{"id":13591,"date":"2021-02-09T15:04:34","date_gmt":"2021-02-09T15:04:34","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13591"},"modified":"2021-02-09T15:04:34","modified_gmt":"2021-02-09T15:04:34","slug":"brasil-bancou-pinochet-com-dinheiro-comida-armas-e-diplomatas","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2021\/02\/09\/brasil-bancou-pinochet-com-dinheiro-comida-armas-e-diplomatas\/","title":{"rendered":"Brasil bancou Pinochet com dinheiro, comida, armas e diplomatas"},"content":{"rendered":"<pre>Publicado originalmente em 07\/02\/2021 14h51<\/pre>\n<p style=\"text-align: justify;\">O regime militar brasileiro foi central em garantir a sobreviv\u00eancia do golpe militar no Chile, em 1973. Bras\u00edlia bancou financeiramente a ditadura de Augusto Pinochet, garantiu aos militares chilenos apoio diplom\u00e1tico na ONU e concedeu armas e alimentos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A constata\u00e7\u00e3o faz parte de uma obra que est\u00e1 sendo lan\u00e7ada nesta segunda-feira pela Cia das Letras e que mergulha o leitor num dos momentos mais sombrios da hist\u00f3ria diplom\u00e1tica nacional. Em &#8220;O Brasil contra a Democracia &#8211; A ditadura, o golpe no Chile a Guerra Fria na Am\u00e9rica do Sul&#8221;, o analista internacional Roberto Simon revela n\u00e3o apenas o envolvimento ideol\u00f3gico entre militares dos dois pa\u00edses e os preparativos para o golpe, mas tamb\u00e9m bastidores in\u00e9ditos de como Bras\u00edlia blindou Pinochet durante os primeiros meses de vida do novo regime. &#8220;Uma vez sepultados (Salvador) Allende e o socialismo chileno, o Brasil se esfor\u00e7aria para colocar de p\u00e9 e proteger a ne\u00f3fita ditadura Pinochet&#8221;, constata Simon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o livro, realizado a partir de pesquisas em documentos da intelig\u00eancia dos dois pa\u00edses e centenas de arquivos diplom\u00e1ticos, Pinochet inicialmente n\u00e3o contou com o apoio expl\u00edcito do governo americano, &#8220;cauteloso para n\u00e3o se envolver publicamente com os verdugos da democracia chilena&#8221;. A defesa do ditador, portanto, seria assumida pelo Brasil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Caberia ao embaixador brasileiro nas Na\u00e7\u00f5es Unidas, S\u00e9rgio Armando Fraz\u00e3o, por exemplo, um &#8220;um papel ativo&#8221; at\u00e9 mesmo na elabora\u00e7\u00e3o do discurso do chanceler de Pinochet, Ismael Huerta, na Assembleia Geral da ONU. &#8220;Crua na arte da diplomacia, a nova ditadura sul-americana buscara ajuda do experiente Itamaraty para pelear na ONU&#8221;, constatou o pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Com a queda de Salvador Allende, a chancelaria brasileira tomou para si a miss\u00e3o de defender a junta chilena na arena da diplomacia global. Era uma tarefa solit\u00e1ria. Os Estados Unidos manobravam com timidez para n\u00e3o dar sinais p\u00fablicos de apoio a Santiago, enquanto europeus buscavam dist\u00e2ncia dos chilenos, em meio a tantas den\u00fancias de atrocidades que saiam do Chile&#8221;, revela o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, o governo M\u00e9dici serviria de &#8220;advogado do regime Pinochet fosse em f\u00f3runs multilaterais, como a ONU, fosse de forma bilateral, com um lobby de bastidores cal\u00e7ado na crescente import\u00e2ncia econ\u00f4mica e pol\u00edtica que o &#8220;Brasil pot\u00eancia&#8221; vinha adquirindo&#8221;. &#8220;O objetivo estrat\u00e9gico brasileiro era conter o isolamento internacional do Chile de Pinochet e assegurar a viabilidade do novo regime&#8221;, disse.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De acordo com o livro, embaixadas do Brasil em pa\u00edses como M\u00e9xico, Pol\u00f4nia e Iugosl\u00e1via \u2014 os quais haviam rompido rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com Santiago \u2014 passaram a representar os interesses chilenos. Simultaneamente, a \u00e1rea de seguran\u00e7a do Minist\u00e9rio das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores mantinha os demais \u00f3rg\u00e3os de intelig\u00eancia do regime brasileiro informados sobre a campanha de Santiago para reverter a primeira onda de cr\u00edticas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Entre os diversos exemplos do apoio brasileiro ao governo de Pinochet, Simon revela como o embaixador brasileiro em Bonn, Jo\u00e3o Baptista Pinheiro, ainda trabalhou para convencer o governo social-democrata do chanceler Willy Brandt a n\u00e3o suspender a ajuda a Santiago, apesar da crescente animosidade no pa\u00eds em rela\u00e7\u00e3o ao novo regime chileno.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Cr\u00e9ditos do Banco do Brasil e ajuda bilion\u00e1ria O autor da obra ainda conta como, al\u00e9m de forte apoio diplom\u00e1tico, a prote\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 rec\u00e9m-criada ditadura Pinochet incluiu um aux\u00edlio econ\u00f4mico sem precedentes na hist\u00f3ria recente da pol\u00edtica externa do Brasil. &#8220;Pinochet e seus aliados, dentro e fora do Chile, compreendiam que a inseguran\u00e7a econ\u00f4mica era a maior amea\u00e7a ao novo regime. A economia chilena estava mergulhada em um cen\u00e1rio de hiperinfla\u00e7\u00e3o, desabastecimento cr\u00f4nico e colapso da produ\u00e7\u00e3o. O apoio dos chilenos ao novo regime dependeria de uma reconstru\u00e7\u00e3o econ\u00f4mica r\u00e1pida e robusta&#8221;, apontou o pesquisador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Naquele momento do golpe, a infla\u00e7\u00e3o oficial ultrapassava 500%, e estudos posteriores que incluem pre\u00e7os no mercado negro colocam a cifra em cerca de 1000%. Seis meses depois de tomar o poder, Pinochet conviveria com uma infla\u00e7\u00e3o de 700%.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, passadas 48 horas da morte de Allende, o almirante e o novo ministro da Fazenda, o contra-almirante Lorenzo Gotuzzo, foram ao Banco Central inspecionar as reservas que haviam sobrado no local. Constataram que o pa\u00eds estava quebrado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O almirante Jos\u00e9 Merino decidiu, ent\u00e3o, convocar &#8220;um bom amigo&#8221; \u2014 segundo suas palavras \u2014 ao Banco Central: era o embaixador do Brasil em Santiago, Ant\u00f4nio C\u00e2ndido da C\u00e2mara Canto. O brasileiro, sol\u00edcito, chegou logo e os dois subiram \u00e0 sala da presid\u00eancia do banco, onde o almirante lhe pediu ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;A junta chilena precisava urgentemente de um empr\u00e9stimo de uns 200 milh\u00f5es de d\u00f3lares para &#8220;colocar em marcha todo o aparato estatal&#8221;, disse. As linhas telef\u00f4nicas em Santiago ainda estavam mudas, mas o comandante da Marinha havia ordenado a instala\u00e7\u00e3o de uma conex\u00e3o de telefone na sala da presid\u00eancia, onde ele e o brasileiro conversavam&#8221;, revela a obra de Simon.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;C\u00e2mara Canto teria chamado Bras\u00edlia para comunicar o pedido. Pouco depois, receberam uma resposta afirmativa&#8221;, disse. Al\u00e9m de quatro avi\u00f5es militares com toneladas de alimentos e suprimentos m\u00e9dicos, o Brasil tamb\u00e9m enviaria um navio petroleiro para ajudar a conter a falta de combust\u00edveis.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Diante do corte no fornecimento de a\u00e7\u00facar cubano, o governo M\u00e9dici tamb\u00e9m despachou 40 mil toneladas do produto ao Chile. &#8220;Para cumprir a promessa, o Brasil recorreria ao a\u00e7\u00facar que j\u00e1 estava vendido a outros pa\u00edses e se viraria para honrar os contratos, retirando produto do mercado interno \u2014 com a consequ\u00eancia previs\u00edvel de aumento de pre\u00e7os aos brasileiros&#8221;, apontou Simon. &#8220;Toda a quantia chegaria \u00e0s m\u00e3os do regime Pinochet at\u00e9 o final de outubro e os chilenos poderiam pagar mais tarde, quando a situa\u00e7\u00e3o melhorasse&#8221;, indicou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">De fato, o que os chilenos obtiveram no Brasil era substancial. Num encontro com o ent\u00e3o presidentes do Banco Central, Ernane Galv\u00eaas, do Banco do Brasil, Nestor Jost, e por autoridades dos minist\u00e9rios da Fazenda e das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores, uma delega\u00e7\u00e3o enviada por Pinochet saiu com uma ampla ajuda.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Isso incluiria 50 milh\u00f5es de d\u00f3lares de cr\u00e9dito financeiro sem nenhum tipo de restri\u00e7\u00e3o, com tr\u00eas anos de car\u00eancia e, ap\u00f3s esse per\u00edodo, juros bem abaixo do cobrado no mercado; outros 50 milh\u00f5es para a compra de bens de consumo dur\u00e1veis; e 35 milh\u00f5es para a aquisi\u00e7\u00e3o de produtos brasileiros a gosto do fregu\u00eas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil ainda decidiu emprestar mais 40 milh\u00f5es de d\u00f3lares para Pinochet forrar seus arsenais. &#8220;Menos de um m\u00eas ap\u00f3s a morte de Allende, autoridades chilenas j\u00e1 haviam solicitado \u00e0 Mercedez-Bens do Brasil a exporta\u00e7\u00e3o de cerca de 450 ve\u00edculos militares ao Chile. O pedido foi parar no Conselho de Seguran\u00e7a Nacional, que o aprovou rapidamente. Em janeiro de 1974, a Engesa recebera uma primeira &#8220;miss\u00e3o comercial&#8221;, extraoficial&#8221;, revela o livro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Para saciar a voracidade da junta chilena por armas, o Brasil seria obrigado a encontrar solu\u00e7\u00f5es criativas&#8221;, diz Simon. &#8220;Parte da lista de compras entregue por Santiago, sobretudo armas de fogo, n\u00e3o estava dispon\u00edvel, naquele momento, nos estoques da ind\u00fastria b\u00e9lica brasileira. A alternativa mais \u00f3bvia era fabric\u00e1-las sob encomenda, mas a opera\u00e7\u00e3o alongaria em v\u00e1rios meses o prazo de entrega. E as ditaduras tinham pressa. Bras\u00edlia preferiu abrir m\u00e3o de milhares de fuzis fornecidos havia pouco \u00e0s suas for\u00e7as por fabricantes nacionais. O Estado-Maior das For\u00e7as Armadas ordenou a retirada dos emblemas nas armas que identificavam a propriedade brasileira para que fossem despachadas, \u00e0s pressas, ao Chile&#8221;, completou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;Somada \u00e0s linhas de cr\u00e9dito existentes e \u00e0 oferta de dinheiro na ag\u00eancia do Banco do Brasil em Santiago, o arrimo brasileiro ficaria em cerca de 220 milh\u00f5es de d\u00f3lares (quase 1,2 bilh\u00e3o, em valores atualizados).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">Altru\u00edsmo?<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">No Itamaraty e entre os militares, o dinheiro seria seguido por uma s\u00e9rie de cobran\u00e7as. Uma delas foi a exig\u00eancia de que Pinochet n\u00e3o apoiasse a queixa da Argentina contra a constru\u00e7\u00e3o de usina de Itaip\u00fa. Buenos Aires tentava, na ONU, barrar a obra entre brasileiros e paraguaios.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pesquisa ainda revela que, em relat\u00f3rios marcados &#8220;Top Secret&#8221;, ag\u00eancias da intelig\u00eancia americana reparavam que o doce aux\u00edlio estava longe de ser fruto do altru\u00edsmo do Brasil. &#8220;A disposi\u00e7\u00e3o do governo brasileiro de se submeter a uma medida de desconforto econ\u00f4mico [como essa] reflete o desejo de ver a junta militar chilena no poder \u2014 um investimento que, sem d\u00favida, o Brasil acredita que dar\u00e1 futuros dividendos&#8221;, analisava a Defense Intelligence Agency, do Pent\u00e1gono. A CIA concordava: &#8220;O Brasil [est\u00e1] menos preocupado com a economia chilena do que em fortalecer a influ\u00eancia brasileira [sobre o novo Chile]&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mario Gibson Barboza, ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores do Brasil, resumiria a rela\u00e7\u00e3o: &#8220;O Brasil e o Chile est\u00e3o na mesma trincheira&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/noticias.uol.com.br\/colunas\/jamil-chade\/2021\/02\/07\/brasil-bancou-pinochet-com-dinheiro-comida-armas-e-diplomatas.htm\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">UOL\/Jamil Chade<\/a><\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Publicado originalmente em 07\/02\/2021 14h51 O regime militar brasileiro foi central em garantir a sobreviv\u00eancia do golpe militar no Chile, em 1973. 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