{"id":1461,"date":"2012-07-10T17:00:02","date_gmt":"2012-07-10T17:00:02","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/10\/1932-a-revanche-oligarquica-2\/"},"modified":"2012-07-10T17:00:02","modified_gmt":"2012-07-10T17:00:02","slug":"1932-a-revanche-oligarquica-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/10\/1932-a-revanche-oligarquica-2\/","title":{"rendered":"1932: A Revanche Olig\u00e1rquica"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: justify;\">&#8220;O nosso movimento \u00e9 do Brasil. Cat\u00f3lico,<br \/>disciplinado e forte, contra a anarquia em<br \/>que queriam que viv\u00eassemos. Uma luta de<br \/>Jesus contra Lenine&#8221;.<br \/>(Ibrahim Nobre. &#8220;Tribuno<br \/>do Movimento Constitucionalista&#8221;, em 12 de<br \/>julho de 1932)<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os antecedentes da revolta<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A revolu\u00e7\u00e3o de 1930 foi um dos acontecimentos mais importantes da nossa hist\u00f3ria recente. A derrubada das velhas oligarquias, ligadas ao financiamento, produ\u00e7\u00e3o e exporta\u00e7\u00e3o do caf\u00e9, e do regime que lhes dava sustenta\u00e7\u00e3o, criou melhores condi\u00e7\u00f5es para o desenvolvimento do capitalismo brasileiro. Abriu caminho para a diversifica\u00e7\u00e3o da economia e o impulsionamento da ind\u00fastria moderna. Embora esse desenvolvimento mantivesse intacta e estrutura fundi\u00e1ria baseada no latif\u00fandio e n\u00e3o rompesse substancialmente com a depend\u00eancia externa, apenas recolocando-a sob novos termos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O novo governo revolucion\u00e1rio, dirigido por Vargas, procurou, desde o in\u00edcio, construir uma base social que lhe permitisse resistir aos setores das oligarquias desalojadas do poder. Implantou-se assim uma pol\u00edtica bifronte assentada, de um lado, na concess\u00e3o de direitos sociais e, de outro, na repress\u00e3o \u00e0s organiza\u00e7\u00f5es oper\u00e1rias aut\u00f4nomas. A pol\u00edtica de concess\u00f5es receberia duras cr\u00edticas do conjunto das classes propriet\u00e1rias brasileiras.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento armado de 1930 foi recebido com euforia pelo povo paulista, especialmente pelas classes m\u00e9dias e o proletariado. Uma multid\u00e3o euf\u00f3rica depredou as reda\u00e7\u00f5es dos jornais governistas, como o S\u00e3o Paulo Jornal e o Correio Paulistano. Existia uma forte oposi\u00e7\u00e3o ao Partido Republicano Paulista no Estado. Esta oposi\u00e7\u00e3o era encabe\u00e7ada pelo Partido Democr\u00e1tico (PD), uma dissid\u00eancia olig\u00e1rquica, que tinha influ\u00eancia sobre as classes m\u00e9dias e que at\u00e9 ent\u00e3o tinha tido seu acesso ao poder interditado pelas fraudes eleitorais t\u00edpicas da Rep\u00fablica Velha. O PD apoiou a revolu\u00e7\u00e3o e chegou a tomar o poder na capital paulista, permanecendo ali por 40 dias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas Vargas e os tenentes revolucion\u00e1rios desconfiavam das elites pol\u00edticas paulistas, inclusive do PD. Por isso, para a interventoria foi indicado o tenente Jo\u00e3o Alberto, que n\u00e3o era paulista. O novo interventor, sob forte oposi\u00e7\u00e3o dos grupos olig\u00e1rquicos, buscou apoio junto ao proletariado paulista, agravando a desconfian\u00e7a dos setores conservadores. Num ato inusitado, chegou a autorizar o funcionamento do Partido Comunista do Brasil. Embora as tr\u00eas pessoas autorizadas n\u00e3o fossem mais militantes do referido partido por haverem composto uma dissid\u00eancia de car\u00e1ter trotskista. O objetivo dos tenentes n\u00e3o era, como acusavam seus cr\u00edticos conservadores, incentivar a luta de classes. Pelo contr\u00e1rio, eles pretendiam, sim, atrav\u00e9s de medidas sociais e de melhorias salariais, &#8220;conciliar patr\u00f5es e oper\u00e1rios, harmonizando-os para uma obra de paz e prosperidade nacional&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Exclu\u00eddo do poder, em abril de 1931, o Partido Democr\u00e1tico (PD) rompeu com o governo e lan\u00e7ou a den\u00fancia de que S\u00e3o Paulo era um territ\u00f3rio militarmente ocupado e exigiu a indica\u00e7\u00e3o de interventor civil e paulista (e preferencialmente do PD). A resposta governista foi o fechamento da sede do Partido, do Di\u00e1rio Nacional e a pris\u00e3o do chefe da pol\u00edcia ligado ao PD, Vicente Rao. No final do m\u00eas, os &#8220;democr\u00e1ticos&#8221; tentaram organizar um levante armado que foi desmantelado. Mais de 200 revoltosos foram presos. A situa\u00e7\u00e3o se agravou. A chefia da For\u00e7a P\u00fablica foi assumida pelo tenente Miguel Costa &#8211; ex-comandante da Coluna e chefe da Legi\u00e3o Revolucion\u00e1ria de S\u00e3o Paulo &#8211; e a da II Regi\u00e3o Militar, pelo General G\u00f3es Monteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Tentando evitar novos confrontos, Vargas cedeu \u00e0 press\u00e3o e substituiu Miguel Costa por Pl\u00ednio Barreto, com aval dos &#8220;democr\u00e1ticos&#8221;. Os tenentes se agitaram, pois o indicado havia caluniado a revolta de 1922, acusando os revoltosos de &#8220;bandidos&#8221;. O tenente Miguel Costa organizou ent\u00e3o um levante na For\u00e7a P\u00fablica que impediu a posse do novo interventor. Vargas indicou um outro interventor paulista e civil, Lauro Camargo. Este, como os anteriores, ficou pouco tempo no cargo. Renunciou em poucos meses devido a desaven\u00e7as com os tenentes. Em seu lugar assumiu um aliado dos tenentes, o comandante da II Regi\u00e3o Militar, general Manuel Rabelo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Dia 25 de janeiro de 1932 realizou-se um grande com\u00edcio na Pra\u00e7a de S\u00e9 no qual foi lan\u00e7ada a palavra de ordem &#8220;Luta pela Constituinte&#8221;. Um novo com\u00edcio monstro realizou-se em 24 de fevereiro. As oligarquias iniciaram um processo de unifica\u00e7\u00e3o em n\u00edvel nacional. Em S\u00e3o Paulo o Partido Republicano e o Democr\u00e1tico, inimigos hist\u00f3ricos, se unificaram na &#8220;Frente \u00danica Paulista&#8221;. Em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul formaram-se frentes \u00fanicas contra o governo federal. As bandeiras que os unificavam foram a volta do federalismo e a necessidade de se convocar uma Assembl\u00e9ia Nacional Constituinte.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 23 de fevereiro de 1932, visando tirar a bandeira de &#8220;constitucionaliza\u00e7\u00e3o&#8221; das m\u00e3os das oposi\u00e7\u00f5es olig\u00e1rquicas, Vargas promulgou o novo c\u00f3digo eleitoral, estabelecendo o voto feminino e secreto, e anunciou a convoca\u00e7\u00e3o de uma Assembl\u00e9ia Constituinte. Em 13 de maio nomeou uma comiss\u00e3o de &#8220;not\u00e1veis&#8221; para elaborar um anteprojeto de Constitui\u00e7\u00e3o e marcou a elei\u00e7\u00e3o para 3 de maio de 1933. Foi decretado tamb\u00e9m o fim da censura \u00e0 imprensa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 2 de mar\u00e7o o presidente j\u00e1 havia feito uma outra concess\u00e3o importante e nomeado um interventor civil, paulista e ligado aos grupos pol\u00edticos regionais, Pedro de Toledo. Pensou, assim, deter a mar\u00e9 contra-revolucion\u00e1ria, mas cada concess\u00e3o presidencial aumentava ainda mais a ousadia de seus advers\u00e1rios. A Frente \u00danica exigia agora a ren\u00fancia do governo Vargas e a volta do antigo regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O movimento oper\u00e1rio e o levante constitucionalista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da sua aus\u00eancia na hist\u00f3ria oficial o movimento oper\u00e1rio teve um importante papel na configura\u00e7\u00e3o do conflito que op\u00f4s as elites de S\u00e3o Paulo e o governo central. Entre janeiro e maio de 1932 a cidade de S\u00e3o Paulo foi atingida por uma onda grevista n\u00e3o vista desde 1917. O movimento de contesta\u00e7\u00e3o oper\u00e1ria atingiu seu cl\u00edmax em maio. No dia 2 paralisaram os ferrovi\u00e1rios, seguiu-se a greve dos sapateiros, vidreiros. No dia 11, a greve atingiu as ind\u00fastrias t\u00eaxteis, e depois se estendeu para os padeiros, empregados de hot\u00e9is e da ind\u00fastria de fumo, al\u00e9m de in\u00fameras outras f\u00e1bricas isoladas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mais de 100 mil oper\u00e1rios paralisaram suas atividades naqueles dias. O conflito durou mais de um m\u00eas.<br \/>Visando neutralizar esse movimento, e a crescente influ\u00eancia anarquista e comunista, o governo federal sancionou v\u00e1rias leis trabalhistas. Em 4 de maio instituiu a lei das oito horas para a ind\u00fastria; no dia 12, criou as Comiss\u00f5es Mistas de Concilia\u00e7\u00e3o; no dia 17, regulamentou o trabalho de mulheres na ind\u00fastria e no com\u00e9rcio. Os empres\u00e1rios de S\u00e3o Paulo consideraram estas medidas como concess\u00f5es inaceit\u00e1veis aos grevistas e exigiram a sua revoga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Fiesp solicitou que se &#8220;sustasse provisoriamente em S\u00e3o Paulo a execu\u00e7\u00e3o das leis sociais desse Minist\u00e9rio [do Trabalho] (&#8230;). Modifica\u00e7\u00f5es dessa ordem podem ser feitas com sucesso em quadras normais, mas apresentam perigos cuja extens\u00e3o V. Exa. poder\u00e1 imaginar em quadras como a atual, de inquieta\u00e7\u00f5es e desconfian\u00e7as. Acedendo ao nosso pedido, haver\u00e1 V. Exa. contribu\u00eddo fortemente para a debela\u00e7\u00e3o da crise pol\u00edtica e social&#8221;. Em resposta afirmou o ministro: &#8220;Assegurando-se esses direitos desaparecer\u00e1 o mal-estar reinante&#8221;. N\u00e3o conseguindo os seus objetivos os industriais paulistas passaram a refor\u00e7ar a frente oposicionista olig\u00e1rquica.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O discurso anticomunista foi marca da oposi\u00e7\u00e3o liberal paulista. Ela procurou sempre vincular o novo regime, instaurado no p\u00f3s-30, com o crescimento do movimento oper\u00e1rio e comunista. No inicio do conflito armado, o presidente do Instituto do Caf\u00e9 afirmou: &#8220;Lavradores! Os desmandos da ditadura (&#8230;) s\u00e3o as melhores armas de que se servem os aventureiros internacionais, desejosos de implantar na terra acolhedora de Santa Cruz os horrores do comunismo&#8221;. (Di\u00e1rio Nacional, 12\/7\/1932) O arcebispo de S\u00e3o Paulo, D. Duarte Leopoldo e Silva, n\u00e3o ficou atr\u00e1s, afirmando: &#8220;A erva daninha do comunismo, trouxe-a para S\u00e3o Paulo a mochila de certos pr\u00f3ceres de 1930&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pr\u00f3pria greve se de um lado agu\u00e7ou o esp\u00edrito oposicionista das oligarquias, por outro, retardou os preparativos b\u00e9licos, como podemos notar nesta carta do l\u00edder democr\u00e1tico paulista, J. A Marrey, a Francisco Morato: &#8220;Devemos evitar a luta armada por todos os meios, sobretudo agora que se encontram em greve dezenas de milhares de oper\u00e1rios. Pressinto a queda de nosso Partido. (&#8230;) ele dever\u00e1 saber mover-se habilmente dentro da situa\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No auge da greve, em 14 de maio de 1932, o jornal O Estado de S. Paulo, que havia sido oposi\u00e7\u00e3o ao Partido Republicano Paulista, estampou em suas p\u00e1ginas: &#8220;O Brasil s\u00f3 se salvar\u00e1 se houver uni\u00e3o entre seus filhos, entre os vencedores e vencidos da Revolu\u00e7\u00e3o que ainda n\u00e3o se transviaram para a loucura bolchevique. Pouco importa, ao menos para n\u00f3s, que, passada a tormenta e salvo o Brasil, o poder v\u00e1 para as m\u00e3os dos pol\u00edticos de antanho. O que cumpre, do mais humilde cidad\u00e3o ao chefe do Governo, \u00e9 salvar o Brasil da anarquia&#8221;. A volta ao passado era melhor do que a inseguran\u00e7a criada pelo avan\u00e7o da luta social.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o constitucionalista<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos dias 22 e 23 de maio uma multid\u00e3o, insuflada pela imprensa e por pol\u00edticos paulistas, depredou a sede do Partido Popular Progressista e o jornal A Raz\u00e3o, ligados aos tenentes. Em seguida um grupo de estudantes tentou depredar a sede da Legi\u00e3o Revolucion\u00e1ria de Miguel Costa. No conflito morreram quatro manifestantes: Miragaia, Martins, Dr\u00e1usio e Camargo. Com as iniciais dos quatro nomes (MMDC) formou-se um movimento radical anti-Vargas, defensor da luta armada contra o novo regime.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 23 de maio, aproveitando-se da como\u00e7\u00e3o popular a Frente \u00danica Paulista deu um golpe e assumiu o poder no Estado, mantendo Pedro de Toledo no governo. Todo secretariado passou a ser composto pelos grupos oposicionistas. As oligarquias haviam retomado o poder em S\u00e3o Paulo. Vargas novamente recuou e n\u00e3o tomou nenhuma provid\u00eancia pensando assim reduzir a crise e evitar o conflito armado. De nada adiantou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s a tomada do poder pela Frente \u00danica paulista, aumentou a repress\u00e3o ao movimento grevista em curso. No mesmo dia a pol\u00edcia invadiu o Sindicato dos padeiros e prendeu duzentos grevistas. A assembl\u00e9ia do Comit\u00ea de Greve foi invadida e a maioria dos seus dirigentes presa. Entre eles estavam Le\u00f4ncio Basbaum, Roberto Morena, Grazini e Caetano Machado, todos dirigentes do PCB; e Righetti, l\u00edder dos trabalhadores gr\u00e1ficos ligado aos tenentes. A greve de maio seria esmagada pela repress\u00e3o. A repress\u00e3o que se seguiria enfraqueceu bastante o PCB no Estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Di\u00e1rio Nacional, ligado aos &#8220;democr\u00e1ticos&#8221; regozijou-se do papel repressivo do novo governo paulista. Afirmou o jornal: &#8220;S\u00e3o Paulo inteiro n\u00e3o ignora que foi \u00e0 sombra da Ditadura que as doutrinas extremistas encontraram campo de expans\u00e3o (&#8230;). Em 23 de maio, depois que o povo paulista conquistou na pra\u00e7a p\u00fablica (&#8230;) o seu pr\u00f3prio governo, essa situa\u00e7\u00e3o modificou-se. Uma das principais provid\u00eancias tomadas (&#8230;) foi a organiza\u00e7\u00e3o de turma especializada para a repress\u00e3o ao bolchevismo (&#8230;). Iniciou-se dali a campanha contra os estipendiados de Moscou. Que a colheita foi boa, prova-o a rela\u00e7\u00e3o que abaixo publicamos, das pris\u00f5es desde os \u00faltimos dias de maio&#8221; (em 14\/9\/1932).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As elites paulistas buscaram ent\u00e3o forjar uma alian\u00e7a pol\u00edtico-militar com os dirigentes de Minas e Rio Grande do Sul com o objetivo de derrubar o governo. Formou-se um comando militar paulista da revolta tendo \u00e0 frente os generais Isidoro Dias Lopes, Bertoldo Klinger e Euclides de Figueiredo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 9 de julho, confiantes na vit\u00f3ria, os generais paulistas iniciaram o movimento armado. No entanto, o interventor ga\u00facho recuou de sua posi\u00e7\u00e3o e deu o seu apoio ao governo. Diante de um convite dos revoltosos os comandantes da For\u00e7a P\u00fablica mineira afirmaram: &#8220;A vossa palavra tocou-nos profundamente o cora\u00e7\u00e3o&#8221;, mas &#8220;o que n\u00f3s queremos acima de tudo \u00e9 a ordem&#8221;. Minas escolheu o caminho da negocia\u00e7\u00e3o e abandonou seus aliados paulistas. As oligarquias de S\u00e3o Paulo ficaram isoladas num combate contra o poder central.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio os paulistas acreditavam que o movimento seria &#8220;uma simples parada militar, mera marcha triunfal at\u00e9 o Rio de Janeiro&#8221;. Miguel Costa e seus aliados foram presos e iniciou-se uma dura repress\u00e3o contra todos os grupos partid\u00e1rios de Vargas e de esquerda, como comunistas e anarquistas. Mais de 1400 pessoas s\u00e3o presas durante o movimento.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O afastamento das classes populares, especialmente da classe oper\u00e1ria, foi vis\u00edvel. No manifesto de apoio, lan\u00e7ado no dia seguinte do levante, das 28 entidades que assinaram apenas 4 eram de trabalhadores. Os grandes sindicatos oper\u00e1rios n\u00e3o foram solid\u00e1rios com o levante de 1932, o instinto de classe lhes dizia que aquele movimento era contra os seus interesses. O esmagamento da greve geral de maio havia sido um bom exemplo disso.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>A derrota militar das oligarquias<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A luta durou tr\u00eas meses e foi bastante desfavor\u00e1vel aos paulistas, inferiorizados em armamento e em efetivos militares. As sucessivas derrotas e frustra\u00e7\u00f5es levaram a que ocorressem deser\u00e7\u00f5es nas tropas paulistas. Na retaguarda cresceu o descontentamento das classes populares submetidas a todo tipo de priva\u00e7\u00f5es e bombardeios governistas, ocorrendo casos de saques. Em 2 de outubro o comandante da For\u00e7a P\u00fablica de S\u00e3o Paulo, sem autoriza\u00e7\u00e3o dos demais comandantes, assinou o armist\u00edcio e destituiu Pedro de Toledo. Justificando a rendi\u00e7\u00e3o o seu comandante, Coronel Herculano de Carvalho, afirmou: &#8220;Aquilo j\u00e1 n\u00e3o era humano, j\u00e1 n\u00e3o era desprendimento; raiava \u00e0 loucura. Um crime continuar a luta daquele modo&#8221;. Fracassava assim a tentativa das oligarquias paulistas de reconquistar o poder pol\u00edtico no Estado nacional brasileiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios combatentes de 1932 deram-se conta de que haviam sido utilizados pelas oligarquias. Um ano ap\u00f3s o fim do conflito um Manifesto de ex-combatentes denunciava &#8220;os privil\u00e9gios e regalias que galardoavam desigualmente os filhos da fortuna, guerreiros brancos da retaguarda, vistosos e luzidios, ostentando gal\u00f5es e proclamando bravuras imagin\u00e1rias&#8221; e, conclu\u00eda: &#8220;N\u00f3s somos aqueles que hoje est\u00e3o convictos do embuste e da mistifica\u00e7\u00e3o a que foram atirados pelo manobradores da pol\u00edtica profissional, promotores de revolu\u00e7\u00f5es com o intuito de reconquista do poder perdido&#8221;.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Apesar da desorganiza\u00e7\u00e3o do Partido Comunista e das entidades sindicais, existia ainda um medo insano da insurrei\u00e7\u00e3o comunista em S\u00e3o Paulo. Uma das justificativas da rendi\u00e7\u00e3o foi a de que &#8220;a ordem p\u00fablica em S\u00e3o Paulo estava seriamente amea\u00e7ada por um grande surto comunista&#8221;. Por sua vez, o general vitorioso, G\u00f3is Monteiro, afirmou: &#8220;Ordenei ao General Daltro Filho entrar, \u00e0 frente de suas for\u00e7as, na capital paulista, a fim de garantir a ordem pois havia ali muita confus\u00e3o e grande desapontamento, al\u00e9m de levantes de car\u00e1ter comunista&#8221;. Naqueles dias tumultuados, o fantasma do comunismo parece que atormentava vencidos e vencedores e contra ele n\u00e3o tardaram a se unificar em 1935 e em 1937.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Por Augusto C. Buonicore\u00a0&#8211; Historiador, membro do Comit\u00ea Central do Partido Comunista do Brasil, Secret\u00e1rio Geral da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois e respons\u00e1vel pelo Centro de Documenta\u00e7\u00e3o e Mem\u00f3ria (CDM)<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>&#8220;O nosso movimento \u00e9 do Brasil. Cat\u00f3lico,disciplinado e forte, contra a anarquia emque queriam que viv\u00eassemos. 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