{"id":1947,"date":"2012-08-04T00:36:11","date_gmt":"2012-08-04T00:36:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/04\/a-arqueologia-da-repressao-no-contexto-das-ditaduras-militares-da-argentinauruguai-e-brasil-2\/"},"modified":"2012-08-04T00:36:11","modified_gmt":"2012-08-04T00:36:11","slug":"a-arqueologia-da-repressao-no-contexto-das-ditaduras-militares-da-argentinauruguai-e-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/08\/04\/a-arqueologia-da-repressao-no-contexto-das-ditaduras-militares-da-argentinauruguai-e-brasil-2\/","title":{"rendered":"A ARQUEOLOGIA DA REPRESS\u00c3O NO CONTEXTO DAS DITADURAS MILITARES DA ARGENTINA,URUGUAI E BRASIL"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">AUTOR\u00a0Giullia Caldas dos Anjos<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">RESUMO\u00a0ABSTRACT<\/p>\n<p class=\"p4\" style=\"text-align: justify;\" \/>INTRODU\u00c7\u00c3O  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">1 BENJAMIN (1991, apud FERREIRA, 2008, p. 42)<\/p>\n<p class=\"p6\" style=\"text-align: justify;\">Graduanda do Curso de Bacharelado em Hist\u00f3ria pela UFPel. Bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica FAPERGS.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Este artigo prop\u00f5e-se a analisar a chamada \u201carqueologia da repress\u00e3o\u201d no Uruguai, na Argentina e no Brasil, a partir de obra de alguns autores que elegeram esse tema enquanto objeto de estudo, como, por exemplo, a de Pedro Paulo Abreu Funari, Andr\u00e9s Zarankin e Jos\u00e9 Alberioni dos Reis, \u201cArqueologia da repress\u00e3o e da resist\u00eancia: Am\u00e9rica Latina na era das ditaduras (d\u00e9cadas de 1960-1980)\u201d. Este artigo estrutura-se em quatro partes, abrangendo delimita\u00e7\u00e3o conceitual; breve hist\u00f3rico a respeito do per\u00edodo ditatorial nos tr\u00eas pa\u00edses tratados; como \u00e9 trabalhada a arqueologia da repress\u00e3o nos pa\u00edses em quest\u00e3o; e, por fim tra\u00e7arei um paralelo entre a forma pela qual \u00e9 visto este tipo de arqueologia em cada pa\u00eds, de que forma o seu estudo afeta as sociedades e qual \u00e9 a import\u00e2ncia que assumem tais evid\u00eancias para estes pa\u00edses, que s\u00f3 muito recentemente, retomaram o estado de direito.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Palavras-chave: Arqueologia da Repress\u00e3o; Ditadura; Resist\u00eancia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">This paper proposes to examine the so-called \u201carchaeology of repression\u201d in Uruguay, Argentina and Brazil, from the work of some authors who chose this subject as an object of study, such as Pedro Paulo Abreu Funari, Andr\u00e9s Zarankin and Jos\u00e9 Alberioni dos Reis, \u201cArchaeology of Repression and Resistance: Latin America in the era of dictatorships (decades of 1960 -1980)\u201d . This article is divided into four parts, covering conceptual delimitation; brief history about the dictatorial period treated in the three countries, how the archaeology of repression is crafted in the countries concerned, and finally, I\u2019ll draw a parallel between the way it is seen this kind of archaeology in each country, how this study affects societies and which is the importance of such evidence for these countries, which have very recently taken over the rule of law.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Keywords: Archaeology of Repression; Dictatorship; Resistance.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Sabe-se que a hist\u00f3ria \u00e9 escrita pelos vencedores e para os vencedores, e esses acreditam que sua hist\u00f3ria \u00e9 \u201ca hist\u00f3ria\u201d. Por\u00e9m, os vencidos \u2013 ou as minorias \u2013 buscam, de certa forma, \u201creconstruir o destru\u00eddo a partir dos escombros acumulados pela marcha triunfal dos vencedores\u201d1 . Essa Hist\u00f3ria, dita tradicional, mostra-se invariavelmente parcial devido ao fato de ater-se \u00e0s fontes geradas pelos que det\u00eam o poder. Dessa forma, s\u00e3o relegados ao<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">79 <\/span><span class=\"s2\">Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/span>2 A hist\u00f3ria latino-americana \u00e9 pr\u00f3diga do ponto de vista da exist\u00eancia de regimes ditatoriais. Todavia, a abordagem que aqui iremos desenvolver centra- se fundamentalmente no caso das ditaduras militares que se estenderam durante as d\u00e9cadas de 1960 a 1980 no Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">3 A esse respeito, recentemente foi publicado um artigo referente a Guerra do Araguaia (PEIXOTO, 2011)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">anonimato todos aqueles grupos considerados desimportantes, como \u00e9 o caso das minorias \u00e9tnicas ou raciais e as classes oprimidas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Coincidimos com Foucault (1997) quando este afirma que a hist\u00f3ria n\u00e3o deve ser estudada de maneira cont\u00ednua, posto que esta deve ser considerada em sua descontinuidade. Destarte, o historiador n\u00e3o almeja a totalidade, pois ela n\u00e3o pode de fato ser alcan\u00e7ada. O que importa \u00e9 o acontecimento em sua dispers\u00e3o temporal e como ele responde a um conjunto de pr\u00e1ticas discursivas de uma \u00e9poca, produzindo efeitos de verdades que adv\u00eam de rela\u00e7\u00f5es de for\u00e7a do campo do saber-poder.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 nesse sentido que ganham relevo outros campos do conhecimento que partem desse compromisso de busca de abordagens e de outras perspectivas para al\u00e9m das narrativas oficiais. Uma quest\u00e3o \u00e9 crucial para delimitar o campo da reflex\u00e3o que nos propomos desenvolver nesse artigo, a qual pode ser formulada nos seguintes termos: de que forma a arqueologia, enquanto campo do conhecimento e espa\u00e7o de atua\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-profissional pode auxiliar as minorias \u00e9tnicas e grupos subalternos no sentido de fazer com que a sua hist\u00f3ria seja reescrita? Segundo Matthew Johnson: \u201cs\u00f3lo la arqueolog\u00eda aborda la profundidad temporal necesaria para generar generalizaciones interculturales acerca de los procesos culturales de largo alcance\u201d (2000, p. 18). Al\u00e9m disso, o mesmo autor afirma que a Arqueologia \u00e9 um instrumento da revolu\u00e7\u00e3o cultural e que, assim, poderia ajudar a emancipar as pessoas das ideologias repressivas (JOHNSON, 2000, p. 18). Por fim, basta dizer que uma escava\u00e7\u00e3o nunca \u00e9 neutra, tendo em vista que os artefatos n\u00e3o podem simplesmente fazer nenhum relato, mas devem ser interpretados, fato que coloca a Arqueologia em quest\u00e3o. A Arqueologia pode dar conta dessa materialidade do passado e critic\u00e1-la. Por fim, afirma Johnson, \u201caunque no hace falta a\u00f1adir que nunca podremos ser completamente expl\u00edcitos acerca de nuestros prejuicios y nuestros apriorismos, no por ello no debemos internarlo\u201d. E assim, atrav\u00e9s do uso da arqueologia da repress\u00e3o, \u00e9 poss\u00edvel interpretar, criticar e reconstruir a hist\u00f3ria desses grupos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A arqueologia da repress\u00e3o pode ent\u00e3o ser definida como uma busca dessas hist\u00f3rias ditas como n\u00e3o-oficiais, particularmente as que resultam do sofrimento de pessoas que experimentaram a opress\u00e3o e a tortura nas m\u00e3os de seus algozes em meio ao per\u00edodo marcado pelos regimes ditatoriais, durante as d\u00e9cadas de 1960 a 1980, nos pa\u00edses que hoje integram o chamado Mercado Comum do Cone Sul2 . Dessa forma, \u00e9 poss\u00edvel procurar tanto locais de tortura ou campos de concentra\u00e7\u00e3o, como tamb\u00e9m encontrar os restos de pessoas desaparecidas, dentre outros diversos elementos. A busca dessas evid\u00eancias remete o p\u00fablico interessado (organiza\u00e7\u00f5es da sociedade civil, familiares dos desaparecidos, movimentos sociais, etc.) a desvendar as circunst\u00e2ncias relativas ao ato da tortura e desaparecimento das pessoas3.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em \u00faltima an\u00e1lise, sup\u00f5e a possibilidade de retomar as formas pelas quais foi engendrado todo um complexo sistema de repress\u00e3o montado pelas ditaduras militares latino-americanas, as quais, como hoje sabemos, estiveram irmanadas em torno da conhecida \u201cOpera\u00e7\u00e3o Condor\u201d, de que falarei posteriormente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">80 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">BREvE hIST\u00f3RICO SOBRE AS DITADURAS NA ARGENTINA, URUGUAI E BRASIL<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">4 <\/span>Segundo Chagas (2006, p.92), A estrat\u00e9gia foquista consistia no deslocamento de um pequeno grupo de guerrilheiros para uma regi\u00e3o in\u00f3spita \u00e0s tropas regulares, onde se iniciaria um processo de ambienta\u00e7\u00e3o e treinamento. Em seguida, o pequeno destacamento realizaria a\u00e7\u00f5es militares junto aos camponeses com dois objetivos: mostrar o car\u00e1ter justo de sua luta e recrutar guerrilheiros entre as popula\u00e7\u00f5es locais.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">As origens das ditaduras latino-americanas no per\u00edodo referido anteriormente encontram-se ineludivelmente ligadas aos efeitos da chamada \u201cguerra fria\u201d, no qual o mundo se apresentava dividido entre o bloco de pa\u00edses comunistas, integrados ao Pacto de Vars\u00f3via, e as na\u00e7\u00f5es capitalistas, signat\u00e1rias do Tratado Atl\u00e2ntico Norte. Ap\u00f3s a derrota norte-americana em Cuba e o epis\u00f3dio dos m\u00edsseis sovi\u00e9ticos, recrudesceu o medo dos EUA de \u201cesquerdiza\u00e7\u00e3o\u201d do continente. Os graves problemas sociais demandavam a implanta\u00e7\u00e3o urgente de reformas de base \u2013 sobretudo a agr\u00e1ria \u2013 em meio a um cen\u00e1rio de efervesc\u00eancia pol\u00edtica que se viu refor\u00e7ado com a vinda de Che Guevara para o continente (1966), em sua frustrada tentativa de implantar o foquismo<span class=\"s4\">4<span> <\/span><\/span>e a guerrilha rural na Bol\u00edvia. \u00c9 desse modo que deve ser compreendida a estrat\u00e9gia norte-americana de apoiar pol\u00edtica e logisticamente a ascens\u00e3o de regimes militares, estendendo sua \u00e1rea de influ\u00eancia sobre estes pa\u00edses, comandados agora por ditaduras.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, o per\u00edodo da ditadura (1966 &#8211; 1983) iniciou-se a partir do movimento \u201cRevolu\u00e7\u00e3o Argentina\u201d, liderado pelo General Videla, e se constituiu atrav\u00e9s do golpe de Estado que derrubou o presidente Arturo Illia, no dia 28 de junho de 1966. Cabe ressaltar que todo este contexto \u00e9, na verdade, fruto de um processo que se inicia, na verdade, anteriormente, em 1955, momento em que cai o governo do general Juan Domingos Per\u00f3n. Desde ent\u00e3o \u201cvinha ocorrendo um amplo e crescente processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o do poder militar como ator pol\u00edtico\u201d (PRIORI, 2006).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em 1966, a Junta Revolucion\u00e1ria, com os comandantes das tr\u00eas for\u00e7as armadas, Tenente General Pascual A. Pistarini (Ex\u00e9rcito), Almirante Benigno I. Varela (Opera\u00e7\u00f5es navais) e o Brigadeiro Major Teodoro \u00c1lvarez (For\u00e7a a\u00e9rea), toma o poder sob a prerrogativa de que<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">las fuerzas armadas, en cumplimiento de su misi\u00f3n de salvaguardar los m\u00e1s altos intereses de la Naci\u00f3n, deben optar, de inmediato, las medidas conducentes a terminar con este estado de cosas y encauzar definitivamente al pa\u00eds hacia la obtenci\u00f3n de sus grandes objetivos nacionales. (CISNEROS, ESCUD\u00c9, 2000)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dessa forma, se resolve constituir a Junta Revolucion\u00e1ria, destituir dos cargos o presidente e vice-presidente da Rep\u00fablica, e aos governadores e vice-governadores. Al\u00e9m disso, define-se a dissolu\u00e7\u00e3o do Congresso Nacional, assim como as legislaturas provinciais. Outra medida importante \u00e9 a dissolu\u00e7\u00e3o de todos os partidos pol\u00edticos do pa\u00eds (CISNEROS, ESCUD\u00c9, 2000). \u00c9 na \u201cActa de la Revoluci\u00f3n Argentina\u201d, que fica definido que quem exercer\u00e1 o cargo de presidente da Rep\u00fablica ser\u00e1 o Tenente General Juan Carlos Ongan\u00eda.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Segundo Priori (2006), teria havido uma pequena pausa nessa ascens\u00e3o do militarismo argentino no momento em que Per\u00f3n e Isabelita Per\u00f3n sucedem o governo de H\u00e9ctor C\u00e1mpora, entre 25 de maio de 1973 e 24 de mar\u00e7o de 1976. Juan Per\u00f3n, que assumiu o governo atrav\u00e9s de elei\u00e7\u00f5es livres que emergem ap\u00f3s a ren\u00fancia de C\u00e1mpora, morre ap\u00f3s um ano, sucedendo- lhe a ent\u00e3o vice-presidente Maria Estela Mart\u00ednez de Per\u00f3n (Isabelita). Seu<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">81<span> <\/span><\/span>governo, segundo Priori, teria sido marcado pela forte disputa entre as for\u00e7as <span class=\"s2\">Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/span><\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">5 <\/span>Segundo a Constitui\u00e7\u00e3o: \u201cTomar medidas prontas de seguridad en los casos graves e imprevistos de ataque exterior o conmoci\u00f3n interior, dando cuenta, dentro de las veinticuatro horas a la Asamblea General, en reuni\u00f3n de ambas C\u00e1maras o, en su caso, a la Comisi\u00f3n Permanente, de lo ejecutado y sus motivos, est\u00e1ndose a lo que \u00e9stas \u00faltimas resuelvan\u201d. (Constituci\u00f3n de la Rep\u00fablica del Uruguay, Cap\u00edtulo III, Art\u00edculo 168, \u00a7 17)<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">6 <\/span>Foi um acordo realizado no dia 12 de fevereiro de 1972, onde Bordaberry aceita todas as exig\u00eancias dos militares e a partir do qual se dava \u201ca inser\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas no sistema pol\u00edtico \u2013 mediante a co- participa\u00e7\u00e3o militar na condu\u00e7\u00e3o do Estado\u201d (PADR\u00d3S, 2005, p. 360). Como resultado, nasce o COSENA (Conselho de Seguran\u00e7a Nacional).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">de esquerda e de direita. Por\u00e9m, o auge da ditadura na Argentina se d\u00e1 num segundo momento,<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">ap\u00f3s a queda de Izabelita Per\u00f3n, no golpe militar no dia 24 de mar\u00e7o de 1976. \u00c9 nesse momento que uma nova Junta Militar, desta vez composta pelo general Jorge Videla, almirante Em\u00edlio Massera e o brigadeiro Orlando Agosti, instalam a ditadura permanente, conhecida pelo nome \u201cProcesso de Reorganiza\u00e7\u00e3o Nacional\u201d, sendo \u201ca mais violenta e transformadora da hist\u00f3ria argentina\u201d (SAIN, 2000 apud PRIORI, 2006).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A partir de ent\u00e3o, percebe-se o endurecimento do regime, no que diz respeito \u00e0 pr\u00e1tica da tortura e da repress\u00e3o pelo Estado autorit\u00e1rio. E foi apenas com a derrota na Guerra das Malvinas, que a Junta Militar se enfraqueceu e que se deu o retorno \u00e0 democracia, com a elei\u00e7\u00e3o na qual Ra\u00fal Alfons\u00edn assumiu o governo em dezembro de 1983, pondo fim a este per\u00edodo sangrento da recente hist\u00f3ria argentina.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 no Uruguai, o per\u00edodo da ditadura est\u00e1 compreendido entre o in\u00edcio dos anos 1970 e o come\u00e7o dos anos 1980. Para entender o processo \u00e9 necess\u00e1rio conhecer os antecedentes do golpe de Estado de 1973 no Uruguai. Dessa forma, vale lembrar a presid\u00eancia de Jorge Pacheco Areco, de 1967, que se inicia ap\u00f3s a morte do ent\u00e3o presidente, general \u00d3scar Diego Gestido, at\u00e9 mar\u00e7o de 1972, quando finalmente lhe sucede Juan Mar\u00eda Bordaberry.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O governo de Pacheco fez uso das chamadas \u201cmedidas prontas de seguran\u00e7a\u201d<span class=\"s4\">5<span> <\/span><\/span>para poder reprimir toda e qualquer agita\u00e7\u00e3o popular, como tamb\u00e9m a guerrilha do Movimento de Libera\u00e7\u00e3o Nacional-Tupamaros. Foi durante seu governo que se censuraram meios de comunica\u00e7\u00e3o como a imprensa escrita, al\u00e9m da proibi\u00e7\u00e3o da atua\u00e7\u00e3o de qualquer partido de esquerda como o Partido Socialista Uruguaio. Como a Constitui\u00e7\u00e3o de 1967 n\u00e3o permitia a reelei\u00e7\u00e3o imediata, a Uni\u00e3o Nacional Reelecionista uruguaia organizou, em 1971, um plebiscito para tentar reeleger Pacheco.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Por\u00e9m, com medo de que essa medida n\u00e3o obtivesse sucesso, decidem indicar um substituto (Bordaberry) de acordo com o regime vigente. Como o plano de reeleger Pacheco n\u00e3o deu certo, Bordaberry acabou sendo eleito presidente do Uruguai. Durante seu governo, para manter-se no poder, aliou- se com os setores mais conservadores, tanto no \u00e2mbito militar quanto civil, sendo que dessa forma era vis\u00edvel que o posicionamento dos militares no governo continuava a aumentar.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em fevereiro de 1972, houve um conflito entre os militares do Ex\u00e9rcito e da For\u00e7a A\u00e9rea e o ent\u00e3o presidente Juan Mar\u00eda Bordaberry, pois este n\u00e3o havia concordado com a nomea\u00e7\u00e3o feita pelos militares no sentido de colocar Antonio Francese como Ministro de Defesa. Por\u00e9m, acaba cedendo e aceita a nomea\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s do Acordo de Boiso Lanza<span class=\"s4\">6<\/span>. Dessa forma, abre-se aos militares um amplo leque de possibilidades de exercer o poder. Esse processo, na opini\u00e3o de Padr\u00f3s (2005, p. 360), consiste no fato de que \u201cformalmente, governavam os civis, entretanto, de fato, os militares se haviam aquinhoado de boa parte do poder\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Foi ent\u00e3o, a partir de 1973, que as for\u00e7as militares passaram a exercer controle pol\u00edtico pleno sobre a popula\u00e7\u00e3o. No dia 27 de junho de 1973, Bordaberry e as For\u00e7as Armadas fecham o Senado e a C\u00e2mara dos Deputados. Em junho de 1976, Bordaberry encaminha propostas de renova\u00e7\u00e3o da ordem constitucional, dentre as quais, destaca-se a elimina\u00e7\u00e3o dos partidos pol\u00edticos,<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">a supress\u00e3o da Constitui\u00e7\u00e3o anterior e elabora\u00e7\u00e3o de uma nova carta<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">82 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">7 <\/span>JUNTA DE COMANDANTES EM JEFE. Las Fuerzas Armadas al Pueblo Oriental. T II. El Proceso Pol\u00edtico. (1978 apud PADR\u00d3S, 2005, p.. 391)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">magna. As For\u00e7as Armadas n\u00e3o aceitam esse encaminhamento, e tampouco concordam com a ideia de Bordaberry no que diz respeito \u00e0 participa\u00e7\u00e3o das For\u00e7as Armadas na pol\u00edtica uruguaia futura. Mas se Bordaberry assumia que as For\u00e7as Armadas<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">deviam restringir-se \u00e0 defesa da Seguran\u00e7a Nacional e do governo civil [&#8230;] as For\u00e7as Armadas entendiam que, para garantir a \u2018seguran\u00e7a para o desenvolvimento\u2019, deviam institucionalizar sua participa\u00e7\u00e3o no governo como ator protagonista. (PADR\u00d3S, 2005, p. 389, aspas no original)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Devido a essas diverg\u00eancias de opini\u00f5es e choque de interesses, as For\u00e7as Armadas explicitam seu poder ao destituir do cargo Bordaberry e substituindo-o, ent\u00e3o, por Alberto Demicheli. Nesse sentido, as For\u00e7as Armadas publicam um documento no qual demonstram todas essas supostas diverg\u00eancias:<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">1.<span> <\/span>En que el Presidente no acepta el futuro funcionamiento de los Partidos Pol\u00edticos tradicionales. Entiende que \u00e9stos no tienen cabida en el Uruguay del futuro. Propone en sustituci\u00f3n de la vigencia de ellos, la promoci\u00f3n y desarrollo de corrientes de opini\u00f3n que en definitiva vendr\u00edan a ocupar el vac\u00edo dejado por aqu\u00e9llos. En cambio las F.F.A.A. [For\u00e7as Armadas] no quieren compartir el compromiso, la responsabilidad hist\u00f3rica de suprimir los Partidos Pol\u00edticos Tradicionales.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">2.<span> <\/span>El se\u00f1or Presidente de la Rep\u00fablica no acepta el pronunciamiento popular a trav\u00e9s del voto, porque considera que esa pr\u00e1ctica en las democracias actuales es algo superado, argumentado que el voto solamente se debe requerir a los ciudadanos a trav\u00e9s de referendum o plebiscitos sobre puntos o temas espec\u00edficos que el PE [Poder Executivo] considere conveniente. En contraposici\u00f3n a esto, las F.F.A.A. sostienen que la soberan\u00eda est\u00e1 radicada en la Naci\u00f3n y que, entre otras, una forma aut\u00e9ntica de expresi\u00f3n de esa soberan\u00eda, es el voto popular [&#8230;]<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Surge as\u00ed una incompatibilidad entre el pensamiento pol\u00edtico de las F.F.A.A. y el del se\u00f1or Juan Mar\u00eda Bordaberry que impide a este continuar dentro de un proceso en el que no cree [&#8230;]. Por lo expuesto y para garantizar la continuidad del proceso c\u00edvico-militar en procura del Bienestar Nacional, se hace indispensable revitalizarlo con una actualizaci\u00f3n de los hombres responsables de esa conducci\u00f3n. En base a ello, las F.F.C.C. [Fuerzas Conjuntas] han retirado su confianza y apoyo al se\u00f1or Juan Mar\u00eda Bordaberry<span class=\"s5\">7<\/span>.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 Alberto Demicheli, Presidente do Conselho do Estado, que firma o Ato Institucional No 1, suspendendo a convoca\u00e7\u00e3o de elei\u00e7\u00f5es gerais e que cria o Consejo de la Naci\u00f3n, com o Ato Institucional No 2, que, conjuntamente com a Junta de Oficiais Generais e com o Conselho de Estado, indicavam o Presidente da Rep\u00fablica, os membros da Suprema Corte de Justi\u00e7a, etc. Dessa forma, todos os cargos importantes e todos os organismos do Estado ficavam totalmente subordinados aos Oficiais Generais integrantes do Conselho da Na\u00e7\u00e3o (PADR\u00d3S, 391).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A partir desse momento \u00e9 que se inicia a fase mais dura da ditadura uruguaia, e conforme os Presidentes v\u00e3o se opondo \u00e0s inten\u00e7\u00f5es do Conselho da Na\u00e7\u00e3o, estes ir\u00e3o sendo sucessivamente substitu\u00eddos. Este \u00e9 o caso de<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Demicheli, que ao se opor ao Ato Institucional No 4, \u00e9 substitu\u00eddo por Apar\u00edcio<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">83 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">8 <\/span>DIREITO \u00c0 MEM\u00d3RIA E \u00c0 VERDADE, P. 21.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">9 <\/span>BRASIL, 2007, p. 22.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s3\">10 <\/span>BRASIL, 2007, p. 27.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Mendez. Pelo Ato Institucional No 4, \u201cse exclu\u00edam da vida pol\u00edtica do pa\u00eds, por um prazo de 15 anos, cerca de 15 mil cidad\u00e3os\u201d (PADR\u00d3S, p.391).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ap\u00f3s outros diversos Atos Institucionais e muita repress\u00e3o pol\u00edtica, firma-se, em 1984, o acordo do Pacto do Clube Naval, entre Gregorio \u00c1lvarez, o Partido Colorado, Frente Ampla e a Uni\u00e3o C\u00edvica. Este Pacto permitiu o retorno do regime democr\u00e1tico ao Uruguai. Marcou, ainda, o final do per\u00edodo ditatorial no pa\u00eds e tamb\u00e9m as bases para operar a t\u00e3o sonhada transi\u00e7\u00e3o \u00e0 democracia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, o regime militar desenvolveu-se entre 1964 e 1985, desdobrando-se em tr\u00eas grandes fases. A primeira inicia-se com o golpe de Estado em 1964, que dep\u00f4s o governo do ga\u00facho Jo\u00e3o Goulart, herdeiro pol\u00edtico do trabalhismo de Get\u00falio Vargas. Nesse momento, os militares das For\u00e7as Armadas, vindos da Escola Superior de Guerra (ESG), encontravam-se em franca disputa, ainda que internamente, sobre como organizar-se-ia a administra\u00e7\u00e3o do governo estatal.<span class=\"s4\">8<span> <\/span><\/span>\u00c9 a partir do Ato Institucional No1 que se percebe o car\u00e1ter repressivo do governo militar. Isso se percebe atrav\u00e9s das consequ\u00eancias desse Ato, entre as quais figuram em destaque a \u201ccassa\u00e7\u00e3o de mandatos, suspens\u00e3o dos direitos pol\u00edticos, demiss\u00e3o do servi\u00e7o p\u00fablico, expurgo de militares, aposentadoria compuls\u00f3ria, interven\u00e7\u00e3o em sindicatos e pris\u00e3o de milhares de brasileiros\u201d.<span class=\"s4\">9<span> <\/span><\/span>Nesse sentido, vale mencionar a Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional, que foi uma<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">tentativa de fundamentar conceitualmente a suspens\u00e3o das garantias constitucionais, a limita\u00e7\u00e3o das liberdades individuais, a introdu\u00e7\u00e3o da censura aos meios de comunica\u00e7\u00e3o e a repress\u00e3o total aos que se opunham por meio de atividades clandestinas. (BRASIL, 2007, p. 22).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O que se pode perceber com essa Doutrina de Seguran\u00e7a Nacional \u00e9 a mudan\u00e7a do foco \u201cinimigo\u201d para o Estado, que agora passa de agente externo para interno, de forma a legitimar a repress\u00e3o. Quanto \u00e0 segunda fase da ditadura, ao final de 1968, \u00e9 quando se d\u00e1 a implanta\u00e7\u00e3o do Ato Institucional No5, durante o governo de Costa e Silva, e que levou ao \u00e1pice do endurecimento do regime, agora ent\u00e3o marcado por uma total repress\u00e3o e pr\u00e1tica da tortura. Fato que pode ser percebido tamb\u00e9m durante o governo de Medici, de 1969 a 1974, caracterizado pelos chamados \u201canos de chumbo\u201d.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 a terceira fase da ditadura no Brasil come\u00e7a com a posse do general Geisel, em 1974. Embora no in\u00edcio de seu governo, a repress\u00e3o e tortura ainda fossem algo cotidiano, pode-se perceber, durante sua administra\u00e7\u00e3o, uma \u201cdistens\u00e3o lenta, gradual e segura\u201d.<span class=\"s4\">10<span> <\/span><\/span>Nesse momento, \u00e9 abolido o Ato Institucional No5 e a liberdade de imprensa pouco a pouco ia sendo devolvida. Oficialmente, foram reconhecidas aproximadamente 200 pessoas assassinadas pela ditadura.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">84 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">PROjETOS NuNca M\u00e1s COMO PARTE CONSTITUIDORA DE MEM\u00f3RIAS EMBLEM\u00e1TICAS<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">11 <\/span>STERN (2000 apud JOFFILY, 2010).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">12 <\/span>BAUER (2008, p. 4).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">13 <\/span>JOFFILY (2010, p. 4).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">14 <\/span>JOFFILY (2010, p. 4). <span class=\"s4\">15 <\/span>SERPAJ (1989, p. 5-6).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">16 <\/span>MARCHESI (2001).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os Projetos Nunca M\u00e1s, segundo Joffily (2010, p.1), operam \u201ccomo um vetor de constitui\u00e7\u00e3o de uma determinada mem\u00f3ria emblem\u00e1tica sobre o legado dos governos militares\u201d. Como mem\u00f3rias emblem\u00e1ticas, entenda-se, segundo o conceito de Stern<span class=\"s4\">11 <\/span>, como sendo<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">aquelas que organizam e articulam v\u00e1rias mem\u00f3rias soltas a um determinado processo hist\u00f3rico, atribuindo a elas um sentido maior. Re\u00fanem atrav\u00e9s de crit\u00e9rios de sele\u00e7\u00e3o e de uma determinada linha interpretativa, uma s\u00e9rie de mem\u00f3rias individuais e coletivas, definindo os contornos do que deve ser incorporado e do que deve ser esquecido. (STERN (2000 apud JOFFILY, 2010, p. 1)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Foi durante a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica das ditaduras que se deu a cria\u00e7\u00e3o das diversas comiss\u00f5es de desaparecidos em ambos pa\u00edses. Na Argentina, a Comissi\u00f3n Nacional sobre la Desaparici\u00f3n de Personas, foi criada pelo presidente Ra\u00fal Alfons\u00edn, em 1983, atrav\u00e9s do decreto 187.<span class=\"s4\">12<span> <\/span><\/span>Estas comiss\u00f5es, para Patricia Valdez,<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">se crean en momentos hist\u00f3ricos de recuperaci\u00f3n del estado de derecho, con el advenimiento de un r\u00e9gimen democr\u00e1tico o al producirse intervenciones internacionales que tienen como misi\u00f3n apoyar procesos de paz y establecer premisas b\u00e1sicas para la convivencia. Su creaci\u00f3n tiene el objetivo de investigar los hechos, conocer las causas que los motivaron y establecer responsabilidades de los diversos sectores involucrados. (VALDEZ, 2007 apud BAUER, 2008, p. 5)<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em 1984, na Argentina, foi disponibilizado pela primeira vez o Informe da CONADEP, que recebeu o nome de Nunca M\u00e1s. Esse t\u00edtulo \u201cinspirou o grupo brasileiro envolvido com a sistematiza\u00e7\u00e3o dos processos da Justi\u00e7a Militar a modificar o nome do projeto Testemunhos Pela Paz para Brasil: nunca mais\u201d.<span class=\"s4\">13<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Esse t\u00edtulo foi utilizado por diversos pa\u00edses. Dessa forma \u201ciniciava-se uma esp\u00e9cie de filia\u00e7\u00e3o a um objetivo compartilhado entre na\u00e7\u00f5es latino- americanas egressas de per\u00edodos ditatoriais: que as barb\u00e1ries cometidas pelas ditaduras militares n\u00e3o viessem a se repetir\u201d.<span class=\"s4\">14<span> <\/span><\/span>No Uruguai, foi o Servicio de Paz y Justicia, fundado em 1981, o respons\u00e1vel pela realiza\u00e7\u00e3o do Informe Nunca M\u00e1s, viabilizado em 1989, e que tinha o objetivo de \u201cconocer a fondo, en toda su magnitud la cat\u00e1strofe padecida\u201d.<span class=\"s4\">15<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, desde 1979, a Arquidiocese de S\u00e3o Paulo e diversos ativistas dos direitos humanos vinham realizando muitas pesquisas e levantamento de documentos e depoimentos que culminaram na publica\u00e7\u00e3o do Informe Brasil: Nunca Mais, em 1985.<span class=\"s4\">16<span> <\/span><\/span>Atualmente a Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos vem realizando publica\u00e7\u00f5es de diversos materiais a respeito da ditadura, como o livro \u201cDireito \u00e0 Mem\u00f3ria e \u00e0 Verdade\u201d, \u201cLuta, substantivo feminino\u201d, entre outros.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">De acordo com os dados do CONADEP de 2007, de um total de 8691<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">desaparecidos na Argentina, a preval\u00eancia de homens (70%) \u00e9 bastante<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">85<span> <\/span><\/span>expressiva. A mesma fonte indica que que 59% desse universo \u00e9 formado <span class=\"s2\">Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/span><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">por jovens entre 21 e 30 anos de idade. A Fig.1 indica que o recrudescimento da ditadura militar argentina<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">ocorre fundamentalmente entre os anos 1976 a 1978, per\u00edodo que concentra mais de 85% dos desaparecidos.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Figura 1: Porcentagem dos desaparecidos por ano, Argentina. Fonte: CONADEP, 2007.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na Fig.2, apresentamos os dados referentes \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o dos desaparecidos da Argentina. Podemos que perceber que a maior parte \u00e9 composta de oper\u00e1rios (30,2%), seguido de estudantes (21%), ou seja, mais da metade dos desaparecidos na Argentina s\u00e3o ou oper\u00e1rios ou estudantes.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Figura 2: Porcentagem da ocupa\u00e7\u00e3o dos desaparecidos, Argentina. Fonte: CONADEP, 2007.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Muito semelhante \u00e9 o caso do Uruguai (Fig. 3) no que diz respeito ao desaparecimento de pessoas tendo em vista o ano. Nesse caso, n\u00e3o s\u00e3o 85% \u2013 1976-1978 \u2013 mas sim, 95% dos desaparecidos no Uruguai se deram no mesmo per\u00edodo.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Figura 3: Porcentagem de desaparecidos por ano, Uruguai. Fonte: SERPAJ, 2006.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">86 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Enquanto os dados da Argentina e do Uruguai destacam os desaparecidos, no Brasil o que se percebe \u00e9 a an\u00e1lise dos torturados. Quanto \u00e0 distribui\u00e7\u00e3o por g\u00eanero, percebe-se que enquanto que na Argentina cerca de 70% dos desaparecidos s\u00e3o homens e no Uruguai, segundo o SERPAJ de 1989, s\u00e3o 76%, no Brasil, segundo o Projeto Brasil: Nunca Mais, de um total de 1.843 torturados, 79% s\u00e3o do sexo masculino.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A seguir, apresento alguns dados retirados do Projeto Brasil: Nunca Mais, no que diz respeito \u00e0 tortura no Brasil. Na Fig.3, est\u00e3o expostas as den\u00fancias de tortura por ano, e \u00e9 poss\u00edvel destacar que, no per\u00edodo de 1969 a 1973, foram realizadas as den\u00fancias de quase 75% do total (per\u00edodo de 1964 a 1977).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Figura 3: Den\u00fancias de Tortura por ano. Fonte: Brasil: Nunca mais, 1985.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Classificando os torturados no Brasil por faixa et\u00e1ria, \u00e9 poss\u00edvel confrontar os dados com os desaparecidos da Argentina e perceber o envolvimento de jovens nesse contexto. Enquanto na Argentina, cerca de 58% dos desaparecidos eram jovens (21-30 anos), no Brasil, segundo o Projeto Brasil: Nunca Mais de 1985, essa mesma faixa et\u00e1ria compreendia mais de 45% dos torturados.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A Fig.4 demonstra o n\u00famero absoluto de torturados por tipo de tortura. O relat\u00f3rio do Projeto Brasil: Nunca Mais, totaliza 310 tipos diferentes de torturas. Por\u00e9m, aglutina-os em diversos grupos, que s\u00e3o representados abaixo. Dentre as coa\u00e7\u00f5es morais e psicol\u00f3gicas temos, como exemplo, amea\u00e7as diversas, ambientaliza\u00e7\u00e3o de terror, press\u00e3o moral , vexames, cuspir no rosto, humilhar, insultar, difamar, etc.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Dentre as coa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas temos agress\u00e3o, a\u00e7oite, uso de cassetete, chibata, chicote, coronhadas, torturas frente \u00e0 esposa, torturar os filhos, esposa, pais, etc. Quanto \u00e0s viol\u00eancias sexuais, existem das mais variadas no relat\u00f3rio, como por exemplo, furar \u00f3rg\u00e3os genitais com agulhas, uso de presilhas nos \u00f3rg\u00e3os genitais, estuprar esposa presa, etc.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Figura 4: Distribui\u00e7\u00e3o absoluta do n\u00famero de torturados segundo sexo e forma de torturas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">87 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">Fonte: Brasil: Nunca mais, 1985.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando, na Fig.4, destaco instrumentos, refiro-me \u00e0s torturas com instrumentos perfuro-contundentes, cortantes e queimantes, como dedos e juntas marteladas, enfiar canivete nas unhas, queimaduras com cigarros, ma\u00e7arico e papel aceso, dentre outras. No que diz respeito \u00e0s torturas com aparelhos mec\u00e2nicos, constam, sobretudo, o uso de crucifixo, corda amarrada no pesco\u00e7o e genitais, pau de arara, pendurar pelos punhos, pendurar pelos p\u00e9s com os bra\u00e7os suspensos, etc.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ao falar sobre as torturas com aparelhos el\u00e9tricos, refiro-me \u00e0 cadeira do drag\u00e3o e aos diversos choques el\u00e9tricos. Al\u00e9m disso, contra os sinais vitais s\u00e3o destacados diversos afogamentos, asfixia, uso de esponja de \u00e1gua na boca, enforcamento, dentre outros. Com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s torturas complementares \u00e0s torturas, s\u00e3o destacadas: o uso de \u00e1gua para piorar choques, \u00e1cido no rosto, \u00e1lcool mais ventilador, uso de amon\u00edaco na boca, g\u00e1s asfixiante, inje\u00e7\u00e3o de \u00e9ter, etc. No que diz respeito \u00e0s torturas at\u00edpicas, constam as que incluem o uso de diversos animais, como baratas, c\u00e3es, cobras, ratos, etc., al\u00e9m de obrigar a pessoa torturada a cavar a pr\u00f3pria sepultura, obrigar a comer os pr\u00f3prios excrementos, beber urina, dentre outros.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os dados da Figura 4 indicam ainda que os mais atingidos foram os homens, com um total de 4.918, sendo que deste n\u00famero 2.369 sofreram coa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. J\u00e1 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s mulheres, temos um total de 1.098 pessoas, sendo que destas 431 tamb\u00e9m sofreram coa\u00e7\u00f5es f\u00edsicas. Pode-se perceber, ent\u00e3o, o sadismo existente nesse contexto e sua materializa\u00e7\u00e3o durante o per\u00edodo. Seria absolutamente imposs\u00edvel resumir no curto espa\u00e7o que aqui dispomos a diversidade de formas de tortura utilizadas no Brasil e nos demais pa\u00edses analisados pelos \u00f3rg\u00e3os de repress\u00e3o. A tarefa que nos imp\u00f5e agora \u00e9 no sentido de abordar o tema da arqueologia da repress\u00e3o no \u00e2mbito dos tr\u00eas pa\u00edses aqui analisados.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">ARQUEOLOGIA DA REPRESS\u00c3O NA ARGENTINA URUGUAI E BRASIL<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A Arqueologia da repress\u00e3o \u00e9 apontada como estudo da materialidade do per\u00edodo relativo \u00e0s ditaduras militares, permitindo uma nova interpreta\u00e7\u00e3o para o quadro social e pol\u00edtico dominante entre as d\u00e9cadas de sessenta e setenta. Sabe-se que na Argentina funcionaram, no per\u00edodo da ditadura, cerca de 340 CCDs (Centros Clandestinos de Deten\u00e7\u00e3o). Trata-se de aparelhos instalados geralmente em pr\u00e9dios j\u00e1 existentes, sendo lugares destinados \u00e0 repress\u00e3o e ao terror praticado pelo Estado (agentes civis ou militares). Mas tais locais cumpriam outros prop\u00f3sitos que n\u00e3o os de deter, corrigir e entregar o indiv\u00edduo de volta \u00e0 sociedade, mas, sim, destruir e eliminar por completo todos os que eram considerados como \u201cinimigos do Estado\u201d por praticarem atos supostamente terroristas. Zarankin e Niro (2008) apontam importantes diferen\u00e7as existentes entre os campos de concentra\u00e7\u00e3o em geral e os CCDs:<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">88 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">[&#8230;] a diferen\u00e7a \u00e9 que, enquanto um campo de concentra\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cum lugar\u201d que se rege por conven\u00e7\u00f5es (ao menos deve faz\u00ea-lo segundo uma s\u00e9rie de conven\u00e7\u00f5es internacionais que garantem algum respeito aos prisioneiros), o CCD n\u00e3o possui nenhuma \u2013 ao menos oficialmente \u2013 porque simplesmente n\u00e3o existe institucionalmente. Sua condi\u00e7\u00e3o de clandestino lhe outorga a vantagem da invisibilidade e da impunidade,<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">17 <\/span>ZARANKIN &#038; NIRO, 2008, p. 206.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">18 <\/span>\u201cO \u201cinimigo interno\u201d podia estar localizado em outro pa\u00eds (exilado, escondido), assim como o \u201cinimigo interno\u201d de outra na\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m precisava ser combatido n\u00e3o somente pelo pa\u00eds que o abriga. Este era o fundamento da cria\u00e7\u00e3o da Opera\u00e7\u00e3o Condor\u201d. (FERNANDES, 2009, p. 2)<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">convertendo-o em um \u201cn\u00e3o-lugar\u201d para aqueles que se encontram<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s2\">dentro de seu espa\u00e7o. (ZARANKIN e NIRO, 2008, p. 194; aspas no original) <\/span>Em 2003 foi aprovado o projeto de escava\u00e7\u00e3o de um dos CCDs existentes em Buenos Aires \u2013 o Club Atl\u00e9tico. Tratava-se de desvendar a l\u00f3gica da arquitetura deste dispositivo. Segundo Zarankin e Niro, no primeiro n\u00edvel estavam instalados dois escrit\u00f3rios correspondendo \u00e0 esfera burocr\u00e1tica do CCD. No segundo n\u00edvel, ou seja, abaixo do primeiro (subsolo) estavam as salas de deten\u00e7\u00e3o coletiva. No n\u00edvel abaixo estavam outras celas e, logo depois, as salas de tortura. Dessa forma, nota-se a quest\u00e3o emblem\u00e1tica da constitui\u00e7\u00e3o da estrutura do Club Atl\u00e9tico. As salas de tortura, ao serem colocadas no espa\u00e7o intermedi\u00e1rio entre as celas, como mostram os autores, acarretam grande transtorno aos detidos. Permitem evidenciar, de forma inelud\u00edvel, a \u201cmaterializa\u00e7\u00e3o do sadismo impl\u00edcito no projeto arquitet\u00f4nico<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">do CCD\u201d.<span class=\"s4\">17 <\/span>No Uruguai, no entanto, como demonstra Mazz (2008), a conforma\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">dos locais onde ficavam retidos os presos pol\u00edticos deu-se atrav\u00e9s de duas formas. Num primeiro momento, esses pontos de reten\u00e7\u00e3o e repress\u00e3o pol\u00edtica estavam centrados em lugares militares. N\u00e3o obstante, num segundo momento, j\u00e1 sob a \u00e9gide da \u201cOpera\u00e7\u00e3o Condor\u201d<span class=\"s4\">18<\/span>, essa localiza\u00e7\u00e3o \u00e9 modificada e conforma-se, ent\u00e3o, uma rede de lugares clandestinos para onde s\u00e3o levados os presos pol\u00edticos. Dessa forma, os restos de desaparecidos formam um \u201cdocumento fundamental\u201d<span class=\"s4\">19 <\/span>que auxilia na interpreta\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria extra-oficial do per\u00edodo ditatorial.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Como destaca o autor, \u201ca localiza\u00e7\u00e3o do enterramento clandestino de um detido desaparecido pode transformar um espa\u00e7o, at\u00e9 agora irrelevante e pass\u00edvel de ser considerado um \u2018n\u00e3o-lugar\u2019 [&#8230;], em um \u2018lugar de repress\u00e3o\u2019\u201d<span class=\"s4\">20<\/span>. Foram realizados no Uruguai diversos estudos forenses em valas comuns, obtendo destaque os cemit\u00e9rios de Col\u00f4nia do Sacramento e da cidade de Castillos. Entretanto, at\u00e9 agora n\u00e3o foi poss\u00edvel recuperar vest\u00edgios significativos, especialmente devido ao \u201cpacto do sil\u00eancio\u201d<span class=\"s4\">21<\/span>. Nesse contexto, a arqueologia forense e a arqueologia da repress\u00e3o destacam-se como alicerces para ressemantiza\u00e7\u00e3o do significado atribu\u00eddo aos restos encontrados e como auxiliares tanto da hist\u00f3ria, por dar voz aos silenciados, como da justi\u00e7a aos familiares e amigos dos desaparecidos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, pouco se avan\u00e7ou em termos de uma arqueologia do per\u00edodo ditatorial. \u00c9 imperativo reconhecer a import\u00e2ncia desses estudos para a sociedade, buscando respostas a questionamentos que ainda atormentam a popula\u00e7\u00e3o de forma geral. Por\u00e9m, como apontam Funari e Oliveira (2008, p. 148), \u201cn\u00e3o se pode estudar bem a repress\u00e3o sem um exame das condi\u00e7\u00f5es que levaram a arqueologia em nosso pa\u00eds a abster-se do tema por tanto tempo e de maneira t\u00e3o persistente\u201d. \u00c9 necess\u00e1rio, portanto, dar import\u00e2ncia para essa \u00e1rea que ao passar do tempo ganha cada vez mais destaque. No Brasil, a pesquisa arqueol\u00f3gica no estudo do per\u00edodo da ditadura ainda est\u00e1 em sua inf\u00e2ncia, como resultado das diversas armadilhas jur\u00eddicas e pol\u00edticas colocadas pelo Estado autorit\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 mister afirmar que a arqueologia da repress\u00e3o corresponde a um campo do conhecimento pouco valorizado. Isso se deve, em parte, a que muitos personagens que atuaram nas ditaduras latino-americanas ainda est\u00e3o no poder. Recentemente alguns pesquisadores est\u00e3o se dedicando<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">ao tema, considerando que esse esfor\u00e7o h\u00e1 que superar as fronteiras<\/p>\n<p class=\"p7\" style=\"text-align: justify;\">19<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\">MAZZ, 2008 p. 171.<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">20 <\/span>MAZZ, 2008 p. 172 (destaque no original).<\/p>\n<p class=\"p5\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s4\">21 <\/span>MAZZ, 2008, p. 173.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">89 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">internacionais diante do fato de que muitas pessoas desapareceram em outros pa\u00edses, sob o imp\u00e9rio do terror implantado pela \u201cOpera\u00e7\u00e3o Condor\u201d. Mas essa luta demanda recursos e decis\u00e3o pol\u00edtica, algo que n\u00e3o se pode circunscrever a uma mera a\u00e7\u00e3o indenizat\u00f3ria de alguns poucos casos em que o Estado se viu obrigado a reconhecer tais pr\u00e1ticas, diante da for\u00e7a das evid\u00eancias levantadas por arque\u00f3logos, antrop\u00f3logos forenses e outros atores que se envolveram nesta verdadeira cruzada em busca da verdade. Entre 1964 e 1979, o projeto Brasil Nunca Mais contabilizou 7.367 acusados judicialmente, 10.034 atingidos na fase de inqu\u00e9rito, 130 pessoas banidas, 4.862 cassados e pelo menos 245 estudantes expulsos da universidade, sendo que apenas 357 mortos foram efetivamente reconhecidos (BRASIL,<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">2007, p.30).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">CONSIDERA\u00c7\u00f5ES FINAIS<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Algumas de 1960 e 1970. Todavia, n\u00e3o cabe d\u00favida de que a arqueologia da repress\u00e3o representa uma via para fazer emergir estes fatos e buscar elucidar uma outra narrativa contrapondo-se \u00e0 oficial a respeito de nosso passado, sobretudo quando \u00e9 evidente a queima de documentos e de arquivos no interior dos quart\u00e9is e depend\u00eancias militares.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os dados e informa\u00e7\u00f5es aqui apresentados ilustram, de certa forma \u2013 embora ainda seja necess\u00e1rio que se aprofundem as pesquisas no tema \u2013 a dimens\u00e3o das atrocidades cometidas durante o regime militar. Todavia, n\u00e3o cabe d\u00favida de que nos encontramos diante de um imperativo indispens\u00e1vel para construir uma sociedade mais justa e equilibrada do ponto de vista pol\u00edtico. Conhecer como funcionavam os aparelhos de repress\u00e3o e os equipamentos de tortura \u00e9 uma tarefa dolorosa, mas imprescind\u00edvel para desvelar um pa\u00eds que a pr\u00f3pria popula\u00e7\u00e3o desconhece.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">AGRADECIMENTOS<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Agrade\u00e7o o apoio institucional da FAPERGS (Funda\u00e7\u00e3o de Amparo \u00e0 Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul) pela concess\u00e3o de Bolsa de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica. Ao Prof. Dr. L\u00facio Ferreira Menezes por todo o apoio e incentivo ao longo desses anos, pela leitura atenta e sugest\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">90 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">BIBLIOGRAFIA<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">ARQUIDIOCESE DE S\u00c3O PAULO. Projeto \u201cBrasil Nunca Mais\u201d. 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Ci\u00eancias Humanas, v. 6, n. 3, p. 479-499, set.-dez. 2011.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\">92 <\/span>Arqueologia P\u00fablica | Campinas | n\u00b0 5 | 2012<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>AUTOR\u00a0Giullia Caldas dos Anjos RESUMO\u00a0ABSTRACT INTRODU\u00c7\u00c3O<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1947"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=1947"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/1947\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=1947"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=1947"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=1947"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}