{"id":13116,"date":"2019-08-10T22:57:13","date_gmt":"2019-08-10T22:57:13","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13116"},"modified":"2019-08-10T22:57:13","modified_gmt":"2019-08-10T22:57:13","slug":"vermelho-sol-expoe-crimes-da-ditadura-argentina","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2019\/08\/10\/vermelho-sol-expoe-crimes-da-ditadura-argentina\/","title":{"rendered":"\u2018Vermelho Sol\u2019 exp\u00f5e crimes da ditadura argentina"},"content":{"rendered":"<pre style=\"text-align: justify;\">Publicado originalmente em 10\/08\/19 - 07h30<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em sucessivas entrevistas para divulgar seu longa Vermelho Sol \u2013 que estreou nesta quinta, 8, nos cinemas brasileiros, integrando o Projeto Vitrine -, o diretor Benjamin Naishtat tem feito saber que est\u00e1 muito curioso para ver qual ser\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico num pa\u00eds como o nosso. Vermelho Sol aborda a heran\u00e7a da ditadura militar argentina, especialmente os duros anos 1970. Com fotografia de Pedro Sotero \u2013 de Aquarius, de Kleber Mendon\u00e7a Filho -, passa-se numa cidade de interior.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um rico advogado, Claudio, interpretado por Dario Grandinetti, briga com um desconhecido, Diego Cremonesi, num restaurante. A cena \u00e9 exemplar na cria\u00e7\u00e3o de um clima de embara\u00e7o. O arrogante advogado humilha o jovem, e as pessoas preferem agir como se n\u00e3o estivesse ocorrendo nada. Essa aparente indiferen\u00e7a, melhor seria dizer apatia, tem tudo a ver com o tema do filme. O jovem desaparece e a vida seguiria, se n\u00e3o surgisse um detetive para investigar o caso. Interpretado pelo ator chileno Alfredo Castro \u2013 dos filmes de Pablo Larrain -, ele n\u00e3o apenas suspeita do advogado como age para provar seu envolvimento. O choque \u00e9 inevit\u00e1vel, a pr\u00f3pria estabilidade social de Claudio pode ruir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Filmes como o premiado (com o Oscar) O Segredo dos Seus Olhos, de Juan Jos\u00e9 Campanella, com Ricardo Dar\u00edn, e O Sinal, que o pr\u00f3prio Dar\u00edn codirigiu (com Martin Hodara), recorrem ao fil\u00e3o do noir para criar um clima sombrio, e mais que isso, um universo de trai\u00e7\u00f5es e subentendidos, onde nada \u00e9 o que parece ser, e \u00e9 dessa maneira que os cineastas retratam a Argentina sob a ditadura (Campanella) ou no governo de Juan Per\u00f3n (Dar\u00edn). Cin\u00e9filos de carteirinha identificar\u00e3o reminisc\u00eancias de Francis Ford Coppola (A Conversa\u00e7\u00e3o, de 1984) e Sidney Lumet (O Veredicto), e at\u00e9 do Columbo da TV, personagem criado por Peter Falk.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Num filme com esse t\u00edtulo, n\u00e3o surpreende que diretor e fot\u00f3grafo tenham optado por carregar a imagem de vermelho, num desenho hiper-realista que agradou ao j\u00fari do Festival de San Sebasti\u00e1n, no ano passado, do qual o filme saiu com os pr\u00eamios de dire\u00e7\u00e3o, justamente fotografia e melhor ator (para Grandinetti). No Festival do Rio do ano passado, Naishtat, em conversa com o rep\u00f3rter, lembrou o per\u00edodo hist\u00f3rico. \u201cNunca houve uma real amea\u00e7a comunista na Argentina, mas bastou os militares invocarem o fantasma do comunismo para gerar intranquilidade na classe m\u00e9dia. Isso criou o ambiente prop\u00edcio para o golpe. O filme aborda essa apatia, e o que houve por tr\u00e1s dela.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vermelho Sol \u00e9 sobre pessoas comuns e o que representa essa normalidade. Para Naishtat, pode ser perigosa. Seu filme \u00e9 sobre o per\u00edodo pr\u00e9vio ao golpe militar, e o medo da esquerda. Na \u00e9poca do Festival do Rio, em pleno processo eleitoral, o quadro pol\u00edtico brasileiro j\u00e1 estava se definindo. \u201c\u00c9 uma tend\u00eancia planet\u00e1ria que, na Argentina, levou (Mauricio) Macri ao poder\u201d, avalizou. Seu filme \u00e9 muito bom, beneficiando-se de pesquisas est\u00e9ticas da diretora de arte Julieta Dolinsky e do diretor de fotografia (Sotero). Ela recria \u00e0 perfei\u00e7\u00e3o o imagin\u00e1rio de uma cidade de prov\u00edncia, em 1975. Ele logra criar um certo anacronismo de linguagem, de cine e TV, para jogar o espectador no tempo pr\u00f3prio em que a hist\u00f3ria \u00e9 contada. Parte da a\u00e7\u00e3o desenrola-se nos arredores da cidade, no descampado em que o jovem desaparecido pode estar enterrado. Esse sentimento de desola\u00e7\u00e3o fornece quase um contraponto ao humor e absurdo que tamb\u00e9m permeiam o relato. \u201cA Argentina \u00e9 um pa\u00eds plasmado no absurdo, como prova a literatura de um dos nossos maiores escritores, Roberto Arlt.\u201d<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa ideia de um absurdo \u00e9 o forte de Vermelho Sol, que fala sobre a ditadura militar argentina sem falar diretamente sobre ela, mas criando um clima de paranoia. Naishtat prop\u00f5e o retrato de uma sociedade que assimila mal as transforma\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas e econ\u00f4micas que mudaram e seguem mudando a face do capitalismo, produzindo uma frustra\u00e7\u00e3o que coloca as massas \u00e0 merc\u00ea de um totalitarismo que parece salvador. Nesse quadro, ele introduz aquilo que chama de banaliza\u00e7\u00e3o do mal, invocando Hannah Arendt. Embora seja um ainda jovem diretor \u2013 tem 33 anos \u2013 seus filmes t\u00eam feito o circuito dos festivais. S\u00e3o obras como Bem Perto de Buenos Aires e O Movimento, que t\u00eam em comum o rigor e um certo minimalismo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Ros\u00e1rio, Santa F\u00e9, em 1959, Dario Grandinetti vem construindo uma importante carreira no cinema de l\u00edngua espanhola, na Argentina como na Espanha. Apareceu em grandes filmes de Pedro Almod\u00f3var \u2013 Fale com Ela, Julieta \u2013 e \u00e9 protagonista de um epis\u00f3dio do megassucesso Relatos Selvagens. No Brasil, participou de Bodas de Papel, contracenando com Helena Ranaldi no longa dirigido por Andr\u00e9 Sturm, de 2008.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" width=\"720\" height=\"405\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QDT9TzLvTO8?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>FONTE &#8211; <a href=\"https:\/\/istoe.com.br\/vermelho-sol-expoe-crimes-da-ditadura-argentina\/\" target=\"_blank\">Isto \u00c9 \/\u00a0O Estado de S. Paulo<\/a>.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 10\/08\/19 &#8211; 07h30 Em sucessivas entrevistas para divulgar seu longa Vermelho Sol \u2013 que estreou nesta quinta, 8, nos cinemas brasileiros, integrando o Projeto Vitrine -, o diretor Benjamin Naishtat tem feito saber que est\u00e1 muito curioso para ver qual ser\u00e1 a rea\u00e7\u00e3o do p\u00fablico num pa\u00eds como o nosso. 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