{"id":1704,"date":"2012-07-25T12:38:42","date_gmt":"2012-07-25T12:38:42","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/25\/filha-de-guerrilheiros-foi-entregue-a-familia-que-apoiava-ditadura-argentina-2\/"},"modified":"2012-07-25T12:38:42","modified_gmt":"2012-07-25T12:38:42","slug":"filha-de-guerrilheiros-foi-entregue-a-familia-que-apoiava-ditadura-argentina-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/25\/filha-de-guerrilheiros-foi-entregue-a-familia-que-apoiava-ditadura-argentina-2\/","title":{"rendered":"Filha de guerrilheiros foi entregue \u00e0 fam\u00edlia que apoiava ditadura argentina"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No pr\u00f3ximo m\u00eas, Victoria Montenegro, 36, levar\u00e1 os restos de seu pai para serem enterrados em sua prov\u00edncia (Estado) natal, Salta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1700\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/07\/12196438.jpeg\" border=\"0\" width=\"275\" height=\"196\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Victoria Montenegro, filha de v\u00edtimas da ditadura argentina, vai finalmente enterrar os restos mortais de seu pai  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Roque Orlando Montenegro, um guerrilheiro do ERP (Ex\u00e9rcito Revolucion\u00e1rio do Povo), morreu aos 20 anos, v\u00edtima de um dos &#8220;voos da morte&#8221; -sistema usado pela repress\u00e3o argentina dos anos 1970 para livrar-se dos presos pol\u00edticos, arremessando-os no rio da Prata.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ser\u00e1 mais um cap\u00edtulo na presta\u00e7\u00e3o de contas que estou fazendo com meu passado&#8221;, afirma ela em entrevista \u00e0 Folha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Victoria \u00e9 um dos estimados mais de 500 beb\u00eas que foram roubados por militares antes e depois do golpe de 24 de mar\u00e7o de 1976, epis\u00f3dio que iniciou o \u00faltimo per\u00edodo militar argentino.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As crian\u00e7as foram entregues a fam\u00edlias de oficiais ou a apoiadores do regime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Desse total, a associa\u00e7\u00e3o Av\u00f3s da Pra\u00e7a de Maio, formada por m\u00e3es de militantes de esquerda, j\u00e1 localizou 105 beb\u00eas, que hoje est\u00e3o na casa dos 30 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na semana passada, o grupo comemorou a decis\u00e3o da Justi\u00e7a argentina que distribuiu senten\u00e7as a nove respons\u00e1veis por esses crimes, entre eles, o ex-ditador Jorge Rafael Videla, 86.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A seguir, trechos da entrevista que Montenegro concedeu \u00e0 Folha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Folha &#8211; Quando e como voc\u00ea foi roubada?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Victoria Montenegro &#8211;<\/strong> Nasci em liberdade e fui presa com meus pais aos 13 dias de vida, em William Morris [prov\u00edncia de Buenos Aires], em fevereiro de 1976.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O homem que me roubou, o coronel Hern\u00e1n Antonio Tezlaff, esteve envolvido na opera\u00e7\u00e3o que terminou com a vida de ambos. Meu pai foi v\u00edtima dos &#8220;voos da morte&#8221;, minha m\u00e3e est\u00e1 desaparecida at\u00e9 hoje.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Como foi sua rela\u00e7\u00e3o com seu apropriador?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Era uma rela\u00e7\u00e3o de pai e filha. Durante minha inf\u00e2ncia, n\u00e3o desconfiava de nada. Cresci num entorno militar, os amigos da fam\u00edlia, os encontros, as festas, eram as t\u00edpicas desse meio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Falava-se da &#8220;subvers\u00e3o&#8221; sempre em tom negativo e com as piores cores. Eu temia a viol\u00eancia que inspiravam.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1989, as Av\u00f3s come\u00e7aram a desconfiar do meu caso e a pedir os exames de DNA. Fiquei assustada. No come\u00e7o, n\u00e3o quis fazer [o exame]. Tinha muito medo de ser filha de guerrilheiros, por causa das coisas que meu apropriador contava sobre eles.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\"><strong>Como isso mudou?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Foi um processo longo, desde que fiz as primeiras provas, em 1993, at\u00e9 que ficou comprovada minha identidade, em 2000. Comecei a conhecer as experi\u00eancias de outros netos e a ler sobre a luta dos meus pais biol\u00f3gicos, que aos poucos foi se transformando na minha luta.<\/p>\n<p class=\"p1\">Tive uma rela\u00e7\u00e3o amorosa plena com meus apropriadores porque somos humanos e estabelecemos rela\u00e7\u00f5es. Eu pensava que eram meus pais. Mas, uma vez que se descobre a verdade, \u00e9 preciso n\u00e3o pensar no amor, e sim na Justi\u00e7a, pois apropriar-se de um beb\u00ea n\u00e3o \u00e9 um ato de amor.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Mas como ficou a rela\u00e7\u00e3o com eles ap\u00f3s saber a verdade?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Eu nunca rompi, mas fiz com que entendessem que eu n\u00e3o s\u00f3 estava contra, como ia viver a vida que me tinham roubado. Nesse momento, deixei de me chamar Mar\u00eda Sol, o nome que me deram, e voltei a me chamar Victoria, o nome que meus pais queriam para mim.<\/p>\n<p class=\"p1\">Meu apropriador morreu em 2003. Minha apropriadora, h\u00e1 alguns meses. J\u00e1 n\u00e3o tenho mais v\u00ednculos com ningu\u00e9m dessa fam\u00edlia.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Voc\u00ea considera justas as penas aplicadas aos repressores da ditadura?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">As senten\u00e7as contra os cabe\u00e7as da repress\u00e3o est\u00e3o corretas. Videla pegou 50 anos. Outras, aos apropriadores, decepcionaram um pouco, n\u00e3o passando de 15 anos.<\/p>\n<p class=\"p1\">Por\u00e9m, o mais importante do julgamento \u00e9 o fato de considerar o roubo de beb\u00eas como um &#8220;plano sistem\u00e1tico&#8221; pela primeira vez. Isso tem um significado hist\u00f3rico muito grande.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Por qu\u00ea?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Trata-se de um passo a mais que damos na recupera\u00e7\u00e3o da nossa hist\u00f3ria. Isso n\u00e3o \u00e9 m\u00e9rito de um governo apenas, mas sim de um Estado que est\u00e1 recuperando a identidade daqueles que foram oprimidos no passado e dando um verdadeiro nome para o que aconteceu.<\/p>\n<p class=\"p1\">Est\u00e1 colocando no banco dos r\u00e9us gente que nunca pensou que passaria por isso. Est\u00e1 confrontando interesses que se imaginavam intoc\u00e1veis, como os dos donos de grandes grupos de m\u00eddia.<\/p>\n<p class=\"p1\">A ditadura est\u00e1 finalmente sendo entendida dentro de sua complexidade, ela n\u00e3o foi s\u00f3 militar, mas, sim, c\u00edvica, militar e dos meios de comunica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; Folha de S.Paulo<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No pr\u00f3ximo m\u00eas, Victoria Montenegro, 36, levar\u00e1 os restos de seu pai para serem enterrados em sua prov\u00edncia (Estado) natal, Salta. 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