{"id":13531,"date":"2020-10-13T19:39:47","date_gmt":"2020-10-13T19:39:47","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13531"},"modified":"2020-10-13T19:39:47","modified_gmt":"2020-10-13T19:39:47","slug":"militares-confundiram-caetano-com-cantor-mexicano-em-1968","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2020\/10\/13\/militares-confundiram-caetano-com-cantor-mexicano-em-1968\/","title":{"rendered":"Militares confundiram Caetano com cantor mexicano em 1968"},"content":{"rendered":"<pre>Publicado originalmente em 12 OUT 2020<\/pre>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Documento produzido pelo regime militar, que aparece pela primeira vez no filme &#8216;Narciso em F\u00e9rias&#8217;, mostra que outra alega\u00e7\u00e3o falsa serviu como justificativa para manter artista preso<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com o lan\u00e7amento do document\u00e1rio Narciso em F\u00e9rias, no m\u00eas passado, a pris\u00e3o de Caetano Veloso em 1968 voltou a ser assunto. O artista foi detido em S\u00e3o Paulo e levado para o Rio de Janeiro junto com Gilberto Gil. Dias depois, soube do que estava sendo acusado: teria parodiado o Hino Nacional durante uma apresenta\u00e7\u00e3o na boate Sucata, no Rio. A informa\u00e7\u00e3o foi divulgada pelo jornalista Randal Juliano (1925- 2006) no programa Guerra \u00e9 Guerra, da TV Record. Por\u00e9m, o fato nunca aconteceu e Caetano conseguiu testemunhas para defend\u00ea-lo no processo. Mesmo assim, n\u00e3o foi inocentado e precisou sair do Pa\u00eds.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um documento produzido pelo regime militar, que aparece pela primeira vez no filme, mostra que outra alega\u00e7\u00e3o falsa serviu como justificativa para manter Caetano preso. Um disco do cantor e compositor com a m\u00fasica Che, homenageando o guerrilheiro Che Guevara, teria sido apreendido. &#8220;\u00c9 uma loucura, nunca fiz nenhuma m\u00fasica chamada Che, n\u00e3o houve apreens\u00e3o de disco meu. Nenhuma apreens\u00e3o de discos meus naquela \u00e9poca. Eu n\u00e3o sei como eles se endere\u00e7avam. Inverdades, falta de cuidado com a averigua\u00e7\u00e3o dos fatos, n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel um tro\u00e7o desses&#8221;, disse Caetano aos diretores Renato Terra e Ricardo Calil em trecho que ficou de fora da vers\u00e3o final de Narciso em F\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma live sobre democracia e liberdade de express\u00e3o da ANPR (Associa\u00e7\u00e3o Nacional dos Procuradores da Rep\u00fablica) ocorrida no fim de setembro, Caetano contou que um editor amigo recebeu de um jornalista a capa do disco Che, atribu\u00edda n\u00e3o a ele, mas a Cataneo. De fato, um disco de Pancho Cataneo saiu no Brasil em 1968 e foi apreendido. &#8220;Eu n\u00e3o conhecia o cantor e nem o disco at\u00e9 ent\u00e3o&#8221;, informou Caetano, por e-mail.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O que ainda n\u00e3o se sabia \u00e9 que a confus\u00e3o que entrela\u00e7a Caetano e Cataneo se tornou p\u00fablica \u00e0s v\u00e9speras do AI-5, que entrou em vigor no dia 13 de dezembro de 1968. Os jornais \u00daltima Hora e Correio da Manh\u00e3, ambos de oposi\u00e7\u00e3o, publicaram em novembro que v\u00e1rios discos haviam sido apreendidos pela pol\u00edcia, entre eles Pra N\u00e3o Dizer Que N\u00e3o Falei de Flores, m\u00fasica de Geraldo Vandr\u00e9 que incomodou os militares, Aleluia, de Gilberto Gil &#8211; outra can\u00e7\u00e3o que jamais foi gravada -, e Che, de Caetano Veloso. &#8220;A venda desses discos j\u00e1 est\u00e1 praticamente proibida em todo o Pa\u00eds&#8221;, pontuou o Correio, em 12 de novembro.<\/p>\n<p><iframe loading=\"lazy\" title=\"Narciso em Fe\u0301rias (Trailer Oficial)\" width=\"720\" height=\"405\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/XhX3gmtS8Q4?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture\" allowfullscreen><\/iframe><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caetano foi confundido com Francisco Cataneo, ou Pancho Cataneo, um mexicano radicado na Europa. Percussionista e vocalista de grupos como Panchito Cui-Cui Et Son Orchestre, ele gravou ao longo dos anos 1960 e 1970 discos de ritmos latinos. No Brasil, a repercuss\u00e3o de seu trabalho foi nula. Na pesquisa de arquivo feita pelo Estad\u00e3o, foi encontrada uma men\u00e7\u00e3o a ele na coluna que Nelson Motta assinava na \u00daltima Hora, justamente anunciando que o compacto Che sairia &#8220;nos pr\u00f3ximos dias&#8221;. Em uma nota abaixo, ilustrada com a foto de Caetano, o jornalista afirmava que seria &#8220;sensacional&#8221; o lan\u00e7amento do disco Tropic\u00e1lia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O compacto de Cataneo chegou \u00e0s lojas nacionais em julho de 1968 pela Companhia Brasileira de Discos, que tamb\u00e9m tinha Caetano sob contrato por meio do selo Philips. Com uma capa expondo a imagem de Guevara, morto no ano anterior, o disco que saiu pela etiqueta Polydor tem duas guajiras, estilo musical cubano. A faixa Hasta Siempre entrou no lado A e Hay Che Camino, no B. A primeira m\u00fasica foi composta por Carlos Puebla, uma das vozes da Revolu\u00e7\u00e3o Cubana, em homenagem a Guevara. Nenhuma das faixas est\u00e1 dispon\u00edvel nas plataformas digitais &#8211; s\u00e3o pouqu\u00edssimos os registros de Cataneo no streaming.<\/p>\n<div id=\"attachment_13533\" style=\"width: 910px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1.jpg\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" aria-describedby=\"caption-attachment-13533\" class=\"size-full wp-image-13533\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1.jpg\" alt=\"\" width=\"900\" height=\"600\" srcset=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1.jpg 900w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1-300x200.jpg 300w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1-768x512.jpg 768w, http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2020\/10\/ABAPa-1-272x182.jpg 272w\" sizes=\"(max-width: 900px) 100vw, 900px\" \/><\/a><p id=\"caption-attachment-13533\" class=\"wp-caption-text\">Capa do disco &#8216;Che!&#8217;, do cantor mexicano Cataneo que foi confundido com Caetano Veloso pelos militares<\/p><\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n<p style=\"text-align: justify;\">A Companhia Brasileira de Discos tentou evitar atritos com o poder, modificando a arte gr\u00e1fica do compacto. Na parte frontal do lan\u00e7amento original europeu, fabricado na Fran\u00e7a, h\u00e1 a foto de Guevara e est\u00e1 escrito &#8220;Hasta Siempre Che!&#8221;. Por aqui, a inscri\u00e7\u00e3o foi suprimida. Ficou s\u00f3 Che. Na contracapa estrangeira, h\u00e1 uma imagem do l\u00edder cubano Fidel Castro, persona non grata do regime militar, que foi removida. O cuidado n\u00e3o foi suficiente para impedir problemas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A documenta\u00e7\u00e3o que aparece em Narciso em F\u00e9rias foi produzida em 1969. Nela, h\u00e1 um relat\u00f3rio que o general Jayme Portella de Mello encaminhou ao presidente Artur da Costa e Silva, contendo uma lista &#8220;das atividades subversivas desenvolvidas pelo indiciado&#8221;. Mello afirma que Caetano foi um dos &#8220;elementos divulgadores de propaganda de car\u00e1ter subversivo, especialmente pelo disco de sua autoria Che, apreendido em 1968 pela Pol\u00edcia Federal&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Um dos diretores da Companhia Brasileira de Discos, Armando Pittigliani conta que o clima de apreens\u00e3o j\u00e1 era grande antes da pris\u00e3o de Caetano e Gil e a gravadora era visada pela ditadura. &#8220;Particip\u00e1vamos e colaboramos com an\u00fancios no (jornal) Pasquim, faz\u00edamos reuni\u00f5es com intelectuais e jornalistas entrevistando nossos artistas, a maioria de esquerda. Claro que est\u00e1vamos na mira dos caras&#8221;, lembra Pittigliani. No livro de mem\u00f3rias que ir\u00e1 lan\u00e7ar em 2021, o produtor relata uma hist\u00f3ria que mostra como os militares estavam no encal\u00e7o de Caetano e Gil mesmo \u00e0s v\u00e9speras de a dupla se exilar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os dois artistas deixaram discos prontos antes de ir embora do Brasil. Os militares acompanharam a p\u00f3s-produ\u00e7\u00e3o das faixas, ouvindo tudo. Como os t\u00e9cnicos de som estavam sendo vigiados e a gravadora queria lan\u00e7ar Aquele Abra\u00e7o antes da partida de Caetano e Gil, Pittigliani e o todo poderoso gerente-geral da empresa, Andr\u00e9 Midani, tomaram a decis\u00e3o de pegar a chave do est\u00fadio e mixar a faixa. Era um s\u00e1bado. &#8220;Cortamos uns 10 acetatos (discos) para distribuirmos \u00e0s principais r\u00e1dios e boates da moda. Na segunda-feira, quando eles j\u00e1 estavam fora, era estouro.&#8221;<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/www.diariodolitoral.com.br\/cultura\/militares-confundiram-caetano-com-cantor-mexicano-em-1968\/138572\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">Di\u00e1rio do Litoral\/O Estado de S. Paulo.<\/a><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 12 OUT 2020 Documento produzido pelo regime militar, que aparece pela primeira vez no filme &#8216;Narciso em F\u00e9rias&#8217;, mostra que outra alega\u00e7\u00e3o falsa serviu como justificativa para manter artista preso Com o lan\u00e7amento do document\u00e1rio Narciso em F\u00e9rias, no m\u00eas passado, a pris\u00e3o de Caetano Veloso em 1968 voltou a ser assunto. 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