{"id":1384,"date":"2012-06-30T18:20:42","date_gmt":"2012-06-30T18:20:42","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/30\/comissao-da-verdade-17\/"},"modified":"2012-06-30T18:20:42","modified_gmt":"2012-06-30T18:20:42","slug":"comissao-da-verdade-17","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/06\/30\/comissao-da-verdade-17\/","title":{"rendered":"Comiss\u00e3o da Verdade"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foram tempos verdadeiramente amargos e as lembran\u00e7as s\u00e3o tantas e t\u00e3o vivas que jamais sair\u00e3o da mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Com o advento do Golpe Militar de 64, n\u00e3o tivemos no Amazonas nenhum caso de tortura f\u00edsica infligida aos presos pol\u00edticos pela ditadura. A viol\u00eancia extrema contra militantes amazonenses de esquerda ocorreu no Rio de Janeiro. Naquela cidade, nos primeiros momentos do movimento sedicioso, assassinaram Antogildo Pascoal Viana, presidente do Sindicato dos\u00a0Estivadores do Amazonas, e l\u00e1 mais tarde tamb\u00e9m desapareceu Thomaz Meirelles Neto, uma das maiores express\u00f5es da intelig\u00eancia de nossa gera\u00e7\u00e3o.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Aqui, o sofrimento maior foi de ordem moral, que se estendeu das pris\u00f5es \u00e0 frustra\u00e7\u00e3o permanente diante da fal\u00eancia de um grande e generoso projeto de liberta\u00e7\u00e3o e desenvolvimento nacional, que mobilizava cora\u00e7\u00f5es e mentes, com a ascens\u00e3o do presidente Jo\u00e3o Goulart ao poder. \u00c9 evidente que a defrauda\u00e7\u00e3o militarista foi enorme, fruto de uma longa noite imposta ao pa\u00eds, que se prolongaria por anos e anos, com desalento e muita desesperan\u00e7a.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Aliment\u00e1vamos todos, ainda muito jovens, rom\u00e2nticos por excel\u00eancia, a expectativa de um mundo novo, fraterno, igual e justo, longe das profundas diferen\u00e7as sociais que ainda hoje marcam a sociedade brasileira. Com o Golpe, nas ruas e nas esquinas mal iluminadas de Manaus da \u00e9poca, padecemos da ang\u00fastia insuport\u00e1vel que nos tomava conta da alma, diante da incerteza sobre o tempo que duraria a agress\u00e3o \u00e0s liberdades e ao estado democr\u00e1tico. E tudo, realmente, parecia n\u00e3o ter mais fim, com a trucul\u00eancia impondo-se sobre a ternura e com a fal\u00eancia da solidariedade e das rela\u00e7\u00f5es amistosas entre os homens.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foram tempos verdadeiramente amargos e as lembran\u00e7as s\u00e3o tantas e t\u00e3o vivas que jamais sair\u00e3o da mem\u00f3ria.<br \/> N\u00e3o h\u00e1 como deixar de recordar o encontro que tivemos com o general Nairo Villanova Madeira, ent\u00e3o comandante do Ex\u00e9rcito no Estado e compadre de Jango, que tinha resid\u00eancia oficial na Pra\u00e7a do Congresso, na esquina com a Ramos Ferreira, nos primeiros dias de abril de 1964. Ali chegamos, Fernando Vitalino, dirigente do Comando Geral dos Trabalhadores, Bonates, presidente do Sindicato dos Banc\u00e1rios, Manuel Rodrigues, vereador em Manaus do velho \u2018partid\u00e3o\u2019, Jacinto Corr\u00eaa, do Sindicato da Copam, F\u00e1bio Lucena, orador do grupo, eu, que representava a Uesa \u2013 Uni\u00e3o dos Estudantes Secund\u00e1rios do Amazonas, e outros companheiros, todos movidos pela ideia de resistir ao golpe ditatorial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fomos recebidos na sacada da casa, bem cedinho, em torno das 7 da manh\u00e3, pelo pr\u00f3prio general, que ainda se encontrava vestindo pijama. Acolheu-nos com cordialidade e entramos com ele na pequena sala, onde havia um sistema de comunica\u00e7\u00e3o por fonia, permanentemente ligada, com a qual o militar acompanhava os acontecimentos em Bras\u00edlia e no Brasil. Assim, monitorava, segundo a segundo, a derrocada do regime constitucional e a deposi\u00e7\u00e3o de seu compadre-presidente.<br \/> Tomando a palavra, F\u00e1bio Lucena, com a coragem e a eloqu\u00eancia que lhe caracterizavam, anunciou que estar\u00edamos deflagrando uma greve geral de trabalhadores e estudantes. E, a partir daquele momento, o movimento fecharia o porto e o aeroporto de Manaus, isolando o Estado do restante do pa\u00eds. Era a resist\u00eancia que opor\u00edamos no cora\u00e7\u00e3o da Amaz\u00f4nia ao golpe de direita no Brasil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nairo Villanova, embora mantendo a tranq\u00fcilidade, foi incisivo: \u201cA prop\u00f3sito, al\u00e9m de estar de pijama, j\u00e1 sou um general de pijama. Quero sair daqui j\u00e1 na condi\u00e7\u00e3o de general da Reserva, sem maiores problemas, recolhendo-me ao sil\u00eancio. N\u00e3o tem mais jeito, perdemos a guerra, Jango est\u00e1 a caminho do Uruguai. Tudo bem, a decis\u00e3o n\u00e3o \u00e9 minha, mas quero avis\u00e1-los de que reprimirei qualquer a\u00e7\u00e3o de resist\u00eancia, e reprimirei com as armas que se fizerem necess\u00e1rias. Por favor, n\u00e3o me criem maiores dificuldades. Insisto, perdemos a guerra, esta \u00e9 a realidade\u201d. E encerrou a reuni\u00e3o.<br \/> Foi assim que o general progressista, que sempre esteve ao nosso lado nos embates contra o segundo governo de Pl\u00ednio Coelho, p\u00f4s um ponto final em todas as nossas expectativas de combate ao Golpe de 64. Sa\u00edmos do encontro cabisbaixos, um tanto quanto perdidos, sem rumo, mas, ainda assim, naquela ocasi\u00e3o nunca poder\u00edamos imaginar que a viol\u00eancia institucional e a crueldade contra o ser humano tomaria conta da Na\u00e7\u00e3o durante tanto tempo. E Nairo Villanova foi transferido para a Reserva pelo Ato n\u00ba. 3, de 11 de abril de 1964, pelo Comando Supremo da Revolu\u00e7\u00e3o, ao lado de tantos outros militares patriotas.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; D24am<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Foram tempos verdadeiramente amargos e as lembran\u00e7as s\u00e3o tantas e t\u00e3o vivas que jamais sair\u00e3o da mem\u00f3ria. Com o advento do Golpe Militar de 64, n\u00e3o tivemos no Amazonas nenhum caso de tortura f\u00edsica infligida aos presos pol\u00edticos pela ditadura. A viol\u00eancia extrema contra militantes amazonenses de esquerda ocorreu no Rio de Janeiro. 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