{"id":1490,"date":"2012-07-11T17:07:11","date_gmt":"2012-07-11T17:07:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/o-preco-do-horror-na-argentina-2\/"},"modified":"2012-07-11T17:07:11","modified_gmt":"2012-07-11T17:07:11","slug":"o-preco-do-horror-na-argentina-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/11\/o-preco-do-horror-na-argentina-2\/","title":{"rendered":"O PRE\u00c7O DO HORROR (NA ARGENTINA)"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Desaparecimento de crian\u00e7as passou a fazer parte do plano sistem\u00e1tico de aniquilamento da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O Conversa Afiada reproduz texto de Eric Nepomuceno na <a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20558\"><span class=\"s1\">Carta Maior:<\/span><span class=\"s2\"><br \/> <\/span><\/a><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\" \/><a href=\"http:\/\/www.cartamaior.com.br\/templates\/materiaMostrar.cfm?materia_id=20558\" \/>ARGENTINA: O PRE\u00c7O DO HORROR  <!--more-->  <\/a><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Pela primeira vez um tribunal federal argentino declarou que o plano sistem\u00e1tico de aniquilamento da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura \u2013 armada ou n\u00e3o \u2013 incluiu o desaparecimento n\u00e3o apenas de militantes, mas de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos. At\u00e9 agora, o roubo de crian\u00e7as era tratado como atos isolados cometidos por um punhado de verdugos especialmente tresloucados. Est\u00e1 comprovado que pelo menos 500 crian\u00e7as passaram por esse procedimento. Delas, 105 foram recuperadas e tiveram suas identidades resgatadas. O artigo \u00e9 de Eric Nepomuceno.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p><\/span>N\u00e3o foi por acaso que o 6\u00ba Tribunal Federal de Justi\u00e7a, em Buenos Aires, conduzido pela ju\u00edza Mar\u00eda del Carmen Roqueta, determinou uma senten\u00e7a de 50 anos de pris\u00e3o comum, sem privil\u00e9gio algum, para o general Jorge Rafael Videla, que encabe\u00e7ou a Junta Militar que em mar\u00e7o de 1976 instaurou a mais cruel e sangrenta ditadura da hist\u00f3ria argentina. \u00c9 uma senten\u00e7a pensada e repensada: uma pena inferior permitiria a ele, depois de um certo tempo, pedir liberdade condicional.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Na verdade, pouca diferen\u00e7a faria: afinal, Videla j\u00e1 cumpre duas penas de pris\u00e3o perp\u00e9tua como respons\u00e1vel por crimes que v\u00e3o de seq\u00fcestro e desaparecimento de prisioneiros a tortura e assassinato. Mas, ainda assim, a senten\u00e7a teve um peso espec\u00edfico, e o processo que julgou os respons\u00e1veis pelo roubo de 35 beb\u00eas, nascidos em cativeiro e cujas m\u00e3es foram mortas, cria um precedente jur\u00eddico importante.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Foi um processo longo, que se arrastou por um ano e meio e no qual foram ouvidos 200 depoimentos. No final, foi aberta jurisprud\u00eancia para o crime de roubo de beb\u00eas, que certamente mudar\u00e1 o rumo dos outros casos em andamento e dos processos que vir\u00e3o. Pela primeira vez um tribunal federal argentino declarou que o plano sistem\u00e1tico de aniquilamento da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura \u2013 armada ou n\u00e3o \u2013 incluiu o desaparecimento n\u00e3o apenas de militantes, mas de beb\u00eas rec\u00e9m-nascidos. At\u00e9 agora, o roubo de crian\u00e7as era tratado como atos isolados cometidos por um punhado de verdugos especialmente tresloucados.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Na senten\u00e7a da ju\u00edza Mar\u00eda del Carmen Roqueta, e da qual n\u00e3o cabe apela\u00e7\u00e3o, fica reconhecido que se tratou de uma \u2018pr\u00e1tica generalizada e sistem\u00e1tica\u2019. Que a \u2018subtra\u00e7\u00e3o, oculta\u00e7\u00e3o e reten\u00e7\u00e3o\u2019 de rec\u00e9m-nascidos obedeceu aos mais altos mandos militares.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>A senten\u00e7a deixou claro que as gr\u00e1vidas eram preservadas. Levadas para cativeiros clandestinos, tiveram assist\u00eancia m\u00e9dica, foram acompanhadas no parto e puderam ficar duas semanas com seus beb\u00eas. Depois, foram assassinadas, e as crian\u00e7as, entregues a militares, a policiais ou a outros agentes da repress\u00e3o. Muitos desses beb\u00eas acabaram criados pelos algozes de seus pais verdadeiros.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Est\u00e1 comprovado que pelo menos 500 crian\u00e7as passaram por esse procedimento. Delas, 105 foram recuperadas e tiveram suas identidades resgatadas. O processo contra Videla e outros se referia a 35 desses beb\u00eas. Vinte deles, hoje adultos na casa dos trinta anos, prestaram depoimento diante do tribunal. Foram os momentos de maior tens\u00e3o e emo\u00e7\u00e3o: homens e mulheres que cresceram sem saber quem eram, ajudando a condenar quem os criou.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>O general Jorge Rafael Videla est\u00e1 com 86 anos. Mant\u00e9m o mesmo porte ereto, o ar altivo e insolente, os olhos de gelo daquele mar\u00e7o de 1976. Sua frase sobre as mulheres que ca\u00edram presas estando gr\u00e1vidas, deram \u00e0 luz em c\u00e1rceres clandestinos e depois foram assassinadas, varreu o tribunal como um vento polar: ele disse que na verdade eram terroristas que usavam sua gravidez \u2013 a express\u00e3o exata foi \u2018seus fetos\u2019 \u2013 como escudos humanos. Sendo terroristas, n\u00e3o poderiam ter outro destino que a elimina\u00e7\u00e3o pura e simples.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Assim \u00e9 esse velhote austero e elegante. Assim foram os tempos vividos durante o terrorismo de Estado implantado pela ditadura dos generais.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>A senten\u00e7a de agora \u00e9 uma vit\u00f3ria de um grupo de senhoras valentes, um dos pilares b\u00e1sicos que fazem da Argentina o pa\u00eds mais avan\u00e7ado no resgate da mem\u00f3ria, no restabelecimento da verdade e na aplica\u00e7\u00e3o da justi\u00e7a: as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>\u00c9 como um jogo de tempos, um encontro das gera\u00e7\u00f5es do horror e da esperan\u00e7a. A presidente das Av\u00f3s se chama Estela de Carlotto, e \u00e9 quatro anos mais nova que Videla. J\u00e1 o advogado das Av\u00f3s nesse processo, Alan Lud, tem 31 anos. N\u00e3o havia nascido quando a maioria dos beb\u00eas tinha sido roubada.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Laura, filha de Estela, foi presa em novembro de 1977. Estava gr\u00e1vida fazia dois meses. Estela conseguiu refazer a trajet\u00f3ria da filha: ela passou por alguns centros clandestinos at\u00e9 que teve um beb\u00ea, um menino que quis que se chamasse Guido. Quinze dias depois, seguindo o ritual macabro, foi assassinada. Guido nasceu em junho de 1978. Foi entregue a algu\u00e9m. Estela at\u00e9 hoje n\u00e3o conseguiu descobrir quem roubou seu neto, derradeiro legado de sua filha morta.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>H\u00e1 toda uma constela\u00e7\u00e3o de c\u00famplices nesse drama: o m\u00e9dico que fez o parto, o cart\u00f3rio onde foi feito o registro fraudulento da crian\u00e7a, o sacerdote que testemunhou tudo. Sim, porque a cumplicidade da Igreja Cat\u00f3lica \u00e9 cada vez mais evidente. Estela tentou e tentou ajuda de sacerdotes. Em v\u00e3o.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Algu\u00e9m sabe a quem o Guido de Laura, o neto de Estela, foi entregue. E esse algu\u00e9m se nega a contar.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Cada vez que Estela conhece algum Guido que tem a idade que seu neto teria hoje, sente um leve tremor.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Cada vez que as Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio recuperam um neto, uma daquelas 500 crian\u00e7as nascidas em cativeiro e roubadas pelos verdugos de suas m\u00e3es, Estela sente que recuperou um Guido \u2013 n\u00e3o o dela, mas \u00e9 como se fosse.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Diante dessas minas de dignidade e generosa solidariedade, diante desse caudal de valentia e integridade, Videla e todos os outros s\u00e3o apenas sombras abjetas.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Ele, eles, negaram \u00e0s suas v\u00edtimas o m\u00ednimo que agora lhes foi concedido: o direito a um julgamento justo, o direito \u00e0 defesa.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Eles inventaram o horror, os eternos dias de ang\u00fastia das Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio. Com o julgamento e a senten\u00e7a, estar\u00e3o pagando o pre\u00e7o desse horror?<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Eu acho que n\u00e3o. O verdadeiro pre\u00e7o \u00e9 pago pelas av\u00f3s. Pelos netos roubados.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>Em algum lugar do mapa anda um Guido que n\u00e3o sabe que \u00e9 Guido. Que n\u00e3o sabe que \u00e9 neto de uma mulher \u00edntegra. E que, como ele, h\u00e1 pelo menos 395 argentinos e argentinas que n\u00e3o sabem quem s\u00e3o.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <\/span>N\u00e3o sabem que aqueles que chamam de pai e m\u00e3e s\u00e3o, na verdade, os ladr\u00f5es de sua identidade, os rufi\u00f5es de seus destinos.<span class=\"s2\"><\/p>\n<p> <a href=\"http:\/\/www.conversaafiada.com.br\/brasil\/2012\/07\/10\/guerrilha-do-araguaia-retomada-busca-de-restos-mortais\/\"><span class=\"s1\">Clique aqui para ler<\/span><\/a><\/span> \u201cGuerrilha do Araguaia: retomada busca de restos mortais\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Conversa Afiada<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Desaparecimento de crian\u00e7as passou a fazer parte do plano sistem\u00e1tico de aniquilamento da oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 ditadura. 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