{"id":1520,"date":"2012-07-12T17:53:34","date_gmt":"2012-07-12T17:53:34","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/12\/a-prisao-do-compositor-lupicinio-rodrigues-na-ditadura-2\/"},"modified":"2012-07-12T17:53:34","modified_gmt":"2012-07-12T17:53:34","slug":"a-prisao-do-compositor-lupicinio-rodrigues-na-ditadura-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/12\/a-prisao-do-compositor-lupicinio-rodrigues-na-ditadura-2\/","title":{"rendered":"A pris\u00e3o do compositor Lupic\u00ednio Rodrigues na ditadura"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>A Comiss\u00e3o da Verdade n\u00e3o sabe, mas depois do golpe militar de 1964, o compositor ga\u00facho Lupic\u00ednio Rodrigues (1914-1974) foi preso e permaneceu v\u00e1rios meses trancafiado, primeiro no Quartel da PE, no centro de Porto Alegre e, depois, no pres\u00eddio da Ilha da Pintada, apesar de nunca ter tido qualquer atividade pol\u00edtica. L\u00e1, foi humilhado, espancado e torturado, teve a unha arrancada para n\u00e3o tocar mais viol\u00e3o e contraiu uma tuberculose agravada pelo vento frio do rio Jacu\u00ed.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem me confidenciou isso foi um dos filhos de Lupic\u00ednio, L\u00f4ndero Gustavo D\u00e1vila Rodrigues, tamb\u00e9m m\u00fasico, 67 anos, que hoje trabalha como motorista na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ). O fato \u00e9 pouco conhecido, pois Lupic\u00ednio n\u00e3o gostava de tocar no assunto. Preferiu silenci\u00e1-lo. Morria de vergonha. &#8220;E a\u00a0vergonha \u00e9 a heran\u00e7a maior que meu pai me deixou&#8221;, cantava ele em &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, um grande sucesso dois anos antes de sua morte.\u00a0&#8211;\u00a0Pra quem tem dinheiro ou diploma, a pris\u00e3o pol\u00edtica pode at\u00e9 ser uma medalha, tem algo de heroico. Mas para as pessoas humildes, como ele, que n\u00e3o se metia em pol\u00edtica, a pris\u00e3o \u00e9 sempre uma humilha\u00e7\u00e3o, algo que deve ser escondido, esquecido\u00a0&#8211;\u00a0conta o filho de Lupic\u00ednio, a quem conheci recentemente, quando ele, dirigindo o carro da Universidade, veio me buscar para participar de uma banca de mestrado l\u00e1 em Serop\u00e9dica.\u00a0A viagem de ida-e-volta durou mais de cinco horas. Nos primeiros cinco minutos, eu j\u00e1 havia lhe contado que era amazonense, do bairro de Aparecida e, quando deu brecha, mostrei-lhe fotos da minha neta. Nos cinco minutos seguintes, ele j\u00e1 tinha me falado de Lupic\u00ednio, seu pai, de dona Emilia, sua m\u00e3e, de sua inf\u00e2ncia em Rio Pardo (RS) e de suas andan\u00e7as como m\u00fasico por 29 pa\u00edses. Quando nos despedimos, j\u00e1 \u00e9ramos amigos de inf\u00e2ncia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nervos de a\u00e7o\u00a0L\u00f4ndero tem mem\u00f3ria extraordin\u00e1ria e admir\u00e1vel dom de narrar. Suas hist\u00f3rias, que jorraram aos borbot\u00f5es, podem ocupar v\u00e1rias cr\u00f4nicas dominicais. Ele pr\u00f3prio \u00e9 um personagem, suas andan\u00e7as dariam um livro. Mas o que ele viveu com seu pai, bo\u00eamio e mulherengo, d\u00e1 outro livro. N\u00e3o sei nem por onde come\u00e7ar. Talvez por onde j\u00e1 comecei: a pris\u00e3o do pai, que teria provocado uma rea\u00e7\u00e3o at\u00e9 mesmo em &#8220;pessoas de nervos de a\u00e7o, sem sangue nas veias e sem cora\u00e7\u00e3o&#8221;.\u00a0&#8211;\u00a0N\u00f3s, da fam\u00edlia, sofremos muito com a injusti\u00e7a da pris\u00e3o. Sab\u00edamos que Lupic\u00ednio n\u00e3o se metia em pol\u00edtica\u00a0&#8211; contou seu filho, informando ainda que antes da pris\u00e3o, o pai havia feito uma vers\u00e3o musical &#8211; quanta ironia! &#8211; para aquela letra da &#8220;ora\u00e7\u00e3o do paraquedista&#8221; encontrada com um militar franc\u00eas morto em 1943 no norte da \u00c1frica. L\u00f4ndero recita:\u00a0&#8211;\u00a0Dai-me Senhor meu Deus o que vos resta \/Aquilo que ningu\u00e9m vos pede \/\u00a0Dai-me tudo o que os outros n\u00e3o querem \/ a luta e a tormenta \/ Dai-me, por\u00e9m, a for\u00e7a, a coragem e a f\u00e9.\u00a0Lupic\u00ednio precisou mesmo de muita coragem e f\u00e9 para amargar a pris\u00e3o, onde em vez de tainha na taquara ou peixe assado no espeto de bambu, comeu foi o p\u00e3o que o diabo amassou. Tudo isso por causa de uma liga\u00e7\u00e3o pessoal dele com Get\u00falio Vargas, rela\u00e7\u00e3o que acabou sendo herdada, posteriormente, por Jango e Brizola.\u00a0Segundo L\u00f4ndero, Lupic\u00ednio, que j\u00e1 era um compositor consagrado em 1950, fez um jingle para a volta de Get\u00falio Vargas, com aquela marchinha de carnaval de Haroldo Lobo, que foi tamb\u00e9m gravada por Francisco Alves:\u00a0&#8220;Bota o retrato do velho outra vez \/ Bota no mesmo lugar \/ o sorriso do velhinho \/ faz a gente trabalhar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Pede deferimento\u00a0Vargas j\u00e1 gostava das m\u00fasicas de Lupic\u00ednio antes de ele ser sucesso nacional. Por isso, decidiu bancar a entrada do compositor na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Lupic\u00ednio, que havia cursado s\u00f3 at\u00e9 o 3\u00ba prim\u00e1rio, foi nomeado bedel da Faculdade de Direito, onde trabalhou tamb\u00e9m como porteiro.\u00a0\u00a0Um belo dia &#8211; conta L\u00f4ndero &#8211; Lupic\u00ednio caiu na farra, virou a noite e saiu direto dos bares para a Universidade.\u00a0O reitor deu um flagrante nele, quando o encontrou b\u00eabado na portaria. Deu-lhe um esporro, publicamente, humilhando-o na frente de alunos, professores e colegas. No dia seguinte, Lupic\u00ednio entrou com um requerimento com letra de samba, que seu filho sabe de cor:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Magn\u00edfico Reitor, que a tua sabedoria e soberba n\u00e3o venha a ser um motivo de humilha\u00e7\u00e3o para o teu pr\u00f3ximo. Guarda dom\u00ednio sobre ti e nunca te deixes cair em arrog\u00e2ncia. Se preferires a paz definitivamente, sorri ao destino que te fere. Mas nunca firas ningu\u00e9m. Nestes termos, pede deferimento. Assinado: Lupic\u00ednio Rodrigues, porteiro.\u00a0N\u00e3o sabemos se o reitor deferiu o requerimento e a partir de ent\u00e3o passou a sorrir ao destino sem ferir\u00a0ningu\u00e9m. O certo \u00e9 que Lupic\u00ednio deixou o emprego na Universidade e foi cantar em outra freguesia, em bares, restaurantes e churrascarias, onde aliava trabalho com boemia.\u00a0Foi ele, Lupic\u00ednio, quem comp\u00f4s o hino tricolor do Gr\u00eamio, do qual era um fan\u00e1tico torcedor, ganhando com isso um retrato no sal\u00e3o nobre do clube. Depois do suic\u00eddio de Vargas, em 1954, Lupic\u00ednio, j\u00e1 consagrado nacionalmente, continuou mantendo rela\u00e7\u00f5es amistosas com Jango e Brizola, que tamb\u00e9m admiravam sua m\u00fasica. Por conta disso, foi preso e torturado, segundo seu filho.\u00a0Autor de grandes sucessos como &#8220;Felicidade foi se embora&#8221;, &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, &#8220;Esses mo\u00e7os&#8221;, &#8220;Nervos de a\u00e7o&#8221;, &#8220;Caixa de \u00d3dio&#8221;, &#8220;Se acaso voc\u00ea chegasse&#8221;, &#8220;Remorso&#8221; e dezenas de outros, Lupic\u00ednio comp\u00f4s &#8220;Cal\u00fania&#8221;, cuja letra pode muito bem ter outra leitura, quando sabemos de sua pris\u00e3o e a forma como foi feita:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Voc\u00ea me acusa \/\u00a0Mas n\u00e3o prova o que diz \/ Voc\u00ea me acusa \/ De um mal que eu n\u00e3o fiz\/ A cal\u00fania \u00e9 um crime \/ que Deus n\u00e3o perdoa \/ Voc\u00ea vai sofrer \/ aqui neste mundo.\u00a0A letra de &#8220;Cal\u00fania&#8221;, gravada por Linda Batista em 1958, termina com Lupic\u00ednio rogando: &#8220;Eu n\u00e3o quero vingan\u00e7a \/ A vingan\u00e7a \u00e9 pecado \/ S\u00f3 a Justi\u00e7a Divina \/ Pode seu crime julgar&#8221;.\u00a0Mas se prevalecer a letra de &#8220;Vingan\u00e7a&#8221;, cantada tamb\u00e9m por Linda Batista e depois por Jamel\u00e3o, os torturadores da ditadura n\u00e3o ter\u00e3o paz e ser\u00e3o punidos pela Justi\u00e7a:\u00a0&#8220;Voc\u00ea h\u00e1 de rolar como as pedras que rolam na estrada, sem ter nunca um cantinho de seu pra poder descansar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">P.S. &#8211; Agrade\u00e7o o carinho dos familiares e amigos que compareceram ao lan\u00e7amento e noite de aut\u00f3grafos do livro ESSA MANAUS QUE SE VAI, no Fran&#8217;s Caf\u00e9, em Manaus.Foi um momento muito especial e aconchegante, que se tornou possivel gra\u00e7as ao empenho do editor Mauro Souza.\u00a0\u00c9 possivel adquirir o livro on line: acessando o site\u00a0<a href=\"http:\/\/www.institutocensus.com.br\/ed\">www.institutocensus.com.br\/ed<\/a><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o da Verdade n\u00e3o sabe, mas depois do golpe militar de 1964, o compositor ga\u00facho Lupic\u00ednio Rodrigues (1914-1974) foi preso e permaneceu v\u00e1rios meses trancafiado, primeiro no Quartel da PE, no centro de Porto Alegre e, depois, no pres\u00eddio da Ilha da Pintada, apesar de nunca ter tido qualquer atividade pol\u00edtica. 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