t\u00ednhamos uma disciplina, pod\u00edamos ser punidos&#8221;, conta ela. &#8220;Uma vez, por ter sa\u00eddo para passear, tive que moer 10 quilos de permanganato [para fazer bombas]. N\u00e3o vou entrar no m\u00e9rito, se faria de novo, se estava certo ou errado. Assumo minha responsabilidade, que \u00e9 a mesma tendo feito o levantamento ou se eu tivesse apertado o gatilho.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">CARLOS ALBERTO Dois anos antes, outro militante da ALN passara pelo &#8220;tribunal revolucion\u00e1rio&#8221;: Carlos Alberto Maciel Cardoso, 25, foi morto no Rio em novembro de 1971. Era o segundo justi\u00e7amento da esquerda na ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A morte foi assim justificada pela ALN em texto publicado em seu jornal &#8220;A\u00e7\u00e3o&#8221;: &#8220;Tratava-se de um traidor, ex-membro da ALN que, preso pela Pol\u00edcia Federal, aceitara suas propostas de entregar companheiros e fornecer informa\u00e7\u00f5es. Descoberto, foi sumariamente julgado e fuzilado por um comando da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cardoso era um dos militares envolvidos na revolta dos marinheiros, no come\u00e7o de 1964, colega do agente duplo Jos\u00e9 Anselmo dos Santos, o Cabo Anselmo. Com o golpe, Cardoso foi preso e expulso da Marinha, retornando a seu Par\u00e1 natal ap\u00f3s sair da pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1971, j\u00e1 na ALN e de volta ao Rio, foi preso mais uma vez. Documento da Abin (Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia), de 2004, detalha a vida e a morte do militante:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ap\u00f3s sua pris\u00e3o, foi transferido para o Cenimar [Centro de Intelig\u00eancia da Marinha]. No dia seguinte, prestou declara\u00e7\u00f5es sobre suas atividades e concordou em passar a trabalhar para os \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a. Para isso, foi solto para cobrir um &#8216;ponto&#8217; na Tijuca. Na ocasi\u00e3o, ficou estabelecido que depois do &#8216;ponto&#8217; com a ALN faria um contato com integrantes do Cenimar, o que n\u00e3o aconteceu. No dia 13, foi morto [&#8230;]. Foram reconhecidos dois banidos e uma foragida como executantes do que indicava ser um justi\u00e7amento.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos executores era Ant\u00f4nio Carlos Nogueira Cabral, o &#8220;Alfredo&#8221;, que em 1972 seria assassinado no DOI-Codi carioca. Quem conta \u00e9 sua ent\u00e3o companheira, a m\u00e9dica L\u00eddia Guerlenda: &#8220;Ele me contou esse epis\u00f3dio bastante abalado. Disse que Carlos Alberto fugiu, entrou em uma casa, e eles tiveram que correr atr\u00e1s, dando tiros. Sei que foi muito traum\u00e1tico, houve um corre-corre no meio da rua&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O caso revela como essas v\u00edtimas vivem num limbo. Sua fam\u00edlia tentou duas vezes o reconhecimento de que ele foi v\u00edtima do per\u00edodo pela Comiss\u00e3o Especial de Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os pedidos foram negados, com base na lei n\u00ba 9.140, de 1995. Aplicada tamb\u00e9m na Comiss\u00e3o de Anistia, do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, que concede indeniza\u00e7\u00f5es, a lei foi aprovada de maneira restritiva e s\u00f3 abarca as v\u00edtimas de crimes do Estado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">M\u00c1RCIO TOLEDO O primeiro &#8220;justi\u00e7ado&#8221; durante a ditadura foi M\u00e1rcio Leite de Toledo, em mar\u00e7o de 1971. Foi executado com mais de dez tiros na rua Ca\u00e7apava, nos Jardins, em S\u00e3o Paulo, onde tinha um &#8220;ponto&#8221; com um colega de organiza\u00e7\u00e3o. Tinha 26 anos. Um dos comandantes da ALN, M\u00e1rcio estava descontente com os rumos da luta armada: julgava-a cada vez mais distante do povo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ALN decidiu justi\u00e7\u00e1-lo num momento em que seus principais l\u00edderes estavam mortos, ca\u00eddos por dela\u00e7\u00e3o de companheiros. Primeiro tombou Carlos Marighella, em novembro de 1969, assassinado a tiros na alameda Casa Branca, na capital paulista. No ano seguinte, morreu, numa sess\u00e3o de tortura, o jornalista Joaquim C\u00e2mara Ferreira, sucessor de Marighella. Na tentativa de evitar mais baixas, a ALN recorreu aos justi\u00e7amentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Presente em quase todas as revolu\u00e7\u00f5es e lutas armadas da hist\u00f3ria, a pr\u00e1tica estava viva na cartilha revolucion\u00e1ria dos anos 60 e 70. Em Cuba, era quase rotina. Em seus di\u00e1rios da campanha de Sierra Maestra, na d\u00e9cada de 50, Che Guevara narra como executou um colega que fraquejara. Che descreveu com frieza seu primeiro assassinato -mas, m\u00e9dico que era, com grande precis\u00e3o cient\u00edfica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, Elza Fernandes, 16, j\u00e1 havia sido enforcada em 1936, pela suspeita de trair os comunistas. A decis\u00e3o, sem base em provas, foi tomada pelo l\u00edder Lu\u00eds Carlos Prestes (1898-1990). O caso \u00e9 narrado no romance hist\u00f3rico &#8220;Elza, a Garota&#8221; (Nova Fronteira, 2008), de S\u00e9rgio Rodrigues.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">M\u00e1rcio conhecia bem Cuba, onde treinara guerrilha no final dos anos 1960. Filho de integralista, nascido na fam\u00edlia propriet\u00e1ria do pr\u00f3spero ITE (Instituto Toledo de Ensino), em Bauru, &#8220;optou conscientemente pela luta armada&#8221;, afirma o irm\u00e3o Ant\u00f4nio Eufr\u00e1sio de Toledo Filho, o Toledinho, 70.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">L\u00eddia Guerlenda recorda uma a\u00e7\u00e3o de que participou com M\u00e1rcio, semanas antes de sua morte. Achou-o displicente. &#8220;Ele era o &#8216;matraqueiro&#8217;, respons\u00e1vel por dar cobertura aos colegas na a\u00e7\u00e3o com uma metralhadora&#8221;, diz. &#8220;\u00c9ramos quatro, e ele deixou a metralhadora no banco do carro, p\u00f4s a m\u00e3o no bolso e ficou assobiando. Talvez fosse uma maneira de aliviar a tens\u00e3o, sei l\u00e1, mas a atitude dele deixou todos indefesos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Carlos Eug\u00eanio Paz, 62, esteve no comando da ALN em sua fase final. Participou de in\u00fameras a\u00e7\u00f5es armadas e execu\u00e7\u00f5es. Nunca foi preso. Diz que muitos ex-companheiros n\u00e3o falam mais com ele por ter assumido publicamente a responsabilidade nesses epis\u00f3dios. Amparo diz passar pela mesma situa\u00e7\u00e3o. Ambos aceitam colaborar com a Comiss\u00e3o da Verdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pupilo de Marighella, Carlos Eug\u00eanio come\u00e7ou a militar aos 16 anos. Infiltrou-se no Ex\u00e9rcito, onde atuou por alguns anos antes de desertar e cair na clandestinidade. Hoje \u00e9 professor de m\u00fasica no Rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como comandante da ALN, participou do justi\u00e7amento de M\u00e1rcio e referendou outros, como o de Carlos Alberto Maciel Cardoso. Foi um dos atiradores na a\u00e7\u00e3o que matou o industrial Henning Albert Boilesen, em 1971, um dos financiadores da Oban (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante), bra\u00e7o da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A ALN estava vivendo anos terr\u00edveis, come\u00e7amos a perceber que t\u00ednhamos que tomar medidas de defesa&#8221;, Carlos Eug\u00eanio contou na sede estadual do PSB, no largo da Carioca. &#8220;Se fosse detectado que uma pessoa ia ser presa ou cair, ajudando com informa\u00e7\u00f5es que levassem \u00e0 derrubada da organiza\u00e7\u00e3o, oferec\u00edamos a oportunidade de deixar o pa\u00eds, como fizemos com M\u00e1rcio. Como ele n\u00e3o aceitou, a organiza\u00e7\u00e3o iria justi\u00e7ar.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Carlos Eug\u00eanio tentou uma cadeira na C\u00e2mara dos Deputados em 2010, usando seu codinome dos tempos da ditadura, &#8220;Clemente&#8221;, mas n\u00e3o se elegeu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;M\u00e1rcio foi o primeiro. N\u00e3o havia maneira de enfrentar a quest\u00e3o. A ALN tomou essa medida corretamente, medidas que s\u00f3 se tomam em tempos de guerra. \u00c9 uma medida extrema e irrevers\u00edvel, temos que conviver com ela.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O manifesto deixado com o cad\u00e1ver argumenta que a morte era necess\u00e1ria para resguardar a organiza\u00e7\u00e3o. Num dos bolsos de M\u00e1rcio, haveria uma carta em que a v\u00edtima manifestava o desejo de recuar na luta armada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois dias antes de morrer, M\u00e1rcio visitou um primo em S\u00e3o Paulo, o empres\u00e1rio Francisco Jos\u00e9 de Toledo, hoje com 71 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ele tinha dito que queria unificar todas as organiza\u00e7\u00f5es da oposi\u00e7\u00e3o contra o regime. E comentou o desejo de, antes do recuo, armar uma opera\u00e7\u00e3o contra o delegado S\u00e9rgio Fleury, o grande carrasco da esquerda brasileira&#8221;, disse Toledo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fleury esteve no local do crime para reconhecer o cad\u00e1ver de M\u00e1rcio, um dos terroristas mais procurados pela repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Toledinho, o irm\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i: &#8220;Ele tinha plena consci\u00eancia das circunst\u00e2ncias, tenho muito orgulho dele e das op\u00e7\u00f5es que tomou&#8221;. Sobre Carlos Eug\u00eanio, o irm\u00e3o de M\u00e1rcio diz que ele est\u00e1 &#8220;condenado pela consci\u00eancia&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">SALATIEL ROLIM O quarto justi\u00e7amento na esquerda \u00e9 do militante Salatiel Teixeira Rolim, em julho de 1973. Quase septuagen\u00e1rio, ele foi morto a tiros no bar em que trabalhava, no Leblon, pouco depois de deixar a pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na \u00e9poca, Salatiel estava desligado das atividades pol\u00edticas. O PCBR o acusou, sem provas, de desviar dinheiro do partido para uso pessoal e de delatar o militante M\u00e1rio Alves, morto pela repress\u00e3o. O procedimento, semelhante ao da ALN, incluiu picha\u00e7\u00e3o com a sigla do partido e um panfleto, assinado pelo &#8220;Comando M\u00e1rio Alves&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo o historiador Jacob Gorender, um dos fundadores do PCBR, tr\u00eas pessoas participaram do homic\u00eddio, que ele descreve no livro &#8220;Combate nas Trevas&#8221; (\u00c1tica, 1987) como uma a\u00e7\u00e3o &#8220;sem conte\u00fado pol\u00edtico&#8221;, tratando-se de &#8220;um ato de vingan\u00e7a, um assassinato&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;\u00c9 verdade que suas informa\u00e7\u00f5es \u00e0 pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito marcaram o in\u00edcio da cat\u00e1strofe do PCBR em janeiro de 1970, mas n\u00e3o se deve omitir as torturas, que o esmagaram, nem a responsabilidade de outros inimigos&#8221;, escreve Gorender. &#8220;Salatiel n\u00e3o passou para o lado do inimigo.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-preso pol\u00edtico e professor de f\u00edsica aposentado Jeferson Barbosa se lembra com carinho do &#8220;velho Sala&#8221;. Eles ficaram amigos na pris\u00e3o, na virada dos anos 70. &#8220;\u00c9ramos jovens, entre 20 e 25 anos. Salatiel era experiente, tinha j\u00e1 65&#8221;, conta. &#8220;Sabia tudo de escola de samba e Carnaval, e at\u00e9 deu um curso na pris\u00e3o. Tudo que sei de cultura carioca aprendi com ele.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Vivendo em Bauru, o amigo de Salatiel diz que o pretexto de sua morte &#8220;\u00e9 uma piada de mau gosto, espalhada por canalhas&#8221;. &#8220;Historicamente falando, os justi\u00e7amentos s\u00e3o uma grande injusti\u00e7a. No caso do Salatiel, armaram uma canalhice. As explica\u00e7\u00f5es apresentadas s\u00e3o todas fantasiosas. Ele \u00e9 her\u00f3i da luta armada revolucion\u00e1ria.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">ESPIRAL A escalada da viol\u00eancia nos anos 1960, com a\u00e7\u00f5es contra a ditadura desencadeando o aumento da for\u00e7a da repress\u00e3o, provocou uma espiral com reflexos nas organiza\u00e7\u00f5es armadas. A repress\u00e3o era justificada como uma medida adequada \u00e0 amea\u00e7a terrorista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os justi\u00e7amentos vieram nesse contexto -e por pouco n\u00e3o detonaram nova onda de viol\u00eancia. Cl\u00e1udio Heitor Alvarenga, pela primeira vez, admitiu \u00e0 Folha que tentou vingar o irm\u00e3o morto.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sobreviveram \u00e0 ditadura apenas dois dos participantes do justi\u00e7amento de seu irm\u00e3o Francisco Jacques: Amparo e um homem que Cl\u00e1udio diz n\u00e3o lembrar quem \u00e9. Amparo afirma desconhec\u00ea-lo. Carlos Eug\u00eanio Paz cita um amigo, Fl\u00e1vio Augusto Le\u00e3o Sales, do Rio, ex-integrante da ALN que teria participado da a\u00e7\u00e3o. Hoje trabalhando com inform\u00e1tica, Sales nada fala sobre a luta armada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Cl\u00e1udio, o participante era um professor carioca, que conviveu com seu irm\u00e3o. &#8220;Ainda nos anos 70 fui atr\u00e1s dele na escola onde trabalhava. Entrei armado, para mat\u00e1-lo&#8221;, conta. &#8220;Mas, quando cheguei, o vi com a filha, que era pequena. Desisti.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ele diz ter tomado conhecimento da participa\u00e7\u00e3o de Amparo em fins dos anos 90, ao ler &#8220;Mulheres que Foram \u00e0 Luta Armada&#8221; (Globo, 1998), do jornalista Luiz Maklouf Carvalho, no qual ela conta a hist\u00f3ria pela primeira vez.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mulher n\u00e3o se mata, eu ia jogar \u00e1cido para manch\u00e1-la&#8221;, afirma o ex-capit\u00e3o, anistiado da expuls\u00e3o do Ex\u00e9rcito, na d\u00e9cada de 60. Ele garante que o desejo de vingan\u00e7a ficou para tr\u00e1s, apesar do ressentimento, que diz ser latente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o aceito a palavra justi\u00e7amento, para mim \u00e9 assassinato. Me sinto v\u00edtima dos dois lados. Mais de uma vez vi que a virtude est\u00e1 no meio. O meu colega de turma que o torturou, o que \u00e9 aquilo? Um lixo. E os malucos da extrema esquerda, outro lixo.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Queriam obrigar Francisco a entregar seu ex-aluno. Por isso, o levaram a uma sess\u00e3o de tortura na frente da minha m\u00e3e. Amea\u00e7aram espanc\u00e1-la, ele cedeu&#8221;, diz Cl\u00e1udio Heitor<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fazia parte da conjuntura da \u00e9poca. Est\u00e1vamos preparados para tudo. E t\u00ednhamos uma disciplina, pod\u00edamos ser punidos&#8221;, conta Amparo, que &#8220;justi\u00e7ou&#8221; Francisco Jacques<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Mulher n\u00e3o se mata, eu ia jogar \u00e1cido [em Amparo de Ara\u00fajo], para manch\u00e1-la&#8221;, afirma o irm\u00e3o de Francisco Jacques. Ele diz que o desejo de vingan\u00e7a ficou para tr\u00e1s<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;M\u00e1rcio foi o primeiro. A ALN tomou essa medida corretamente, medidas que s\u00f3 se tomam em tempos de guerra. \u00c9 uma medida extrema e irrevers\u00edvel&#8221;, diz Carlos Eug\u00eanio Paz<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No auge da repress\u00e3o da ditadura militar (1964-85), nos anos 70, grupos armados de esquerda recorreram a &#8220;justi\u00e7amentos&#8221; -execu\u00e7\u00f5es de militantes acusados de trai\u00e7\u00e3o. Nos quatro casos investigados pela Folha, sobreviventes recordam lances de hero\u00edsmo e expressam desejo de vingan\u00e7a e de repara\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1249"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1249\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1249"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1249"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1249"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}