{"id":1442,"date":"2012-07-05T15:25:23","date_gmt":"2012-07-05T15:25:23","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/05\/albernaz-o-capitao-que-socou-o-rosto-de-dilma-rousseff-em-1970-2\/"},"modified":"2012-07-05T15:25:23","modified_gmt":"2012-07-05T15:25:23","slug":"albernaz-o-capitao-que-socou-o-rosto-de-dilma-rousseff-em-1970-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/05\/albernaz-o-capitao-que-socou-o-rosto-de-dilma-rousseff-em-1970-2\/","title":{"rendered":"Albernaz, o capit\u00e3o que socou o rosto de Dilma Rousseff, em 1970"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2018Quando venho para a Oban, deixo o cora\u00e7\u00e3o em casa\u2019, dizia o militar do Ex\u00e9rcito<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/in\/5361938-f09-46b\/FT500A\/2012062868455.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"195\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Reprodu\u00e7\u00e3o da carteira de identidade de Benoni Albernaz, adulterada por ele para incluir a patente de coronel  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O capit\u00e3o Benoni de Arruda Albernaz tinha 37 anos, sobrancelha arqueada, riso de esc\u00e1rnio e fazia juras de amor \u00e0 p\u00e1tria enquanto socava e quebrava os dentes da futura presidente do Brasil Dilma Vana Rousseff, na \u00e9poca com 23 anos. Ele era o chefe da equipe A de interrogat\u00f3rio preliminar da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban) quando Dilma foi presa, em janeiro de 1970. Em novembro daquele ano, seria registrado o 43\u00ba entre os 58 elogios que Albernaz recebeu nos 27 anos de servi\u00e7os prestados ao Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cOficial capaz, disciplinado e leal, sempre demonstrou perfeito sincronismo com a filosofia que rege o funcionamento do Comando do Ex\u00e9rcito: honestidade, trabalho e respeito ao homem\u201d, escreveu seu comandante na Oban, o tenente-coronel Waldyr Coelho, chamado por Dilma e por colegas de cela de \u201cmajor Linguinha\u201d, por causa da l\u00edngua presa que tinha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um torturador com diploma do M\u00e9rito Policial<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quinze anos depois, os caminhos percorridos por Albernaz n\u00e3o o levaram \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de her\u00f3i nacional, como ele imaginava. Registro bem diferente foi associado a seu nome na senten\u00e7a do Conselho de Justi\u00e7a Militar em que foi condenado a um ano e seis meses de pris\u00e3o por falsidade ideol\u00f3gica. \u201c\u00c9tica, moral, prest\u00edgio, apre\u00e7o, credibilidade e estima s\u00e3o valores que o militar deve desfrutar junto \u00e0 sociedade e ao povo de seu pa\u00eds. A f\u00e9 militar e o prest\u00edgio moral das institui\u00e7\u00f5es militares restaram danificadas pelo comportamento do r\u00e9u\u201d, concluiu o presidente do conselho, Jo\u00e3o Baptista Lopes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A prensa nada tinha a ver com as sess\u00f5es de tortura comandadas por Albernaz na Oban. Sua agressividade parecia se encaixar como luva na estrutura criada para exterminar opositores do regime. Apenas um ano depois de torturar Dilma e pelo menos outras tr\u00eas dezenas de opositores, ele recebeu das m\u00e3os do ent\u00e3o governador de S\u00e3o Paulo, Abreu Sodr\u00e9, o diploma da Cruz do M\u00e9rito Policial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Filho de militar que representou o Brasil na 2 Guerra Mundial, Albernaz nasceu em S\u00e3o Paulo e seguiu a carreira do pai. Classificou-se em 107\u00ba lugar na turma de 119 aspirantes a oficial de artilharia em 1956, mesmo ano em que se casou. Serviu no Mato Grosso do Sul antes de ser transferido para Barueri, em S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio dos anos 1960.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tinha fixa\u00e7\u00e3o pela organiza\u00e7\u00e3o de paradas de Sete de setembro. Estava na guarda do QG do Ex\u00e9rcito na capital paulista, em fevereiro de 1962, quando o comandante foi alvo de atentado \u00e0 bala. Conseguiu correr atr\u00e1s do autor e o espancou. Virou pupilo do general Nelson de Mello, que mais tarde viraria ministro da Guerra no governo de Jo\u00e3o Goulart.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Estava em f\u00e9rias na noite do golpe militar de 1964 e, ainda assim, apresentou-se espontaneamente para o servi\u00e7o. Em 1969, representou o comando de sua unidade na posse do secret\u00e1rio de Seguran\u00e7a P\u00fablica de SP, o general Olavo Viana Moog, um dos futuros comandantes do grupo que exterminou a Guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neste mesmo ano foi convocado pelo general Aloysio Guedes Pereira para servir na rec\u00e9m-criada Oban, centro de investiga\u00e7\u00f5es montado pelo Ex\u00e9rcito para combater a esquerda armada. Foi l\u00e1 que Dilma o conheceu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Come\u00e7ava a te interrogar; se n\u00e3o gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmat\u00f3ria, eu fui pro pau de arara\u201d, disse a presidente em depoimento dado, no in\u00edcio dos anos 2000, para o livro \u201cMulheres que foram \u00e0 luta armada\u201d, de Luiz Maklouf Carvalho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 2001, em relato \u00e0 Comiss\u00e3o de Direitos Humanos de Minas Gerais, Dilma afirmou que j\u00e1 tinha levado socos ao ser interrogada em Juiz de Fora (MG), em maio de 1970, e que seu dente \u201cse deslocou e apodreceu\u201d. No mesmo depoimento, ela explicou: \u201cMais tarde, quando voltei para S\u00e3o Paulo, Albernaz completou o servi\u00e7o com socos, arrancando meu dente\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Telefone de magneto era usado para choques el\u00e9tricos<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Albernaz era conhecido por se divertir dizendo aos presos que, por ser muito burro, precisava ouvir respostas claras. Tinha na sala um telefone de magneto que era usado para \u201cfalar com Fidel Castro\u201d, met\u00e1fora para a aplica\u00e7\u00e3o de choques el\u00e9tricos, segundo relato de Elio Gaspari no livro \u201cA Ditadura Escancarada\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cQuando venho para a Oban, deixo o cora\u00e7\u00e3o em casa\u201d, explicava \u00e0s v\u00edtimas. Uma delas foi o coordenador do sequestro do embaixador americano Charles Elbrick, Virg\u00edlio Gomes da Silva, o Jonas, primeiro preso a desaparecer ap\u00f3s a edi\u00e7\u00e3o do AI-5.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O mesmo general que convocara Albernaz para a Oban anos depois assinou relat\u00f3rio informando que Jonas \u201cevadiu-se na ocasi\u00e3o em que foi conduzido para indicar um aparelho da ALN\u201d. Trinta anos depois, O GLOBO noticiaria a exist\u00eancia de um relat\u00f3rio em que militares admitem a morte do guerrilheiro em decorr\u00eancia de \u201cferimentos recebidos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Albernaz era um homem terr\u00edvel, o torturador mais famoso da Oban naquela \u00e9poca \u2014 confirmou ao GLOBO Carlos Ara\u00fajo, ex-marido de Dilma, que foi preso alguns meses depois dela e submetido aos mesmos procedimentos da ex-mulher.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Renegado pelo Ex\u00e9rcito e atolado em d\u00edvidas<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O trabalho na Opera\u00e7\u00e3o Oban fez com que Benoni Albernaz ca\u00edsse em desgra\u00e7a na pr\u00f3pria fam\u00edlia. Aposentado e dono de uma fazenda em Catal\u00e3o, Goi\u00e1s, o pai se chateava ao saber do comportamento do filho:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Ele usava o poder que tinha para extorquir as pessoas, e o pai ficava triste. Sempre foi uma fam\u00edlia esquisita, muito desunida \u2014 conta a dona de casa Maria L\u00e1zara, de 60 anos, irm\u00e3 de cria\u00e7\u00e3o do capit\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Olha, acho que uma vez ele caiu do cavalo numa parada militar, antes da ditadura, e o cavalo pisou na nuca dele. A partir da\u00ed, ele n\u00e3o ficou bom da cabe\u00e7a \u2014 sup\u00f5e a prima Noemia da Gama Albernaz, que hoje vive em Cuiab\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Albernaz deixou a Oban em fevereiro de 1971, quando o aparelho j\u00e1 havia se transformado no DOI-Codi. Por tr\u00eas vezes tentou fazer o curso de opera\u00e7\u00f5es na selva, mas teve a matr\u00edcula recusada. Foi transferido para o interior do Rio Grande do Sul, passando da ca\u00e7a a comunistas \u00e0s opera\u00e7\u00f5es de rotina em estradas de fronteira. O Ex\u00e9rcito tentava reneg\u00e1-lo. Em mar\u00e7o de 1974, foi internado em Porto Alegre, v\u00edtima de envenenamento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Albernaz tinha problemas com dinheiro. Foi denunciado pelo menos cinco vezes por fazer d\u00edvidas com recrutas e n\u00e3o pag\u00e1-los, apesar das advert\u00eancias de seus superiores. Estava lotado no setor medalh\u00edstico da Divis\u00e3o de Finan\u00e7as do Ex\u00e9rcito, em Bras\u00edlia, quando foi declarado inabilitado para promo\u00e7\u00f5es, por n\u00e3o satisfazer a dois requisitos: \u201cconceito profissional\u201d e \u201cconceito moral\u201d. Em mar\u00e7o de 1977, o presidente Ernesto Geisel o transferiu para a reserva.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em um escrit\u00f3rio no Centro de S\u00e3o Paulo, passou a coagir clientes a comprar terrenos vestido com farda falsificada de coronel \u2014 embora tivesse sido transferido para a reserva como major \u2014 e dizendo-se integrante do SNI.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Voc\u00ea \u00e9 uma estrela de nossa bandeira. Vamos investir juntos, ombro a ombro, peito aberto \u2014 dizia aos clientes, segundo registros de reclama\u00e7\u00e3o levadas ao Ex\u00e9rcito, pistas que levariam \u00e0 sua condena\u00e7\u00e3o por falsidade ideol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1980, intermediou transa\u00e7\u00f5es de ouro de baixa qualidade no Par\u00e1, vendendo como vantagem seu acesso aos garimpos. Nunca foi responsabilizado pelo espancamento, por encomenda, de um feirante de origem japonesa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Se n\u00e3o pagar agora, vai preso para o Dops \u2014 amea\u00e7ou, j\u00e1 em 1979, quando n\u00e3o mais pertencia ao Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O agredido foi \u00e0 delegacia prestar queixa e, ao saber disso, Albernaz baixou no local.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Sou amigo \u00edntimo do presidente da Rep\u00fablica, foi ele quem me deu isso \u2014 falou ao delegado, mostrando a pistola Smith &#038; Wesson. \u2014 Na lista de torturadores, sou o n\u00famero 2.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No fim dos anos 1980, Albernaz estava atolado em d\u00edvidas. N\u00e3o conseguiu pagar a hipoteca e foi acionado pelo menos quatro vezes em a\u00e7\u00f5es de execu\u00e7\u00e3o extrajudicial. Sofreu um infarto quando estava no apartamento da namorada, nos Jardins, em S\u00e3o Paulo, em 1992. Chegou morto ao Hospital do Ex\u00e9rcito. Deixou tr\u00eas filhos e heran\u00e7a de R$ 8,4 mil para cada, resgatados 15 anos ap\u00f3s sua morte, quando fizeram o invent\u00e1rio. Nenhum deles quis falar ao GLOBO.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Siga em frente com o seu trabalho, que a gente est\u00e1 seguindo em frente aqui tamb\u00e9m \u2014 disse o filho Roberto, dentista, desligando o telefone.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Isso \u00e9 coisa do passado, gostaria que n\u00e3o me incomodasse \u2014 completou a tamb\u00e9m dentista M\u00e1rcia Albernaz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Esquece nossa fam\u00edlia, vai ser melhor para voc\u00ea \u2014 disse Benoni J\u00fanior, m\u00e9dico do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; O Globo<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u2018Quando venho para a Oban, deixo o cora\u00e7\u00e3o em casa\u2019, dizia o militar do Ex\u00e9rcito Reprodu\u00e7\u00e3o da carteira de identidade de Benoni Albernaz, adulterada por ele para incluir a patente de coronel<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1442"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1442"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1442\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1442"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1442"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1442"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}