{"id":1753,"date":"2012-07-29T13:51:58","date_gmt":"2012-07-29T13:51:58","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/29\/entre-a-saudade-e-a-revolta-o-suicidio-de-vargas-e-os-protestos-brasileiros-2\/"},"modified":"2012-07-29T13:51:58","modified_gmt":"2012-07-29T13:51:58","slug":"entre-a-saudade-e-a-revolta-o-suicidio-de-vargas-e-os-protestos-brasileiros-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/07\/29\/entre-a-saudade-e-a-revolta-o-suicidio-de-vargas-e-os-protestos-brasileiros-2\/","title":{"rendered":"Entre a saudade e a revolta: o suic\u00eddio de Vargas e os protestos brasileiros"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Madrugada do dia 24 de agosto de 1954. Interior do Pal\u00e1cio do Catete. Rio de Janeiro. Get\u00falio Vargas, de pijama de seda listrado, no terceiro andar do pal\u00e1cio, est\u00e1 preocupado com o seu futuro como presidente da Rep\u00fablica. Anos atr\u00e1s, em 1951, tinha voltado ao comando da na\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do voto popular, contando com o apoio dos trabalhadores e do PTB.\u00a0 Entretanto, em 1954, existiam v\u00e1rios opositores: uma junta de militares, jornalistas representados por Carlos Lacerda, os industriais e at\u00e9 membros internacionais (contr\u00e1rios ao Rua Tonelero).\u00a0  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Atentado da Rua Tonelero, 05 de agosto de 1954, contribui para a crise presidencial. O principal inimigo pol\u00edtico de Vargas, Carlos Lacerda, estava voltando para casa quando foi surpreendido por um homem que apontou uma arma e atirou. Ele leva o seu filho at\u00e9 a garagem do pr\u00e9dio e tenta se esconder. O major Rubens Vaz, que fazia seguran\u00e7a de Lacerda, devido \u00e0s amea\u00e7as que este \u00faltimo vinha recebendo, interfere, leva um tiro e morre. A imprensa come\u00e7a a divulgar o atentado para todo o pa\u00eds. Ora, se temos v\u00edtimas, algu\u00e9m deveria ser o culpado. Como Vargas era o inimigo de Lacerda, logo ele fica sendo o respons\u00e1vel por toda essa arma\u00e7\u00e3o. Os militares ficam corro\u00eddos de raiva e v\u00e3o apurar todo o crime.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No pal\u00e1cio do Catete, com uma arma apontada para o peito esquerdo, Vargas se lembra desse epis\u00f3dio e sabe que os militares querem o seu afastamento da presid\u00eancia. Os seus representantes indicam que o afastamento tempor\u00e1rio seria um recurso, um golpe, para que ele retorne a presid\u00eancia mais tarde. Entretanto, Get\u00falio n\u00e3o pretende abrir m\u00e3o do seu poder e resolve cometer o suic\u00eddio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O dia amanhece com a not\u00edcia de que o presidente tinha se suicidado. A carta-testamento \u00e9 divulgada nos jornais e lida nas r\u00e1dios o tempo inteiro. Decreta-se luto nacional e os populares come\u00e7am a ir \u00e0s ruas prestar homenagens. Mulheres chorando, com vestidos pretos e com uma foto de Vargas, participam de passeatas e choram no cortejo f\u00fanebre (25 de agosto de 1954). Alguns sobem em \u00e1rvores para d\u00e1 o \u00faltimo adeus \u00e0 mem\u00f3ria de Vargas. O caix\u00e3o chega ao aeroporto Santos Dumont, com uma multid\u00e3o tentando toc\u00e1-lo, e embarca at\u00e9 o Rio Grande do Sul, terra natal de Get\u00falio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nas ruas, o povo vai fazendo manifesta\u00e7\u00f5es, quebra-quebra e at\u00e9 alguns morrem. Uma multid\u00e3o foi at\u00e9 o estabelecimento do jornal \u201cO Globo\u201d, no Largo do Carioca, e um grupo invadiu o local e colocou fogo nos carros. O senhor Herbert Moses, que se encontrava na reda\u00e7\u00e3o, pegou o telefone e chamou a pol\u00edcia, pois temia que colocassem fogo no dep\u00f3sito de gasolina pr\u00f3ximo ao jornal. Logo, chegaram quatro soldados da pol\u00edcia do Ex\u00e9rcito e quatro choques da pol\u00edcia Militar. Outro grupo se dirigiu at\u00e9 a \u201cR\u00e1dio Globo\u201d para fazer depreda\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em Porto Alegre, a cidade amanhece agitada com as manifesta\u00e7\u00f5es. O com\u00e9rcio fechou \u00e0s nove horas da manh\u00e3. A multid\u00e3o estava alvoro\u00e7ada e invadia v\u00e1rios estabelecimentos: o \u201cJornal do Rio Grande\u201d foi destru\u00eddo e depois incendiado, que nem os bombeiros conseguiram controlar as chamas; o \u201cDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u201d teve os seus m\u00f3veis retirados e colocados em uma fogueira; a \u201cR\u00e1dio Farroupilha\u201d ardeu em chamas e, como os bombeiros j\u00e1 estavam cansados e fazendo patrulha em outros locais, amea\u00e7ava desabar em cima do viaduto Ot\u00e1vio Rocha.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em Recife, a popula\u00e7\u00e3o parecia n\u00e3o acreditar que Get\u00falio Vargas tinha morrido. As atividades pararam, como a do Clube da Lanterna, e as pessoas come\u00e7aram a sair \u00e0s ruas. Para manter a paz e conter os \u00e2nimos exaltados dos manifestantes, foram convocadas as for\u00e7as do ar, da terra e do mar. Em Belo Horizonte, Juscelino Kubitschek falou emocionadamente sobre o suic\u00eddio de Vargas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Populares paulistanos organizaram passeatas de protesto e conduziam faixas, com os dizeres: \u201cSil\u00eancio, o Brasil est\u00e1 de luto\u201d, \u201cHoje, \u00e0s 15 horas, reuni\u00e3o na Pra\u00e7a da S\u00e9\u201d, entre outros. O PTB (SP) fez um ronda pelas principais f\u00e1bricas e chamou os oper\u00e1rios para um com\u00edcio de homenagem p\u00f3stuma.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mortes tamb\u00e9m v\u00e3o ocorrer nos protestos, como, por exemplo, em Sergipe. O Diret\u00f3rio Municipal de Aracaju do PTB organizou, em uma ter\u00e7a-feira, uma passeata que contemplou os bairros oper\u00e1rios da cidade. Depois disso, a passeata chegou ao seu lugar final, a Pra\u00e7a Fausto Cardoso, onde estava um palanque do partido. Os aparelhos do som do carro estavam sendo transferidos para o palanque, em que muitos oradores iriam discursar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Come\u00e7a o com\u00edcio com v\u00e1rias personalidades e uma delas \u00e9 Le\u00f4nidas Dantas (54 anos). Ele \u00e9 um getulista e, sendo assim, a popula\u00e7\u00e3o o chamou para prestar uma homenagem. Conhecido como Rei M\u00f4mo, ele foi at\u00e9 o local e fez o seu discurso. Quando terminou, no palco subiu uma pessoa chamada L\u00eddio Paix\u00e3o e decidiu falar sobre os acontecimentos recentes. Por\u00e9m o seu discurso gerou uma insatisfa\u00e7\u00e3o por parte dos ouvintes que decidiram expulsar ele de onde estava.\u00a0 A multid\u00e3o come\u00e7ou com empurr\u00f5es e pontap\u00e9s, para depois formar um contingente de pessoas que o lincharam.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao seu lado estava Jo\u00e3o Ribeiro do Bonfim (36 anos) que ficou at\u00f4nito ao ver o linchamento, mas n\u00e3o conseguiu ver os autores de tal barbaridade. Um guarda civil, Renato Augusto Martins (40 anos), viu de longe \u2013 na porta do Pal\u00e1cio do Governo, Pra\u00e7a Fausto Cardoso \u2013 uma multid\u00e3o fazendo algazarra.\u00a0 Ent\u00e3o, ele decidiu ir cumprir os deveres de um policial. Quando chega, deparou-se com L\u00eddio Paix\u00e3o agonizando. Ao ver o corpo estendido no ch\u00e3o, logo chamou o seu colega, guarda Jos\u00e9 Bispo dos Santos, e pediu a este que chamasse um carro para levar o ferido ao hospital. Depois de v\u00e1rias nega\u00e7\u00f5es, aparece uma pessoa (nome n\u00e3o identificado) e leva de carro o ferido para o Hospital Cirurgia.\u00a0 Quando chegou nesse local, eles viram que o homem ainda estava vivo. Mas \u00e9 obvio que n\u00e3o resistiu e morreu. Tudo isso aconteceu no dia 24 de agosto de 1954, \u00e0s 11h30min.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ver uma multid\u00e3o linchando at\u00e9 a morte um opositor de Vargas, nos leva a ter certo rep\u00fadio. Mas, em 24\/25 de agosto de 1954, n\u00e3o se aceitava oposi\u00e7\u00e3o e cr\u00edtica ao ex-presidente. A grande maioria dos seus inimigos tentou se esconder e esperar a turbul\u00eancia passar. Como de praxe, ap\u00f3s a morte de qualquer pessoa, todos visam elogiar e n\u00e3o ousam lembrar o lado ruim de algu\u00e9m. A morte parece que esconde os nossos piores defeitos, e nos transforma em \u201cbons homens\u201d. N\u00e3o se deve olhar o suic\u00eddio de Vargas com os olhos de hoje, pois n\u00e3o temos a sensa\u00e7\u00e3o viva daquele momento, isto \u00e9, n\u00e3o estamos exasperados e nem chorando. A raiva, o choro, enfim, as emo\u00e7\u00f5es se foram, restando apenas os relatos de agosto de 1954.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O \u201cpai dos pobres\u201d se tornou um mito: fez tudo necess\u00e1rio para isso, como \u201cusar\u201d a imprensa, os trabalhadores, e cometer suic\u00eddio. \u201cOra, ele se matou pela popula\u00e7\u00e3o, como se fosse para salvar o Brasil de um mal\u201d \u2013 poderiam (e pensaram) os manifestantes. Ele venceu na derrota, parafraseando o livro \u201cVit\u00f3ria na derrota, A morte de Get\u00falio Vargas\u201d, de Ronaldo Conde Aguiar. Os militares que queriam o poder tiveram que esperar at\u00e9 o golpe de 1964. Get\u00falio pegou a sua cartola de m\u00e1gico e tirou o que julgava mais propenso: uma arma que logo atirou em seu peito. \u00c9 como ele tinha dito: \u201cS\u00f3 morto sairei do Catete!\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O mito funcionou\u2026 Ele saiu aplaudido e venerado por v\u00e1rias pessoas. Ele soube construir uma imagem e, o mais dif\u00edcil de tudo, mant\u00ea-la por v\u00e1rios anos. Por\u00e9m, esse mito foi cessando aos poucos e, atualmente, encontra-se dividido. Os estudos, principalmente na \u00e1rea de Hist\u00f3ria, percebem Vargas n\u00e3o como bonzinho, mas tamb\u00e9m como um articular, ditador e autorit\u00e1rio; em contr\u00e1rio, na mente das pessoas idosas, ele aparece ainda como um genu\u00edno \u201cpai dos pobres\u201d e um homem que solidificou o sal\u00e1rio m\u00ednimo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E qual vis\u00e3o confiar? Em todas\u2026 Aqui n\u00e3o existe o bem e o mal separados, mas juntos. Get\u00falio Dorneles Vargas era assim\u2026 Um homem que se articulava entre os populares e as elites, entre os seus amigos e os seus inimigos (que inclusive chamava-os para fazer parte do seu governo), entre o bem e o mal.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; O Reporter<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Madrugada do dia 24 de agosto de 1954. Interior do Pal\u00e1cio do Catete. Rio de Janeiro. Get\u00falio Vargas, de pijama de seda listrado, no terceiro andar do pal\u00e1cio, est\u00e1 preocupado com o seu futuro como presidente da Rep\u00fablica. 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