{"id":1481,"date":"2012-07-11T14:37:01","date_gmt":"2012-07-11T14:37:01","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/as-garras-do-brasil-na-condor-2\/"},"modified":"2012-07-11T14:37:01","modified_gmt":"2012-07-11T14:37:01","slug":"as-garras-do-brasil-na-condor-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/as-garras-do-brasil-na-condor-2\/","title":{"rendered":"As garras do Brasil na Condor"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Palestra proferida no Semin\u00e1rio Internacional sobre a Opera\u00e7\u00e3o Condor &#8211;\u00a0C\u00e2mara dos Deputados \u2013 Bras\u00edlia, Brasil \u2013 5\/julho\/2012<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/Luiz_Cl%C3%A1udio_Cunha.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"500\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Luiz Claudio Cunha: \u201cTodos, aqui, temos uma s\u00f3 mensagem a quem fez e a quem tenta esquecer tudo aquilo:\u00a0N\u00f3s sabemos, n\u00f3s lembramos, n\u00f3s contamos.\u201d\u00a0Foto: Roosewelt Pinheiro \/ Ag\u00eancia Brasil \u2013 EBC  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A mais longa ditadura da maior na\u00e7\u00e3o do continente n\u00e3o poderia ficar de fora do clube mais sinistro dos regimes militares da Am\u00e9rica do Sul. O Brasil dos generais do regime de 1964 estava l\u00e1, de corpo e alma, na reuni\u00e3o secreta em Santiago do Chile, em novembro de 1975, que criou a Opera\u00e7\u00e3o Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nascia a mais articulada e mais ampla manifesta\u00e7\u00e3o de terrorismo de Estado na hist\u00f3ria mundial. Nunca houve uma coordena\u00e7\u00e3o t\u00e3o extensa entre tantos pa\u00edses para um combate t\u00e3o impiedoso e sangrento a grupos de dissens\u00e3o pol\u00edtica ou de luta armada, confrontados \u00e0 margem das leis por t\u00e9cnicas consagradas no submundo do crime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tempos depois, em 1991, as democracias renascidas da regi\u00e3o constru\u00edram um dif\u00edcil pacto de integra\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e econ\u00f4mica batizado de Mercosul. Dezesseis anos antes, contudo, os generais das seis ditaduras do Cone Sul \u2014 Chile, Argentina, Brasil, Uruguai, Paraguai e Bol\u00edvia \u2014 tinham conseguido realizar, a ferro e fogo, uma proeza ainda mais improv\u00e1vel: um secreto entendimento pela desintegra\u00e7\u00e3o f\u00edsica, pol\u00edtica e psicol\u00f3gica de milhares de pessoas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Opera\u00e7\u00e3o Condor trouxe para dentro do Estado ileg\u00edtimo das ditaduras as pr\u00e1ticas ilegais da viol\u00eancia de bandos paramilitares, transformando agentes da lei em executores ou c\u00famplices encapuzados de uma dissimulada pol\u00edtica oficial de exterm\u00ednio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O envolvimento de efetivos regulares da seguran\u00e7a com as pr\u00e1ticas bandoleiras de grupos assassinos explica, de alguma forma, a leni\u00eancia e depois a coniv\u00eancia com o crime por parte de corpora\u00e7\u00f5es historicamente fundadas na lei e na ordem. O Esquadr\u00e3o da Morte, em pa\u00edses como Brasil, Argentina e Uruguai, contaminou o Ex\u00e9rcito. O Ex\u00e9rcito perdeu os limites com a obsess\u00e3o da guerra antisubversiva. A luta contra a guerrilha transbordou as fronteiras da lei e exacerbou a viol\u00eancia. A virul\u00eancia clandestina e sem controle do esquadr\u00e3o empolgou o Ex\u00e9rcito. O Ex\u00e9rcito apodreceu com o Esquadr\u00e3o da Morte. O esquadr\u00e3o confundiu-se com o Ex\u00e9rcito, o Ex\u00e9rcito virou um esquadr\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Condor, enfim, reconheceu tudo isso e criminalizou os regimes militares do Cone Sul.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois policiais resumem este mergulho criminoso do poder no Brasil e no Uruguai. O americano Dan Mitrione era especialista em interrogat\u00f3rios do Servi\u00e7o de Seguran\u00e7a P\u00fablica (OPS, na sigla em ingl\u00eas), uma ag\u00eancia americana de fachada da CIA extinta um ano antes do nascimento da Condor. Em 16 anos de vida, treinou um milh\u00e3o de policiais no chamado Terceiro Mundo. Mitrione desembarcou no Rio de Janeiro um ano antes do golpe de 1964 e ao sair, tr\u00eas anos depois, a OPS tinha adestrado 100 mil agentes brasileiros, 1\/6 da for\u00e7a policial do pa\u00eds. Mitrione assumiu a OPS do Uruguai em 1969, quatro anos antes do golpe de Bordaberry, com um lema que definia seus princ\u00edpios: \u201cA dor precisa, no lugar preciso, na quantidade precisa, para o efeito desejado\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O brasileiro S\u00e9rgio Fleury, delegado do DOPS, era internacionalmente conhecido como l\u00edder do clandestino Esquadr\u00e3o da Morte, de onde importou m\u00e9todos de combate ao crime comum para uso na repress\u00e3o pol\u00edtica. Seis meses antes do golpe de junho de 1973, o embaixador americano em Montevid\u00e9u, Charles Wallace Adair Jr., avisou Washington que oficiais da alta hierarquia militar do Uruguai foram treinados no final de 1971 pelo Brasil para combater a insurg\u00eancia. Um dos treinadores brasileiro levados aos aprendizes de Mitrione era o experiente Fleury.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O embaixador detalhou a a\u00e7\u00e3o de \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a da Argentina (Secretaria de Intelig\u00eancia do Estado, SIDE) e do Brasil (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, SNI) no apoio a grupos uruguaios clandestinos: \u201cOs brasileiros reconhecidamente aconselharam e treinaram oficiais militares e policiais uruguaios envolvidos em grupos contra-terroristas que se responsabilizaram por atentados a bomba, sequestros e at\u00e9 mesmo assassinatos de suspeitos de pertencerem \u00e0 esquerda radical\u201d. Na Argentina, o delegado-chefe da Pol\u00edcia Federal em Buenos Aires era Alberto Villar, fundador em 1973 da vers\u00e3o local do Esquadr\u00e3o da Morte, a clandestina Triple A, ou Alian\u00e7a Anticomunista Argentina, acusada de quase 2 mil mortes em dez anos de crimes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quase dois anos antes da formaliza\u00e7\u00e3o da Condor, os seis pa\u00edses da regi\u00e3o fizeram uma reuni\u00e3o secreta em Buenos Aires, em fevereiro de 1974. O \u2018I Semin\u00e1rio de Pol\u00edcia sobre a Luta Antisubversiva no Cone Sul\u2019 reunia os chefes da Pol\u00edcia Federal, alguns deles oficiais do Ex\u00e9rcito \u2014 casos do Brasil, Argentina e Paraguai. Acertaram \u201cnovas formas de colabora\u00e7\u00e3o transnacional para confrontar a amea\u00e7a subversiva\u201d, conforme o general Miguel Angel I\u00f1iguez, chefe da Pol\u00edcia Federal argentina, anunciando a decis\u00e3o final de opera\u00e7\u00f5es conjuntas \u201ccontra inimigos pol\u00edticos em qualquer dos pa\u00edses associados\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A preocupa\u00e7\u00e3o anticomunista se agu\u00e7ou com a revolu\u00e7\u00e3o castrista em Cuba e entrou na pauta dos quart\u00e9is do continente, que se reuniam regularmente na Conferencia dos Ex\u00e9rcitos Americanos (CEA). No 10\u00ba encontro, realizado em Caracas uma semana antes do golpe de Pinochet em 1973, o general brasileiro Breno Borges Fortes prop\u00f4s \u201campliar a troca de experi\u00eancias ou informa\u00e7\u00f5es\u201d na guerra ao comunismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1976, na Nicar\u00e1gua do ditador Somoza, disse o chefe da delega\u00e7\u00e3o argentina na CEA:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 A guerra ideol\u00f3gica n\u00e3o respeita fronteiras \u2014 avisou o general Roberto Viola, que carregava no sobrenome a cren\u00e7a de quem n\u00e3o reconhece limites no combate \u00e0 subvers\u00e3o. Quatro anos antes, este desbordamento da viol\u00eancia ficou evidente no Uruguai.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em fevereiro de 1972, os guerrilheiros Tupamaros sequestraram um fot\u00f3grafo em Montevid\u00e9u. Nelson Bardessio era mais do que isso: era tamb\u00e9m policial, seguran\u00e7a e motorista do americano William Cantrell, o homem da CIA no Uruguai. O policial revelou ser membro do Esquadr\u00e3o da Morte que agia dentro da DNII, Direcci\u00f3n Nacional de Informaci\u00f3n y Inteligencia, a central de pol\u00edcia abastecida pela CIA de Cantrell com equipamento de tortura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As ordens do ministro do Interior, Santiago de Brum Carbajal, eram repassadas ao esquadr\u00e3o pelo vice-ministro Armando Acosta y Lara. Bardessio revelou que o pr\u00f3prio secret\u00e1rio pessoal do presidente Pacheco Areco, Carlos Piran, conseguiu junto \u00e0 SIDE (a Secretaria de Intelig\u00eancia do Estado argentino) a gelinita explosiva com que o Esquadr\u00e3o da Morte praticou quatro atentados em Montevid\u00e9u. O motorista da CIA contou que ele fizera parte de uma equipe de cinco policiais treinados pela SIDE em Buenos Aires em \u201catividades antiterroristas\u201d e \u201ct\u00e9cnicas de vigil\u00e2ncia\u201d. Outros dois agentes, disse Bardessio, foram enviados ao Brasil para exercitar \u201copera\u00e7\u00f5es de Esquadr\u00e3o da Morte\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os futuros quadros da Condor come\u00e7aram a se formar nesta geleia geral que misturava gelinita com militares, policiais, agentes secretos, torturadores e terroristas paramilitares. Ali mesmo em Montevid\u00e9u, tr\u00eas anos depois, a Condor come\u00e7ou a sair do ovo. Em outubro de 1975, nos sal\u00f5es exclusivos do hotel Carrasco, reuniu-se a 11\u00aa CEA, a confer\u00eancia dos Ex\u00e9rcitos. Num encontro pr\u00e9vio, os chefes dos servi\u00e7os secretos do continente ouviram a proposta de seu camarada chileno, um certo coronel Manuel Contreras, chefe da Direcci\u00f3n Nacional de Intelig\u00eancia (DINA), a pol\u00edcia pol\u00edtica de Pinochet, para a cria\u00e7\u00e3o de \u201cum programa repressivo transnacional\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A proposta foi aprovada, e Contreras n\u00e3o perdeu tempo. Despachou o vice-diretor da DINA, o coronel da For\u00e7a A\u00e9rea M\u00e1rio Jahn, direto de Montevid\u00e9u para Assun\u00e7\u00e3o, onde entregou ao general Francisco Br\u00edtez, chefe da repress\u00e3o do Governo Stroessner, o convite para uma reuni\u00e3o \u201cabsolutamente secreta\u201d em Santiago do Chile para o m\u00eas seguinte, novembro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O n\u00ba 2 da DINA, antes de voltar para casa, fez uma segunda escala, um pouco acima no mapa: Bras\u00edlia. Aqui, entregou o convite e a agenda de dez p\u00e1ginas da pomposa \u2018I\u00aa Reuni\u00f3n de Trabajo de Inteligencia Nacional\u2019 a um fraterno amigo de Contreras: o general Jo\u00e3o Baptista Figueiredo, o chefe do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI) do Governo Geisel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As duas ditaduras tinham muito em comum. O pal\u00e1cio La Moneda ainda fumegava com as bombas de sete ataques da For\u00e7a A\u00e9rea quando o embaixador brasileiro Ant\u00f4nio C\u00e2ndido C\u00e2mara Canto adentrou a Escola Militar de Santiago no instante em que o quarteto da Junta Militar prestava juramento como novo centro de poder.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Ainda est\u00e1vamos disparando quando chegou o embaixador e nos comunicou o reconhecimento \u2013 registrou o pr\u00f3prio Pinochet, assombrado com a ligeireza que tornou o Brasil o primeiro governo do planeta a estabelecer v\u00ednculos formais com a nova ordem.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dissimulados, os Estados Unidos de Nixon e Kissinger esperaram baixar a poeira das bombas e s\u00f3 reconheceram a ditadura Pinochet treze dias depois do Brasil. O espa\u00e7o a\u00e9reo chileno ainda estava fechado, horas depois do golpe, quando quatro avi\u00f5es militares brasileiros pousaram na base de Santiago, oficialmente levando apenas rem\u00e9dios e mantimentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o apoio encoberto ao golpe foi imediato. Um acordo, articulado no Governo M\u00e9dici (1969-1974) e executado no Governo Geisel (1974-1979), garantiu fuzis e muni\u00e7\u00e3o para a repress\u00e3o interna no Chile, como revelou no domingo (1\/julho) a rep\u00f3rter J\u00fania Gama, de O Globo, com base em documentos in\u00e9ditos do extinto EMFA (Estado-Maior das For\u00e7as Armadas). Um of\u00edcio de 17 de janeiro de 1975 revela a ordem secreta do EMFA para raspar o logotipo da Rep\u00fablica nos fuzis tipo FAL para n\u00e3o permitir a identifica\u00e7\u00e3o da cumplicidade brasileira nas armas produzidas na f\u00e1brica do Ex\u00e9rcito em Itajub\u00e1, Minas Gerais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O pr\u00f3prio Manuel Contreras afiara suas garras no Brasil. Um interlocutor do coronel, o americano Robert Scherrer, chefe do escrit\u00f3rio do FBI em Buenos Aires, diz que o chileno foi treinado em Bras\u00edlia. O golpe mal completara um m\u00eas quando um economista brasileiro da CEPAL foi incorporado aos dez mil prisioneiros reunidos no Est\u00e1dio Nacional de Santiago. Jos\u00e9 Serra, ex-presidente da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes, chegou a ouvir gente fazendo interrogat\u00f3rio em portugu\u00eas. Os agentes do SNI foram ao Chile depois do golpe para obter informa\u00e7\u00f5es de esquerdistas brasileiros, enquanto oficiais chilenos vinham ao Brasil para treinamento na Escola Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, a ESNI \u2013 que serviu de inspira\u00e7\u00e3o a Contreras na formata\u00e7\u00e3o de sua DINA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Entre os 24 mil documentos da Intelig\u00eancia americana sobre o Chile, desclassificados no Governo Clinton, existe um memorando secreto que o general Vernon Walters, o vice-diretor da CIA, mandou em julho de 1975 ao assessor de Seguran\u00e7a Nacional do presidente Ford, Brent Scowcroft. Ele retransmitia o apelo que Pinochet, inusitadamente aflito pelo risco de isolamento internacional, mandava para a Casa Branca. No item 3 da nota, Walters mostrava a intimidade brasileira com Pinochet: \u201cOs chilenos sabem que n\u00e3o conseguem obter ajuda direta por causa da oposi\u00e7\u00e3o do Congresso [americano]. Querem saber se h\u00e1 algum modo de conseguir essa ajuda indiretamente, via Espanha, Taiwan, Brasil ou Rep\u00fablica da Cor\u00e9ia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O general americano nem precisou lembrar. Mas os quatro pa\u00edses, por coincid\u00eancia, eram ferozes ditaduras anticomunistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois meses depois, em setembro de 1975, Pinochet e o vice-diretor da DINA, coronel aviador Mario Jahn, discutiram a expans\u00e3o internacional da repress\u00e3o chilena. O coronel era o homem encarregado por Contreras de pilotar as incurs\u00f5es al\u00e9m-fronteiras da Condor, desafio que sempre demandava gastos maiores. Na conversa na sala de jantar do general, presenciada por um civil amigo de Pinochet, Jahn explicou:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 Os americanos est\u00e3o ajudando por meio do Brasil. Este \u00e9 o momento de se mover, avan\u00e7ar e levar a luta para o n\u00edvel mundial \u2013 prop\u00f4s o coronel a Pinochet, informado de que treinamento da CIA era fornecido por meio do Brasil. Bras\u00edlia era definida, na conversa, como o \u201ccanal de treinamento\u201d de t\u00e9cnicas de interrogat\u00f3rio e tortura para os agentes da DINA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um memorando de 15 de setembro de 1975 de Contreras a Pinochet pede um refor\u00e7o de US$ 600 mil no or\u00e7amento daquele ano da DINA. No item 1 da nota, o coronel justifica ao general: \u201cAumento do pessoal da DINA ligado \u00e0s miss\u00f5es diplom\u00e1ticas do Chile. Um total de dez pessoas: 2 no Peru, 2 no Brasil, 2 na Argentina, 1 na Venezuela, 1 na Costa Rica, 1 na B\u00e9lgica e 1 na It\u00e1lia.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1999, o jornal O Globo deu outra pista segura sobre a presen\u00e7a da DINA em solo brasileiro. Ele revelou uma destina\u00e7\u00e3o adicional ao pedido de verbas feito por Contreras a Pinochet em 1975: o custeio dos oficiais da DINA que, a cada dois meses, faziam um curso de seis semanas no Centro de Instru\u00e7\u00e3o de Guerra na Selva (CIGS) do Ex\u00e9rcito brasileiro, em Manaus, no cora\u00e7\u00e3o da maior floresta tropical do mundo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante algum tempo, um de seus principais instrutores foi o adido militar da embaixada da Fran\u00e7a em Bras\u00edlia entre 1973 e 1975. O general Paul Aussaresses, especialista em intelig\u00eancia, era veterano de duas \u00e9picas derrotas francesas em guerras coloniais: a da Indochina (1946-1954) e a da Arg\u00e9lia (1954-1962). Foi her\u00f3i na Segunda Guerra Mundial, saltando de paraquedas na Normandia para fazer a liga\u00e7\u00e3o entre a Resist\u00eancia francesa e as tropas aliadas do Dia D. Foi vil\u00e3o no fronte argelino, como mestre da tortura aplicada pelas tropas paraquedistas do general Jacques Massu. Gra\u00e7as a Aussaresses, a Fran\u00e7a introduziu no seu vocabul\u00e1rio uma deforma\u00e7\u00e3o paraestatal que s\u00f3 condenava nos outros povos: os macabros \u2018esquadr\u00f5es da morte\u2019.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quase duas d\u00e9cadas antes do jornalista Vladimir Herzog aparecer \u201csuicidado\u201d no por\u00e3o do DOI-CODI em S\u00e3o Paulo, Aussaresses mandou \u201csuicidar\u201d em Argel um dos l\u00edderes da Frente de Libera\u00e7\u00e3o Nacional (FLN), o argelino Larbi Ben M\u2019Hidi, que apareceu enforcado na pris\u00e3o ap\u00f3s um interrogat\u00f3rio pesado, em 1957. Na sequ\u00eancia, outro suic\u00eddio: o influente advogado Ali Boumendjel \u201catirou-se\u201d do sexto andar do pr\u00e9dio onde estava preso. Em 2000, o general reconheceu que nenhum se suicidara. Ambos foram mortos pela tortura executada sob suas ordens. Mas Aussaresses n\u00e3o se arrependia:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2013 A tortura \u00e9 um mal menor, mas necess\u00e1rio, que deve ser usado para evitar o mal maior do terrorismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O mesmo argumento consolador foi usado pelo general Ernesto Geisel no depoimento que prestou ao CPDOC da Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas, ao dizer:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Acho que a tortura em certos casos torna-se necess\u00e1ria, para obter confiss\u00f5es. (\u2026) N\u00e3o justifico a tortura, mas reconhe\u00e7o que h\u00e1 circunst\u00e2ncias em que o indiv\u00edduo \u00e9 impelido a praticar a tortura, para obter determinadas confiss\u00f5es e, assim, evitar um mal maior \u2014 explicou Geisel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar da toler\u00e2ncia, o ditador brasileiro ainda simulava espanto com a ousadia da repress\u00e3o de Pinochet. Em setembro de 1974, uma bomba da DINA explodiu em Buenos Aires o carro do ex-comandante do Ex\u00e9rcito chileno, Carlos Pratts, matando o general legalista e sua mulher. Quatro meses depois, quando Figueiredo sugeriu uma aproxima\u00e7\u00e3o entre o SNI e a DINA, Geisel vetou:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Eles que venham aqui ver a ESNI \u2013 disse o presidente, segundo anota\u00e7\u00e3o de 10 de janeiro de 1975 do secret\u00e1rio particular Heitor Ferreira, revelada pelo jornalista Elio Gaspari. Exatamente uma semana depois, o EMFA do general Geisel mandaria raspar o logotipo das armas que seu hip\u00f3crita governo fornecia clandestinamente \u00e0 ditadura chilena.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os chilenos, apesar do fingimento de Geisel, j\u00e1 frequentavam a Escola Nacional de Informa\u00e7\u00f5es do SNI em Bras\u00edlia desde o ano anterior, logo ap\u00f3s a cria\u00e7\u00e3o da DINA. O que Geisel n\u00e3o queria, realmente, era misturar suas tropas de repress\u00e3o com as de Pinochet. Al\u00e9m disso, havia um erro de origem no convite de Contreras a Figueiredo para a reuni\u00e3o no Chile. Por defini\u00e7\u00e3o, o SNI era um \u00f3rg\u00e3o de informa\u00e7\u00e3o do presidente da Rep\u00fablica. Assim, o SNI n\u00e3o era o bra\u00e7o operacional no combate \u00e0 luta armada. A miss\u00e3o em Santiago, por dever de of\u00edcio, cabia ao Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Era o CIE que guerreava o que o SNI informava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Esta era a l\u00f3gica \u2013 e Figueiredo repassou o encargo a quem de direito, o general Conf\u00facio Danton de Paula Avelino, o chefe do CIE, com uma recomenda\u00e7\u00e3o especial de Geisel: reduzir a presen\u00e7a brasileira em Santiago. Em vez de tr\u00eas, como pedia Contreras, o Brasil mandaria apenas dois militares \u2013 um coronel e um major, com ordens estritas para escutar mais do que falar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Brasil n\u00e3o tinha muitas ideias para uma a\u00e7\u00e3o coletiva, mas queria preservar as a\u00e7\u00f5es bilaterais, caso a caso, quando a\u00e7\u00f5es repressivas fossem necess\u00e1rias. Uma \u00faltima recomenda\u00e7\u00e3o de Figueiredo, repassando a ordem de Geisel: reduzir a participa\u00e7\u00e3o brasileira \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de observador, sem autoriza\u00e7\u00e3o para firmar nenhum documento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na manh\u00e3 ensolarada de 25 de novembro de 1975, uma ter\u00e7a-feira, os dois brasileiros se juntaram a outros treze militares disfar\u00e7ados de terno e gravata que ocuparam o grande sal\u00e3o da mans\u00e3o da Alameda O\u2019Higgins onde funcionava a Academia de Guerra do Ex\u00e9rcito, na capital chilena. A voz aguda de Pinochet ocupou um peda\u00e7o da sess\u00e3o de hora e meia da abertura. Depois, Contreras assumiu o controle, pronunciando seu mantra favorito: \u201cA subvers\u00e3o n\u00e3o reconhece fronteiras nem pa\u00edses\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A repress\u00e3o que assombrava o Cone Sul desde a d\u00e9cada anterior agora tinha uma organiza\u00e7\u00e3o, um c\u00f3digo e um m\u00e9todo \u2014 e a loucura de sempre. A opera\u00e7\u00e3o clandestina ganhou o nome de Condor, o abutre t\u00edpico dos Andes, que agora abria suas asas sobre os povos e os pa\u00edses da regi\u00e3o sem fronteiras para um terror de Estado sem limites. A velha e informal pr\u00e1tica da troca de informa\u00e7\u00f5es e de prisioneiros entre ditaduras camaradas tinha agora uma grife que ningu\u00e9m ainda conhecia pelo nome, mas j\u00e1 temiam pelo terror contagiante de quem perdia parentes e companheiros, desaparecidos na treva e na noite sem fim.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ata de funda\u00e7\u00e3o desse clube com licen\u00e7a para matar foi assinada pelos representantes de cinco dos seis pa\u00edses fundadores. O capit\u00e3o argentino Jorge Demetrio Casas (diretor de opera\u00e7\u00f5es do Servi\u00e7o de Intelig\u00eancia do Estado, SIDE), o coronel uruguaio Jos\u00e9 Fons (subdiretor do Servi\u00e7o de Intelig\u00eancia de Defensa, SID), o coronel paraguaio Benito Guanes Serrano (chefe do Departamento de Intelig\u00eancia do EMFA), o major boliviano Carlos Mena Burgos (do Servi\u00e7o de Intelig\u00eancia do Estado, SIE), al\u00e9m do anfitri\u00e3o, o coronel chileno Manoel Contreras. Os dois brasileiros dissimulados que l\u00e1 estavam aprovaram tudo, mas n\u00e3o assinaram nada, cumprindo a ordem de Geisel de presen\u00e7a restrita \u00e0 condi\u00e7\u00e3o de \u2018observadores\u2019.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 os documentos desclassificados da CIA, portanto, n\u00e3o conseguiam quebrar o anonimato planejado pela hipocrisia brasileira. Achei estranha esta lacuna e, durante dois anos, enquanto finalizava meu livro sobre a Opera\u00e7\u00e3o Condor, procurei identificar a dupla enviada por Bras\u00edlia. N\u00e3o localizei documentos, mas os relatos de veteranos da ditadura e da comunidade de informa\u00e7\u00f5es acabaram decifrando o mist\u00e9rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Estes s\u00e3o os nomes dos brasileiros \u2018observadores\u2019 que fundaram a Condor:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fl\u00e1vio de Marco e Thaumaturgo Sotero Vaz.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois militares, dois agentes do Centro de Informa\u00e7\u00f5es do Ex\u00e9rcito (CIE).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dois veteranos do combate nas selvas do Araguaia (1972-1974), o maior e mais longo foco guerrilheiro do pa\u00eds, onde 70 combatentes comunistas de linha mao\u00edsta foram esmagados por um contingente militar que chegou a oito mil homens.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O coronel De Marco e o major Thaumaturgo estavam l\u00e1, na frente de batalha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando De Marco chegou ao Araguaia, outubro de 1973, ainda resistiam 56 guerrilheiros. Quando o coronel foi embora, um ano depois, n\u00e3o restavam mais do que dez combatentes. Suas sepulturas nunca foram encontradas. A falta de investiga\u00e7\u00e3o do governo sobre a viol\u00eancia no Araguaia levou \u00e0 condena\u00e7\u00e3o do Brasil, em 2010, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da OEA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O major Thaumaturgo, oficial paraquedista com curso de guerra na selva na Escola das Am\u00e9ricas, no Canal do Panam\u00e1, comandava os \u2018boinas pretas\u2019 do Destacamento das For\u00e7as Especiais do Rio Janeiro, quando foi enviado ao Araguaia em 1972 com um pelot\u00e3o de 36 homens. Em 1984, j\u00e1 coronel, Thaumaturgo assumiu o comando em Manaus do CIGS, o centro de guerra na selva onde treinaram os agentes da DINA do coronel Contreras, seu anfitri\u00e3o na funda\u00e7\u00e3o da Condor uma d\u00e9cada antes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De Marco e Thaumaturgo estavam em Santiago por delega\u00e7\u00e3o expressa de Geisel e seu sucessor na presid\u00eancia. Quando o coronel Figueiredo comandava no Rio o Regimento de Cavalaria de Guarda, De Marco servia ao seu lado. O general Figueiredo o levou com ele ao assumir a chefia do SNI e, quatro anos ap\u00f3s fundar a Condor, De Marco subiu a rampa do poder com o presidente Figueiredo, na condi\u00e7\u00e3o de diretor administrativo do Pal\u00e1cio do Planalto. O major Thaumaturgo foi cadete na academia militar do general Danilo Venturini, que dirigiu a ESNI, a escola frequentada por Contreras e seus rapazes da DINA, antes de assumir a chefia do Gabinete Militar no Governo Figueiredo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os brasileiros da Condor estavam, portanto, entre amigos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os observadores e seus chefes integravam uma irmandade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A irmandade da Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um abutre carniceiro que via longe. Em 1979, quando a Condor ainda voava alto, um agente da CIA repetiu no Senado dos Estados Unidos uma frase do coronel Contreras:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Iremos at\u00e9 a Austr\u00e1lia, se necess\u00e1rio, para pegar nossos inimigos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em novembro de 1978, a Condor foi at\u00e9 Porto Alegre para pegar seus inimigos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 a capital brasileira do Cone Sul, no Estado que faz fronteira com a Argentina e o Uruguai. A repress\u00e3o uruguaia localizou na cidade dois ativistas da esquerda \u2018requeridos\u2019 pela ditadura: Lilian Celiberti e Universindo Rodriguez Diaz. Atravessar a fronteira seca do Rio Grande do Sul parecia ser ainda mais simples do que cruzar o Rio da Prata para sequestrar opositores em Buenos Aires.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 Brasil todavia no es Argentina! \u2014 advertiu o coronel Calixto de Armas, o homem mais poderoso da repress\u00e3o, chefe do Departamento II do Comando Geral do Ex\u00e9rcito, respons\u00e1vel pelas a\u00e7\u00f5es do bra\u00e7o operacional da Condor uruguaia, a secreta Compa\u00f1ia de Contrainformaciones. O coronel pairava acima das quatro Divis\u00f5es de Ex\u00e9rcito do Uruguai e acima at\u00e9 do Organismo Coordenador de Opera\u00e7\u00f5es Antisubversivas, o temido OCOA, a vers\u00e3o local do DOI-CODI. O coronel s\u00f3 recebia ordens de dois homens: seu chefe imediato, o general Manuel J. Nu\u00f1ez, chefe do Estado-Maior, e do comandante-geral do Ex\u00e9rcito, general Greg\u00f3rio \u2018Goyo\u2019 \u00c1lvarez.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De Armas procurou um velho parceiro da irmandade da Condor no Brasil: o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, o homem que no Governo M\u00e9dici formou a m\u00e1quina de tortura do DOI-CODI da rua Tutoia, em S\u00e3o Paulo, e que no Governo Geisel foi chefe em Bras\u00edlia do Setor de Opera\u00e7\u00f5es do CIE, o servi\u00e7o secreto do Ex\u00e9rcito. Quando fez o contato, em novembro, De Armas encontrou o camarada de repress\u00e3o comandando h\u00e1 dez meses um quartel de artilharia em S\u00e3o Leopoldo, nas cercanias da capital ga\u00facha. A partir das instru\u00e7\u00f5es de Ustra, a cadeia de comando acionada na opera\u00e7\u00e3o de Porto Alegre mostra que a loucura da Condor tinha m\u00e9todo e hierarquia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Departamento II do coronel De Armas contatou desde Montevid\u00e9u o Estado-Maior do III Ex\u00e9rcito em Porto Alegre, pedindo passe livre da Condor para os homens da Compa\u00f1ia de Contrainformaciones. O CIE ga\u00facho repassou o pedido ao chefe do CIE em Bras\u00edlia, general Edison Boscacci Guedes. O coronel uruguaio foi autorizado, ent\u00e3o, a pilotar a Condor em solo ga\u00facho em parceria com o DOPS, a pol\u00edcia pol\u00edtica comandada pelo nome mais famoso da repress\u00e3o no sul, o delegado Pedro Seelig, que desbaratou a esquerda armada na regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Comunicando-se pelo sistema codificado criado pela CIA para a DINA do coronel Contreras, a Condortel 3 (base Uruguai) entrou em linha com a Condortel 6 (base Brasil). Na primeira semana, a c\u00fapula da Compa\u00f1ia uruguaia circulou em Porto Alegre: o comandante, major Carlos Alberto Rossel, seu subcomandante, major Jos\u00e9 Walter Bassani, e o capit\u00e3o Eduardo Ramos, chefe da se\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica. Na segunda semana, foram rendidos pelo chefe da se\u00e7\u00e3o administrativa, capit\u00e3o Glauco Yannone. Na manh\u00e3 de domingo, 12 de novembro, prenderam Lilian Celiberti na Rodovi\u00e1ria de Porto Alegre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O capit\u00e3o Yannone e o delegado Seelig estavam l\u00e1, pela fraterna camaradagem da Condor. Universindo foi preso horas depois, com os dois filhos de Lilian \u2014 Camilo, de 8, e Francesca, de 3 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Lilian e Universindo foram despidos e duramente torturados na sede do DOPS ga\u00facho.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O delegado Seelig observava, o capit\u00e3o Yannone espancava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O casal e as crian\u00e7as foram levados pela pol\u00edcia brasileira para o Chu\u00ed, na fronteira, onde os militares aplicaram novas torturas. Esperta, Lilian insinuou um encontro em Porto Alegre com o alvo principal da Condor uruguaia \u2014 Hugo Cores, o l\u00edder do PVP, o partido clandestino do qual faziam parte Lilian e Universindo. Lilian foi trazida de volta \u00e0 capital ga\u00facha pelo chefe do setor de opera\u00e7\u00f5es da Compa\u00f1ia, o capit\u00e3o Eduardo Ferro, que armou uma ratonera para capturar sua presa no apartamento da uruguaia, na rua Botafogo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas foi o capit\u00e3o que caiu na ratonera de Hugo Cores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Clandestino em S\u00e3o Paulo, e alertado pelo sil\u00eancio de seus companheiros, Hugo Cores deu um telefonema an\u00f4nimo para a sucursal da revista Veja em Porto Alegre, denunciando o desaparecimento. Quando os homens armados de Ferro e Seelig ocultos no apartamento abriram a porta, com pistolas em punho, na tarde chuvosa de 17 de novembro de 1978, n\u00e3o surpreenderam o esperado Hugo Cores. Na verdade, foram surpreendidos pela presen\u00e7a inesperada de um rep\u00f3rter e um fot\u00f3grafo, que ficaram ainda mais surpresos com as pistolas apontadas para suas cabe\u00e7as.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Conto tudo isso porque eu era o rep\u00f3rter, ao lado do fot\u00f3grafo JB Scalco.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eu olhei no olho da Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Encarei a escurid\u00e3o sem fim do cano da pistola entre meus olhos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Meu amigo Scalco morreu do cora\u00e7\u00e3o cinco anos depois, aos 32 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tenho, assim, o privil\u00e9gio nada honroso de ser o \u00fanico rep\u00f3rter do Cone Sul a sobreviver \u00e0s garras da Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assumi ent\u00e3o o desafio de contar essa hist\u00f3ria e identificar seus respons\u00e1veis, na s\u00e9rie de reportagens que produzi ao longo de dois anos na revista Veja e no livro que publiquei, 30 anos depois do sequestro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A inesperada apari\u00e7\u00e3o de dois jornalistas, algo in\u00e9dito no territ\u00f3rio da Condor, obrigou os chefes uruguaios e brasileiros a abortarem a opera\u00e7\u00e3o de Porto Alegre, voltando \u00e0s pressas a Montevid\u00e9u. Dessa vez, portanto, a praxe de sangue da Condor n\u00e3o se cumpriria: os sequestrados sobreviveram, apesar das torturas, e n\u00e3o puderam ser simplesmente \u2018desaparecidos\u2019.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A den\u00fancia do sequestro dos uruguaios em Porto Alegre virou um esc\u00e2ndalo internacional, que mobilizou a imprensa, os partidos, os advogados, as entidades de direitos humanos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O sequestro de Universindo, Lilian e as duas crian\u00e7as \u00e9 uma das 81 a\u00e7\u00f5es reabertas na Justi\u00e7a pelo presidente Jos\u00e9 Pepe Mujica contra crimes de tortura, desaparecimento for\u00e7ado e sequestro nos anos da ditadura (1973-85).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3ximo dia 16 de julho, segunda-feira, estarei no tribunal da calle Missiones, em Montevid\u00e9u, depondo como testemunha do sequestro a pedido da ju\u00edza Mariana Motta. Foi ela que, em fevereiro de 2011, condenou o ex-presidente Juan Mar\u00eda Bordaberry a 30 anos de pris\u00e3o por liderar o golpe de Estado de 1973 que dissolveu o Congresso e a democracia do pa\u00eds. Bordaberry morreu no ano passado, aos 83 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O fiasco da rua Botafogo exp\u00f4s ao rid\u00edculo as ditaduras do Uruguai e do Brasil, no contexto de uma opera\u00e7\u00e3o repressiva que nunca dava errado, que nunca deixava sobreviventes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1978, a Condor deixara para tr\u00e1s, vivos, quatro sequestrados e duas testemunhas para contarem como era a Condor, como agia a Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como avisara o coronel Calixto de Armas, Brasil todavia no era Argentina!.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Afinal, por que fracassou a Condor em Porto Alegre?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por duas raz\u00f5es principais, que desconcertaram simultaneamente brasileiros e uruguaios por detalhes que n\u00e3o eram comuns em seus pa\u00edses.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As crian\u00e7as desordenaram a rotina de efici\u00eancia do delegado Seelig e seus agentes do DOPS. Ao contr\u00e1rio dos uruguaios, que roubavam os beb\u00eas de suas v\u00edtimas para entreg\u00e1-los \u00e0s fam\u00edlias de seus algozes, a repress\u00e3o brasileira n\u00e3o registra o desaparecimento de crian\u00e7as, muito menos sua presen\u00e7a nas a\u00e7\u00f5es de busca e captura de guerrilheiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os jornalistas abalaram a disciplina militar do capit\u00e3o Ferro e seus parceiros da Compa\u00f1ia de Contrainformaciones. Ao contr\u00e1rio dos brasileiros, mais acostumados \u00e0 insistente cobertura de uma imprensa mais inc\u00f4moda sobre os excessos do regime, apesar da censura, a repress\u00e3o uruguaia n\u00e3o concebia a presen\u00e7a inoportuna de jornalistas no seu local de trabalho clandestino.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De um lado e outro da fronteira, a Condor piscou, sem esconder a vis\u00edvel hesita\u00e7\u00e3o que impediu o assassinato que antes tudo resolvia, tudo desaparecia, tudo apagava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No crep\u00fasculo de seu governo, um m\u00eas ap\u00f3s o sequestro de Porto Alegre, o general Geisel ordenou que o general Figueiredo, que assumiria a presid\u00eancia em mar\u00e7o de 1979, resolvesse o fiasco da Condor. Foi enviado ao sul o novo chefe do SNI, general Oct\u00e1vio Aguiar de Medeiros, que fracassou outra vez, na frustrada tentativa de simular uma explica\u00e7\u00e3o para o sumi\u00e7o dos uruguaios.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assim, num \u00fanico epis\u00f3dio da Condor, envolveram-se sem sucesso os tr\u00eas generais mais influentes da ditadura brasileira tentando juntar as penas da Condor depenada em Porto Alegre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em uma entrevista que fiz em 1993 com o autor do telefonema an\u00f4nimo, Hugo Cores, ele me dizia: \u201cTodos os uruguaios sequestrados no exterior, algo em torno de 180, est\u00e3o desaparecidos at\u00e9 hoje. Os \u00fanicos que est\u00e3o vivos s\u00e3o Lilian, as crian\u00e7as e Universindo. O sequestro de Porto Alegre foi o \u00fanico realizado no Brasil e o \u00faltimo praticado pelo Uruguai. Depois dele, nunca mais houve outro\u201d, festejava o l\u00edder do PVP.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Condor voou com intensidade entre 1975 e 1980. E matou intensamente antes, durante e depois, com o m\u00e9todo e a loucura das ondas sucessivas de governos militares que afogaram a democracia e a raz\u00e3o durante quase um s\u00e9culo de arb\u00edtrio no Cone Sul. Nos cinco maiores pa\u00edses da regi\u00e3o, foram exatos 92 anos somados de ditaduras que eram de um e eram de todos n\u00f3s: Paraguai (1954-89), Brasil (1964-85), Chile (1973-90), Uruguai (1973-85) e Argentina (1976-83).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos tempos da Condor desatinada, a for\u00e7a matava pessoas e palavras, mas tamb\u00e9m inventava um novo l\u00e9xico para tentar traduzir sua viol\u00eancia. No Chile da Condor emergiu uma nova palavra no dicion\u00e1rio da repress\u00e3o, coalhado de presos e mortos. Surgiu a figura intermedi\u00e1ria e angustiante do \u201cdesaparecido\u201d \u2013 que quase sempre era uma coisa e outra, preso ou morto, sequ\u00eancia e consequ\u00eancia um do outro, e que tinha sobre eles a vantagem de isentar o Estado de explica\u00e7\u00f5es e justificativas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um \u201cdesaparecido\u201d era uma d\u00favida, quem sabe um equ\u00edvoco, talvez uma fatalidade, sempre um mist\u00e9rio que n\u00e3o incriminava ningu\u00e9m e absolvia a todos \u2013 com exce\u00e7\u00e3o dos familiares da v\u00edtima, condenados ao desespero, subjugados pelo luto iminente, esmagados pela dor incessante. Um \u201cdesaparecido\u201d s\u00f3 levantava suspeitas e mais perguntas, sem a garantia de certezas ou poss\u00edveis respostas. O \u201cdesaparecido\u201d disseminava o medo. Do medo brotava o terror \u2013 e novas palavras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O dicion\u00e1rio de terror da Condor fabricava uma express\u00e3o ainda mais assustadora, mais aflita: os no-nombrados, os N.N., cad\u00e1veres sem nome, sem cara, sem hist\u00f3ria, exumados no ninho da Condor por regimes de for\u00e7a sem coragem, sem car\u00e1ter, sem futuro, sem passado. As pessoas com nomes desapareciam separadamente e, de repente, emergiam do solo covas coletivas apinhadas de mortos sem nome. No auge de seu poder, em 1979, o general argentino Jorge Videla fez uma contorcida exegese do que seria esta estranha cria\u00e7\u00e3o dos regimes onde voava a Condor:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 O que \u00e9 um desaparecido? Como tal, o desaparecido \u00e9 uma inc\u00f3gnita\u2026 Enquanto desaparecido, n\u00e3o pode ter nenhum tratamento especial: \u00e9 uma inc\u00f3gnita, \u00e9 um desaparecido, n\u00e3o tem identidade. N\u00e3o est\u00e1 nem morto, nem vivo. Est\u00e1 desaparecido\u2026 \u2014 consolava o general da mais sangrenta ditadura do Cone Sul.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os tiranos que ca\u00e7am os opositores da tirania come\u00e7am subvertendo o idioma e o sentido l\u00f3gico das coisas. Carimbam como \u2018subversivo\u2019 ao resistente que ousa desafiar a opress\u00e3o. Combatem o \u2018terrorista\u2019 indefeso e manietado com o aparato pesado do terror de Estado. Pregam a defesa da lei pela a\u00e7\u00e3o ilegal e clandestina de seus agentes. Alegam defender a democracia impondo o arb\u00edtrio. Chamam de \u2018ditabranda\u2019 o que n\u00e3o passa de ditadura. Revogam Constitui\u00e7\u00f5es para aplicar Atos Institucionais. Imp\u00f5em a inseguran\u00e7a dos cidad\u00e3os em nome da Seguran\u00e7a Nacional. Torturam e matam invocando a paz e a tranquilidade. Fabricam \u2018suic\u00eddios\u2019 ou \u2018atropelamentos\u2019 quando os presos cometem o desatino de morrer sob tortura em suas masmorras. Concedem autoanistia para perdoar seus crimes imperdo\u00e1veis. Clamam pelo esquecimento para abafar a impunidade. E condenam como revanchismo o que n\u00e3o passa de mem\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No para\u00edso da Condor, os generais e seus servi\u00e7ais conseguiram subverter o significado de duas das palavras mais valiosas da civiliza\u00e7\u00e3o: dignidade e liberdade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dignidad, no Chile da Condor, era o nome de uma col\u00f4nia agr\u00edcola, 335 km ao sul de Santiago, criada por um ex-enfermeiro da Luftwaffe nazista. Era frequentada por Pinochet e pelo coronel Contreras. Era um centro de torturas e de treinamento para interrogat\u00f3rios da DINA.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Libertad, no Uruguai da Condor, 5o km a oeste de Montevid\u00e9u, era o maior pres\u00eddio pol\u00edtico do pa\u00eds. Abrigava 600 presos pol\u00edticos. Desde junho de 1980, um deles atendia pelo nome de Universindo Rodriguez D\u00edaz, o uruguaio sequestrado em Porto Alegre.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dignidad virou sin\u00f4nimo de tortura no Chile da Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Libertad virou endere\u00e7o de pres\u00eddio no Uruguai da Condor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quando veio o golpe de 11 de setembro no Chile, um dos primeiros presos foi um general da For\u00e7a A\u00e9rea, Alberto Bachelet. Ficou preso seis meses no C\u00e1rcere P\u00fablico de Santiago, mas o cora\u00e7\u00e3o n\u00e3o resistiu \u00e0s torturas, nele e em velhos camaradas. Morreu de infarto em mar\u00e7o de 1974, um m\u00eas antes de completar 51 anos. Foi poupado de uma forte emo\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria, 32 anos depois, quando o mesmo Partido Socialista derrubado \u00e0 bala por Pinochet voltou ao poder pelo voto em 2006 elegendo como presidente uma m\u00e9dica pediatra de 56 anos \u2013 a filha de Alberto, Michelle Bachelet.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em janeiro de 1975, dez meses antes do nascimento da Condor, Michelle e sua m\u00e3e foram presas e levadas vendadas para Villa Grimaldi, um famoso centro clandestino da DINA em Santiago. L\u00e1, aos 24 anos, Michelle foi torturada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 de Michelle Bachelet esta frase que nos inspira e consola:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u2014 S\u00f3 as feridas lavadas cicatrizam.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Passados tantos anos de tanto horror, este encontro de hoje, aqui em Bras\u00edlia, na capital do pa\u00eds que \u00e9 um envergonhado s\u00f3cio fundador da Condor, mostra que come\u00e7amos a lavar nossas feridas com esta forte manifesta\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria coletiva.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Todos, aqui, temos uma s\u00f3 mensagem a quem fez e a quem tenta esquecer tudo aquilo:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00f3s sabemos, n\u00f3s lembramos, n\u00f3s contamos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Luiz Cl\u00e1udio Cunha &#8211; jornalista,\u00a0autor do livro \u201cOpera\u00e7\u00e3o\u00a0Condor: o Sequestro dos Uruguaios\u201d\u00a0(ed. L&#038;PM, 2008).\u00a0Colabora com o\u00a0<a href=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/\">\u201cQuem tem medo da democracia?\u201d<\/a>,\u00a0onde mant\u00e9m a coluna \u201c<a href=\"http:\/\/quemtemmedodademocracia.com\/colunas\/de-talho\/\">De Talho<\/a>\u201c.\u00a0Quem quiser se comunicar diretamente com o autor, pode faz\u00ea-lo atrav\u00e9s do e-mail\u00a0<a href=\"mailto:cunha.luizclaudio@gmail.com\">cunha.luizclaudio@gmail.com<\/a><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Palestra proferida no Semin\u00e1rio Internacional sobre a Opera\u00e7\u00e3o Condor &#8211;\u00a0C\u00e2mara dos Deputados \u2013 Bras\u00edlia, Brasil \u2013 5\/julho\/2012 Luiz Claudio Cunha: \u201cTodos, aqui, temos uma s\u00f3 mensagem a quem fez e a quem tenta esquecer tudo aquilo:\u00a0N\u00f3s sabemos, n\u00f3s lembramos, n\u00f3s contamos.\u201d\u00a0Foto: Roosewelt Pinheiro \/ Ag\u00eancia Brasil \u2013 EBC<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1481"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1481"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1481\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1481"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1481"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1481"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}