{"id":1446,"date":"2012-07-05T16:07:22","date_gmt":"2012-07-05T16:07:22","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/05\/ditadura-forneceu-armas-para-repressao-no-chile-2\/"},"modified":"2012-07-05T16:07:22","modified_gmt":"2012-07-05T16:07:22","slug":"ditadura-forneceu-armas-para-repressao-no-chile-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/05\/ditadura-forneceu-armas-para-repressao-no-chile-2\/","title":{"rendered":"Ditadura forneceu armas para repress\u00e3o no Chile"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Documentos secretos produzidos pelo extinto Estado-Maior das For\u00e7as Armadas (Emfa) durante a ditadura militar revelam que o governo brasileiro forneceu armamentos militares ao Chile para a repress\u00e3o interna no regime do general Augusto Pinochet (1973-1990). Um acordo articulado no governo do general Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici (1969-1974) e executado durante os primeiros anos do governo de Ernesto Geisel (1974-1979) repassou \u00e0 ditadura chilena milhares de fuzis, espingardas, cartuchos de muni\u00e7\u00e3o, carregadores e outros equipamentos b\u00e9licos, como \u201cmaterial destinado \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ordem interna\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/in\/5361896-fbf-ef2\/FT500A\/2012062973103.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>O presidente Geisel (de terno) recebe os cumprimentos do general Augusto Pinochet ao tomar posse, em 1974. No ano seguinte, equipou o ex\u00e9rcito chileno para a repress\u00e3o interna<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O GLOBO teve acesso com exclusividade a documentos que mostram que o EMFA determinou, em 17 de janeiro de 1975, que o armamento a ser cedido ao Chile tivesse as Armas da Rep\u00fablica apagadas para que n\u00e3o fosse identificada a origem brasileira e oficial. Nessa data, o ent\u00e3o vice-chefe do Estado-Maior, general Carlos de Meira Mattos, solicita ao chefe de gabinete do Minist\u00e9rio do Ex\u00e9rcito \u201cprovid\u00eancias no sentido de que a f\u00e1brica de Itajub\u00e1 proceda ao esmerilhamento nas estampagens dos emblemas com as Armas da Rep\u00fablica dos fuzis tipo FAL e FAP que ser\u00e3o cedidos\u201d, diz of\u00edcio secreto assinado por Meira Mattos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O general pede que o mesmo procedimento seja feito no armamento a ser fornecido pela Marinha: \u201cConforme rela\u00e7\u00e3o constante do Aviso da refer\u00eancia, o Minist\u00e9rio da Marinha tamb\u00e9m ceder\u00e1 id\u00eantico armamento ao governo Chileno. Assim sendo, consultamos aquele \u00f3rg\u00e3o da possibilidade de efetuar id\u00eantica opera\u00e7\u00e3o pela Marinha, ou em caso negativo, se deseja que o trabalho seja feito em Itajub\u00e1\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os documentos integram uma s\u00e9rie de 37 volumes de car\u00e1ter sigiloso e 52 volumes de boletins reservados expedidos pelo extinto Estado-Maior da For\u00e7as Armadas, sucedido pelo minist\u00e9rio da Defesa em 1999. O ministro da pasta, Celso Amorim, informou \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade a exist\u00eancia dos documentos e solicitou ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a a cria\u00e7\u00e3o de um grupo de trabalho para an\u00e1lise e tratamento das informa\u00e7\u00f5es. Amorim determinou que os volumes sejam transferidos para o Arquivo Nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cr\u00e9dito para o governo chileno<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ent\u00e3o presidente Geisel, que encarregou o Estado-Maior da coordena\u00e7\u00e3o das medidas para equipar o Ex\u00e9rcito do Chile para a repress\u00e3o interna, tamb\u00e9m autorizou abertura de cr\u00e9dito ao governo chileno para a compra de material b\u00e9lico e equipamento militar de produ\u00e7\u00e3o nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO senhor presidente da Rep\u00fablica autorizou a abertura de um cr\u00e9dito, no prazo de quinze anos, de US$ 40.000.000 (quarenta milh\u00f5es de d\u00f3lares), para a aquisi\u00e7\u00e3o de material b\u00e9lico e equipamentos militares de produ\u00e7\u00e3o nacional ou em disponibilidade no pa\u00eds\u201d, afirma o ministro-chefe do EMFA, Humberto de Souza Mello, ao ministro da Defesa do Chile, Patr\u00edcio Carvajal Prado, em 16 de maio de 1974. Em seguida, Souza Mello pede que sejam tomadas as provid\u00eancias junto ao governo do Chile para que o embaixador chileno em Bras\u00edlia seja \u201cautorizado a realizar os necess\u00e1rios entendimentos com o ministro da Fazenda do Brasil\u201d, Mario Henrique Simonsen.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os documentos mostram ainda que o governo brasileiro mobilizou o primeiro escal\u00e3o do corpo diplom\u00e1tico nas gest\u00f5es para o fornecimento de armas. \u00c9 o que revela comunica\u00e7\u00e3o feita em 7 de maio de 1974, em que Souza Mello encaminha ao ent\u00e3o ministro das Rela\u00e7\u00f5es Exteriores brasileiro, Ant\u00f4nio Francisco Azeredo da Silveira, of\u00edcio do ministro da Defesa do Chile. O of\u00edcio \u201cversa sobre um empr\u00e9stimo a ser concedido pelo Brasil e que seria empregado na aquisi\u00e7\u00e3o de material b\u00e9lico e equipamentos militares para as For\u00e7as Armadas daquele pa\u00eds\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na mesma data, Souza Mello destaca o \u201cinteresse\u201d do governo brasileiro em atender \u00e0 demanda de Pinochet e informa ao ministro da Marinha, Geraldo Azevedo Henning, que as For\u00e7as Armadas ir\u00e3o ceder ao governo chileno equipamentos de uso pr\u00f3prio, j\u00e1 que parte do material solicitado n\u00e3o estava dispon\u00edvel para venda. \u201cDado o interesse de nosso governo em atender ao solicitado e considerando-se que do material b\u00e9lico solicitado uma parte n\u00e3o se encontra dispon\u00edvel no pa\u00eds, enquanto que a outra parte, de produ\u00e7\u00e3o nacional, n\u00e3o poder\u00e1 ser entregue a curto prazo (\u2026). Tal an\u00e1lise indicou a possibilidade de serem cedidos armamentos e muni\u00e7\u00f5es j\u00e1 entregues, pelos fabricantes ou fornecedores, \u00e0s For\u00e7as Armadas\u201d, diz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m do armamento fornecido pelas For\u00e7as Armadas, a ditadura militar no Brasil intermediou para o governo Pinochet a aquisi\u00e7\u00e3o de equipamentos b\u00e9licos de empresas brasileiras. Ao menos duas empresas brasileiras serviram para enviar armamentos a Pinochet, a Engesa S.A e Mayrink Veiga S.A.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 o que mostra o mesmo documento, de 7 de maio de 1974, em que o ministro-chefe do EMFA encaminha uma \u201cLista Geral das necessidade das For\u00e7as Armadas do Chile\u201d, al\u00e9m da c\u00f3pia de uma \u201ccarta-proposta de Mayrink Veiga S.A. que versa sobre o fornecimento de armamento e muni\u00e7\u00f5es importados\u201d. \u201cO assunto tratado no documento do Minist\u00e9rio da Defesa do Chile e em seus anexos foi objeto de contatos anteriores, de comiss\u00f5es das For\u00e7as Armadas daquele pa\u00eds com os Minist\u00e9rios Militares, com os fabricantes e fornecedores de material b\u00e9lico e equipamentos militares e, finalmente, com este Estado-Maior\u201d, esclarece o general.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em outro despacho, de 25 de novembro de 1974, Meira Mattos informa ao vice-chefe do Estado-Maior do Ex\u00e9rcito que o \u201cEx\u00e9rcito do Chile encaminhou \u00e0 Engesa S.A.\u201d of\u00edcio em que \u201csolicita informa\u00e7\u00f5es sobre pre\u00e7os, prazos de entrega e demais caracter\u00edsticas t\u00e9cnicas para muni\u00e7\u00f5es a serem utilizadas nos ve\u00edculos Cascavel, recentemente adquiridos por aquele ex\u00e9rcito\u201d. Segundo o general, a Engesa consulta o Estado-Maior sobre como proceder. O general, ent\u00e3o, solicita informa\u00e7\u00f5es sobre \u201carmamentos e respectivas muni\u00e7\u00f5es que ir\u00e3o equipar os ve\u00edculos Cascavel e Urutu, vendidos ao Chile\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma lista enumerando milhares de armas a serem fornecidas ao governo chileno est\u00e1 entre os documentos a que O GLOBO teve acesso. Em 9 de outubro de 1974, o ent\u00e3o ministro-chefe do Emfa, Ant\u00f4nio Jorge Corr\u00eaa, emite comunicado secreto ao presidente da Rep\u00fablica, general Ernesto Geisel, com documento anexo \u201creferente \u00e0 exporta\u00e7\u00e3o e cess\u00e3o de material b\u00e9lico para o Chile\u201d. \u201cAs provid\u00eancias foram tomadas em obedi\u00eancia \u00e0 determina\u00e7\u00e3o de Vossa Excel\u00eancia em despacho de 25 de mar\u00e7o de 1974 e somente foi considerado o material destinado \u00e0 manuten\u00e7\u00e3o da ordem interna\u201d, pontua Corr\u00eaa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Preocupa\u00e7\u00f5es com articula\u00e7\u00e3o de guerrilhas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de negocia\u00e7\u00f5es para cess\u00e3o de armamentos ao governo chileno, documentos produzidos pelo Estado-Maior das For\u00e7as Armadas mostram a preocupa\u00e7\u00e3o da ditadura brasileira com liga\u00e7\u00f5es entre grupos de guerrilha locais com os vizinhos latino-americanos. Em documento reservado de novembro de 1974, o ministro-chefe do Emfa, Ant\u00f4nio Jorge Corr\u00eaa, discorre sobre a \u201csuspeita de entendimentos entre organiza\u00e7\u00f5es terroristas argentinas e brasileiras\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Of\u00edcio endere\u00e7ado ao comandante da Escola Superior de Guerra, Walter de Menezes Paes, d\u00e1 instru\u00e7\u00f5es sobre \u201cprovid\u00eancias de seguran\u00e7a\u201d a serem tomadas. \u201cEsta chefia teve conhecimento atrav\u00e9s de \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o que h\u00e1 suspeitas de entendimento entre organiza\u00e7\u00f5es terroristas argentinas e brasileiras, visando a atentados contra elementos indicados pelas ditas organiza\u00e7\u00f5es\u201d, diz o of\u00edcio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ministro refere-se ent\u00e3o a uma viagem de interc\u00e2mbio entre os dois governos militares e pede precau\u00e7\u00f5es devido \u00e0s suspeitas de coopera\u00e7\u00e3o entre guerrilhas dos dois pa\u00edses: \u201cDevendo a ESG coordenar a visita da Escola de Defesa Nacional da Rep\u00fablica da Argentina, na segunda quinzena de novembro pr\u00f3ximo, alerto V.Exa, para as provid\u00eancias de seguran\u00e7a que se tornam necess\u00e1rias. Em face do acima exposto, recomendo V.Exa. que realize as necess\u00e1rias liga\u00e7\u00f5es com o Exmo. Sr. Comandante do I Ex\u00e9rcito\u201d, aponta Corr\u00eaa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em outro despacho, de 31 de outubro de 1974, Ant\u00f4nio Jorge Corr\u00eaa se dirige ao presidente da Rep\u00fablica, Ernesto Geisel, para manifestar a \u201cpreocupa\u00e7\u00e3o\u201d da Junta Interamericana de Defesa (JID) sobre a \u201cpossibilidade de reingresso de Cuba na Organiza\u00e7\u00e3o dos Estados Americanos (OEA)\u201d, diante da discuss\u00e3o da revoga\u00e7\u00e3o das san\u00e7\u00f5es impostas em 1962 e 1964 ao governo cubano, como a exclus\u00e3o da JID.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO atual governo de Cuba, no momento em que passou \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de integrante do Bloco Comunista, tornou-se incompat\u00edvel junto \u00e0 JID, devido ao fato de que os planejamentos militares desta j\u00e1 consideravam como principal amea\u00e7a ao continente americano a atua\u00e7\u00e3o do movimento Comunista Internacional, materializada, naquela \u00e9poca, por uma agress\u00e3o militar de origem externa\u201d, afirma Corr\u00eaa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Corr\u00eaa sugere, ent\u00e3o, duas \u201cdiretrizes\u201d para a representa\u00e7\u00e3o brasileira na JID. A primeira, de que n\u00e3o participasse das discuss\u00f5es e se abstivesse de vota\u00e7\u00f5es relativas a Cuba. A segunda, de que, caso fossem suspensas as san\u00e7\u00f5es, o Brasil permanecesse na posi\u00e7\u00e3o de observador e o Estado-Maior fosse \u201cconstantemente informado\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; O Globo<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Documentos secretos produzidos pelo extinto Estado-Maior das For\u00e7as Armadas (Emfa) durante a ditadura militar revelam que o governo brasileiro forneceu armamentos militares ao Chile para a repress\u00e3o interna no regime do general Augusto Pinochet (1973-1990). 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