{"id":1292,"date":"2012-06-26T13:13:57","date_gmt":"2012-06-26T13:13:57","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/26\/quando-dilma-chorou-2\/"},"modified":"2012-06-26T13:13:57","modified_gmt":"2012-06-26T13:13:57","slug":"quando-dilma-chorou-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/26\/quando-dilma-chorou-2\/","title":{"rendered":"Quando Dilma chorou"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Lembrar o drama de uma hemorragia no \u00fatero de tanto apanhar. Esse foi o momento cr\u00edtico do depoimento de Dilma Rousseff ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais, em 2001. Ela j\u00e1 havia se emocionado ao contar que foi colocada no pau de arara e levou socos e choques el\u00e9tricos. Mas agora integrantes da comiss\u00e3o que ouviram a ent\u00e3o futura presidente revelam que ela desabou mesmo quando falou do desespero do sangramento e do medo de ficar est\u00e9ril.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que informa mais uma reportagem da s\u00e9rie publicada desde domingo pelo Estado de Minas, que escancara a face mais cruel da ditadura militar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Dor da lembran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Relato de integrantes da comiss\u00e3o mineira que ouviram o depoimento da ex-militante em 2001 ilustra a emo\u00e7\u00e3o que tomou conta da presidente ao relembrar o sofrimento vivido no c\u00e1rcere<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Para ter direito \u00e0 indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0s v\u00edtimas de tortura oferecida pelo Conselho de Defesa de Direitos Humanos de Minas Gerais (Conedh-MG), n\u00e3o bastava ter sido perseguido pol\u00edtico durante o regime militar. Era necess\u00e1rio denunciar a tortura sofrida em territ\u00f3rio mineiro, revelando as t\u00e9cnicas usadas pelos algozes, pormenores do ambiente das celas e, se poss\u00edvel, a identidade dos torturadores. \u201cA pessoa precisava dizer como foi torturada. \u00c9 por isso que o depoimento da Dilma conta a viol\u00eancia que ela sofreu em Minas\u201d, pontua Caroline Bastos Dantas, que tinha 25 anos em 25 de outubro de 2001. Ela havia sido contratada como secret\u00e1ria-executiva da comiss\u00e3o mineira, encarregada de digitar os depoimentos pessoais. Trechos do testemunho de Dilma abriram a s\u00e9rie de reportagens que o Estado de Minas publica desde domingo passado sobre a tortura a que a presidente foi submetida nos por\u00f5es da ditadura em Juiz de Fora.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caroline n\u00e3o sabia que estava sendo testemunha ocular de um momento hist\u00f3rico, quando a ent\u00e3o secret\u00e1ria das Minas e Energia do Rio Grande do Sul e futura presidente, conhecida por sua postura firme e decidida, deixou a emo\u00e7\u00e3o aflorar e chorou. Dilma j\u00e1 havia se emocionado em outros momentos da conversa, quando revelou ter sido colocada no pau de arara, levado choque el\u00e9trico e um soco no maxilar que fez o dente se deslocar e apodrecer. Mas desabou ao falar sobre o tratamento feito para conter a hemorragia no \u00fatero. \u201cN\u00e3o sei se foi pelo fato de ser mulher, mas nessa passagem ela n\u00e3o conseguiu se segurar\u201d, diz o fil\u00f3sofo Robson S\u00e1vio, ent\u00e3o com 31 anos e presidente da Comiss\u00e3o Especial de Indeniza\u00e7\u00e3o \u00e0s V\u00edtimas de Tortura de Minas Gerais (Ceivit-MG).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Diante do rigor nos trabalhos da comiss\u00e3o mineira, a arredia Dilma Rousseff n\u00e3o teve sa\u00edda. Contou, pela primeira vez, ter sido torturada nos c\u00e1rceres de Minas, e n\u00e3o s\u00f3 em S\u00e3o Paulo e no Rio de Janeiro, como se pensava antes. E mais. Depois de tirar o n\u00f3 preso na garganta por 30 anos (ela havia sido torturada em Juiz de Fora, em 1971), Dilma emocionou-se ao revelar ter sofrido uma hemorragia de \u00fatero, de tanto apanhar. \u201cNa primeira vez, foi na Oban (Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes). Me deram uma inje\u00e7\u00e3o e disseram para n\u00e3o me bater naquele dia\u201d, descreveu aquela que, nove anos mais tarde, seria a primeira mulher eleita presidente do Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dilma contou tamb\u00e9m ter feito tratamento para conter a hemorragia no Hospital das Cl\u00ednicas. \u201cEm Minas, quando comecei a ter hemorragia, chamaram algu\u00e9m que me deu comprimido e depois inje\u00e7\u00e3o. Mas me davam choque el\u00e9trico e depois paravam. Acho que tem registros disso no fim da minha pris\u00e3o, pois fiz um tratamento no Hospital das Cl\u00ednicas\u201d , revelou a ex-militante pol\u00edtica de codinome Estela, que, apesar do medo de se tornar inf\u00e9rtil, n\u00e3o teria problemas para engravidar. A presidente \u00e9 m\u00e3e de Paula, 36 anos, \u00fanica filha com o companheiro de milit\u00e2ncia Carlos Franklin Paix\u00e3o de Ara\u00fajo. Em setembro de 2010, tornou-se av\u00f3 de Gabriel, que nasceu durante a campanha presidencial. O Hospital das Cl\u00ednicas confirma a exist\u00eancia dos arquivos, mas informa que o acesso a eles \u00e9 permitido apenas com autoriza\u00e7\u00e3o da paciente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caroline ajudou a tomar o depoimento de Dilma em Porto Alegre, que foi prestado na sala da Secretaria de Estado de Justi\u00e7a do governo ga\u00facho. O testemunho durou em torno de 40 minutos e n\u00e3o foi gravado em \u00e1udio nem em v\u00eddeo, para n\u00e3o intimidar a v\u00edtima e impedir que o material tivesse um uso inadequado no futuro. Durante a madrugada, no computador emprestado do hotel, Caroline repassou o que havia digitado. Sem laptops (caros demais h\u00e1 11 anos), o depoimento de Dilma foi transferido em antigos disquetes quadrados, depois reutilizados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sagitariana convicta, Dilma sempre evitou expor o lado pessoal. Soube separar o privado do p\u00fablico, \u00e0 frente de movimentos sociais e cargos de governo. Com isso, evitou reviver a tortura, mesmo antes de chegar \u00e0 Presid\u00eancia da Rep\u00fablica e de se empenhar pessoalmente pela instala\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, em maio. N\u00e3o consta o depoimento dela no livro Brasil: tortura nunca mais, volumoso estudo sobre a repress\u00e3o exercida pelo regime militar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Novamente, Dilma sairia ilesa no livro Mulheres que foram \u00e0 luta armada, de Luiz Maklouf, de 1998. O rep\u00f3rter s\u00f3 conseguiria que ela lhe desse declara\u00e7\u00f5es sobre a tortura em 2003, ao ser convidada para ocupar um minist\u00e9rio no governo Lula. Num dos trechos de maior destaque Dilma fala sobre sangramentos de \u00fatero: \u201cHemorragia mesmo, que nem menstrua\u00e7\u00e3o. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Ex\u00e9rcito. Encontrei uma menina da ALN (A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional). Ela disse: \u2018Pula um pouco no quarto para a hemorragia n\u00e3o parar e voc\u00ea n\u00e3o ter de voltar\u2019\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Revela\u00e7\u00f5es Mas n\u00e3o s\u00f3 Dilma se abalou no depoimento \u00e0 comiss\u00e3o mineira quando toca no assunto. Os jovens contratados para ouvi-la tamb\u00e9m se renderam \u00e0 emo\u00e7\u00e3o. Outras cinco v\u00edtimas de tortura pol\u00edtica de Minas, que haviam se refugiado em Porto Alegre para escapar da ditadura, foram ouvidas. \u201cPraticamente obrig\u00e1vamos a pessoa a revelar, no intervalo de meia hora, uma hora, momentos da vida que ela tinha levado 30, 40 anos tentando esquecer. N\u00e3o era f\u00e1cil\u201d, lembra a ex-secret\u00e1ria-executiva da comiss\u00e3o, Caroline, que s\u00f3 concordou em participar da reportagem depois de muita insist\u00eancia. \u201cEu tinha 25 anos e estava muitas vezes diante de um homem de 70 anos que, em determinado momento, pedia ao filho que o acompanhava para sair da sala. Ele ent\u00e3o contava ter sofrido viol\u00eancia sexual durante sua juventude pol\u00edtica. N\u00e3o se tratava de relembrar um passado heroico de milit\u00e2ncia, mas uma fase ruim\u201d, conta a hoje advogada e professora em duas faculdades de direito.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">Por <span class=\"s2\">Sandra Kiefer?<\/span><\/span><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Lembrar o drama de uma hemorragia no \u00fatero de tanto apanhar. Esse foi o momento cr\u00edtico do depoimento de Dilma Rousseff ao Conselho de Defesa dos Direitos Humanos de Minas Gerais, em 2001. Ela j\u00e1 havia se emocionado ao contar que foi colocada no pau de arara e levou socos e choques el\u00e9tricos. Mas agora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1292"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1292"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1292\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1292"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1292"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1292"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}