{"id":25,"date":"2012-05-06T01:56:17","date_gmt":"2012-05-06T01:56:17","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/06\/corpos-de-presos-foram-incinerados-no-rio-de-janeiro-durante-ditadura\/"},"modified":"2012-05-06T01:56:17","modified_gmt":"2012-05-06T01:56:17","slug":"corpos-de-presos-foram-incinerados-no-rio-de-janeiro-durante-ditadura","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/06\/corpos-de-presos-foram-incinerados-no-rio-de-janeiro-durante-ditadura\/","title":{"rendered":"Corpos de presos foram incinerados no Rio de Janeiro durante Ditadura"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Agente da repress\u00e3o revela pela primeira vez que o regime militar incinerou os corpos de dez guerrilheiros em uma usina no Rio de Janeiro.\u00a0Entre a cruz e a espada O ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra e a usina Cambahyba,\u00a0 onde ele diz que incinerou cad\u00e1veres de presos pol\u00edticos: ter-se tornado evang\u00e9lico n\u00e3o o livra da lei e da justi\u00e7a dos homens.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-24\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Ditadura.jpg\" border=\"0\" width=\"240\" height=\"135\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A atual hist\u00f3ria pol\u00edtica do Brasil \u00e9 pr\u00f3diga em exemplos de que os crimes de tortura, assassinato e desaparecimento de corpos que a ditadura militar cometeu acabam em boa parte denunciados por aqueles que fizeram o trabalho sujo \u2013 \u00e9 o por\u00e3o a implodir o arranha-c\u00e9u do horror que se construiu com o golpe de 1964 e perdurou at\u00e9 a redemocratiza\u00e7\u00e3o em 1985. Foi assim com os cad\u00e1veres de guerrilheiros que se opuseram ao regime de exce\u00e7\u00e3o, enterrados em cemit\u00e9rios clandestinos \u2013 os agentes os sepultavam com nomes frios, mas escreviam nos laudos, com letra mi\u00fada, os nomes verdadeiros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi assim tamb\u00e9m nos pr\u00f3prios tribunais militares nos quais ju\u00edzes consignavam que o r\u00e9u fora torturado, embora n\u00e3o movessem um dedo contra isso. P\u00f4r tudo no papel e fazer valer o que est\u00e1 escrito faz parte da tradi\u00e7\u00e3o cartorial luso-brasileira. O livro \u201cMem\u00f3rias de uma Guerra Suja\u201d, que acaba de ser lan\u00e7ado, confirma em um ponto essa regra ao trazer na primeira pessoa o depoimento in\u00e9dito, surpreendente e estarrecedor do ex-delegado da repress\u00e3o Cl\u00e1udio Guerra. Ele revela que houve no Brasil uma esp\u00e9cie de campo de Auschwitz (refer\u00eancia ao mais famoso campo nazista de exterm\u00ednio e crema\u00e7\u00e3o de judeus) onde corpos de guerrilheiros mortos sob tortura em S\u00e3o Paulo e no Rio e Janeiro foram incinerados.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em outro ponto, no entanto, o da tradi\u00e7\u00e3o de que tudo se escreve, Guerra, 71 anos, quebra a regra: n\u00e3o anotou absolutamente nada e, assim, a den\u00fancia que faz se baseia em sua mem\u00f3ria e em sua palavra. \u201cEle \u00e9 o mais importante dos agentes da repress\u00e3o que falaram at\u00e9 agora, e, de fato, tem informa\u00e7\u00e3o\u201d, disse \u00e0 ISTO\u00c9 o ex-deputado e um dos mais atuantes advogados de ex-presos pol\u00edticos Luiz Eduardo Greenhalgh. \u201cE esse tamb\u00e9m \u00e9 o momento mais importante para algu\u00e9m falar porque a Comiss\u00e3o da Verdade est\u00e1 prestes a funcionar.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 quase quatro d\u00e9cadas familiares e organiza\u00e7\u00f5es de direitos humanos trabalham para descobrir os corpos, por exemplo, de David Capistrano da Costa, dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB), e Ana Rosa Kucinski Silva, militante da A\u00e7\u00e3o Libertadora Nacional (ALN). \u00c9 o ex-delegado quem agora afirma: \u201cN\u00e3o adianta procurar, eles foram incinerados.\u201d Por quem? Pelo pr\u00f3prio depoente. O mesmo fim, segundo o livro de autoria dos jornalistas Marcelo Netto e Rog\u00e9rio Medeiros, tiveram, entre outros, os cad\u00e1veres de Wilson Silva, Jo\u00e3o Massena Mello, Jos\u00e9 Roman e Joaquim Cerveira.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O forno do Auschwitz da ditadura, de acordo com Guerra, funcionou a partir de 1973 na usina de a\u00e7\u00facar Cambahyba, com a anu\u00eancia de seu ex-propriet\u00e1rio, o ent\u00e3o vice-governador do Rio de Janeiro Heli Ribeiro. Localizava-se em Campos dos Goytacazes. Diz Guerra: \u201cEu me lembro muito bem de um casal, Ana Rosa Kucinski Silva e Wilson Silva (&#8230;) Eu e o sargento Levy, do DOI&#8230; fomos levar seus corpos \u00e0 usina. A mulher apresentava muitas marcas de mordidas pelo corpo, talvez por ter sido violentada sexualmente. Wilson n\u00e3o tinha as unhas da m\u00e3o direita. Tudo leva a crer que tinham sido torturados.\u201d Sobre Capistrano e Massena, assim est\u00e1 na obra: \u201cEu me lembro bem de dois senhores que peguei na Casa da Morte e levei para a incinera\u00e7\u00e3o na usina. Um deles me marcou muito, porque lhe haviam arrancado a m\u00e3o direita (&#8230;) resultado de tortura impiedosa. O outro homem (&#8230;) era David Capistrano.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Dirigente hist\u00f3rico do PCB e ex-combatente da Resist\u00eancia francesa na Segunda Guerra Mundial, Capistrano desapareceu nas m\u00e3os da repress\u00e3o em 1974. Sabe-se concretamente que foi preso no centro de S\u00e3o Paulo (rua 24 de Maio) e hipoteticamente que teria sido morto no Dops, ou no Manic\u00f4mio Judici\u00e1rio, ou ainda no Hospital Juqueri (ambos na cidade de Franco da Rocha).<\/p>\n<p class=\"p1\">Refor\u00e7a a tese de incinera\u00e7\u00e3o apresentada por Guerra o fato de o corpo ter sido exaustivamente procurado e nunca localizado. Enfraquece-a, no entanto, outro ponto: o fato de Guerra (assim como informantes anteriores) n\u00e3o apresentar nenhuma prova al\u00e9m de dizer \u201cera David Capistrano\u201d. \u201cTodas as informa\u00e7\u00f5es devem ser levadas em considera\u00e7\u00e3o, mas elas t\u00eam de ser rigorosamente investigadas\u201d, diz Greenhalgh. \u201cMuitos j\u00e1 deram contrainforma\u00e7\u00f5es.\u201d \u201cEsse Cl\u00e1udio Guerra \u00e9 um doido\u201d, disse \u00e0 ISTO\u00c9 Maria Cec\u00edlia Gomes, filha do ex-propriet\u00e1rio da usina. \u201cNossa fam\u00edlia vai acionar a Justi\u00e7a contra esse ex-delegado. Vai ter de provar o que falou.\u201d Irm\u00e3o de Ana Rosa, o escritor Bernardo Kucinski chega a considerar que o objetivo de Guerra pode ser o de \u201cafrouxar as buscas pelos restos mortais dos desaparecidos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se Guerra presta um servi\u00e7o ou desservi\u00e7o \u00e0 hist\u00f3ria, isso o futuro dir\u00e1. No presente, por\u00e9m, as suas revela\u00e7\u00f5es t\u00eam de ser consideradas. Isso no plano social. No campo individual, elas at\u00e9 podem aplacar a sua consci\u00eancia, como ele pr\u00f3prio justifica, uma vez que se tornou evang\u00e9lico quando esteve preso por liga\u00e7\u00e3o com o crime organizado no Esp\u00edrito Santo, mas n\u00e3o amenizar\u00e1 a possibilidade de ser imediatamente processado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico por oculta\u00e7\u00e3o e vilip\u00eandio de cad\u00e1ver \u2013 apenas a sua palavra de que n\u00e3o adianta mais procurar pelos corpos de Ana Rosa e Capistrano n\u00e3o o livra de responder pelo crime imprescrit\u00edvel de sequestro continuado, como determinou o STF.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO livro trata de pessoas incineradas. Depois da tortura, n\u00e3o sobrou mais nada. \u00c9 terr\u00edvel\u201d, disse \u00e0 ISTO\u00c9 Marcelo Netto. \u201cForam tr\u00eas anos para escrev\u00ea-lo, entre convencimento, entrevistas e reda\u00e7\u00e3o.\u201d Tamb\u00e9m \u00e0 ISTO\u00c9, Rog\u00e9rio Medeiros declarou que \u201cfoi Perly Cipriano, ex-subsecret\u00e1rio de Direitos Humanos no governo de Lula, quem convenceu o ex-delegado a dar seu depoimento\u201d. No atual governo federal leram o livro em primeira m\u00e3o a presidenta da Rep\u00fablica, Dilma Rousseff, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Ros\u00e1rio, e o ministro da Justi\u00e7a, Jos\u00e9 Eduardo Cardozo. Sabe-se que a presidenta o considerou uma pe\u00e7a hist\u00f3rica importante para o estabelecimento da verdade sobre a morte e o desaparecimento de cidad\u00e3os durante o mais obscurantista per\u00edodo da vida pol\u00edtica brasileira.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Rond\u00f4nia Din\u00e2mica<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agente da repress\u00e3o revela pela primeira vez que o regime militar incinerou os corpos de dez guerrilheiros em uma usina no Rio de Janeiro.\u00a0Entre a cruz e a espada O ex-delegado Cl\u00e1udio Guerra e a usina Cambahyba,\u00a0 onde ele diz que incinerou cad\u00e1veres de presos pol\u00edticos: ter-se tornado evang\u00e9lico n\u00e3o o livra da lei e [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=25"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/25\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=25"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=25"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=25"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}