{"id":1705,"date":"2012-07-25T12:44:59","date_gmt":"2012-07-25T12:44:59","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/25\/correspondentes-criticam-espionagem-na-ditadura-2\/"},"modified":"2012-07-25T12:44:59","modified_gmt":"2012-07-25T12:44:59","slug":"correspondentes-criticam-espionagem-na-ditadura-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/25\/correspondentes-criticam-espionagem-na-ditadura-2\/","title":{"rendered":"Correspondentes criticam espionagem na ditadura"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Rep\u00f3rteres de jornais e ag\u00eancias internacionais sabiam do monitoramento por parte dos militares, mas se dizem surpresos com a exist\u00eancia de dossi\u00eas e com o posto de inimigos do Estado. Vigil\u00e2ncia contra jornalistas foi revelada ontem pelo Correio.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A localiza\u00e7\u00e3o de documentos sigilosos que comprovam o monitoramento de correspondentes internacionais e mostram que eles eram vistos como inimigos do regime militar surpreendeu jornalistas estrangeiros que atuaram no Brasil \u00e0 \u00e9poca. Segundo mostrou o Correio na edi\u00e7\u00e3o de ontem, agentes da Divis\u00e3o de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00f5es (DSI) e funcion\u00e1rios do Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a elaboraram dezenas de dossi\u00eas que inclu\u00edam, al\u00e9m das tradu\u00e7\u00f5es de reportagens, pedidos de expuls\u00e3o dos jornalistas do territ\u00f3rio brasileiro. Os documentos fazem parte do Arquivo Nacional e foram divulgados gra\u00e7as \u00e0 san\u00e7\u00e3o da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornalista franc\u00eas Charles Vanhecke foi correspondente do Le Monde no Brasil entre 1973 e 1977. O escrit\u00f3rio da empresa funcionava no Centro do Rio de Janeiro, mas ele tamb\u00e9m sentia a press\u00e3o do trabalho quando chegava em casa. &#8220;Eu sabia que meus telefones eram monitorados e minhas correspond\u00eancias sempre chegavam abertas. O empregado que eu tinha em casa era manipulado pela pol\u00edcia, que perguntava sobre a minha rotina&#8221;, relembra Charles Vanhecke, hoje com 78 anos, durante uma conversa por telefone da Bretanha, na Fran\u00e7a, onde passa f\u00e9rias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 mesmo as lixeiras do pr\u00e9dio de Charles eram reviradas. &#8220;Pap\u00e9is desapareciam, tanto da minha casa quanto do escrit\u00f3rio do jornal. Mas quando eu ia a S\u00e3o Paulo, esse tipo de monitoramento era ainda pior. J\u00e1 fui at\u00e9 mesmo detido l\u00e1, mas no Rio de Janeiro nada de grave aconteceu comigo&#8221;, conta o jornalista franc\u00eas. Charles Vanhecke ficou surpreso com a informa\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 dossi\u00eas secretos a seu respeito no Arquivo Nacional brasileiro. &#8220;Eu sabia que minhas reportagens irritavam os militares de alguma forma, porque eu falava sobre as pris\u00f5es e as torturas. Mas n\u00e3o achei que eu incomodasse tanto o governo brasileiro&#8221;, falou rindo o franc\u00eas. &#8220;De qualquer forma, o Le Monde tinha uma influ\u00eancia muito grande, era um pouco intoc\u00e1vel e, por causa disso, acho que n\u00e3o fizeram nada comigo&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ciente de como o momento era delicado no Brasil, Charles Vanhecke agia com diplomacia, apesar do tom cr\u00edtico das reportagens. &#8220;Eu tinha contato com alguns militares e, uma vez, cheguei at\u00e9 mesmo a fazer uma entrevista em off com o general Golbery (do Couto e Silva). Por isso, n\u00e3o imaginava que eu fosse visto de modo t\u00e3o negativo. Escrevi at\u00e9 mesmo alguns artigos positivos para o governo militar, falando sobre a abertura pol\u00edtica prometida por Geisel&#8221;. Depois de deixar o pa\u00eds voluntariamente em 1977, Vanhecke voltou ao Brasil nos anos 1980, quando acompanhou a morte de Tancredo Neves.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>O Correio tamb\u00e9m localizou a ex-correspondente do New York Times Marvine Henrietta Howe, citada como &#8220;presen\u00e7a indesej\u00e1vel&#8221; nos dossi\u00eas da Divis\u00e3o de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00e3o do governo militar. Ela est\u00e1 aposentada e vive em Virg\u00ednia, nos Estados Unidos. A jornalista tem uma casa em Oeiras, Portugal, onde passa parte do ano, e j\u00e1 escreveu livros sobre o islamismo no Marrocos e na Turquia, pa\u00edses onde tamb\u00e9m atuou como correspondente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De Portugal, ela falou \u00e0 reportagem e comentou suas impress\u00f5es acerca dos relat\u00f3rios. &#8220;Estou at\u00f4nita com isso. N\u00e3o tinha ideia de que eu estava em uma esp\u00e9cie de lista negra em Bras\u00edlia. Eu simplesmente tocava o meu trabalho, que obviamente inclu\u00eda conversar com pessoas como Darcy Ribeiro, Dom Helder, al\u00e9m de oficiais e cidad\u00e3os comuns&#8221;, comentou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Censura<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A presidente da Associa\u00e7\u00e3o de Correspondentes da Imprensa Estrangeira no Brasil, Mery Galanternick, trabalhou com Marvine Howe no escrit\u00f3rio do New York Times, no Rio de Janeiro. Ela se surpreendeu com a informa\u00e7\u00e3o de que a antiga colega aparece nos antigos arquivos secretos da ditadura como uma inimiga do estado. &#8220;A Marvine n\u00e3o fazia mat\u00e9rias t\u00e3o negativas, havia outros jornalistas muito mais pol\u00eamicos, como o Joe Novitski, que atuou em 1968&#8221;, conta. O rep\u00f3rter citado por Mery n\u00e3o aparece nos documentos dispon\u00edveis no Arquivo Nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mery Galanternick relembra os m\u00e9todos usados pelos correspondentes estrangeiros para driblar a censura. &#8220;Quando a reportagem era mais forte, o rep\u00f3rter sa\u00eda do pa\u00eds e ia \u00e0 Col\u00f4mbia ou \u00e0 Venezuela. De l\u00e1, ele transmitia o texto e, depois de um tempo, voltava ao Brasil&#8221;, conta a presidente da entidade que representa jornalistas estrangeiros. &#8220;Se mand\u00e1ssemos daqui pelo telex, a censura n\u00e3o autorizaria. Havia um censor plantado no nosso pr\u00e9dio, na Avenida Rio Branco. L\u00e1, al\u00e9m do New York Times, tamb\u00e9m funcionavam as ag\u00eancias Associated Press e Reuters&#8221;, conta Mery.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Cartas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornalista Larry Rohter, ex-correspondente do New York Times no Brasil, chegou ao pa\u00eds pela primeira vez durante a ditadura militar. Ele desembarcou em 1977 e tamb\u00e9m enfrentou dificuldades para trabalhar. No Arquivo Nacional, n\u00e3o h\u00e1 dossi\u00eas contra o pol\u00eamico rep\u00f3rter norte-americano \u2014 que ficou conhecido depois de publicar, em 2004, um artigo em que relatava os h\u00e1bitos alco\u00f3licos do ent\u00e3o presidente, Luiz In\u00e1cio Lula da Silva.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas nos acervos dos \u00f3rg\u00e3os de informa\u00e7\u00e3o do regime militar o nome de Larry Rohter aparece em um documento listando destinat\u00e1rios de correspond\u00eancia enviada por &#8220;entidades ou pa\u00edses comunistas&#8221;. Desde que entrou no Brasil, o americano sabia que era seguido e grampeado. &#8220;Cheguei em 1977, uma \u00e9poca complicada. Algumas vezes, eu ouvia uma esp\u00e9cie de &#8220;clic&#8221; enquanto falava ao telefone e sabia que era um ind\u00edcio de grampo. Uma vez, uma voz estranha apareceu no meio de uma liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica&#8221;, relembra Rohter. Ele conheceu Marvine Howe e tem um palpite a respeito da implic\u00e2ncia dos militares com a colega. &#8220;Antes de chegar ao Brasil, ela cobriu a Revolu\u00e7\u00e3o dos Cravos, em Portugal. Por conta disso, Marvine tinha um entendimento bem peculiar sobre o assunto&#8221;, conta o americano.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos dossi\u00eas contra Howe e Charles Vanhecke, tamb\u00e9m h\u00e1 cita\u00e7\u00f5es sobre as correspond\u00eancias que os jornalistas recebiam. &#8220;Marco Ant\u00f4nio Tavares Coelho, militante do CC do PCB, remetia exemplares da Voz Oper\u00e1ria, segundo suas declara\u00e7\u00f5es, para Marvine Foker, que n\u00e3o \u00e9 outra sen\u00e3o Marvine Henrietta Howe, e para Charles Vanhecke, do Le Monde&#8221;, diz um documento da Divis\u00e3o de Seguran\u00e7a e Informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para o editor adjunto da editoria internacional do New York Times, Marc Lacey, os dossi\u00eas contra a correspondente de um dos jornais mais poderosos do mundo s\u00e3o uma comprova\u00e7\u00e3o de que ela tinha uma boa atua\u00e7\u00e3o. &#8220;Marvine Howe era uma experiente correspondente e a inclus\u00e3o de seu nome nesses arquivos parecem mostrar que, acima de tudo, ela estava fazendo seu trabalho. E fazendo bem&#8221;, afirma Marc Lacey.<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Documentos dispon\u00edveis<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A regulamenta\u00e7\u00e3o da Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o em 16 de maio deste ano obrigou os \u00f3rg\u00e3os p\u00fablicos a disponibilizarem qualquer tipo de informa\u00e7\u00e3o solicitada pela popula\u00e7\u00e3o, em um prazo m\u00e1ximo de 30 dias %u2014 salvo em casos de car\u00e1ter pessoal e de seguran\u00e7a do pa\u00eds. Segundo levantamento da Controladoria Geral da Uni\u00e3o, aproximadamente 17 mil pedidos de informa\u00e7\u00f5es j\u00e1 foram protocolados nos \u00f3rg\u00e3os do Executivo Federal, 84% foram respondidos. A m\u00e9dia de espera pelas respostas \u00e9 de 9 dias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A partir da san\u00e7\u00e3o da lei, o Arquivo Nacional, institui\u00e7\u00e3o p\u00fablica ligada ao Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a que centraliza o sistema de gest\u00e3o de documentos, passou a divulgar dados in\u00e9ditos, principalmente quando consultado por ve\u00edculos da imprensa. Cerca de 5 mil fotografias do extinto Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es (SNI), por exemplo, tiradas por agentes da ditadura militar, j\u00e1 foram liberadas pelo Arquivo Nacional. No acervo, h\u00e1 imagens in\u00e9ditas de militantes contr\u00e1rios ao regime. Outros documentos divulgados pelo \u00f3rg\u00e3o, quando solicitados, tamb\u00e9m revelaram informa\u00e7\u00f5es novas e surpreendentes sobre este per\u00edodo que eram, at\u00e9 ent\u00e3o, secretas para a maioria da popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Lei de Acesso \u00e0 Informa\u00e7\u00e3o surgiu para cumprir o direito constitucional do cidad\u00e3o de obter dados p\u00fablicos. Segundo a nova legisla\u00e7\u00e3o, arquivos, planos de governo, auditorias e presta\u00e7\u00f5es de conta devem ser facilmente acessados por todo e qualquer cidad\u00e3o, sem a necessidade<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio Braziliense<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Rep\u00f3rteres de jornais e ag\u00eancias internacionais sabiam do monitoramento por parte dos militares, mas se dizem surpresos com a exist\u00eancia de dossi\u00eas e com o posto de inimigos do Estado. 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