{"id":2403,"date":"2012-09-26T22:52:41","date_gmt":"2012-09-26T22:52:41","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/26\/acervo-da-onu-reforca-elo-de-paises-na-operacao-condor-2\/"},"modified":"2012-09-26T22:52:41","modified_gmt":"2012-09-26T22:52:41","slug":"acervo-da-onu-reforca-elo-de-paises-na-operacao-condor-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/09\/26\/acervo-da-onu-reforca-elo-de-paises-na-operacao-condor-2\/","title":{"rendered":"ACERVO DA ONU REFOR\u00c7A ELO DE PA\u00cdSES NA OPERA\u00c7\u00c3O CONDOR"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Acervo com relat\u00f3rios confidenciais, telegramas, cartas a ministros e informes de reuni\u00f5es que o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) reuniu sobre ditaduras na Am\u00e9rica do Sul confirmam que, pelo menos at\u00e9 1979, cidad\u00e3os argentinos, uruguaios, paraguaios e chilenos que buscaram ref\u00fagio em territ\u00f3rio brasileiro foram vigiados, amea\u00e7ados, detidos e devolvidos aos seus pa\u00edses \u2013 com ajuda e conhecimento das For\u00e7as Armadas do Brasil. \u00c9 a primeira vez que a ONU divulga o conte\u00fado desse acervo.  <!--more-->  <span class=\"s1\"><\/p>\n<p><\/span>Os documentos mostram que s\u00f3 o servi\u00e7o secreto uruguaio teria conseguido, com a ajuda de Bras\u00edlia e Buenos Aires, sequestrar e levar de volta para as pris\u00f5es de Montevid\u00e9u 110 refugiados pol\u00edticos que estavam no Brasil e na Argentina entre 1976 e 1979. &#8220;Assumimos que ainda exista, como no passado, uma coopera\u00e7\u00e3o t\u00e9cnica entre as for\u00e7as de seguran\u00e7a de Uruguai, Argentina e Brasil&#8221;, afirmava um telegrama secreto da ONU de 25 de junho de 1979, guardado nos arquivos de Genebra.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>As conven\u00e7\u00f5es da ONU consideram a devolu\u00e7\u00e3o de pessoas ao seu pa\u00eds de origem um crime contra a humanidade \u2013 j\u00e1 que representa, em muitos casos, uma senten\u00e7a de morte. Para representantes do Acnur hoje, a comprova\u00e7\u00e3o das informa\u00e7\u00f5es poderia exigir que pessoas envolvidas sejam processadas pelo crime.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Levantadas pelos enviados da ONU \u00e0 regi\u00e3o, as informa\u00e7\u00f5es apontam uma coopera\u00e7\u00e3o bastante organizada entre os regimes militares do Brasil, Argentina e Uruguai \u2013 tanto nas rela\u00e7\u00f5es pol\u00edticas quanto no modo operacional \u2013 e que se estendeu por toda uma d\u00e9cada. Na \u00e9poca, a ONU montou uma opera\u00e7\u00e3o para retirar do Cone Sul mais de 18 mil pessoas amea\u00e7adas por suas atividades pol\u00edticas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 o fim dos anos 1960, a ONU admitia em documentos internos que trabalhava com a perspectiva de que um refugiado de um pa\u00eds latino-americano que cruzasse a fronteira n\u00e3o seria devolvido e que teria prote\u00e7\u00e3o garantida. Essa percep\u00e7\u00e3o come\u00e7ou a mudar em 1969, quando um telegrama de 12 de setembro, do escrit\u00f3rio da ONU em Buenos Aires para Genebra, alertava que &#8220;fontes da Igreja&#8221; apresentaram informa\u00e7\u00f5es segundo as quais brasileiros que haviam fugido come\u00e7aram a ser perseguidos na Argentina e no Uruguai. O escrit\u00f3rio sugeria que a ONU enviasse \u00e0 regi\u00e3o uma miss\u00e3o para dialogar com os governos e entender o que estava ocorrendo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>&#8220;O problema de asilo para latino-americanos fugindo de seus pa\u00edses por quest\u00f5es pol\u00edticas est\u00e1 se tornando mais dif\u00edcil de lidar que no passado, diante da vontade cada vez menor de certos governos latino-americanos de dar asilo&#8221;, dizia o telegrama.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Sequestradores. Meses depois, a coopera\u00e7\u00e3o j\u00e1 era realidade. Em telegrama de 14 de abril de 1970, o representante do Acnur em Bogot\u00e1 alertava para uma coordena\u00e7\u00e3o entre as diplomacias da regi\u00e3o contra os militantes de oposi\u00e7\u00e3o, principalmente diante dos sequestros pol\u00edticos que aumentavam. &#8220;Recentes sequestros pol\u00edticos no Brasil, na Argentina e na Guatemala e o tr\u00e1gico assassinato do embaixador Von Spreta v\u00e3o provavelmente resultar em pol\u00edticas muito mais restritivas de asilo para aqueles que eventualmente possam ser respons\u00e1veis por tais crimes&#8221;, dizia. Naquele ano, grupos sequestraram embaixadores trocando-os por presos pol\u00edticos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Segundo o telegrama, um plano estava sendo costurado entre diplomatas para fechar o cerco contra sequestradores e impedir que pudessem fazer a troca de embaixadores por militantes presos. Uma das propostas era um acordo para considerar &#8220;pessoas nas listas para trocas em um caso de sequestro como poss\u00edveis c\u00famplices no sequestro&#8221; \u2013 ou seja, seriam tamb\u00e9m consideradas criminosas e n\u00e3o poderiam ser trocadas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>&#8220;Todos os pa\u00edses assumir\u00e3o a obriga\u00e7\u00e3o de n\u00e3o dar asilo a qualquer pessoa na lista de candidatos para serem trocados com sequestradores e dar extradi\u00e7\u00e3o imediata se um deles entrar em seus territ\u00f3rios&#8221;, dizia o texto. O Acnur previa naquele momento que M\u00e9xico e Cuba rejeitariam fazer parte do acordo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Num telegrama de 14 de fevereiro de 1978, a ONU alertava para a situa\u00e7\u00e3o de um militante argentino exilado no Brasil \u2013 identificado apenas como Bevacqua \u2013, detido na rua, em Porto Alegre, em uma verifica\u00e7\u00e3o de pap\u00e9is. Horas depois da pris\u00e3o, ele morreria. Informa\u00e7\u00f5es obtidas pela ONU com diplomatas americanos indicavam que a pol\u00edcia queria evitar a suspeita de assassinato. Duas aut\u00f3psias teriam sido feitas, mostrando que ele sofreu um &#8220;ataque card\u00edaco&#8221;.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O Acnur n\u00e3o confiava na informa\u00e7\u00e3o. &#8220;Outras fontes confi\u00e1veis expressaram d\u00favidas sobre essa vers\u00e3o (do ataque card\u00edaco), sugerindo que ele, um militante, possa ter se envenenado para evitar revelar fatos sob tortura&#8221;, apontava o telegrama.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O Acnur dizia que a a\u00e7\u00e3o ocorre no momento em que havia sinais de que o principal grupo de oposi\u00e7\u00e3o argentino, os Montoneros, tentava se reorganizar, usando o territ\u00f3rio brasileiro. Mas, diante desse incidente, a ONU tamb\u00e9m via outro fen\u00f4meno: &#8220;A intelig\u00eancia militar argentina est\u00e1 ativa no Brasil&#8221;.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>&#8220;Um nome que est\u00e1 sendo mencionado em particular \u00e9 o de um oficial da Marinha, conhecido como El Gato e que esteve em novembro no Uruguai, e que foi visto no Brasil recentemente&#8221;, informava a entidade.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Outra seria Silvina Labayru, ex-militante dos Montoneros, respons\u00e1vel pelo servi\u00e7o de intelig\u00eancia no grupo e que acabou passando para o lado da Junta Militar. &#8220;Ela agora responde \u00e0 Marinha argentina. Ela foi vista no Brasil.&#8221;<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Em 1.\u00ba de dezembro de 1978, um telegrama urgente do escrit\u00f3rio da ONU no Rio para Genebra alertava sobre o sequestro, em Porto Alegre, dos uruguaios Universindo Diaz e Lilian Celiberti e de dois filhos desta. Um relat\u00f3rio confidencial mostraria que os menores acabaram sendo levados de carro para o Uruguai, enquanto Lilian e Universindo seguiram para S\u00e3o Paulo \u2013 onde foram colocados em um avi\u00e3o que voou para Montevid\u00e9u.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Dias depois, o ex\u00e9rcito uruguaio publicaria um comunicado de imprensa dizendo que o casal fora preso depois de &#8220;cruzar ilegalmente a fronteira, com falsos documentos e levando literatura subversiva&#8221;. Um terceiro comunicado sustentava que eles estavam traficando armas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Emerg\u00eancia. Alarmada pela situa\u00e7\u00e3o, a ONU pediu uma reuni\u00e3o de emerg\u00eancia com o Itamaraty. Recebidos pelo embaixador Luis Lindberg Sette, diretor do Departamento de Organiza\u00e7\u00f5es Internacionais, os representantes da ONU apenas escutaram da diplomacia que o Brasil &#8220;lamentava&#8221; o incidente.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Meses depois, em outro telegrama, a ONU confirmava que os homens que invadiram o apartamento dos opositores uruguaios levaram 45 armas &#8220;reservada \u00e0s for\u00e7as brasileiras&#8221; e que o Dops teria participado do sequestro e envio dos quatro uruguaios para Montevid\u00e9u. Os regimes transformariam o apartamento em uma arapuca. &#8220;Opera\u00e7\u00f5es clandestinas da intelig\u00eancia uruguaia parecem continuar no Sul do Brasil para analisar e neutralizar o movimento de muitos uruguaios vivendo no ex\u00edlio&#8221;, indicava documento de junho de 1979.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Paulo Abr\u00e3o<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Acervo com relat\u00f3rios confidenciais, telegramas, cartas a ministros e informes de reuni\u00f5es que o Alto Comissariado da ONU para Refugiados (Acnur) reuniu sobre ditaduras na Am\u00e9rica do Sul confirmam que, pelo menos at\u00e9 1979, cidad\u00e3os argentinos, uruguaios, paraguaios e chilenos que buscaram ref\u00fagio em territ\u00f3rio brasileiro foram vigiados, amea\u00e7ados, detidos e devolvidos aos seus pa\u00edses [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2403"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2403"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2403\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2403"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2403"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2403"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}