{"id":178,"date":"2012-05-10T19:19:11","date_gmt":"2012-05-10T19:19:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/10\/morre-aos-94-anos-o-ex-presidente-do-pdt-neiva-moreira\/"},"modified":"2012-05-10T19:19:11","modified_gmt":"2012-05-10T19:19:11","slug":"morre-aos-94-anos-o-ex-presidente-do-pdt-neiva-moreira","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/10\/morre-aos-94-anos-o-ex-presidente-do-pdt-neiva-moreira\/","title":{"rendered":"Morre, aos 94 anos, o ex-presidente do PDT Neiva Moreira"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-presidente nacional do PDT, ex-deputado federal e jornalista Neiva Moreira, 94 anos, um dos grandes nomes do cen\u00e1rio politico do pa\u00eds, morreu nesta madrugada de quinta-feira (10\/05) por vota de 2 h em S\u00e3o Luis (MA). Neiva estava internado no Hospital UDI, ap\u00f3s complica\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-177\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/neiva_41facc.jpg\" border=\"0\" width=\"200\" height=\"141\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O corpo do combatente trabalhista ser\u00e1 velado na sede estadual do PDT a partir das 10h. O\u00a0sepultamento\u00a0est\u00e1 previsto para \u00e0s 16h no cemit\u00e9rio do Gave\u00e3o.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobre Neiva Moreira<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neiva Moreira, Jos\u00e9 Guimar\u00e3es (Nova Iorque, Maranh\u00e3o &#8211; 1917) \u00e9 um dos raros pol\u00edticos brasileiros que marcaram sua a\u00e7\u00e3o tanto dentro do estado natal, o Maranh\u00e3o, e do Brasil, como no exterior. Jornalista, publicista e pol\u00edtico, Neiva teve uma atua\u00e7\u00e3o intensa nos pa\u00edses emergentes, transformando-se num dos grandes ativistas e te\u00f3ricos do Terceiro Mundo, aquela parte do globo que, na \u00e9poca da guerra fria, pairava entre os antigos blocos Ocidental, comandado pelos Estados Unidos, e Socialista, liderado pela Uni\u00e3o Sovi\u00e9tica.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sua resist\u00eancia heroica \u00e0 conspira\u00e7\u00e3o que redundou na ditadura de 1964, ao liderar a Frente Parlamentar Nacionalista na C\u00e2mara dos Deputados, a partir de 1961, o aproximou de Leonel Brizola, ent\u00e3o governador do Rio Grande do Sul e j\u00e1 transformado numa grande lideran\u00e7a popular. Os dois passaram a percorrer o pa\u00eds pregando as reformas de base do presidente Jo\u00e3o Goulart e articulando as for\u00e7as nacionalistas contra o golpe que se avizinhava e que acabou se efetivando em 1\u00ba de abril de 1964, pois tinha atr\u00e1s de si o envolvimento da maior pot\u00eancia estrangeira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neiva Moreira foi preso e depois obrigado a exilar-se na Bol\u00edvia, de onde depois se mudou para o Uruguai, para, novamente com Brizola, organizar a resist\u00eancia \u00e0 ditadura, que se prolongaria por 20 anos. Foi ent\u00e3o que entendeu que a crise brasileira jamais seria enfrentada efetivamente sem a jun\u00e7\u00e3o dos povos oprimidos, particularmente aqueles dos pa\u00edses vizinhos, que sofriam as mesmas press\u00f5es que os nossos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Naquela \u00e9poca, come\u00e7avam a pipocar os movimentos de liberta\u00e7\u00e3o dos povos africanos, depois de s\u00e9culos de domina\u00e7\u00e3o pelas pot\u00eancias europeias. Neiva se transporta para Arg\u00e9lia, Angola, Mo\u00e7ambique e outras \u00e1reas conflagradas, de onde n\u00e3o s\u00f3 escreveria a cr\u00f4nica de sua liberta\u00e7\u00e3o como participaria diretamente de suas lutas, ang\u00fastias e gl\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Paralelamente, ele assessora os governos nacionalistas do general Alvarado, no Peru, de Per\u00f3n, na Argentina, regimes que depois seriam varridos pelas ditaduras que sufocariam praticamente toda a Am\u00e9rica Latina.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na volta ao Brasil, com a decreta\u00e7\u00e3o da anistia, Neiva Moreira, que antes travara lutas libert\u00e1rias contra as oligarquias do Maranh\u00e3o, primeiro como jornalista e depois como deputado, fez quest\u00e3o de\u00a0 retornar por S\u00e3o Lu\u00eds, vindo do M\u00e9xico, seu derradeiro ex\u00edlio. L\u00e1, implantou o PDT, partido que Leonel Brizola fundara ao chegar do ex\u00edlio. Depois foi para o Rio de Janeiro, onde refundo os Cadernos do Terceiro Mundo, revista que lan\u00e7ara ainda em sua breve passagem pela Argentina e a continuara no M\u00e9xico.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria dos Cadernos do Terceiro Mundo, primeira publica\u00e7\u00e3o a tratar especificamente da quest\u00e3o dos pa\u00edses emergentes, se confunde com a pr\u00f3pria vida atribulada de Neiva Moreira no ex\u00edlio. Perseguido pelos grupos terroristas de direita que acabaram se apoderando da maioria daquelas na\u00e7\u00f5es, o velho maranhense \u00e0s vezes era ultimado a deixar o pa\u00eds em 24 ou 48 horas, sob pena de ser assassinado, como ocorreu no Uruguai e depois na Argentina. Esta situa\u00e7\u00e3o ins\u00f3lita lhe permitiu, juntamente com o faro de um dos melhores jornalistas brasileiros, penetrar a fundo na quest\u00e3o daqueles povos, fato que o levou a escrever v\u00e1rios livros memor\u00e1veis: O Nasserismo e a Revolu\u00e7\u00e3o do Terceiro Mundo, para o qual entrevistou pessoalmente o presidente eg\u00edpcio e l\u00edder nacionalista, general Gamal Abdel Nasser; Uruguai, Banda Oriental, Fronteiras do Mundo Livre, O Modelo Peruano e O Pil\u00e3o da Madrugada, livros de mem\u00f3ria, em depoimento a Jos\u00e9 Louzeiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neiva Moreira foi presidente nacional do PDT, l\u00edder na C\u00e2mara por duas vezes, presidente da Comiss\u00e3o de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores e por fim tornou-se um dos principais assessores do governador do Maranh\u00e3o, Jackson Lago, liderando do Pal\u00e1cio dos Le\u00f5es a resist\u00eancia \u00e0 cassa\u00e7\u00e3o de Lago, por fim consumada, em 2009, por press\u00f5es da oligarquia maranhense.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Um sequestro de avi\u00e3o para\u00a0tensionar<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neiva Moreira, ex-deputado e um dos maiores rep\u00f3rteres do pa\u00eds, est\u00e1 hoje com 93 anos, desfrutando de merecida aposentadoria, na ilha de S\u00e3o Luis, e ainda ativo politicamente. Como deputado federal pelo Maranh\u00e3o e um dos mais \u00e1rduos defensores de Brizola, Neiva bolou um plano para sequestrar um avi\u00e3o da Varig, na rota Bras\u00edlia-Rio de Janeiro, desviando-o para o Rio Grande do Sul. Era uma maneira de atrair a aten\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e tensionar o ambiente, com vistas \u00e0 Campanha da Legalidade. Nunca antes tinha se falado em sequestro de aeronaves, aqui ou alhures.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Neiva, juntamente com outros parlamentares designam o deputado Ten\u00f3rio Cavalcante, do ent\u00e3o Estado do Rio e conhecido por portar consigo uma submetralhadora, que ele chamava de \u201cLurdinha\u201d, e usar uma capa preta, sob a qual escondia a arma.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>&#8211; Ten\u00f3rio, conta Neiva, devia tomar um Constellation (o avi\u00e3o mais potente da \u00e9poca), em Bras\u00edlia, e desvi\u00e1-lo para Porto Alegre. Levaria como incentivo e respaldo ao general Machado Lopes ( comandante do III Ex\u00e9rcito que aderira \u00e0 rebeli\u00e3o), e um manifesto assinado por mais de 100 deputados, iniciativa da bancada do PTB ga\u00facho.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/radiolegalidade.files.wordpress.com\/2011\/06\/neiva-e-bz1.jpg?w=300&#038;h=222\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"222\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>Neiva e Brizola, em Porto Alegre, em 1960, antes da Legalidade<\/address>\n<p class=\"p1\">O plano fracassou porque o Constellation n\u00e3o tinha teto para esticar at\u00e9 Porto Alegre: \u201cTen\u00f3rio quis convencer o comandante do avi\u00e3o, mas foi por ele convencido: n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para desviar a rota. Por isso foram parar no aeroporto Santos Dumont, no Rio, onde um tenente da Aeron\u00e1utica, de nome Gabriel (conforme informa\u00e7\u00e3o de Esmerino Arruda), apreendeu a \u201cLurdinha\u201d, s\u00f3 devolvida mais tarde, por interven\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p class=\"p1\">O \u201ccomando\u201d n\u00e3o teve alternativa: embarcou para S\u00e3o Paulo e, de l\u00e1, num teco-teco fretado, chegou a Porto Alegre a 1o. de setembro de 1961. A imprensa tratou discretamente a \u201ctentativa de seq\u00fcestro que, por n\u00e3o ter sido consumada, perdeu o impacto desejado.<\/p>\n<p class=\"p1\">O epis\u00f3dio consta de um delicioso cap\u00edtulo do livro \u2013 \u201cO Pil\u00e3o da Madrugada\u201d, que Neiva Moreira escreveu pela Editora Terceiro Mundo, 1988, que trasncrevemos a seguir:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>A Legalidade no Congresso<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">No Congresso, a repercuss\u00e3o da ren\u00fancia de J\u00e2nio Quadros foi intensa. O grupo nacionalista j\u00e1 andava \u00e0s turras com o governo, criticando sua dupla face: progressista para uso externo, monetarista e reacion\u00e1rio, internamente. Nem a estranha condecora\u00e7\u00e3o do Che Guevara acalmou nossas inquieta\u00e7\u00f5es. Essa contradi\u00e7\u00e3o foi muito bem definida pelo mestre Edmundo Moniz. Escreveu ele no Correio da Manh\u00e3, em artigo depois publicado em livro:<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/radiolegalidade.files.wordpress.com\/2011\/06\/constellation-varig.jpg?w=300&#038;h=205\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"205\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A J\u00e2nio Quadros faltou um plano de governo, e, em poucos meses, tumultuou o pa\u00eds perdendo a confian\u00e7a da burguesia, sem inspirar a confian\u00e7a da classe m\u00e9dia e do operariado, em vista das oscila\u00e7\u00f5es e das contradi\u00e7\u00f5es de sua pol\u00edtica interna e de sua pol\u00edtica externa. Submetera-se ao Fundo Monet\u00e1rio Internacional no tocante \u00e0 reforma cambial e, por outro lado, defendia uma posi\u00e7\u00e3o independente na pol\u00edtica exterior, ampliando os entendimentos comerciais com as na\u00e7\u00f5es socialistas.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Como a C\u00e2mara recebeu a not\u00edcia da ren\u00fancia de J\u00e2nio?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem me deu o \u201cfuro\u201d da ren\u00fancia foi o Carlos Castelo Branco, que era seu chefe de imprensa. Ele ia entrando na C\u00e2mara e me disse \u00e0 queima-roupa: \u2013 J\u00e2nio acaba de renunciar. Fiquei frio. O que seria aquilo? Um impulso descontrolado? Teatro? Golpe?<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/radiolegalidade.files.wordpress.com\/2011\/06\/neiva-e-bz2.jpg?w=300&#038;h=207\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"207\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>Neiva, logo abaixo de Brizola, numa reuni\u00e3o tumultuada, em BH<\/address>\n<p class=\"p1\">A carta-ren\u00fancia de J\u00e3nio Quadros era a comunica\u00e7\u00e3o mais sint\u00e9tica que se podia imaginar. Dizia apenas isto:<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>\u201cAo Congresso Nacional, nesta data e por este instrumento, deixando com o ministro da Justi\u00e7a as raz\u00f5es do meu ato, renuncio ao mandato de presidente da Rep\u00fablica. Bras\u00edlia, 25.08.61. J. Quadros.\u201d<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Em instantes, o Congresso ardia e a crise instalou-se. Desenhava-se, naquele momento, um fato ainda mais grave: o golpe contra a posse do Vice-Presidente Jo\u00e3o Goulart, ausente do pa\u00eds, em viagem \u00e0 china. O l\u00edder do PTB, deputado Almino Afonso, denunciou:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cO Partido Trabalhista Brasileiro, fiel \u00e0s suas tradi\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas, n\u00e3o pode aceitar essa ren\u00fancia sen\u00e3o como um golpe, em que o presidente da Rep\u00fablica pretende retornar ao governo \u00e0 maneira de um ditador, disfar\u00e7ada ou n\u00e3o, seja de que forma for.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">J\u00e1 t\u00ednhamos, \u00e0 \u00e9poca, relacionamento com o governador Leonel Brizola. Ele participara de algumas reuni\u00f5es conosco, antes e depois de constituir-se a Frente Parlamentar Nacionalista. Eram evidentes as nossas coincid\u00eancias. Seu governo no Rio Grande do Sul tinha marca popular e nacionalista. A encampa\u00e7\u00e3o das empresas de energia el\u00e9trica e de telefones, subsidi\u00e1rias da Bond and Share e da ITT, projetou Brizola nacionalmente e representou um corajoso e patri\u00f3tico desafio ao capital espoliativo internacional.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quando, em 1961, ele deflagrou a luta no sul pela legalidade, o nosso grupo, acrescido de muitos parlamentares de outras \u00e1reas, entrou na batalha. O ga\u00facho Rui Ramos, militante nacionalista conseq\u00fcente, era l\u00edder da nossa tropa de choque no plen\u00e1rio da C\u00e2mara.<\/p>\n<p class=\"p1\">Esper\u00e1vamos o pior, pois a direita civil e militar estava mobilizada. O ministro da guerra, general Od\u00edlio Denys, foi perempt\u00f3rio com o deputado Rui Ramos: \u201cinformo ao deputado que sou for\u00e7ado a impedir que o Dr. Goulart assuma o poder. Digo-lhe mais, que se ele chegar ao territ\u00f3rio da Rep\u00fablica, serei for\u00e7ado a prend\u00ea-lo imediatamente\u201d.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Esta decis\u00e3o fora logo transmitida pelo presidente da C\u00e2mara, deputado Ranieri Mazilli, investido na presid\u00eancia da Rep\u00fablica, ao presidente do Senado, Auro de Moura Andrade.<\/p>\n<p class=\"p1\">O marechal Lott, militar legalista, foi preso na fortaleza de Laje depois de lan\u00e7ar este manifesto: \u201cAos meus camaradas das for\u00e7as armadas e ao povo brasileiro:<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Tomei conhecimento, nesta data, da decis\u00e3o do senhor ministro da Guerra, marechal Odilio Denys, manifestada ao governador do Rio Grande do Sul, atrav\u00e9s do deputado Rui Ramos, no Pal\u00e1cio do Planalto, em Bras\u00edlia, de n\u00e3o permitir que o atual presidente da Rep\u00fablica, Dr. Jo\u00e3o Goulart, entre no exerc\u00edcio de suas fun\u00e7\u00f5es e, ainda, de det\u00ea-lo no momento em que pise no territ\u00f3rio nacional.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mediante liga\u00e7\u00e3o telef\u00f4nica, tentei demover aquele eminente colega da pr\u00e1tica de semelhante viol\u00eancia, sem obter resultado. embora afastado das atividades militares, mantenho compromisso de honra com a minha classe, com a minha p\u00e1tria e com as suas institui\u00e7\u00f5es democr\u00e1ticas e constitucionais. E, por isso, sinto-me no dever de manifestar o meu rep\u00fadio \u00e0 solu\u00e7\u00e3o anormal e arbitr\u00e1ria que se pretende impor ao pa\u00eds. Dentro desta orienta\u00e7\u00e3o, conclamo todas as for\u00e7as vidas da Na\u00e7\u00e3o, as for\u00e7as de produ\u00e7\u00e3o e do pensamento, dos estudantes e intelectuais, oper\u00e1rios e o povo em geral, para tomar posi\u00e7\u00e3o decisiva e en\u00e9rgica pelo respeito \u00e0 Constitui\u00e7\u00e3o e preserva\u00e7\u00e3o integral do regime democr\u00e1tico brasileiro, certo, ainda, de que os meus nobres camaradas das for\u00e7as armadas saber\u00e3o portar-se \u00e0 altura das tradi\u00e7\u00f5es legalistas que marcam a sua hist\u00f3ria nos destinos da p\u00e1tria. Henrique Lott.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">O que restava fazer era, assim, preparar-nos para o confronto, pois os golpistas pareciam dispostos a tudo. Foram, inclusive, dadas ordens para o bombardeio do Pal\u00e1cio Piratini, sede do governo ga\u00facho e quartel-general da resist\u00eancia ao golpe.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>O general Machado Lopes, comandante do III Ex\u00e9rcito, confirma, no seu livro, a vers\u00e3o da ordem de bombardeio de Porto Alegre, que depois de pretendeu negar:<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cNo dia 27 de agosto, o comandante da Zona A\u00e9rea, brigadeiro Aureliano Passos, comunicava que havia recebido ordem de empregar seus avi\u00f5es em v\u00f4os rasantes sobre o Pal\u00e1cio Piratini, com o objetivo de intimidar o governador Leonel Brizola. Informava-se, outrossim, que n\u00e3o cumpriria a ordem.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">Era evidente que, a qualquer momento poderia registrar-se um \u201cgolpe de m\u00e3o\u201d sobre o Congresso. Nosso grupo come\u00e7ou a trabalhar sobre o projeto da retirada de parte da C\u00e2mara, fiel \u00e0 legalidade, para Goi\u00e2nia. Fui at\u00e9 l\u00e1 com os companheiros Fernando Santana e Jos\u00e9 Joffily para um entendimento com o governador Mauro Borges. Mauro, um firme combatente nacionalista engajado na defesa da posse de Jango, aprovou a id\u00e9ia. Santana e Salvador Lossaco ficaram encarregados de preparar \u201ca migra\u00e7\u00e3o parlamentar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Lossaco previa a retirada atrav\u00e9s do cerrado, mas n\u00e3o gostou quando batizei a marcha de \u201cOpera\u00e7\u00e3o Carrapato\u201d. O bloco conservador, liderado pelo presidente do Senado, Auro de Moura Andrade, buscava todo tipo de f\u00f3rmula conciliat\u00f3ria, uma das quais, a do parlamentarismo, arquitetada por Tancredo Neves, terminou vitoriosa.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Um seq\u00fcestro em defesa da legalidade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\"><strong> <\/strong><span class=\"s1\"><br \/> <\/span>O Rio Grande do Sul transforma-se na trincheira pol\u00edtica da legalidade. E n\u00e3o estava s\u00f3. O povo e a parte mais combativa do parlamento mantinha-se a seu lado. Uma tarde, Brizola comunicou \u00e0 bancada ga\u00facha que era necess\u00e1rio aumentar a press\u00e3o em Bras\u00edlia. A divis\u00e3o do Ex\u00e9rcito enviada ao Sul j\u00e1 se deslocava e o Pal\u00e1cio Piratini continuava sob a amea\u00e7a de bombardeio.<\/p>\n<p class=\"p1\">A luta no plen\u00e1rio era intensa, apaixonada, mas isso n\u00e3o bastava. Bolamos, com outros colegas, um acontecimento de impacto maior: o seq\u00fcestro de um avi\u00e3o. N\u00e3o sei se fomos pioneiros na id\u00e9ia, mas devemos ter andado pr\u00f3ximos disso.<\/p>\n<p class=\"p1\">Decidida a opera\u00e7\u00e3o, considerou-se que o deputado Ten\u00f3rio Cavalcanti seria o homem. Fui encarregado de convid\u00e1-lo e ele recebeu a id\u00e9ia com simpatia, embora apresentasse algumas obje\u00e7\u00f5es. Afinal convenceu-se, depois de um bife bem passado que ele pedira expressamente para sua dieta, no meu apartamento, na Superquadra 107.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Ten\u00f3rio devia tomar um Constellation, em Bras\u00edlia, e desvi\u00e1-lo para Porto Alegre. levaria como incentivo e respaldo ao general Machado Lopes, o manifesto assinado por mais de 100 deputados, iniciativa da bancada do PTB ga\u00facho.<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Tudo OK? Ent\u00e3o n\u00e3o esque\u00e7a a \u201cLurdinha\u201d (sua famosa metralhadora) e a capa preta, disse eu, a Ten\u00f3rio. Entrei em contato com os demais colegas indicados para a miss\u00e3o: o senador ademarista Lino Matos (S\u00e3o Paulo) e os deputados trabalhistas Jos\u00e9 Lopes (Pernambuco) e Esmerino Arruda (Cear\u00e1). Todos aceitaram.<\/p>\n<p class=\"p1\">Jos\u00e9 Lopes era um truculento usineiro, da ala conservadora do PTB. Disse-lhe em tom de brincadeira:<\/p>\n<p class=\"p1\">&#8211; Voc\u00ea, agora, vai dignificar sua condi\u00e7\u00e3o de cangaceiro. Lopes respondeu com um ar de cobran\u00e7a: -\u00c9, voc\u00eas s\u00f3 se lembram de mim para essas coisas. Lino de matos desistiu. Estava com a m\u00e3e doente. Mas Esmerino, que tinha atra\u00e7\u00e3o por aventuras, manteve-se decidido desde o primeiro momento.<\/p>\n<p class=\"p1\">Ten\u00f3rio estabeleceu uma condi\u00e7\u00e3o: que pagassem as passagens Bras\u00edlia\/Rio. Meu filho Antonio Lu\u00eds e Cl\u00f3vis Sena, j\u00e1 instalados no Distrito Federal, compraram os bilhetes e embarcaram o \u201ccomando\u201d. Ten\u00f3rio quis convencer o comandante do avi\u00e3o, mas foi por ele convencido: n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es t\u00e9cnicas para desviar a rota. Por isso foram parar no aeroporto Santos Dumont, no Rio, onde um tenente da Aeron\u00e1utica, de nome Gabriel (conforme informa\u00e7\u00e3o de Esmerino Arruda), apreendeu a \u201cLurdinha\u201d, s\u00f3 devolvida mais tarde, por interven\u00e7\u00e3o superior.<\/p>\n<p class=\"p1\">O \u201ccomando\u201d n\u00e3o teve alternativa: embarcou para S\u00e3o Paulo e, de l\u00e1, num teco-teco fretado, chegou a Porto Alegre a 1o. de setembro de 1961.<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; radiolegalidade.wordpress.com<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><a href=\"http:\/\/www.pdt.org.br\/index.php\/articles\/neiva-moreira\">Leia tamb\u00e9m: Neiva Moreira, por Beatriz Bissio<\/a><\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O ex-presidente nacional do PDT, ex-deputado federal e jornalista Neiva Moreira, 94 anos, um dos grandes nomes do cen\u00e1rio politico do pa\u00eds, morreu nesta madrugada de quinta-feira (10\/05) por vota de 2 h em S\u00e3o Luis (MA). Neiva estava internado no Hospital UDI, ap\u00f3s complica\u00e7\u00f5es respirat\u00f3rias. 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