{"id":1800,"date":"2012-08-01T14:37:47","date_gmt":"2012-08-01T14:37:47","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/01\/ex-presos-politicos-relembram-momentos-de-tortura-durante-ditadura-2\/"},"modified":"2012-08-01T14:37:47","modified_gmt":"2012-08-01T14:37:47","slug":"ex-presos-politicos-relembram-momentos-de-tortura-durante-ditadura-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/01\/ex-presos-politicos-relembram-momentos-de-tortura-durante-ditadura-2\/","title":{"rendered":"Ex-presos pol\u00edticos relembram momentos de tortura durante ditadura"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dando continuidade \u00e0 sequ\u00eancia de reportagens sobre ex-presos pol\u00edticos durante a ditadura militar,\u00a0anistiados compartilharam as\u00a0mem\u00f3rias do per\u00edodo sombrio em que foram torturados<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1775\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/312e6363817b09a09c310335deabde5a.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"308\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><a href=\"http:\/\/diariodonordeste.globo.com\/noticia.asp?codigo=342741&#038;modulo=966\">Assista ao V\u00eddeo <\/a><\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p><a href=\"http:\/\/diariodonordeste.globo.com\/noticia.asp?codigo=342741&#038;modulo=966\"> <\/a><\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fios el\u00e9tricos eram colocados nos dedos dos p\u00e9s e nas partes \u00edntimas. Os presos tinham de se equilibrar sobre latas estreitas, enquanto recebiam os choques, que \u201cfaziam o corpo levitar por um instante\u201d, revelou o ex-preso pol\u00edtico Gil Fernandes de S\u00e1, sobre o tratamento na pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gil foi perseguido, preso e teve tr\u00eas irm\u00e3os diretamente afetados pela ditadura, Gilberto, Epit\u00e1cio e Gl\u00eanio. Este \u00faltimo participou da Guerrilha do Araguaia e deixou as mem\u00f3rias registradas no livro \u201cAraguaia, Relato de um Guerrilheiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gil trabalhava no Banco do Nordeste do Brasil (BNB) e era ligado ao movimento sindical quando teve o nome citado por um colega em interrogat\u00f3rio e acabou sendo preso em janeiro de 1973. Ele foi detido por policiais civis e federais no gabinete do diretor do BNB, o general Murilo Borges, no edif\u00edcio S\u00e3o Luiz, na pra\u00e7a do Ferreira. Ele contou que havia um ve\u00edculo Veraneio de prontid\u00e3o para lev\u00e1-lo ao 23\u00ba Batalh\u00e3o de Ca\u00e7adores (BC). No carro, j\u00e1 estavam outros presos, como Benedito Bizerril e Cl\u00e1udio Pereira.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Casa dos Horrores<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cFui preso em cela solit\u00e1ria, por cerca de um m\u00eas. Durante uma madrugada, fomos levados \u00e0 Casa dos Horrores, onde sofr\u00edamos torturas\u201d.\u00a0 Afirmou. Antes da \u201ctortura propriamente dita\u201d, os prisioneiros eram despidos, acossados por socos, agress\u00f5es morais e \u201ctelefones\u201d, uma das pr\u00e1ticas mais cru\u00e9is dos torturadores. O golpe era aplicado violentamente nas orelhas da v\u00edtima com as m\u00e3os em posi\u00e7\u00e3o c\u00f4ncava. O impacto podia chegar a romper os t\u00edmpanos, dependendo da intensidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Apesar de conhecida internacionalmente e citada no livro \u201cBrasil Nunca Mais\u201d, compila\u00e7\u00e3o de documentos e relatos sobre a ditadura, a Casa dos Horrores ainda n\u00e3o teve seu local exato conhecido, por falta de informa\u00e7\u00f5es concretas, j\u00e1 que os prisioneiros tinham os olhos vendados durante o percurso. Contudo, ind\u00edcios apontam que funcionava pr\u00f3ximo \u00e0 Penitenci\u00e1ria Agr\u00edcola do Amanari, em Maranguape.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O advogado Benedito Bizerril, ap\u00f3s a abertura democr\u00e1tica, foi por tr\u00eas vezes ao suposto local da casa, para colher informa\u00e7\u00f5es. A \u00faltima vez foi em 2011. \u201cTenho a convic\u00e7\u00e3o de que \u00e9 mesmo l\u00e1\u201d, enfatizou. Das poucas oportunidade em que ainda conseguiu ver partes da casa, durante a pris\u00e3o em 1973, ele tem lembran\u00e7a do piso inferior, feito de mosaicos coloridos, do piso superior, de assoalho, e de uma escada curta, que levava ao local das torturas\u201d. Segundo ele, as descri\u00e7\u00f5es correspondem ao local visitado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De acordo com Benedito, o terreno pertencia, na \u00e9poca, a um parente do general Jansen Barroso, comandante da 10\u00aa Regi\u00e3o Militar. As informa\u00e7\u00f5es colhidas ser\u00e3o levadas \u00e0 Comiss\u00e3o da Verdade, segundo Bizerril.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Gil Fernandes de S\u00e1 tamb\u00e9m estava sempre encapuzado quando frequentava a Casa, mas o pouco que consegue identificar da resid\u00eancia sombria eram sons de vacas e porcos, no entorno. Segundo ele, o percurso at\u00e9 a Casa durava uma hora. Nesse meio-tempo, os prisioneiros eram pisoteados, sufocados com panos e levavam coronhadas de rev\u00f3lver nos test\u00edculos. \u201cJ\u00e1 cheg\u00e1vamos l\u00e1 com as condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas em frangalhos\u201d, afirmou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>O fim de uma carreira<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-1776\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/08\/2132c2fa84b05c9f4b608a2c4ffc9eb6.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"278\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo depois de liberto, Gil disse ter enfrentado persegui\u00e7\u00f5es no trabalho e ter sido compelido a se demitir do BNB, onde foi readmitido apenas em 1986. Ele \u00e9 aposentado desde 1996 e mora com a esposa e filhos num apartamento no bairro Dion\u00edsio Torres, onde nos recebeu para a entrevista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na foto, v\u00edtimas da ditadura no Cear\u00e1. Cr\u00e9dito: Comiss\u00e3o de Anistia Wanda Sidou<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As sequelas ainda s\u00e3o latentes. Gil disse ter passado longos anos sem falar sobre o assunto. Al\u00e9m de ter pesadelos, ele ainda disse ter pequenos lapsos de mem\u00f3ria. \u201cTalvez isso ocorra, porque exercitei muito a habilidade de esquecer propositalmente muitas coisas naquela \u00e9poca\u201d, confidenciou. Apesar de reconhecer a import\u00e2ncia de debater o assunto amplamente, ele disse ter sentido ansiedade com a ideia de dar entrevista. \u201cA gente acaba revivendo o passado\u201d, revelou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Torturas f\u00edsicas e psicol\u00f3gicas<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O professor Paulo Em\u00edlio de Andrade Aguiar foi preso nos anos de 1971 e 1972, no Cear\u00e1 e em S\u00e3o Paulo, sob diversas acusa\u00e7\u00f5es, como dire\u00e7\u00e3o de movimento estudantil e distribui\u00e7\u00e3o de material subversivo. Ele contou que companheiros eram levados \u00e0s pris\u00f5es com bra\u00e7os quebrados e unhas arrebatadas. \u201cAs pessoas chorava, urravam. Era comum, eu ouvir not\u00edcias de pessoas que iam para o interrogat\u00f3rios e n\u00e3o voltavam. Os corpos assassinados eram desovados no local\u201d, revelou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cCheguei a passar v\u00e1rios dias em celas escuras, despido, sem saber se era dia ou noite. Fizeram milhares de perguntas, para revelar movimentos em partidos pol\u00edticos e movimentos &#8216;revolucion\u00e1rios&#8217;. Houve tamb\u00e9m tortura psicol\u00f3gica. Eu s\u00f3 sa\u00eda da sala com os bra\u00e7os algemados, venda nos olhos e capuz e no interrogat\u00f3rio\u201d, relembrou. Ele disse que escutava v\u00e1rias vozes durante o interrogat\u00f3rio. Todos se chamavam por patentes, como coron\u00e9is e capit\u00e3es. Nunca eram usados nomes verdadeiros, apenas apelidos. Paulo Em\u00edlio disse n\u00e3o saber exatamente para onde foi levado, mas julgava ser pr\u00f3ximo do aeroporto, porque ouvia muito barulho de avi\u00f5es e grande movimento de carros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em S\u00e3o Paulo, foi preso pelo Esquadr\u00e3o da Morte. \u201cL\u00e1, fui torturado por quase tr\u00eas meses. Eram espancamentos, asfixiamentos, &#8216;pau-de-arara&#8217; e at\u00e9 colocaram o dedo na minha goela, para que eu revelasse pontos de esconderijo\u201d, afirmou. \u201cEra uma se\u00e7\u00e3o de maus-tratos coletiva. Uns ficavam assistindo aos outros serem torturados\u201d revelou. Ele foi transferido para o pres\u00eddio Tiradentes e, depois, para o Carandiru, onde passou cerca de seis meses detido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Perguntado como conseguiu for\u00e7as para resistir \u00e0 tortura, Paulo Em\u00edlio disse que seguiu os conselhos dos companheiros de cela: \u201cSe perceberem sua fragilidade, voc\u00ea n\u00e3o ter\u00e1 apenas produzido motivos para eles o condenarem como tamb\u00e9m condenar\u00e1 os outros companheiros\u201d afirmou. Para conseguir se livrar ele disse que \u201cdava respostas malucas\u201d e, assim, acabava sendo absolvido por falta de provas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Ex\u00edlio na Fran\u00e7a<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em um momento que ele e a fam\u00edlia n\u00e3o conseguiram mais aguentar as persegui\u00e7\u00f5es, Paulo decidiu pelo ex\u00edlio volunt\u00e1rio. Ele, a mulher e a filha de 3 anos foram para Lyon, na Fran\u00e7a, em 1980, onde ficaram at\u00e9 1983. Na \u00e9poca, ele escreveu o livro &#8220;Estado, Classe e ideologia &#8211; dos b\u00e1rbaros \u00e0s origens do feudalismo&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mesmo depois do in\u00edcio da abertura democr\u00e1tica, o ex-preso pol\u00edtico disse que ainda era observado. \u201cA Ag\u00eancia Brasileira de Intelig\u00eancia (Abin) tinha informa\u00e7\u00f5es sobre a minha vida at\u00e9 o ano de 1985\u201d, disse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e9rie<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Durante a semana, o Di\u00e1rio do Nordeste Online, traz reportagens especiais sobre v\u00edtimas da ditadura no Cear\u00e1.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Di\u00e1rio do Nordeste<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Dando continuidade \u00e0 sequ\u00eancia de reportagens sobre ex-presos pol\u00edticos durante a ditadura militar,\u00a0anistiados compartilharam as\u00a0mem\u00f3rias do per\u00edodo sombrio em que foram torturados Assista ao V\u00eddeo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1800"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1800"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1800\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1800"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1800"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1800"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}