{"id":1487,"date":"2012-07-11T14:54:52","date_gmt":"2012-07-11T14:54:52","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/como-a-ditadura-monitorava-chico-caetano-e-outras-estrelas-da-cultura-2\/"},"modified":"2012-07-11T14:54:52","modified_gmt":"2012-07-11T14:54:52","slug":"como-a-ditadura-monitorava-chico-caetano-e-outras-estrelas-da-cultura-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/como-a-ditadura-monitorava-chico-caetano-e-outras-estrelas-da-cultura-2\/","title":{"rendered":"Como a ditadura monitorava Chico, Caetano e outras estrelas da cultura"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O escritor Antonio Callado e a mulher, Ana Arruda, foram os primeiros a serem detidos. Desembarcavam no aeroporto do Gale\u00e3o, no Rio, no voo 861 da Varig, procedente de Nova York. O oficial de migra\u00e7\u00e3o, ao identific\u00e1-los, comentou: &#8220;Eles chegaram. Agora s\u00f3 faltam os dois&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><a href=\"http:\/\/fotografia.folha.uol.com.br\/galerias\/8520-documentos-da-ditadura-sobre-chico-buarque\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1482\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/165265-400x600-1.jpeg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"500\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Horas depois, os dois apareceram: Chico Buarque de Hollanda e Marieta Severo vinham escoltados por policiais dentro de uma Kombi cinza. Coincidentemente, o compositor e a atriz, vindos de Lisboa num voo da TAP, chegaram ao Rio pouco depois de Callado e a mulher.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/www1.folha.uol.com.br\/poder\/1115936-fotografias-da-ditadura-sao-liberadas-para-consulta.shtml\">Fotografias da ditadura s\u00e3o liberadas para consulta; veja imagens<\/a><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os casais se encontraram no subsolo do terminal. Estavam presos, &#8220;para averigua\u00e7\u00f5es&#8221;, sob suspeita de subvers\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Marieta, sempre despreocupada, olhou para a minha cara e disse: &#8216;Logo voc\u00ea, que nem viajou para Cuba!'&#8221;, recorda Ana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Marieta conta que a deten\u00e7\u00e3o era previs\u00edvel. &#8220;Sab\u00edamos que isso ia acontecer, j\u00e1 esper\u00e1vamos pela pol\u00edcia.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O depoimento \u00e0 Pol\u00edcia Federal, ainda no aeroporto, durou mais de tr\u00eas horas. Chico e Callado tinham estado na ilha de Fidel Castro no m\u00eas anterior, em janeiro de 1978. As bagagens de ambos foram meticulosamente revistadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Callado teve a bainha do blazer rasgada &#8212; os agentes suspeitavam de eventuais mensagens ocultas no tecido. &#8220;Os charutos que ele ganhou de Fidel foram todos picotados, um absurdo&#8221;, lembra a vi\u00fava do escritor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chico trazia discos italianos e portugueses, livros e uma correia de viol\u00e3o com a inscri\u00e7\u00e3o &#8220;Cuba&#8221;. &#8220;Confiscaram praticamente toda a nossa bagagem&#8221;, confirmou o compositor \u00e0Folha, por e-mail, de Paris, onde passa f\u00e9rias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em busca de coisas escondidas, os policiais quebraram o bra\u00e7o da boneca da pequena Kadi, de quatro anos, que Ana e Callado conduziam de volta para o pai, o percussionista baiano Tutti Moreno.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s responderem a um question\u00e1rio com mais de 70 itens, geralmente aplicado aos exilados (que j\u00e1 come\u00e7avam a voltar com os primeiros ventos da abertura pol\u00edtica), Chico e Callado foram liberados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o sem mais uma convoca\u00e7\u00e3o. &#8220;Fomos intimados para novo depoimento na semana seguinte, o Callado e eu, separadamente&#8221;, recorda o compositor.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>INTIMA\u00c7\u00d5ES<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Francisco Buarque de Hollanda perdeu as contas de quantas &#8220;intima\u00e7\u00f5es ou convites&#8221; recebeu na ditadura para prestar esclarecimentos. Ele garantiu, em antiga entrevista, terem sido bem mais de 20.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A convoca\u00e7\u00e3o ao Dops (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social) do Rio, em dia 27 de fevereiro de 1978, uma semana depois do desembarque no Gale\u00e3o, para dar mais &#8220;esclarecimentos&#8221; sobre a viagem a Cuba, tinha ares de guerra psicol\u00f3gica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Fui recebido por uns sujeitos esquisitos, \u00e0 paisana, todos com umas pastas do Clube dos Diretores Lojistas&#8221;, recorda. &#8220;Ao contr\u00e1rio de tantas deten\u00e7\u00f5es anteriores, onde o que eu mais fazia era tomar esporro de militares ou agentes da Pol\u00edcia Federal, desta vez o tom era de provoca\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Folha teve acesso ao depoimento do cantor, que permaneceu in\u00e9dito por 34 anos (leia transcri\u00e7\u00e3o em folha.com\/ilustrissima). Nele, Chico reage de maneira desafiadora.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>&#8220;Estou sendo obrigado a prestar essas declara\u00e7\u00f5es em lugar de trabalhar. Trabalho dez horas por dia e estou perdendo um tempo precioso vindo \u00e0 pol\u00edcia&#8221;, disse o cantor no interrogat\u00f3rio, ressaltando n\u00e3o saber &#8220;se seus interrogadores trabalhavam e o que eles produziam.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chico, no Dops, afirmou que n\u00e3o estava &#8220;realizado politicamente&#8221; no Brasil, onde &#8220;falta liberdade&#8221;. &#8220;Em Cuba sim&#8221;, disse \u00e0 \u00e9poca, &#8220;h\u00e1 liberdade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;L\u00e1 todos pensam da mesma maneira, pois todo o povo est\u00e1 integrado ao processo revolucion\u00e1rio. O Brasil, para atingir o socialismo, deveria passar por um processo revolucion\u00e1rio id\u00eantico ao cubano. O mundo todo caminha para o socialismo. Inevitavelmente, mais cedo ou mais tarde, todos os pa\u00edses ser\u00e3o socialistas.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sobre a ditadura, que naquele m\u00eas de mar\u00e7o completaria 14 anos, Chico afirmou aos interrogadores que o &#8220;governo brasileiro mete os p\u00e9s pelas m\u00e3os&#8221;. E mostrou-se favor\u00e1vel \u00e0 aprova\u00e7\u00e3o da Lei da Anistia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Antes de deixar a sala, o compositor assinou duas folhas em branco. Numa delas, rabiscou: &#8220;n\u00e3o vou responder mais nada&#8221; e assinou logo abaixo. Noutra, foi mais formal: &#8220;No dia 27 de fevereiro de 1978, nas depend\u00eancias do D.P.P.S., quando estava sendo ouvido, neguei-me a responder \u00e0s perguntas que me eram formuladas&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>ESTOURO<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Folha enviou a Chico Buarque a c\u00f3pia do documento. Ele reconheceu sua letra e explicou o motivo do estouro: &#8220;Resolvi responder no mesmo tom, mesmo porque j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1vamos no in\u00edcio dos anos 70. As pessoas sabiam onde eu estava depondo, a hist\u00f3ria toda tinha sido noticiada. O interrogat\u00f3rio foi exaustivo, e a certa altura eu disse que n\u00e3o falaria mais nada. Eles me mandaram afirmar isso por escrito. Foi o que fiz.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dos quatro brasileiros que viajaram para Havana, s\u00f3 o escritor Ign\u00e1cio de Loyola Brand\u00e3o n\u00e3o enfrentou a pol\u00edcia pol\u00edtica. &#8220;Pediram para eu antecipar minha passagem de volta, tive que trocar com um embaixador a pedido do governo cubano. Cheguei um dia antes do previsto e passei direto&#8221;, disse Loyola \u00e0 Folha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de Chico e Callado, o jornalista Fernando Morais, outro integrante da caravana que visitou Cuba, tamb\u00e9m tinha sido detido ao desembarcar, dois dias antes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os quatro foram a Cuba a convite do governo local, para integrar o j\u00fari do ent\u00e3o prestigioso pr\u00eamio Casa de Las Am\u00e9ricas, do governo castrista. Naquele ano, entre os jurados, tamb\u00e9m estavam o poeta uruguaio Mario Benedetti e o escritor colombiano Gabriel Garc\u00eda M\u00e1rquez.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ir a Cuba, naqueles tempos, significava uma grave transgress\u00e3o. O Brasil n\u00e3o mantinha rela\u00e7\u00f5es diplom\u00e1ticas com o regime de Fidel Castro e muitos brasileiros envolvidos na luta armada estavam exilados na ilha -ou pelo menos passaram por l\u00e1 para treinar t\u00e9cnicas de guerrilha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para evitar suspeitas, eles voltaram ao Brasil por diferentes caminhos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Callado, que estava em Cuba sem a mulher, foi encontr\u00e1-la nos EUA. Chico e Marieta passaram pela Europa. Fernando Morais e sua mulher \u00e0 \u00e9poca, a psicanalista Rubia Delorenzo, passaram por Kingston, na Jamaica, e Cidade do M\u00e9xico. Desembarcaram no aeroporto de Congonhas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Assim que o avi\u00e3o pousou, a aeromo\u00e7a chamou meu nome, dizendo para me apresentar na cabine de comando&#8221;, conta Morais. &#8220;Da janela, vi um cambur\u00e3o do Dops parado na pista. O delegado Romeu Tuma [chefe do Dops, futuro senador] nos esperava l\u00e1 embaixo. Fomos tratados como subversivos VIP.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na delegacia, o jornalista enfrentou o primeiro embara\u00e7o: engoliu uma minifita cassete na qual tinha gravado, de forma amadora, uma apresenta\u00e7\u00e3o de Chico Buarque no teatro Karl Marx, em Havana, ao lado das estrelas cubanas Silvio Rodr\u00edguez e Pablo Milan\u00e9s. Muitos exilados brasileiros assistiram ao show.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornalista, que deglutiu a fita para n\u00e3o entregar ningu\u00e9m, lamenta que nunca mais conseguiu recuperar o material. &#8220;Foi parar no rio Tiet\u00ea&#8221;, brinca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>ARQUIVO NACIONAL<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em junho, o Arquivo Nacional, em Bras\u00edlia, abriu alguns dos pap\u00e9is da ditadura para o p\u00fablico, no bojo da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o, em vigor desde maio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os documentos mostram que todos os grandes nomes da cultura brasileira das d\u00e9cadas de 60 ou 70, em algum momento, foram acompanhados de perto pelos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a, segundo os papeis s\u00f3 agora liberados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Da tentativa de se eleger presidente do gr\u00eamio da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de S\u00e3o Paulo, em 1966 (que o compositor diz ter sido uma brincadeira de amigos, pois nem estudava mais l\u00e1), at\u00e9 a sua atua\u00e7\u00e3o na campanha das Diretas-J\u00e1, quase 20 anos depois, Francisco Buarque de Hollanda foi, de longe, o artista brasileiro mais monitorado pelos \u00f3rg\u00e3os da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sua carreira art\u00edstica est\u00e1 toda inventariada, documentada e escarafunchada em relat\u00f3rios produzidos por \u00f3rg\u00e3os de Marinha, Ex\u00e9rcito e Aeron\u00e1utica, al\u00e9m das Pol\u00edcias Civil e Federal. Sempre na peculiar linguagem dos escriv\u00e3es da \u00e9poca e ornados com uma profus\u00e3o de carimbos de &#8220;sigiloso&#8221;, &#8220;confidencial&#8221;, &#8220;secreto&#8221; etc.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As fichas com refer\u00eancias ao compositor, mais de 700, cont\u00eam ainda os &#8220;dossi\u00eas pessoais&#8221;, esp\u00e9cies de &#8220;prontu\u00e1rios&#8221; com todos os dados dispon\u00edveis sobre o alvo.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Amigos e especialistas na vida e obra do compositor confirmaram \u00e0 Folha o ineditismo dos documentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eles corroboram hist\u00f3rias j\u00e1 conhecidas e trazem \u00e0 tona a vers\u00e3o do regime sobre epis\u00f3dios narrados em biografias e na imprensa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>SHOWS<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os pap\u00e9is do Arquivo Nacional mostram que, al\u00e9m de censurar previamente, a ditadura infiltrava agentes em pe\u00e7as, shows e espet\u00e1culos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Relat\u00f3rio interno do SNI (Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00e3o), de 1972, tenta descrever a articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que enxergava nas manifesta\u00e7\u00f5es culturais: &#8220;Campanhas movidas por v\u00e1rios grupos contr\u00e1rios ao regime possuem correla\u00e7\u00e3o entre si. As a\u00e7\u00f5es desenvolvidas pelos elementos infiltrados nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social, clero e meio art\u00edstico, continuam obedecendo \u00e0 ditadura dos temas coincidentes&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Isso significava, por exemplo, especular sobre a sexualidade dos artistas e at\u00e9 mesmo interpretar eventuais safadezas em can\u00e7\u00f5es e dan\u00e7as folcl\u00f3ricas. \u00c9 o caso de um samba de roda cantado num show do Caetano, com uma dan\u00e7a t\u00edpica do rec\u00f4ncavo baiano, &#8220;no qual fazia refer\u00eancia aos olhos e os artistas presentes colocavam as m\u00e3os nos olhos, boca, idem, as m\u00e3os na boca, e finalmente dizia no &#8216;lel\u00ea, lal\u00e1&#8217; e os artistas colocavam as m\u00e3os no sexo&#8221;, registrou um araponga.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caetano Veloso, frequentemente chamado de &#8220;homossexual&#8221; nos relatos da repress\u00e3o, foi monitorado at\u00e9 no ex\u00edlio em Londres. Um agente da ditadura relata uma apresenta\u00e7\u00e3o dele, em novembro de 71, no Queen Elizabeth Hall. Ele nota que &#8220;80% dos espectadores eram brasileiros&#8221; e registra forte discurso do cantor &#8220;contra a Revolu\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca imaginei que houvesse algu\u00e9m da repress\u00e3o no show do Queen Elizabeth Hall&#8221;, afirmou Caetano \u00e0 Folha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos relat\u00f3rios mais detalhados da repress\u00e3o diz respeito \u00e0 hist\u00f3rica apresenta\u00e7\u00e3o de Chico e Caetano no teatro Castro Alves, em Salvador, nos dias 10 e 11 de novembro de 1972.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Caetano acabava de voltar do ex\u00edlio e juntou-se a Chico num reencontro que serviu tamb\u00e9m para encerrar as especula\u00e7\u00f5es sobre uma suposta briga entre eles, ainda no final da d\u00e9cada de 60. O show viraria o \u00e1lbum &#8220;Caetano e Chico Juntos e ao Vivo&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A repress\u00e3o esteve presente nos dois dias, atestam os documentos, feitos a pedido do Ex\u00e9rcito e da Aeron\u00e1utica e assinados por inspetores da PF baiana.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A referida apresenta\u00e7\u00e3o [tem] cenas que feriam a moral das fam\u00edlias ali presentes, bem como atitudes do sr. Caetano Veloso, que, de certa forma, indisp\u00f4s o p\u00fablico contra as autoridades presentes&#8221;, chiou o araponga.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Podemos observar quanto a Caetano Veloso: pintado de batom e com trejeitos homossexuais; [&#8230;] cabe-me salientar que Caetano, embora usando de uma afeta\u00e7\u00e3o um tanto exagerada, muito mais apropriada para uma pessoa do sexo feminino, provocando at\u00e9 algumas vaias do audit\u00f3rio, tendo cantado m\u00fasicas que, ao meu entender, nada apresentam de anormal.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chico \u00e9 descrito como um sujeito de &#8220;postura masculina normal&#8221;, que sempre &#8220;desrespeita as determina\u00e7\u00f5es da censura&#8221; cantando m\u00fasicas proibidas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O inspetor que assina o documento, Eduardo Henrique de Almeida, tamb\u00e9m faz um relato sobre a audi\u00eancia: &#8220;Junto ao palco estava um grupo de homossexuais, hippies e cabeludos que pareciam contratados do grupo de artistas. Foram exatamente eles que invadiram o palco e cantaram &#8216;Apesar de Voc\u00ea'&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">(Liberada por uma falha dos censores, a can\u00e7\u00e3o havia se tornado um hino de resist\u00eancia \u00e0 ditadura e bateu recordes de vendagem do \u00e1lbum compacto. Ao perceber o equ\u00edvoco, a ditadura censurou a can\u00e7\u00e3o e recolheu os discos das lojas. Mesmo condenando a can\u00e7\u00e3o, de &#8220;prega\u00e7\u00e3o ideol\u00f3gica&#8221;, um agente reconheceu, em documento do SNI de junho de 1971, que o samba tinha uma &#8220;letra incontestavelmente inteligente&#8221;.)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O burocrata Almeida conclui seu prolixo formul\u00e1rio com um alerta: &#8220;J\u00e1 em Belo Horizonte, onde estive lotado, acompanhava as provoca\u00e7\u00f5es de Chico Buarque de Holanda, sempre desrespeitando as determina\u00e7\u00f5es da censura. \u00c9 necess\u00e1rio que se coloque um fim nestes epis\u00f3dios que somente desgastam as autoridades.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>NEG\u00d3CIOS ESCUSOS<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo in\u00fameros documentos da repress\u00e3o, Chico e Caetano, al\u00e9m de uma dezena de outros artistas, realizavam apresenta\u00e7\u00f5es cuja renda era revertida a partidos (como o PCB) ou organiza\u00e7\u00f5es da esquerda armada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um dos contatos da guerrilha com o mundo art\u00edstico, segundo os militares, seria David Capistrano, comunista assassinado pela ditadura em 1974, aos 61.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;N\u00e3o conheci nenhum Capistrano, n\u00e3o que eu me lembre&#8221;, afirmou Caetano. &#8220;Nunca financiei o Partido Comunista. Nunca fui do partido. Tive simpatia por Marighella [ex-deputado Carlos Marighella, um dos principais l\u00edderes da luta armada]. Tenho ainda. Eu achava o PC careta e seguindo interesses de Moscou.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Chico afirmou \u00e0 Folha, por e-mail, que jamais deu dinheiro a partidos. &#8220;Posso ter ajudado um ou outro membro de partido ou organiza\u00e7\u00e3o de esquerda, mas naquele tempo a gente n\u00e3o pedia a ficha de ningu\u00e9m. Posso ter repassado cach\u00eas ou pr\u00eamios em dinheiro, mas geralmente eu contribu\u00eda com a renda de shows beneficentes&#8221;, disse o compositor. &#8220;Fiz isso durante anos, de meados dos 70 at\u00e9 fins dos 80, e n\u00e3o era segredo para ningu\u00e9m.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Caetano contou \u00e0 Folha que, por pouco, n\u00e3o chegou mais longe na oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura: &#8220;Na \u00e9poca, comecei a combinar com uma amiga dar apoio log\u00edstico \u00e0 guerrilha. Eu admirava a aventura de lutar diretamente contra as for\u00e7as da ditadura. E os militares nunca souberam desse esbo\u00e7o de liga\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Me lembro de que eu sentia um medo remoto do que poderia vir a ser a luta clandestina&#8221;, prossegue. &#8220;Suponho que, se me aproximasse, teria medo e problemas de consci\u00eancia diante de alguns fatos e m\u00e9todos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>MARIETA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;A gente sabia e se sentia monitorado&#8221;, admite a ex-mulher do compositor. &#8220;Desconfi\u00e1vamos bastante disso.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o era para menos: agentes da ditadura chegaram a invadir a casa de Chico e quase o prenderam no quarto do casal, em dezembro de 1968, dias depois da edi\u00e7\u00e3o do Ato Institucional n\u00b0 5. &#8220;Tenho uma lembran\u00e7a n\u00edtida desse dia, da trucul\u00eancia da invas\u00e3o da nossa casa, da tentativa de invas\u00e3o de nosso quarto&#8221;, recorda ela. &#8220;Nunca sab\u00edamos do limite, at\u00e9 aonde eles iriam. Esse epis\u00f3dio, para mim, foi traumatizante.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornalista e escritor Eric Nepomuceno, amigo de Chico h\u00e1 mais de 40 anos, lembra que no come\u00e7o dos anos 1970 a press\u00e3o sobre o artista era &#8220;tremenda&#8221;. &#8220;Ele vivia angustiado com aquilo tudo. Volta e meia perdia a paci\u00eancia e respondia de maneira dura&#8221;, conta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GOI\u00c2NIA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um intrigante informe do Cenimar (servi\u00e7o de intelig\u00eancia da Marinha), de 1972, atesta a presen\u00e7a do compositor no 1\u00ba Encontro Nacional dos Estudantes de Comunica\u00e7\u00f5es, em Goi\u00e2nia, entre 1\u00ba e 4 de novembro daquele ano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O diligente escriv\u00e3o registra: &#8220;Foram anotadas, para controle, as chapas dos carros de outros Estados que comparecem ao Encontro. Dentre os anotados, registra-se o Volks, tipo Bugre [sic], Placa EC 9199, em nome de Francisco Buarque de Holanda, com endere\u00e7o \u00e0 rua Borges de Medeiros, 2513, casa 1\/GB.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O carro, de fato, pertencia a Chico e Marieta. &#8220;N\u00e3o me lembro da gente ter emprestado esse carro&#8221;, comenta ela.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 Chico Buarque duvida que tenha guiado do Rio at\u00e9 Goi\u00e1s.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Pode ser que eu tenha emprestado o carro. Pode ser que tenham anotado a placa do bugue aqui na praia, e algum agente dos servi\u00e7os tenha inventado que o carro estava em Goi\u00e2nia. Pode ser qualquer coisa, menos eu estar em Goi\u00e2nia de bugue.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Folha de S.Paulo<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O escritor Antonio Callado e a mulher, Ana Arruda, foram os primeiros a serem detidos. Desembarcavam no aeroporto do Gale\u00e3o, no Rio, no voo 861 da Varig, procedente de Nova York. O oficial de migra\u00e7\u00e3o, ao identific\u00e1-los, comentou: &#8220;Eles chegaram. 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