{"id":13594,"date":"2021-02-09T15:22:24","date_gmt":"2021-02-09T15:22:24","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/?p=13594"},"modified":"2021-02-09T15:23:05","modified_gmt":"2021-02-09T15:23:05","slug":"ha-45-anos-um-manifesto-em-nome-da-verdade-sobre-o-assassinato-de-herzog","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2021\/02\/09\/ha-45-anos-um-manifesto-em-nome-da-verdade-sobre-o-assassinato-de-herzog\/","title":{"rendered":"H\u00e1 45 anos, um manifesto &#8216;em nome da verdade&#8217; sobre o assassinato de Herzog"},"content":{"rendered":"<div class=\"article-paragraph\">\n<p style=\"text-align: justify;\">O Brasil ainda buscava respostas para o assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar, sob Ernesto Geisel. Na ter\u00e7a-feira 3 de fevereiro de 1976, os exemplares do\u00a0<strong>Estad\u00e3o<\/strong>\u00a0que chegavam \u00e0s bancas exibiam um an\u00fancio de impacto pol\u00edtico. Em sua p\u00e1gina 15, o jornal publicava um abaixo-assinado que viria a permanecer na Hist\u00f3ria como um corajoso manifesto de classe em favor da verdade e da mem\u00f3ria de Vlado, e contr\u00e1rio \u00e0 encena\u00e7\u00e3o de suic\u00eddio, em outubro do ano anterior.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Publicado em espa\u00e7o de an\u00fancio, o texto apontava novas inconsist\u00eancias no relat\u00f3rio do inqu\u00e9rito policial militar forjado para mascarar o assassinato do diretor de jornalismo da TV Cultura e ex-rep\u00f3rter que ajudou a instalar a sucursal do\u00a0<strong>Estad\u00e3o<\/strong>\u00a0em Bras\u00edlia, um crime ocorrido nas depend\u00eancias do DOI-Codi, em S\u00e3o Paulo. As constata\u00e7\u00f5es lan\u00e7aram luz sobre a farsa de que Herzog, aos 38 anos, apresentou-se espontaneamente para um depoimento e tirou a pr\u00f3pria vida ao se enforcar na cela, com os joelhos dobrados.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>&#8220;N\u00f3s, abaixo assinados, jornalistas, que acompanhamos todo o caso da morte de nosso companheiro de trabalho, Vladimir Herzog &#8211; uma trag\u00e9dia que traumatizou n\u00e3o s\u00f3 a nossa categoria, mas a consci\u00eancia de toda a Na\u00e7\u00e3o &#8211; interessados na descoberta da verdade e na total elucida\u00e7\u00e3o dos fatos, por for\u00e7a mesmo da natureza da nossa profiss\u00e3o, vimos de p\u00fablico levantar algumas indaga\u00e7\u00f5es, sugeridas pela leitura do Relat\u00f3rio do Inqu\u00e9rito Policial-Militar divulgado no \u00faltimo dia 20 de dezembro&#8221;, dizia a publica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>O manifesto era assinado por 1.004 jornalistas. De M\u00e1rio Quintana a Ruy Mesquita Filho. De Carlos Chagas a Carlos Fehlberg, porta-voz de Em\u00edlio M\u00e9dici. O an\u00fancio, custeado por profissionais de S\u00e3o Paulo, Rio de Janeiro, Bras\u00edlia, Natal, Porto Alegre e Curitiba saiu com o t\u00edtulo &#8220;Em nome da verdade&#8221; e dividia a p\u00e1gina com uma lista de aprovados no vestibular.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Possivelmente por trope\u00e7os nos linotipos que geravam as p\u00e1ginas em uma outra \u00e9poca do\u00a0<strong>Estad\u00e3o<\/strong>, alguns nomes tiveram as grafias comprometidas. Agora, 45 anos depois da publica\u00e7\u00e3o, pela primeira vez os signat\u00e1rios est\u00e3o corretamente identificados. O trabalho \u00e9 fruto de pesquisa do tamb\u00e9m jornalista e historiador Mauro Malin. As descobertas ser\u00e3o usadas em um cap\u00edtulo extra da s\u00e9tima edi\u00e7\u00e3o do livro Dossi\u00ea Herzog: Pris\u00e3o, Tortura e Morte no Brasil, publicado em 1979 por Fernando Pacheco Jord\u00e3o.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Al\u00e9m das corre\u00e7\u00f5es, Malin resgata dos signat\u00e1rios ainda vivos mem\u00f3rias sobre as circunst\u00e2ncias que os levaram a assinar o manifesto. Pelo prisma da \u00e9poca, o ato era uma transgress\u00e3o e poderia fazer os autores figurarem em listas de subversivos. As narrativas est\u00e3o dispon\u00edveis no site do Instituto Vladimir Herzog. &#8220;As pessoas assinaram corajosamente. O Jo\u00e3o Guilherme Vargas Netto, que est\u00e1 na origem de toda persegui\u00e7\u00e3o a jornalistas de S\u00e3o Paulo, me deu um depoimento e disse uma coisa que eu tenho repetido. \u00c9 um dos maiores atos de coragem coletiva da Hist\u00f3ria do Brasil. Questionou-se um IPM, bateram de frente com o Ex\u00e9rcito&#8221;, frisa o pesquisador.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Os relatos ajudam a reconstruir parte do contexto da luta pela reabertura democr\u00e1tica que as consequ\u00eancias do assassinato de Vlado acabaram por contribuir. A ditadura usou o mesmo expediente para eliminar o metal\u00fargico Manoel Fiel Filho e outros dissidentes. A sucess\u00e3o de arb\u00edtrios abalou o governo e resultou na queda do comandante do Ex\u00e9rcito, Ednardo D\u00c1vila Mello.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>Catarse.<\/strong>\u00a0Vlado era querido e respeitado por colegas da imprensa. A jornalista Vilma Gryzinski trabalhava no\u00a0<strong>Estad\u00e3o<\/strong>\u00a0em S\u00e3o Paulo e lembrou como a morte gerou como\u00e7\u00e3o. &#8220;Os diretores do jornal haviam liberado todo mundo para ir ao ato ecum\u00eanico. Isso incentivou colegas que n\u00e3o eram de esquerda, muito menos simpatizantes do velho Partid\u00e3o, a fazer talvez o primeiro protesto de suas vidas&#8221;, lembra.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>&#8220;Um protesto um pouco temeroso e ao mesmo tempo cat\u00e1rtico&#8221;, ressalta. &#8220;Foi como se a morte de um homem justo como Vladimir Herzog tivesse servido para superar as barreiras do medo, o mais poderoso instrumento das ditaduras.&#8221;<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>O jornalista e escritor Zuenir Ventura tamb\u00e9m enviou uma mem\u00f3ria. Em 1976, ele trabalhava na extinta revista Vis\u00e3o. &#8220;Tinha 45 anos. Um companheiro me falou do manifesto e eu, claro, assinei. No meu livro Minhas Hist\u00f3rias dos Outros tem um cap\u00edtulo sobre o epis\u00f3dio. Vlado foi pra mim na Vis\u00e3o quase um irm\u00e3o. Clarice e os filhos sabem disso&#8221;, contou.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Ao aceitar publicar o an\u00fancio que contrariava o discurso oficial do regime militar, o\u00a0<strong>Estad\u00e3o<\/strong>\u00a0dava sequ\u00eancia a publica\u00e7\u00f5es que j\u00e1 vinham colocando em xeque a credibilidade do inqu\u00e9rito. Uma delas foi a que questionou o fato de a portaria do Ex\u00e9rcito que originou a investiga\u00e7\u00e3o ter de antem\u00e3o indicado o desfecho. A ordem era &#8220;apurar as circunst\u00e2ncias em que ocorreu o suic\u00eddio&#8221;, e n\u00e3o as circunst\u00e2ncias da morte.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p><strong>Inconsist\u00eancias.<\/strong>\u00a0O texto do abaixo-assinado de 1976, redigido por Pacheco Jord\u00e3o e referendado pelos mil jornalistas, apontava cinco inconsist\u00eancias. Uma delas era o fato de o relat\u00f3rio apontar que Herzog se matou usando &#8220;a cinta do macac\u00e3o que usava&#8221;, sem apresentar qualquer hip\u00f3tese para o jornalista ter permanecido com a vestimenta, uma vez que a praxe \u00e9 a disponibiliza\u00e7\u00e3o de roupas especiais e a fiscaliza\u00e7\u00e3o permanente.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\" style=\"text-align: justify;\">\n<p>Outro problema era o fato de que no laudo do exame de corpo de delito, do Instituto M\u00e9dico Legal, os legistas Harry Shibata e Arildo T. Viana descreviam que a roupa que a v\u00edtima chegou para a necropsia n\u00e3o era o macac\u00e3o descrito no laudo fotogr\u00e1fico do encontro do cad\u00e1ver, mas a que ele sa\u00edra de casa para se apresentar aos oficiais. &#8220;O que aconteceu foi um marco na luta pela abertura democr\u00e1tica, mas tamb\u00e9m foi um marco de impunidade&#8221;, destacou Malin.<\/p>\n<\/div>\n<div class=\"article-paragraph\">\n<p style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; <a href=\"https:\/\/gauchazh.clicrbs.com.br\/politica\/noticia\/2021\/02\/ha-45-anos-um-manifesto-em-nome-da-verdade-sobre-o-assassinato-de-herzog-ckkuzgk4s044f01i1o9snz8ln.html\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\"><strong>GauchaZH\/ O Estado de S. Paulo.<\/strong><\/a><\/p>\n<\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Brasil ainda buscava respostas para o assassinato do jornalista Vladimir Herzog pela ditadura militar, sob Ernesto Geisel. Na ter\u00e7a-feira 3 de fevereiro de 1976, os exemplares do\u00a0Estad\u00e3o\u00a0que chegavam \u00e0s bancas exibiam um an\u00fancio de impacto pol\u00edtico. Em sua p\u00e1gina 15, o jornal publicava um abaixo-assinado que viria a permanecer na Hist\u00f3ria como um corajoso [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":13595,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13594"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=13594"}],"version-history":[{"count":1,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13594\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":13596,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/13594\/revisions\/13596"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/13595"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=13594"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=13594"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=13594"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}