{"id":1262,"date":"2012-06-21T21:07:36","date_gmt":"2012-06-21T21:07:36","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/21\/a-comunista-gilse-cosenza-narra-torturas-2\/"},"modified":"2012-06-21T21:07:36","modified_gmt":"2012-06-21T21:07:36","slug":"a-comunista-gilse-cosenza-narra-torturas-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/21\/a-comunista-gilse-cosenza-narra-torturas-2\/","title":{"rendered":"A comunista Gilse Cosenza narra torturas"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornal Estado de Minas publica hoje (21) reportagem assinada pela jornalista Sandra Kiefer sobre os horrores da ditadura militar no Brasil, que tem, entre os entrevistados, a militante do PCdoB, Gilse Cosenza, a primeira v\u00edtima do regime de exce\u00e7\u00e3o indenizada e que conta as barb\u00e1ries sofridas nos por\u00f5es das pris\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1260\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/06\/gilse3.jpg14965.jpg\" border=\"0\" width=\"218\" height=\"327\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Com o t\u00edtulo \u201cRelatos de horror sobre a ditadura est\u00e3o escondidos no anonimato\u201d, a reportagem tem a colabora\u00e7\u00e3o do jornalista Luiz Ribeiro:<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO depoimento pessoal de Dilma Rousseff, que 30 anos depois de sofrer tortura em Juiz de Fora seria eleita presidente do Brasil, \u00e9 apenas uma parte num conjunto de 916 pe\u00e7as de horror que estavam at\u00e9 agora esquecidas na \u00faltima sala do Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), no Edif\u00edcio Maletta, no Centro de Belo Horizonte. Nesse teatro de barb\u00e1rie e agonias, n\u00e3o h\u00e1 protagonistas. S\u00e3o hist\u00f3rias de centenas de militantes pol\u00edticos de Minas torturados na frente de seus beb\u00eas, homens casados que se tornaram est\u00e9reis por levar choque nos \u00f3rg\u00e3os genitais e mulheres que seriam violadas no anonimato das celas pelos seus algozes.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Uma das t\u00e9cnicas mais s\u00e1dicas de tortura era a da \u201clatinha\u201d. \u201cA primeira coisa que eles faziam era arrancar a roupa da gente e deixar completamente nua. Depois, colocavam descal\u00e7a em cima de duas latinhas abertas, como a de salsicha, com as bordas afundando no p\u00e9. A gente tinha de aguentar at\u00e9 n\u00e3o poder mais. Se ca\u00edsse ou descesse, era espancada por eles. Era um tipo de crueldade abaixo do n\u00edvel humano. Era bestial\u201d, revela o trecho de uma das v\u00edtimas, que permanece aqui no anonimato.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Outro \u201cm\u00e9todo\u201d relatado nas pris\u00f5es mineiras n\u00e3o envolvia o emprego da viol\u00eancia f\u00edsica. Na verdade, nem precisava. Seu teor era psicol\u00f3gico. Era usada principalmente com m\u00e3es ou gr\u00e1vidas. Tratava-se de colocar uma crian\u00e7a engatinhando em cima de uma mesa para for\u00e7ar a \u201cconfiss\u00e3o\u201d da torturada. Caso ela n\u00e3o falasse, o torturador avisava que a crian\u00e7a poderia cair. \u201cManusearam meu corpo, torceram o bico dos meus seios e enfiaram a m\u00e3o em mim. Um dia, eu estava arrebentada depois de ter sido torturada das 19h at\u00e9 as 5h da manh\u00e3 quando fui estuprada pelo sargento Leo, da PM\u201d, conta Gilse Westin Cosenza, hoje aos 68 anos, a primeira da lista de 53 pessoas indenizadas pela comiss\u00e3o mineira, em 2002.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Filha<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando foi presa, aos 25 anos, Gilse era vice-presidente do Diret\u00f3rio Central dos Estudantes (DCE) da PUC Minas. Ela foi levada para a cadeia com o marido, o vice-presidente do DCE da UFMG, o estudante de economia Abel Rodrigues Avelar. Os dois pertenciam \u00e0 organiza\u00e7\u00e3o A\u00e7\u00e3o Popular (AP). De todas as sess\u00f5es de humilha\u00e7\u00e3o sofridas pela ent\u00e3o estudante do curso de servi\u00e7o social, para Gilse a pior envolveu a filha Juliana, aos 4 meses. \u201cA passagem mais barra pesada, de tudo o que relatei \u00e0 comiss\u00e3o de Minas, envolveu minha filha, que hoje est\u00e1 bem, tem 43 anos, \u00e9 analista de sistemas e trabalha no TRE, no Rio de Janeiro. Na \u00e9poca, eles quase me enlouqueceram dizendo que iriam peg\u00e1-la, que eles iriam encontr\u00e1-la onde ela estivesse e que eu deveria falar o que eles queriam ouvir. Com todas as minhas for\u00e7as, eu desejei ficar louca antes\u201d, desabafa a militante, que 15 dias antes de ser presa havia entregado o beb\u00ea \u00e0 irm\u00e3 Gilda, casada com Henrique Sousa Filho, o cartunista Henfil, que ela chama de Henriquinho.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ao reencontrar a filha, Juliana estava perto de completar 2 anos. S\u00f3 ent\u00e3o aprendeu a falar mam\u00e3e e papai, conhecendo os pr\u00f3prios pais. No longo per\u00edodo em que permaneceu presa, Gilse n\u00e3o apenas n\u00e3o enlouqueceu, como tamb\u00e9m nunca desistiu de lutar pela volta da democracia no Brasil. \u201cSou privilegiada. Muitos ficaram afetados psicologicamente pela tortura e nunca conseguiram se reerguer. Em cada uma das fam\u00edlias brasileiras que viveram na nossa \u00e9poca, \u00e9 rara aquela que n\u00e3o tem uma pessoa morta, torturada, banida do pa\u00eds ou que tenha perdido o emprego durante o regime militar\u201d, compara. Ela promete: \u201cOs torturadores ainda est\u00e3o impunes. Jurei que enquanto estiver viva n\u00e3o vou parar de lutar por um pa\u00eds justo para nossos filhos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Exemplo de vida<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando flagra uma manifesta\u00e7\u00e3o na pra\u00e7a principal de Te\u00f3filo Otoni, o ex-militante da causa oper\u00e1ria Tim Garrocho, com a autoridade que lhe concedem seus 82 anos, n\u00e3o consegue se segurar. Aproxima-se dos manifestantes, puxa um deles no canto, pelo bra\u00e7o, e diz ao p\u00e9 do ouvido: \u201cVoc\u00ea pode at\u00e9 n\u00e3o saber disso, mas ajudei voc\u00eas a estarem hoje reunidos aqui na pra\u00e7a\u201d. Celebridade no Vale do Mucuri, Tim \u00e9 exemplo de vida para os tr\u00eas filhos leg\u00edtimos (ganhados antes de ficar preso em 12 locais diferentes), tr\u00eas filhos adotivos, cerca de 20 netos e cinco bisnetos. Segundo Tim, o oper\u00e1rio que mais apanhou em Minas foi o Porf\u00edrio Francisco de Souza. \u201cEu o vi entrando na pris\u00e3o, ainda forte, e no final, irreconhec\u00edvel\u201d, afirma.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Porf\u00edrio, militante do extinto Partido Comunista Brasileiro (PCB), morreu em 2004 em Montes Claros, aos 84 anos. \u201cAl\u00e9m de choques el\u00e9tricos e ter levado no pau de arara, ele sofreu com agulhadas nos dedos, entre as unhas. Chegaram at\u00e9 a arrancar as unhas dele na sede do antigo Dops, em BH, em 1969, logo depois do AI-5\u201d, conta o aposentado e ex-soldado da Pol\u00edcia Militar Aran Francisco de Matos, de 65, sobrinho do ex-militante.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sangue<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u201cAquela cambada n\u00e3o respeitava ningu\u00e9m. Em Governador Valadares, quebraram meu bra\u00e7o esquerdo e me chutaram at\u00e9 eu vomitar sangue\u201d, revela, sem esconder a raiva, Tim Garrocho, ex-l\u00edder sindical, que antes de ser preso chegou a ter tr\u00eas mandatos de vereador. \u201cDepois do golpe, n\u00e3o pude crescer politicamente. Eles me liquidaram, minha esposa ficou adoentada e eu tive de vender muita coisa para me sustentar. Hoje n\u00e3o tenho nem aposentadoria, pois n\u00e3o consegui comprovar meus direitos pol\u00edticos\u201d, afirma. Com a terceira mat\u00e9ria sobre a tortura de Dilma nas m\u00e3os, Tim Garrocho, que acompanha desde a primeira, d\u00e1 sua opini\u00e3o. \u201cSe a presidente tem mem\u00f3ria de elefante, a minha \u00e9 de 100 elefantes. Meu torturador era Klinger Sobreira de Almeida, que na \u00e9poca era tenente em Valadares. Antes de bater, ele tirava o rel\u00f3gio, para n\u00e3o se machucar. N\u00e3o me esque\u00e7o disso\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O jornal Estado de Minas publica hoje (21) reportagem assinada pela jornalista Sandra Kiefer sobre os horrores da ditadura militar no Brasil, que tem, entre os entrevistados, a militante do PCdoB, Gilse Cosenza, a primeira v\u00edtima do regime de exce\u00e7\u00e3o indenizada e que conta as barb\u00e1ries sofridas nos por\u00f5es das pris\u00f5es.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1262"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1262"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1262\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1262"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1262"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1262"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}