{"id":2334,"date":"2012-09-18T00:27:13","date_gmt":"2012-09-18T00:27:13","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/18\/perseguida-pela-ditadura-no-brasil-alfabetizadora-morre-na-holanda-2\/"},"modified":"2012-09-18T00:27:13","modified_gmt":"2012-09-18T00:27:13","slug":"perseguida-pela-ditadura-no-brasil-alfabetizadora-morre-na-holanda-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/18\/perseguida-pela-ditadura-no-brasil-alfabetizadora-morre-na-holanda-2\/","title":{"rendered":"Perseguida pela ditadura no Brasil, alfabetizadora morre na Holanda"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Eram quatro mulheres: Dorinha, L\u00edgia, Helo\u00edsa e Iveline. Eram quatro professoras irmanadas pelo mesmo sonho: abrir os olhos de camponeses e oper\u00e1rios iletrados para o mundo da escrita. As quatro alfabetizavam adultos com o m\u00e9todo Paulo Freire, em Jo\u00e3o Pessoa(PB), nos anos 1960, quando o Brasil apresentava um \u00edndice escandalosamente alto de analfabetos. Elas trabalhavam na\u00a0 Campanha de Educa\u00e7\u00e3o Popular (CEPLAR), dentro do Plano Nacional de Alfabetiza\u00e7\u00e3o do governo Jango, eleito democraticamente atrav\u00e9s do voto.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2219\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/09\/iveline.jpg\" border=\"0\" width=\"600\" height=\"400\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Embora todas as atividades fossem absolutamente legais e oficiais, as quatro alfabetizadoras foram presas, demitidas, processadas e humilhadas depois do golpe militar de 1\u00b0 de abril de 1964, que derrubou o governo legal e se instalou no poder atrav\u00e9s das armas e da viol\u00eancia. O crime que teriam cometido: subvers\u00e3o. Tr\u00eas delas se exilaram e permaneceram fora do Brasil: uma na Venezuela, outra em Paris, a terceira na Holanda. Desta \u00faltima, Iveline Lucena da Costa Lage, n\u00f3s nos despedimos na semana passada num adeus definitivo na cidade de Bilthoven.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Noites de Moscou<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As quatro alfabetizadoras responderam a dois inqu\u00e9ritos. Um deles, de ordem administrativa, estava vinculado ao Processo de Subvers\u00e3o Geral da Para\u00edba (Processo 70\/64). O outro, CCG 1469\/64, come\u00e7ou no in\u00edcio da segunda quinzena de abril de 1964, quando foram presas e levadas para o 15\u00b0 Regimento de Infantaria, onde ficaram incomunic\u00e1veis. Os militares, que deram o golpe apoiados por uma pot\u00eancia estrangeira \u2013 os Estados Unidos \u2013 queriam estabelecer liga\u00e7\u00f5es inexistentes das quatro com Cuba e R\u00fassia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sem encontrar provas, usaram &#8220;pe\u00e7as de acusa\u00e7\u00e3o&#8221; que desafiavam o rid\u00edculo. Uma delas foi a letra da can\u00e7\u00e3o &#8220;Noites de Moscou&#8221; encontrada numa gaveta da casa de Iveline, o que foi considerado uma clara indica\u00e7\u00e3o da &#8220;exist\u00eancia de liga\u00e7\u00f5es com o comunismo russo, ateu e totalit\u00e1rio&#8221;. At\u00e9 o teste para selecionar alfabetizadores tamb\u00e9m foi considerado &#8220;subversivo&#8221;. No interrogat\u00f3rio, as presas esclareceram que o sal\u00e1rio de cada uma era pago pelo governo e que o financiamento da Campanha de Educa\u00e7\u00e3o Popular era feito com recursos federais. De nada adiantou.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Estadual de Investiga\u00e7\u00e3o, num processo sum\u00e1rio, concluiu que as quatro professores eram culpadas e determinou a demiss\u00e3o delas do quadro oficial do Estado por atividades subversivas. As demiss\u00f5es foram assinadas pelo governador Pedro Gondim e publicadas no Di\u00e1rio Oficial no segundo semestre de 1964. O outro processo, tamb\u00e9m com cartas marcadas, terminou sua primeira fase de levantamento da culpa das suspeitas. Durou um pouco mais de um ano, foi presidido pelo ent\u00e3o major Ney de Oliveira Aquino, que concluiu pela &#8220;inconsist\u00eancia das acusa\u00e7\u00f5es&#8221;. Por isso, de castigo, ele foi enviado para servir em Rond\u00f4nia, sendo substitu\u00eddo pelo major Jos\u00e9 Benedito Cordeiro, o famigerado Cordeir\u00e3o, que passou a presidir o Inqu\u00e9rito Policial Militar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O novo presidente mudou a conclus\u00e3o, remetendo, em maio de 1965, os autos para a Auditoria da 7\u00aa Regi\u00e3o Militar do Recife, com um enorme carimbo, onde se l\u00ea &#8220;Secreto&#8221;, conforme extrato da c\u00f3pia do 23\u00b0 volume do IPM da Para\u00edba, arquivado hoje no Supremo Tribunal Militar, em Bras\u00edlia. Iveline Lucena, Maria das Dores de Oliveira, Ligia Macedo e Helo\u00edsa Albuquerque foram denunciadas e tiveram que comparecer v\u00e1rias vezes \u00e0 Auditoria para interrogat\u00f3rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Luar do sert\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quatro anos depois, em 1968, as provas de subvers\u00e3o n\u00e3o haviam sido encontradas, nem v\u00ednculos com pot\u00eancias estrangeiras, o que era uma tremenda bobagem. As acusa\u00e7\u00f5es coletadas foram t\u00e3o vagas que a Procuradoria Militar pediu a absolvi\u00e7\u00e3o das implicadas, justificando: &#8220;Todas as testemunhas de acusa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m das outras, n\u00e3o fizeram acusa\u00e7\u00f5es e quando disseram qualquer fato, o fizeram de modo vago, sem precisar ato subversivo capaz de autorizar uma condena\u00e7\u00e3o&#8221;. (vol. 23\u00b0 do IPM da Para\u00edba).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O processo foi finalmente arquivado, em 1968. As acusadas foram defendidas pelo advogado paraibano Nizi Marinheiro e, no Rio de Janeiro, por Modesto da Silveira. Sobre essa experi\u00eancia, Iveline e Dorinha escreveram um livro: &#8220;Ceplar \u2013 Hist\u00f3ria de um sonho coletivo&#8221;, editado pelo Conselho Estadual de Educa\u00e7\u00e3o da Para\u00edba, em 1995. O pref\u00e1cio \u00e9 de Paulo Freire, que chama a aten\u00e7\u00e3o &#8220;para os n\u00edveis de irracionalidade, de fanatismo e de malvadez do golpe de 1\u00b0 de abril de 1964&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O fichamento das quatro professoras, tratadas como &#8220;elementos&#8221;, est\u00e1 registrado no volume 20\u00b0 do IPM da Para\u00edba. Na ficha de uma delas consta:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Iveline Lucena da Costa (filia\u00e7\u00e3o) Hist\u00f3rico. Pertencia ao Departamento de Educa\u00e7\u00e3o Fundamental da CEPLAR. Comparecia \u00e0 concentra\u00e7\u00e3o camponesa no interior (Itapororoca-Sap\u00e9). Ideias extremistas da esquerda. Integrava a equipe de alfabetiza\u00e7\u00e3o, respons\u00e1vel pela elabora\u00e7\u00e3o de 18 li\u00e7\u00f5es de conscientiza\u00e7\u00e3o de conte\u00fado subversivo, esta denunciada atuava no meio escolar. Referido elemento foi punido de acordo com os arts. 7\u00b0 e 10\u00b0 do Ato Institucional, conforme rela\u00e7\u00e3o anexa ao Of\u00edcio Secreto&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Iveline, nascida em Bananeiras(PB), em 1939, era uma pessoa doce, af\u00e1vel, carinhosa. Formada em Letras Neolatinas, concluiu o curso de Orienta\u00e7\u00e3o Educacional. Demitida no Brasil, viajou em 1970 para o Chile e trabalhou na Universidade de Concepci\u00f3n, depois de casar, em Santiago, com Tarc\u00edsio Lage, um jornalista mineiro, tamb\u00e9m exilado. De l\u00e1, foi para a Inglaterra, onde obteve o diploma de educa\u00e7\u00e3o na Universidade de Londres. Passou ainda uma pequena temporada na Su\u00ed\u00e7a e se radicou definitivamente na Holanda, trabalhando como tradutora e locutora na R\u00e1dio Nederland.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No in\u00edcio de setembro, Iveline se despediu da vida. Na cerim\u00f4nia de crema\u00e7\u00e3o, a qual compareci, falaram seus dois filhos, seu marido, o fot\u00f3grafo Sebasti\u00e3o Salgado e v\u00e1rios alunos holandeses que aprenderam o portugu\u00eas com Iveline.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ela se integrou na sociedade holandesa, falava um holand\u00eas perfeito, mas manteve suas ra\u00edzes brasileiras \u2013 disse Am\u00e9rico. Para o outro filho, Gustavo, sua m\u00e3e detestava preconceitos e era um exemplo de toler\u00e2ncia. Tarcisio destacou que, embora tivessem concep\u00e7\u00f5es diferentes sobre Deus \u2013 Iveline vivia sua religiosidade intensamente \u2013 numa coisa estavam de acordo: Deus \u00e9 uma das cria\u00e7\u00f5es mais interessantes do homem.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Iveline nunca deixou de ser, ao longo de toda sua vida, uma alfabetizadora. Janal\u00edvia Carneiro, que mora na Holanda e acompanhou de perto, nos \u00faltimos anos, as atividades da amiga, disse:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">&#8211; Ela era uma esp\u00e9cie de embaixatriz da cultura brasileira na Holanda, organizou mostras de filmes brasileiros, deu aulas de portugu\u00eas na Universidade do Povo (Volsksuniversiteit), fazendo seus alunos conhecerem a poesia, a literatura e a m\u00fasica brasileira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Eram quatro mulheres, quatro alfabetizadoras: Dorinha, L\u00edgia, Helo\u00edsa e Iveline. No final da semana passada, uma delas, Iveline (1939-2012) nos deu seu \u00faltimo adeus, ao som de &#8220;Luar do Sert\u00e3o&#8221; cantado por Maria Beth\u00e2nia. Saudades da amiga. Fica aqui o registro de sua passagem pelo planeta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por Jos\u00e9 Ribamar Bessa Freire &#8211; professor, coordena o Programa de Estudos dos Povos Ind\u00edgenas (UERJ) e pesquisa no Programa de P\u00f3s-Gradua\u00e7\u00e3o em Mem\u00f3ria Social (UNIRIO)<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Eram quatro mulheres: Dorinha, L\u00edgia, Helo\u00edsa e Iveline. Eram quatro professoras irmanadas pelo mesmo sonho: abrir os olhos de camponeses e oper\u00e1rios iletrados para o mundo da escrita. As quatro alfabetizavam adultos com o m\u00e9todo Paulo Freire, em Jo\u00e3o Pessoa(PB), nos anos 1960, quando o Brasil apresentava um \u00edndice escandalosamente alto de analfabetos. 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