{"id":12773,"date":"2019-04-01T20:51:41","date_gmt":"2019-04-01T20:51:41","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=12773"},"modified":"2019-04-01T20:51:41","modified_gmt":"2019-04-01T20:51:41","slug":"7-crimes-que-derrubam-a-tese-de-que-a-ditadura-so-perseguiu-terroristas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2019\/04\/01\/7-crimes-que-derrubam-a-tese-de-que-a-ditadura-so-perseguiu-terroristas\/","title":{"rendered":"7 crimes que derrubam a tese de que a ditadura s\u00f3 perseguiu \u201cterroristas\u201d"},"content":{"rendered":"<div class=\"vc_row wpb_row vc_row-fluid eltdf-section eltdf-content-aligment-left\">\n<div class=\"clearfix eltdf-full-section-inner\">\n<div class=\"wpb_text_column wpb_content_element \">\n<div class=\"wpb_wrapper\">\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Tortura de crian\u00e7as, cobertura a casos de pedofilia que chocaram o pa\u00eds e outros casos desmentem o mito propagado por admiradores do regime<\/h3>\n<\/div>\n<\/div>\n<div class=\"vc_empty_space\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">A lista de crimes cometidos sob a anu\u00eancia, ou sob influ\u00eancia direta da ditadura militar \u00e9 chocante. E extensa. Para al\u00e9m dos casos envolvendo a pris\u00e3o, morte e tortura de advers\u00e1rios pol\u00edticos, o regime tamb\u00e9m acobertou crimes contra cidad\u00e3os cujo envolvimento nas chamadas\u00a0<em>atividades subversivas<\/em>\u00a0jamais foi atestado. Inclusive crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seja pelo sequestro de filhos de militantes capturados, seja acobertando os casos de pedofilia que chocaram o pa\u00eds nos anos 70, o fato \u00e9 que o mito propagado pelos admiradores do regime, de que a ditadura s\u00f3 teria punido \u201cterroristas\u201d n\u00e3o passa de ilus\u00e3o revisionista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Verdade concluiu, em 2014, que 434 pessoas morreram ou desapareceram durante as duas d\u00e9cadas e meia de ditadura. Tamb\u00e9m foram assassinados, conforme o relat\u00f3rios, 8.350 ind\u00edgenas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Confira a seguir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Araceli e Ana L\u00eddia: horror e impunidade<\/strong><\/p>\n<figure class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-66522\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/araceli-ana-lidia.png\" sizes=\"(max-width: 596px) 100vw, 596px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/araceli-ana-lidia.png 596w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/araceli-ana-lidia-300x200.png 300w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/araceli-ana-lidia-420x280.png 420w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/araceli-ana-lidia-128x86.png 128w\" alt=\"\" \/><\/figure>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os casos t\u00eam muito em comum. As duas meninas, assassinadas brutalmente, e cujos culpados jamais foram punidos por influ\u00eancia da ditadura. Araceli e Ana L\u00eddia foram mortas, respectivamente, em maio e setembro de 1973 \u2014 a primeira em Vit\u00f3ria e Ana L\u00eddia, em Bras\u00edlia . Tinham entre 7 e 8 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Araceli Crespo ficou sequestrada por dois dias, durante os quais for repetidamente estuprada e dopada. Foi encontrada morta seis dias depois, em um matagal. Dos dois principais suspeitos do crime, um era filho de Dante Michelini, um latifundi\u00e1rio que gozava de grande influ\u00eancia junto ao governo militar. A den\u00fancia da \u00e9poca mostrava que Michelini pai havia usado as suas liga\u00e7\u00f5es para dificultar as investiga\u00e7\u00f5es. Apesar de terem sido condenados, os acusados sairiam impunes depois que a senten\u00e7a foi anulada nas inst\u00e2ncias superiores.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No caso de Ana L\u00eddia Braga, a investiga\u00e7\u00e3o foi abafada assim que come\u00e7aram a aparecer suspeitas de que o filho do ent\u00e3o Ministro da Justi\u00e7a, Alfredo Buzaid, estaria envolvido no crime. Em 1974, a ditadura emitiria uma ordem expressa \u00e0 imprensa proibindo falar do crime. O processo acabou sendo arquivado sem que se avan\u00e7asse nas investiga\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Carlos Alexandre Azevedo, torturado ainda beb\u00ea<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 considerado o mais jovem preso pol\u00edtico a ser torturado no Brasil. Carlos Eduardo tinha apenas 1 anos e oito meses quando os policiais invadiram a casa de sua fam\u00edlia, em S\u00e3o Paulo, e o arrastaram para a sede do Deops, em S\u00e3o Paulo. A m\u00e3e seria presa horas depois. O pai, o jornalista Dermi Azevedo, j\u00e1 estava l\u00e1. A equipe liderada pelo delegado S\u00e9rgio Fleury, levou o beb\u00ea at\u00e9 S\u00e3o Bernardo do Campo e o torturou por quinze horas com choques el\u00e9tricos e pancadas. Cac\u00e1, como era chamado, nunca se recuperou dos traumas sofridos \u00e0quela \u00e9poca. O caso voltou ganhou notoriedade em 2010, quando ele foi finalmente reconhecido como v\u00edtima da ditadura. Em entrevista \u00e0\u00a0<em>Isto\u00e9<\/em>\u00a0na \u00e9poca, ele revelou sofrer fobia social desde a inf\u00e2ncia, e que usava antipsic\u00f3ticos e antidepressivos. Cometeu suic\u00eddio tr\u00eas anos mais tarde, aos 40 anos de idade.<\/p>\n<div id=\"D_interna_middle\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Madre Maurina<\/strong><\/p>\n<h5 class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-66519\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/madre-maurina.jpg\" sizes=\"(max-width: 740px) 100vw, 740px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/madre-maurina.jpg 740w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/madre-maurina-300x178.jpg 300w\" alt=\"\" \/>Madre Maurina e Dom Paulo Evaristo Arns, quando a religiosa voltou ao Brasil ap\u00f3s o ex\u00edlio (Memorial da Democracia\/Reprodu\u00e7\u00e3o\/CPDocJB)<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Madre Maurina foi a \u00fanica freira presa e torturada pela ditadura, sem qualquer prova formal. Foi detida em 1969, em frente ao orfanato de meninas que coordenava, em Ribeir\u00e3o Preto. Na \u00e9poca, o lugar palco tamb\u00e9m de reuni\u00f5es de jovens cedido para de associa\u00e7\u00f5es crist\u00e3s de jovens. Uma delas, por\u00e9m, era disfarce para um movimento revolucion\u00e1rio. Sem saber, Maurina deu guarida a militantes das For\u00e7as Armadas da Liberta\u00e7\u00e3o Nacional (Faln), que ela havia pensado fazerem parte do Movimento Estudantil Jovem (MEJ). Quando a c\u00e9lula foi desmantelada, os policiais chegaram \u00e0 religiosa. Durante cinco meses, Madre Maurina foi torturada, submetida a sess\u00f5es no pau de arara e a choque el\u00e9trico. Uma colega de cela relatou \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade em 2014 que Maurina tamb\u00e9m era estuprada pelos torturadores. Ela s\u00f3 admitiria a viol\u00eancia \u00e0 jornalista Denise Assis, autora de um livro inspirado na hist\u00f3ria da religiosa, mas jamais confirmou a hist\u00f3ria publicamente. Libertada, mas jamais inocentada pelo regime, passou 15 anos em ex\u00edlio for\u00e7ado no M\u00e9xico. Morreu aos 2011, aos 84 anos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Irm\u00e3os Nascimento: pris\u00e3o e ex\u00edlio<\/strong><\/p>\n<h5 class=\"wp-block-image\" style=\"text-align: justify;\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-66521\" src=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/criancas-dops-1.jpg\" sizes=\"(max-width: 666px) 100vw, 666px\" srcset=\"https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/criancas-dops-1.jpg 666w, https:\/\/www.cartacapital.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/03\/criancas-dops-1-300x169.jpg 300w\" alt=\"\" \/>Zuleide e dois de seus irm\u00e3os: fichados no Dops como terroristas<\/h5>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">As fotos carimbadas pelo Dops n\u00e3o deixam d\u00favidas: eis a\u00ed perigosos (e pequenos) terroristas. Zuleide Nascimento tinha s\u00f3 quatro anos quando foi \u201ccapturada\u201d junto aos irm\u00e3os de 2, 6 e 9 anos de idade, em 1970. A fam\u00edlia havia se engajado na luta armada com a Vanguarda Popular Nacional, de Carlos Lamarca. Quando o grupo foi preso, as crian\u00e7as foram junto. O mais novo deles, Ernesto, acompanhou os pais nas pris\u00f5es clandestinas e, ainda beb\u00ea, presenciou as torturas do pai. Depois, os quatro acabaram metidos em um avi\u00e3o em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 Arg\u00e9lia, e depois a Cuba, em uma negocia\u00e7\u00e3o da esquerda com o governo militar que envolveu o sequestro do ent\u00e3o embaixador alem\u00e3o Ehrenfried von Holleben. Zuleide e os irm\u00e3os s\u00f3 seriam autorizados voltar ao Brasil mais de dez anos depois.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Abortos for\u00e7ados e sequestro de beb\u00eas e a fam\u00edlia de militares<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O livro\u00a0<em>Cativeiro sem Fim<\/em>, do jornalista Eduardo Reina, conta a hist\u00f3ria de dezenove beb\u00eas, crian\u00e7as e adolescentes sequestrados e entregues a fam\u00edlias de militares e pessoas ligadas \u00e0 repress\u00e3o. Nesse ponto, \u00e9 verdade, n\u00e3o foi t\u00e3o presente quanto na ditadura argentina. Enquanto os militares platinos viam os filhos de inimigos um\u00a0<em>tesouro nacional\u00a0<\/em>a ser moldado \u2014 da\u00ed o n\u00famero expressivo de beb\u00eas e crian\u00e7as sequestrados ou adotados ilegalmente \u2014 os brasileiros, de forte forma\u00e7\u00e3o positivista, n\u00e3o poupavam as gr\u00e1vidas do terror da pris\u00e3o. As comiss\u00f5es sobre a ditadura a partir dos anos 90, em especial a Comiss\u00e3o da Verdade, trouxeram \u00e0 tona v\u00e1rios relatos de mulheres que tiveram o aborto for\u00e7ado na pris\u00e3o, e de beb\u00eas que sobreviveram \u00e0 tortura das m\u00e3es.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o caso de Rosa Maria Barros dos Santos, presa em Recife, que passou por \u201cum sangramento cheio de coisas\u201d logo ap\u00f3s o in\u00edcio das torturas. S\u00f3 entendeu o que estava acontecendo quando recebeu comprimidos de \u00e1cido acetilsalis\u00edlico (AAS), que pode facilitar abortos. Sofreu uma perda completa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Opera\u00e7\u00e3o Camanducaia, viol\u00eancia e viola\u00e7\u00f5es<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em outubro de 1974, diante das reclama\u00e7\u00e3o de que menores em situa\u00e7\u00e3o de rua ocupavam as ruas no centro de S\u00e3o Paulo, o governo do estado montou uma opera\u00e7\u00e3o para recolher esses jovens. Cerca de 300 garotos levados ao Deic, e espancados. Depois, 93 deles foram despejados nus, na calada da noite, pr\u00f3ximo \u00e0 cidade mineira que d\u00e1 nome \u00e0 opera\u00e7\u00e3o. Nus, feridos e com o frio, os menores vagaram por estradas da regi\u00e3o, at\u00e9 alcan\u00e7arem o per\u00edmetro urbano da cidade, que recebeu com p\u00e2nico e perplexidade os \u201cdejetos\u201d paulistanos. O caso foi investigado \u2014 a promotoria chegou a oferecer den\u00fancia contra 14 delegados e 7 policiais \u2014 mas jamais foi levado \u00e0 julgamento, por interfer\u00eancia das autoridades respaldadas pela ditadura militar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"D_interna_middle2\" style=\"text-align: justify;\"><\/div>\n<div class=\"rp-de-texto\">\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; CartaCapital<\/strong><\/h2>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tortura de crian\u00e7as, cobertura a casos de pedofilia que chocaram o pa\u00eds e outros casos desmentem o mito propagado por admiradores do regime A lista de crimes cometidos sob a anu\u00eancia, ou sob influ\u00eancia direta da ditadura militar \u00e9 chocante. E extensa. 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