{"id":1560,"date":"2012-07-13T14:36:37","date_gmt":"2012-07-13T14:36:37","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/13\/sobre-a-verdade-2\/"},"modified":"2012-07-13T14:36:37","modified_gmt":"2012-07-13T14:36:37","slug":"sobre-a-verdade-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/13\/sobre-a-verdade-2\/","title":{"rendered":"Sobre a verdade"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em sua coluna na CH 293, Renato Lessa trata da implanta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade no Brasil e ressalta que a investiga\u00e7\u00e3o de torturas e assassinatos praticados no governo militar pode revelar dados hist\u00f3ricos cruciais para o entendimento do que somos como na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/revista-ch\/2012\/293\/sobre-a-verdade\/image_preview\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<address \/>Fotos de mortos e desaparecidos durante o regime militar exibidas no Ato Nacional pela Verdade e Justi\u00e7a, realizado em maio para apoiar a Comiss\u00e3o da Verdade e a den\u00fancia de torturadores da ditadura. (foto: Circuito Fora do Eixo\/ Flickr \u2013 CC BY-SA 2.0)   <!--more-->  <\/address>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agregados demogr\u00e1ficos n\u00e3o s\u00e3o sin\u00f4nimos de na\u00e7\u00f5es. Claro est\u00e1 que n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o real \u2013 n\u00e3o falo das imagin\u00e1rias \u2013 que n\u00e3o contenha base demogr\u00e1fica. Popula\u00e7\u00e3o, coortes geracionais, dispers\u00e3o\/concentra\u00e7\u00e3o pelo territ\u00f3rio, entre outras, s\u00e3o marcas obrigat\u00f3rias a ser consideradas quando perguntamos, diante de alguma experi\u00eancia nacional, \u201cque na\u00e7\u00e3o \u00e9 esta?\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No entanto, se o suporte demogr\u00e1fico \u00e9 indispens\u00e1vel, est\u00e1 longe de ser suficiente para marcar distin\u00e7\u00f5es e particularidades nacionais. O gosto norte-americano pelo beisebol, tanto quanto o brasileiro pelo futebol, dificilmente poder\u00e1 ser explicado por vari\u00e1veis demogr\u00e1ficas, assim como in\u00fameras particularidades identit\u00e1rias, inerentes a todas as sociedades.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A ideia de na\u00e7\u00e3o como algo mais denso que a de popula\u00e7\u00e3o pressup\u00f5e o compartilhamento de narrativas a respeito de uma experi\u00eancia nacional comum. A circularidade da frase \u00e9 proposital: n\u00e3o h\u00e1 na\u00e7\u00e3o que dispense a presen\u00e7a de narrativas sobre si, que a apresentam \u2013 e reapresentam \u2013 como espa\u00e7o nacional. Se quisermos, podemos falar em mitos que, independentemente de sua verdade factual, s\u00e3o compartilhados e fundam e mant\u00eam identidades.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas nem tudo nessas narrativas compartilhadas deriva de fic\u00e7\u00f5es sobre origens m\u00edticas, como a loba romana ou a fixa\u00e7\u00e3o do dec\u00e1logo mosaico. Mem\u00f3rias e experi\u00eancias comuns comp\u00f5em aspectos fundamentais dessas narrativas, que n\u00e3o se reduzem a f\u00e1bulas e constituem o acervo que temos para tentar responder perguntas a respeito do que somos, como coletivo nacional.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/cienciahoje.uol.com.br\/revista-ch\/2012\/293\/imagens\/sobreaverdade02.jpg\/image_mini\" border=\"0\" width=\"166\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<address style=\"text-align: justify;\">Policiais cercam pr\u00e9dio da Uni\u00e3o Nacional dos Estudantes (UNE) em 1964, quando teve in\u00edcio o regime militar no Brasil. (foto: Arquivo UNE\/ Flickr \u2013 CC BY-NC 2.0)<\/address>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os anos vividos pelo Brasil sob estado de exce\u00e7\u00e3o \u2013 entre 1964 e 1985 \u2013 foram marcados por cont\u00ednuas viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, por parte do Estado e de seus agentes p\u00fablicos. Revela\u00e7\u00f5es recentes e esparsas d\u00e3o alguma medida do horror dos corpos torturados, dos assassinatos e dos desaparecimentos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A anistia decretada nos anos 1980 abrangeu as a\u00e7\u00f5es da resist\u00eancia armada ao regime de exce\u00e7\u00e3o e estendeu sua cobertura aos \u201ccrimes conexos\u201d, eufemismo que pretendia designar os atos cometidos pelos \u00f3rg\u00e3os ditos de seguran\u00e7a. Tal anistia compreensiva, desde o in\u00edcio, estabeleceu uma assimetria: sabia-se quem eram os que se opuseram ao regime militar, mas deveriam permanecer desconhecidos os que perpetraram viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos, definidas segundo crit\u00e9rios internacionalmente reconhecidos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tal manto de prote\u00e7\u00e3o, para al\u00e9m de ocultar os perpetradores, encobertos assim pelo segredo, trouxe a expectativa de que sua invisibilidade pudesse ser estendida aos mortos e desaparecidos. Saber a verdade a respeito de como morreram e de como e onde foram enterrados, implicaria, de acordo com uma vers\u00e3o ainda viva no pa\u00eds, em violar os termos da anistia, por criar condi\u00e7\u00f5es para o surgimento de um \u00e2nimo punitivo com rela\u00e7\u00e3o aos perpetradores de torturas e assassinatos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O sil\u00eancio com rela\u00e7\u00e3o aos perpetradores implica, portanto, a invisibilidade das v\u00edtimas e, por extens\u00e3o, suprime da mem\u00f3ria compartilhada pelo pa\u00eds um aspecto crucial da experi\u00eancia das duas d\u00e9cadas de exce\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A implanta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade, no Brasil, em gesto que segue o j\u00e1 adotado em dezenas de pa\u00edses que passaram por regimes de exce\u00e7\u00e3o, poder\u00e1 vir a ser o marco de uma virada hist\u00f3rica. Para os familiares dos desaparecidos, para os que viveram a experi\u00eancia da resist\u00eancia e para o pa\u00eds em seu conjunto. Em especial para as gera\u00e7\u00f5es que n\u00e3o viveram \u2013 e, espero, n\u00e3o venham a viver \u2013 o horror de ser governadas por ditadores. Elas poder\u00e3o construir suas interpreta\u00e7\u00f5es pr\u00f3prias a respeito da hist\u00f3ria recente do pa\u00eds com base em uma narrativa que retira do sil\u00eancio experi\u00eancias cruciais para o entendimento a respeito do que somos como na\u00e7\u00e3o.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por \u00a0Renato Lessa &#8211;\u00a0Departamento de Ci\u00eancia Pol\u00edtica,\u00a0Universidade Federal Fluminense e\u00a0Instituto de Ci\u00eancias Sociais,\u00a0Universidade de Lisboa<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Em sua coluna na CH 293, Renato Lessa trata da implanta\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade no Brasil e ressalta que a investiga\u00e7\u00e3o de torturas e assassinatos praticados no governo militar pode revelar dados hist\u00f3ricos cruciais para o entendimento do que somos como na\u00e7\u00e3o. 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