{"id":1867,"date":"2012-08-07T21:47:36","date_gmt":"2012-08-07T21:47:36","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/07\/a-memoria-de-um-silencio\/"},"modified":"2016-02-07T23:04:08","modified_gmt":"2016-02-07T23:04:08","slug":"a-memoria-de-um-silencio","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/07\/a-memoria-de-um-silencio\/","title":{"rendered":"A mem\u00f3ria de um sil\u00eancio"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Ao longo dos \u00faltimos meses apareceram novos livros que tratam de diferentes aspectos da repress\u00e3o nos anos do regime militar. Pode-se ter a impress\u00e3o de que a quest\u00e3o do resgate da mem\u00f3ria ganha espa\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o editorial brasileira. Agora mesmo chama a aten\u00e7\u00e3o o lan\u00e7amento dos livros do rep\u00f3rter Leonencio Nossa, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/511039-mata-revela-que-a-ditadura-militar-executou-41-guerrilheiros-no-araguaia\">&#8220;Mata! O Major Curi\u00f3 e as Guerrilhas no Araguaia&#8221;<\/a>, e &#8220;<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/509110-ex-delegadodizquemilitantesforamincinerados\">Mem\u00f3rias de Uma Guerra Suja<\/a>&#8220;, que re\u00fane entre os autores dois jornalistas, Marcelo Netto e Rog\u00e9rio Medeiros, e um antigo agente da repress\u00e3o em seu per\u00edodo mais duro, Claudio Guerra.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas a verdade \u00e9 que, passadas v\u00e1rias d\u00e9cadas do fim do regime militar e da censura, o Brasil dedicou espa\u00e7o apenas relativo ao resgate da mem\u00f3ria de seus tempos de breu. Uma compara\u00e7\u00e3o superficial com vizinhos que tamb\u00e9m padeceram as agruras de regimes militares fortalece essa sensa\u00e7\u00e3o de escassez. Pode-se dizer, e com raz\u00e3o, que o Brasil n\u00e3o enfrentou nada parecido ao que aconteceu na Argentina, com seus 30 mil mortos e desaparecidos, com seu roubo sistem\u00e1tico de beb\u00eas nascidos em cativeiros clandestinos, com seus &#8220;voos da morte&#8221;, quando prisioneiros eram jogados vivos de avi\u00f5es no mar. Em compensa\u00e7\u00e3o, o Brasil viveu debaixo de ditadura longos 21 anos. At\u00e9 mesmo o Uruguai, um pa\u00eds cuja popula\u00e7\u00e3o inteira cabe v\u00e1rias vezes em cidades como S\u00e3o Paulo ou Rio, produziu, proporcionalmente, mais livros tratando do passado que o Brasil. \u00c9 como se o tema da mem\u00f3ria, da busca do acontecido, estivesse fora da esfera de interesse tanto de leitores como de autores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s um primeiro momento, ainda nos anos 1980, com a sequ\u00eancia de livros de Ren\u00e9 Dreifuss, Fernando Gabeira,<a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/noticias\/510120-pre-sal-pode-ser-bencao-mas-tambem-e-maldicao\"> Alfredo Sirkis<\/a>, <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/cadernos-ihu\/58287-o-escravismo-colonial-a-revolucao-copernicana-de-jacob-gorender-a-genese-o-reconhecimento-a-deslegitimacao\">Jacob Gorender <\/a>e um punhado mais, conta-se nos dedos o que veio depois. Em sua maioria s\u00e3o livros jornal\u00edsticos, uns com mais, outros com menos rigor em sua investiga\u00e7\u00e3o e pesquisa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas, a n\u00e3o ser por escassas exce\u00e7\u00f5es, e de imediato recordo tr\u00eas livros &#8211; &#8220;Mem\u00f3rias do Esquecimento&#8221;, de <a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/46095-campanha-da-legalidade-50-anos-o-depoimento-de-um-jornalista-entrevista-especial-com-flavio-tavares\">Fl\u00e1vio Tavares<\/a>, e &#8220;Uma Tempestade como a Sua Mem\u00f3ria&#8221;, de Martha Vianna, ambos editados pela Record, e o demolidor &#8220;K.&#8221;, de <a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/14\/dissertacoes-e-teses-sobre-a-ditadura-militar-3\/\">Bernardo Kucinsky<\/a>, da Express\u00e3o Popular -, se houve bons trabalhos jornal\u00edsticos ficaram faltando textos de qualidade liter\u00e1ria.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tome-se, uma vez mais, a produ\u00e7\u00e3o uruguaia, chilena ou argentina sobre seus respectivos anos de chumbo, e h\u00e1 textos esplendorosos. No Brasil, fora os mencionados e pouqu\u00edssimos outros, os autores ficaram devendo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse cen\u00e1rio de escassez que aparece o belo &#8220;Antes do Passado&#8221;, de Liniane Haag Brum, lan\u00e7ado pela pequena Arquip\u00e9lago Editorial. O livro conta a busca ingl\u00f3ria de um fim inalcan\u00e7\u00e1vel: reconstruir a figura de seu tio e padrinho, Cilon Cunha Brum, um dos que foram desaparecidos, ou seja, assassinados, durante a campanha das For\u00e7as Armadas contra os que participaram da guerrilha que o Partido Comunista do Brasil tentou implantar na regi\u00e3o do Araguaia, no come\u00e7o dos anos 1970.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Logo na abertura do livro surge o tom de busca, uma busca v\u00e3, que vai percorrer todas as suas p\u00e1ginas: &#8220;Tio Cilon me acompanhou sempre. Pena que quando eu nasci ele desapareceu&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Liniane conseguiu, em 260 p\u00e1ginas, erguer uma estrutura fragmentada, de equil\u00edbrio t\u00e3o ousado e incerto como a sua procura do tio que nunca conheceu, e armar um texto de pungente singeleza. Velhos recursos de estilo que s\u00e3o de um risco enorme &#8211; cartas ficcionais a um determinado personagem, no caso sua av\u00f3 paterna morta anos antes &#8211; s\u00e3o conduzidos com uma habilidade surpreendente, ainda mais por se tratar de uma estreante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O livro narra uma busca, a de um guerrilheiro que foi assassinado estando preso. Se a morte \u00e9 sabida, se at\u00e9 a data da morte \u00e9 sabida, qual \u00e9 a busca? A verdade. Liniane quer saber onde foi enterrado, onde est\u00e3o os restos de seus restos. Quer saber quem matou. Quem mandou matar, j\u00e1 se sabe: o mesmo major Curi\u00f3 que vive ao abrigo da impunidade assegurada pela <a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2014\/03\/20\/assembleia-devolvera-mandatos-a-13-deputados-cassados-na-ditadura\/\">Lei de Anistia<\/a><a href=\"http:\/\/www.ihu.unisinos.br\/entrevistas\/509842-comissao-da-verdade-alguem-tem-de-carregar-o-piano-entrevista-especial-com-jair-krischke\"> <\/a>imposta no crep\u00fasculo do regime militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A autora quer saber isso e muito mais, e \u00e9 desse mais que nasce a for\u00e7a do livro. Ela quer reconstruir a imagem di\u00e1fana do irm\u00e3o de seu pai. Recuperar o som da voz, os gestos e jeitos, as palavras. Recuperar o que ela nunca viu, encontrar o homem que nunca conheceu.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ao longo da narrativa, Liniane faz exatamente isso: narrar o pouco que conseguiu colher. N\u00e3o interfere, n\u00e3o julga, n\u00e3o determina: apenas narra. E assim fala de um vazio que n\u00e3o est\u00e1 apenas na sua mem\u00f3ria, mas na mem\u00f3ria de um tempo, de um pa\u00eds. Ela reconstr\u00f3i a vida do tio at\u00e9 o dia em que ele abandona tudo e vai se juntar \u00e0 guerrilha no Araguaia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A partir da\u00ed, o que restou dele s\u00e3o fiapos de lembran\u00e7as esparsas, r\u00e9stias de uma claridade t\u00eanue que n\u00e3o permite avistar mais que vultos difusos. Com uma estrutura refinada, de uma simplicidade impactante, como se fosse uma narrativa de fic\u00e7\u00e3o, o livro conta verdades dolorosas e a hist\u00f3ria de uma derrota, a da autora: depois de tudo, n\u00e3o \u00e9 muito o que ela tem para revelar \u00e0 av\u00f3 morta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O personagem do livro existiu. Foi fuzilado na mata, na \u00e9poca do Natal de 1973. No pequeno cemit\u00e9rio de S\u00e3o Sep\u00e9, cidadezinha do interior do Rio Grande do Sul, h\u00e1 uma tumba vazia. Na tumba, uma placa: &#8220;Esta sepultura aguarda o corpo de Cilon Cunha Brum&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Depois de fuzilado, Cilon foi abandonado na intemp\u00e9rie. Numa das cartas fict\u00edcias escritas para a av\u00f3, Liniane conta: &#8220;O seu filho Cilon n\u00e3o foi enterrado. Foi semeado. Deixado em cima da terra como gr\u00e3o que um dia vai germinar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Que pelo menos a mem\u00f3ria desses tempos de breu germine, para que ele, o breu, nunca mais torne a acontecer.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Valor<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ao longo dos \u00faltimos meses apareceram novos livros que tratam de diferentes aspectos da repress\u00e3o nos anos do regime militar. Pode-se ter a impress\u00e3o de que a quest\u00e3o do resgate da mem\u00f3ria ganha espa\u00e7o na produ\u00e7\u00e3o editorial brasileira. Agora mesmo chama a aten\u00e7\u00e3o o lan\u00e7amento dos livros do rep\u00f3rter Leonencio Nossa, &#8220;Mata! 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