{"id":2513,"date":"2012-10-08T13:16:31","date_gmt":"2012-10-08T13:16:31","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/08\/a-anistia-no-brasil-e-a-construcao-do-esquecimento-2\/"},"modified":"2012-10-08T13:16:31","modified_gmt":"2012-10-08T13:16:31","slug":"a-anistia-no-brasil-e-a-construcao-do-esquecimento-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/08\/a-anistia-no-brasil-e-a-construcao-do-esquecimento-2\/","title":{"rendered":"A anistia no Brasil e a constru\u00e7\u00e3o do esquecimento"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em entrevista \u00e0 Carta Maior, a historiadora Caroline Silveira Bauer, autora de uma pesquisa premiada sobre os aparatos de repress\u00e3o das ditaduras do Brasil e da Argentina, desaparecimentos e pol\u00edticas de mem\u00f3ria, fala sobre seu trabalho e analisa o longo processo da transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil e a ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o que tem impacto no pa\u00eds at\u00e9 hoje. O processo de anistia no Brasil, defende, n\u00e3o propiciou uma verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o, mas sim criou um mito, uma ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o baseada no esquecimento.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2428\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/foto_mat_38165.jpg\" border=\"0\" width=\"150\" height=\"190\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O processo de anistia no Brasil n\u00e3o propiciou uma verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o, mas sim criou um mito, uma ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o, segundo a qual o melhor para a sociedade brasileira seria seguir adiante e esquecer o que aconteceu, sem nenhum tipo de avalia\u00e7\u00e3o daquilo que foi feito. Assim, ao inv\u00e9s de meramente propiciar um perd\u00e3o penal, ela veio acompanhada de um elemento extra que foi a constru\u00e7\u00e3o do esquecimento. A avalia\u00e7\u00e3o \u00e9 da historiadora Caroline Silveira Bauer, autora do livro \u201cBrasil e Argentina: Ditaduras, Desaparecimentos e Pol\u00edticas de Mem\u00f3ria\u201d (uma publica\u00e7\u00e3o conjunta da Editora Medianiz e da Associa\u00e7\u00e3o Nacional da Hist\u00f3ria), resultado de sua tese de doutorado pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e pela Universidade de Barcelona, vencedora do concurso da Associa\u00e7\u00e3o Nacional de Hist\u00f3ria\/Se\u00e7\u00e3o Rio Grande do Sul (ANPUH-RS).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"> <br \/> <\/span>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, Caroline Bauer fala sobre sua pesquisa documental sobre os arquivos repressivos de Brasil e Argentina, com foco na quest\u00e3o dos desaparecidos pol\u00edticos. Al\u00e9m disso, analisa o processo da transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil e a ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o que tem impacto no pa\u00eds at\u00e9 hoje. E relata, por fim, um pouco de seu trabalho no Grupo de Trabalho Araguaia da Comiss\u00e3o Especial sobre Mortos e Desaparecidos da Secretaria de Direitos Humanos da Presid\u00eancia da Rep\u00fablica.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>Carta Maior: O seu livro apresenta in\u00fameros elementos rejeitando a ideia de que o que houve no Brasil foi uma \u201cditabranda\u201d e que a ditadura na Argentina, por exemplo, teria sido \u201cmuito mais ditadura\u201d. H\u00e1, na sua avalia\u00e7\u00e3o diferen\u00e7as qualitativas entre as ditaduras que infestaram o Cone Sul na segunda metade do s\u00e9culo XX?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Caroline Bauer:<\/strong> Sim, existem diferen\u00e7as qualitativas entre elas, determinadas tanto pela sua cronologia quanto por seus objetivos. Embora elas tenham um objetivo comum que \u00e9 o \u201ccombate \u00e0 subvers\u00e3o\u201d, mesmo que essa \u201csubvers\u00e3o\u201d n\u00e3o seja algo muito bem definido, elas t\u00eam diferen\u00e7as importantes. A ditadura brasileira, por exemplo, \u00e9 a primeira ditadura do per\u00edodo e muitas das coisas que s\u00e3o feitas nela s\u00e3o experimenta\u00e7\u00f5es, na Am\u00e9rica Latina, de algumas pr\u00e1ticas que estavam ocorrendo em outros lugares do mundo. Na ditadura que come\u00e7a em 1976, na Argentina, essas experimenta\u00e7\u00f5es j\u00e1 t\u00eam um resultado que n\u00e3o \u00e9 necessariamente positivo. Na avalia\u00e7\u00e3o dos generais argentinos, pelo curto prazo que tem para agir, eles n\u00e3o podem levar adiante uma pol\u00edtica repressiva como a brasileira, onde existe muita tortura na pr\u00e1tica do interrogat\u00f3rio e muita avidez na coleta de informa\u00e7\u00f5es. Eles tamb\u00e9m avaliam que n\u00e3o podem fazer o que foi feito no Chile, onde ocorreu um exterm\u00ednio em massa nos primeiros meses ap\u00f3s o golpe, com uma forte repercuss\u00e3o internacional. Assim, uma ditadura vai coletando experi\u00eancias das outras e configurando diferen\u00e7as entre elas. Isso n\u00e3o autoriza nenhum tipo de argumento dizendo que houve uma ditadura pior e outra \u201cmais branda\u201d. N\u00e3o existe um metro para esse tipo de repress\u00e3o.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Quais foram exatamente esses experimentos da ditadura brasileira?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> Em primeiro lugar, tomar o interrogat\u00f3rio como uma pr\u00e1tica que vai sendo estudada e incrementada com a forma\u00e7\u00e3o de oficiais brasileiros nas escolas norteamericanas e francesas. Al\u00e9m disso, vai se formando uma ideologia militar onde os civis s\u00e3o considerados inaptos para o desenvolvimento de uma pol\u00edtica dentro de um clima de guerra fria. Com isso, ocorre uma militariza\u00e7\u00e3o das estruturas do Estado, o que n\u00e3o tinha aparecido muito nos golpes anteriores no Brasil.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: O que resultou do \u201cbalan\u00e7o\u201d que os militares argentinos fizeram das experi\u00eancias das ditaduras brasileira e chilena? A pr\u00e1tica <span class=\"s1\"><br \/> <\/span>dos \u201cdesaparecimentos\u201d foi uma esp\u00e9cie de s\u00edntese desse balan\u00e7o que n\u00e3o queria longos interrogat\u00f3rios nem exterm\u00ednios expl\u00edcitos?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> Sobre isso \u00e9 preciso lembrar que, no contexto internacional, h\u00e1 uma mudan\u00e7a muito forte dentro da pol\u00edtica norteamericana, inclusive da sua rela\u00e7\u00e3o com a Am\u00e9rica Latina, com a elei\u00e7\u00e3o de Jimmy Carter. H\u00e1 uma pressa maior na execu\u00e7\u00e3o de certas a\u00e7\u00f5es em fun\u00e7\u00e3o da revaloriza\u00e7\u00e3o do tema dos direitos humanos. Isso fica muito claro em um <a href=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/19760610%20Memorandum%20of%20Conversation%20clean.pdf\">documento desclassificado dos Estados Unidos<\/a> que mostra uma conversa entre o ent\u00e3o secret\u00e1rio de Estado, Henry Kissinger, e o ministro de Rela\u00e7\u00f5es Exteriores argentino, Cesar Augusto Guzzetti, onde o primeiro recomenda que se h\u00e1 \u201calgo a ser feito\u201d que \u201cseja feito rapidamente\u201d. Essa \u00e9 a express\u00e3o que \u00e9 utilizada: \u201cfa\u00e7amos o que precisa ser feito de uma maneira muito r\u00e1pida\u201d. Em fun\u00e7\u00e3o dessa pressa, dessa urg\u00eancia de \u201cfazer o que precisa ser feito\u201d, adota-se a \u201csolu\u00e7\u00e3o final\u201d que \u00e9 a pr\u00e1tica massiva de desaparecimentos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ao contr\u00e1rio do exterm\u00ednio aberto que ocorreu no Chile, essa pr\u00e1tica tem um impacto que se restringe muito ao entorno das pessoas, mas n\u00e3o h\u00e1 imagens de fuzilamentos, de pris\u00e3o em massa de pessoas. Todo o esquema repressivo \u00e9 montado na clandestinidade, suas a\u00e7\u00f5es ocorrem preferencialmente de noite e de madrugada, antes das a\u00e7\u00f5es se apagam as luzes do bairro. H\u00e1 toda uma ideia para que aquilo aconte\u00e7a e a pessoa passe a n\u00e3o existir mais. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Al\u00e9m da quest\u00e3o da conjuntura internacional, com a vit\u00f3ria de Carter nos EUA, esse processo repressivo na Argentina ocorre quando o Brasil j\u00e1 se encaminha para uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica. E o Brasil, no contexto da geopol\u00edtica regional, se encaminhando para uma transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, no per\u00edodo entre 1976 e 1977, representa algo preocupante para os outros pa\u00edses. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Parece haver ent\u00e3o um fio condutor que aponta para a evolu\u00e7\u00e3o das pr\u00e1ticas repressivas na regi\u00e3o. Uma ditadura foi avaliando a experi\u00eancia da outra..<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Sem d\u00favida. Essa \u00e9 uma forma de contar a hist\u00f3ria das ditaduras de uma maneira regional, que n\u00e3o seja focada em casos separados. As ditaduras no Brasil, Argentina, Chile e Uruguai s\u00e3o pensadas conjuntamente no contexto da regi\u00e3o. Assim, \u00e9 poss\u00edvel ver os elementos de continuidade, as mudan\u00e7as e o que vai sendo adaptado dentro das coordenadas que foram regionais.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Os argumentos dos defensores da chamada \u201ctransi\u00e7\u00e3o conciliada\u201d no Brasil est\u00e3o vivos at\u00e9 hoje, inclusive em manifesta\u00e7\u00f5es de ju\u00edzes do Supremo Tribunal Federal, como voc\u00ea mostra em seu livro (voto do ministro Marco Aur\u00e9lio Mello, em 2008, contra a extradi\u00e7\u00e3o do repressor uruguaio Manuel Juan Cordero Piacentini, na base de uma defesa da necessidade de \u201cvirar a p\u00e1gina\u201d e \u201cn\u00e3o reabrir feridas\u201d). De que modo, na sua avalia\u00e7\u00e3o, o tipo de transi\u00e7\u00e3o que houve no Brasil ainda impacta o presente pol\u00edtico no pa\u00eds? Esse impacto se concentra no debate sobre a anistia pol\u00edtica ou est\u00e1 entranhado institucionalmente nas estruturas do Estado?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> Esse impacto n\u00e3o se resume ao tema da anistia pol\u00edtica, mas esse tema \u00e9 importante para se entender essa forma de transi\u00e7\u00e3o constru\u00edda no Brasil. Ela n\u00e3o \u00e9 restrita basicamente \u00e0 anistia porque h\u00e1 outros elementos dessa transi\u00e7\u00e3o que ainda est\u00e3o presentes na pol\u00edtica brasileira, incluindo as pr\u00f3prias pessoas. Um dos problemas dessa transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica est\u00e1 ligado \u00e0 chamada sanitiza\u00e7\u00e3o do Estado, ou seja, a necessidade de afastar do Estado todos aqueles elementos que estavam vinculados ao regime ditatorial anterior. Ao olharmos para a forma pela qual foi conduzida a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil, percebemos a exist\u00eancia de um movimento camale\u00f4nico de pessoas que deixam de ser os apoiadores da ditadura para se tornarem os defensores da democracia. O Estado continua com a presen\u00e7a dessas pessoas nas suas estruturas. As pr\u00f3prias estruturas repressivas tamb\u00e9m continuam intactas durante um longo tempo. Elas v\u00e3o come\u00e7ar a ser desmontadas no in\u00edcio da d\u00e9cada de 90.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Especificamente com a anistia, o que considero muito interessante para entender essa quest\u00e3o da concilia\u00e7\u00e3o que aparece muito nas falas em defesa da anistia at\u00e9 hoje, \u00e9 esse mito de que a anistia veio com a ideia de reconciliar os dois lados. A pr\u00e1tica da reconcilia\u00e7\u00e3o, apesar de ser muito v\u00e1lida, n\u00e3o pressup\u00f5e esquecimento. Quando voc\u00ea tem esquecimento, n\u00e3o consegue uma verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o. A anistia propiciou n\u00e3o uma verdadeira reconcilia\u00e7\u00e3o, mas sim criou um mito, uma ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o, onde o melhor para a sociedade brasileira seria seguir adiante e esquecer o que aconteceu, sem nenhum tipo de avalia\u00e7\u00e3o daquilo que foi feito. E foi exatamente isso que aconteceu com a anistia no Brasil. Ao inv\u00e9s dela propiciar um perd\u00e3o penal, ela veio acompanhada de um elemento extra que foi a constru\u00e7\u00e3o do esquecimento. A anistia n\u00e3o tem absolutamente nada a ver com n\u00e3o conhecer, com esquecer.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Em seu voto contra a extradi\u00e7\u00e3o de Cordero, em 2008, o juiz Marco Aur\u00e9lio Mello, fala que acredita em \u201cvirada de p\u00e1gina\u201d e em \u201cesperan\u00e7a\u201d, como se as duas coisas n\u00e3o fossem contradit\u00f3rias no contexto em quest\u00e3o. O que parece ter havido, de fato, foi uma \u201cvirada de p\u00e1gina\u201d e n\u00e3o uma reconcilia\u00e7\u00e3o&#8230;<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Exatamente. O que ocorreu n\u00e3o foi a anistia desejada pelos movimentos que lutavam por ela. Mas se consolidou a ideia de que ela foi leg\u00edtima porque existia um grande clamor social pela anistia. A grande dificuldade de lidar com isso \u00e9, inclusive, acreditar que esse debate, esse enfrentamento que a anistia procurou apaziguar, \u00e9 ruim para a sociedade. Do meu ponto de vista n\u00e3o \u00e9. Esse debate precisa ser feito e precisa ser esclarecido. \u00c9 necess\u00e1rio descontruir os mitos da concilia\u00e7\u00e3o e da reconcilia\u00e7\u00e3o e, principalmente, falar sobre esquecimento. As leis s\u00e3o feitas pelos homens, elas n\u00e3o s\u00e3o divinas. Ent\u00e3o, se os homens, em determinadas conjunturas, fizeram certas leis, elas podem ser questionadas em outras conjunturas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Com todos os limites que enfrenta, a Comiss\u00e3o da Verdade rompe com essa l\u00f3gica do esquecimento. Para come\u00e7o de conversa, volta-se a falar sobre o assunto. Al\u00e9m disso, ela delimitou melhor o foco de suas investiga\u00e7\u00f5es, concentrando-se sobre os crimes cometidos por agentes do Estado. Qual sua expectativa em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Comiss\u00e3o? \u00c9 otimista ou pessimista? At\u00e9 onde ela pode ir?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Em primeiro lugar, toda Comiss\u00e3o da Verdade \u00e9 uma iniciativa v\u00e1lida e muito importante, inclusive porque ela fez com que despertassem e ganhassem maior visibilidade alguns movimentos sociais que eram muito restritos e tinham um alcance muito pequeno. Isso, por si s\u00f3, j\u00e1 foi uma grande contribui\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade. A minha expectativa, do ponto de vista do seu resultado final, \u00e9 que ela n\u00e3o somente reveja os casos que j\u00e1 foram vistos pela Comiss\u00e3o da Anistia e pela Comiss\u00e3o dos Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos, ou que elucide novos casos, mas sim que vers\u00e3o da hist\u00f3ria a Comiss\u00e3o da Verdade vai escrever sobre a ditadura civil-militar no Brasil. Querendo ou n\u00e3o, daqui a dois anos, quando se encerrarem os trabalhos da Comiss\u00e3o, essa vai ser a vers\u00e3o oficial sobre a ditadura. Preocupa-me muito qual \u00e9 a vis\u00e3o que o Estado vai assumir a partir disso. Dependendo do trabalho que a Comiss\u00e3o da Verdade fizer, os governos, ao assumirem esse resultado como um discurso de Estado, ter\u00e3o que mudar suas pr\u00e1ticas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 viol\u00eancia policial dos dias de hoje, ter\u00e3o que combater muito mais fortemente a tortura, valorizar muito mais os direitos humanos. Ainda \u00e9 cedo para falar, pois a Comiss\u00e3o est\u00e1 come\u00e7ando a trabalhar, mas minha principal preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 essa: qual \u00e9 o relato hist\u00f3rico que vai ficar do per\u00edodo ditatorial?<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: At\u00e9 aqui, os trabalhos da Comiss\u00e3o da Verdade t\u00eam pouca cobertura midi\u00e1tica. Muitas das grandes empresas de comunica\u00e7\u00e3o no pa\u00eds t\u00eam uma hist\u00f3ria de boas rela\u00e7\u00f5es com a ditadura. Esse tamb\u00e9m \u00e9 um peda\u00e7o da nossa hist\u00f3ria que ainda precisa ser melhor contado. Na sua avalia\u00e7\u00e3o, esse fator midi\u00e1tico pode representar um obst\u00e1culo para a constru\u00e7\u00e3o de um debate nacional sobre o per\u00edodo da ditadura?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Acho que sim. Mas acredito que, \u00e0 medida que iniciarem os trabalhos propriamente ditos da Comiss\u00e3o da Verdade, talvez isso mude um pouco. Dentro da metodologia que foi divulgada h\u00e1 audi\u00eancias p\u00fablicas marcadas nos diversos estados, onde pessoas que foram v\u00edtimas da repress\u00e3o dar\u00e3o depoimentos. Apesar de alguns desses relatos j\u00e1 serem conhecidos, pela primeira vez isso ocorrer\u00e1 em um ato p\u00fablico. Talvez isso gere um outro tipo de repercuss\u00e3o. Agora, \u00e9 \u00f3bvio, a nossa m\u00eddia tem muitas liga\u00e7\u00f5es com a ditadura e esse tema inclusive faz parte de um dos grupos de trabalho da pr\u00f3pria comiss\u00e3o, sobretudo no que diz respeito \u00e0s liga\u00e7\u00f5es financeiras da ditadura com grandes grupos empresariais. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Agora, do ponto de vista do debate na sociedade, h\u00e1 um fen\u00f4meno novo acontecendo no Brasil, que \u00e9 o surgimento de uma gera\u00e7\u00e3o muito interessada no tema da ditadura. Temos movimentos como o Levante Popular da Juventude, comiss\u00f5es estaduais e comit\u00eas populares surgindo por todo canto, dispostos a auxiliar os trabalhos da Comiss\u00e3o da Verdade. <span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> Isso j\u00e1 aconteceu em alguns outros pa\u00edses, inclusive na Europa, ap\u00f3s regimes autorit\u00e1rios e totalit\u00e1rios. Diz-se que \u00e9 necess\u00e1rio o surgimento de uma segunda gera\u00e7\u00e3o depois dos fatos, pois a primeira gera\u00e7\u00e3o ainda est\u00e1 muito afetada pelo medo e de sua pr\u00f3pria educa\u00e7\u00e3o dentro de um regime ditatorial. Por isso, \u00e9 preciso que venha uma segunda gera\u00e7\u00e3o para que surjam novos questionamentos e novas formula\u00e7\u00f5es. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Pode ser que seja isso que esteja acontecendo agora no Brasil: o surgimento de uma segunda gera\u00e7\u00e3o que passou a compreender que boa parte dos problemas que se vivencia no presente tem liga\u00e7\u00f5es com esse passado mal resolvido da ditadura, com esse passado que n\u00e3o passa, e quer discutir inclusive que democracia \u00e9 essa que estamos vivendo. Os comit\u00eas populares e estaduais que est\u00e3o sendo criados, o Levante que se espalhou pelo pa\u00eds inteiro com seus escrachos, s\u00e3o movimentos predominantemente de jovens que foram acolhidos pelos familiares de mortos e desaparecidos pol\u00edticos. Ent\u00e3o, a gente v\u00ea muitos familiares participando desses movimentos com a renova\u00e7\u00e3o de uma esperan\u00e7a. <span class=\"s1\"><br \/> <\/span>As fam\u00edlias estavam muito isoladas nessa luta. Sempre estiveram muito isoladas. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a importante em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de familiares de mortos e desaparecidos em outros pa\u00edses. Enquanto em pa\u00edses como a Argentina, os familiares s\u00e3o socialmente reconhecidos, aceitos e legitimados, no Brasil ningu\u00e9m sabe quem s\u00e3o esses familiares.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Na sua opini\u00e3o, houve uma mudan\u00e7a qualitativa na ideologia dominante nas for\u00e7as armadas brasileiras depois da ditadura ou continuam pensando mais ou menos da mesma maneira e est\u00e3o quietas por que reconhecem que mudou a conjuntura?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Na minha opini\u00e3o \u00e9 mais o segundo ponto. Eles continuam com suas convic\u00e7\u00f5es e ideias, mas institucionalmente reconhecem que hoje est\u00e3o subordinados a um poder civil e que n\u00e3o possuem mais um espa\u00e7o de legitimidade t\u00e3o grande quanto tinham para proferir sua vers\u00e3o da hist\u00f3ria. H\u00e1 uma diferen\u00e7a entre ter uma vers\u00e3o da hist\u00f3ria e continuar tendo as mesmas pr\u00e1ticas que se tinha. Isso mudou um pouco dentro das for\u00e7as armadas e a perspectiva \u00e9 que continue mudando. Segundo a senten\u00e7a da Corte Interamericana, o Brasil \u00e9 obrigado a implantar cursos de direitos humanos dentro das for\u00e7as armadas. Isso ainda n\u00e3o come\u00e7ou a ser feito, mas est\u00e1 na pauta.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>No trabalho da Comiss\u00e3o de Mortos e Desaparecidos, convivendo com os militares no Araguaia, quando eles eram questionados sobre os temas da tortura e da ditadura, eles diziam duas coisas. Em primeiro lugar, que n\u00e3o existia espa\u00e7o para debate sobre esses temas dentro da institui\u00e7\u00e3o, ou seja, n\u00e3o era algo que os oficiais superiores comentavam com os soldados. Em segundo, que acreditavam que, enquanto soldados, precisavam de momentos mais duros e repressivos, uma vez que estavam envolvidos em uma situa\u00e7\u00e3o de guerra. \u00c9 muito dif\u00edcil lidar com uma institui\u00e7\u00e3o que est\u00e1 voltada para a guerra e conciliar isso com a defesa dos direitos humanos.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Houve alguma mudan\u00e7a de doutrina na forma\u00e7\u00e3o dos oficiais brasileiros, alguma esp\u00e9cie de \u201creforma curricular\u201d em seus cursos de forma\u00e7\u00e3o?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Sim, houve uma mudan\u00e7a curricular at\u00e9 porque a l\u00f3gica anterior estava muito ligada ao clima de bipolaridade da guerra fria. N\u00e3o tenho conhecimento suficiente para dizer se houve uma mudan\u00e7a ideol\u00f3gica dentro da forma\u00e7\u00e3o. Mas, dentro do que conhe\u00e7o, se continua ensinando, por exemplo, em Manaus, curso de guerrilha na selva. Ou seja, o mesmo curso que era ministrado em 1973-1974 para os oficiais que eram enviados para o Araguaia continua em vigor, inclusive recebendo pessoal de Israel e de outros pa\u00edses para fazer forma\u00e7\u00e3o.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Voc\u00ea trabalhou durante um na Comiss\u00e3o sobre Mortos e Desaparecidos. Poderia falar um pouco sobre esse trabalho? Qual \u00e9 o trabalho que essa Comiss\u00e3o realiza hoje?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> A Comiss\u00e3o sobre Mortos e Desaparecidos Pol\u00edticos foi criada em 1995, por meio da lei 9.140. Essa lei reconheceu 136 desaparecidos por responsabilidade do Estado e instituiu uma comiss\u00e3o para analisar novos casos. A comiss\u00e3o surgiu ent\u00e3o dessa institui\u00e7\u00e3o e conseguiu levantar aproximadamente 300 casos somados a esses 136. A fun\u00e7\u00e3o dela propriamente dita era fazer o levantamento sobre a circunst\u00e2ncia dessas mortes, garantir o direito \u00e0 mem\u00f3ria e \u00e0 verdade \u00e0s fam\u00edlias, recuperando suas hist\u00f3rias e fazendo o pagamento das indeniza\u00e7\u00f5es. Quase todos os casos j\u00e1 foram julgados. Tem apenas um ou dois casos que ainda est\u00e3o em tramita\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, o trabalho da comiss\u00e3o, tal como definido pela lei, j\u00e1 est\u00e1 praticamente encerrado. A partir desse encerramento, que aconteceu ainda em 2007, a comiss\u00e3o se voltou para um segundo objetivo que foi a busca, localiza\u00e7\u00e3o e identifica\u00e7\u00e3o dos restos mortais. Foram abertas frentes de trabalho em diversas \u00e1reas, como na Vala de Perus, na Casa da Morte em Petr\u00f3polis, no Araguaia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: E esse trabalho prossegue?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>Sim. Em rela\u00e7\u00e3o ao Araguaia, por exemplo, ele s\u00f3 se encerra quando forem encontrados todos os corpos. A gente n\u00e3o sabe exatamente quantas pessoas da regi\u00e3o se incorporaram \u00e0 guerrilha e s\u00e3o consideradas desparecidas. H\u00e1 um levantamento de casos que ainda est\u00e1 sendo feito. Segundo a senten\u00e7a da Corte Interamericana, est\u00e3o sendo buscados os corpos de 71 pessoas. At\u00e9 agora foram encontradas duas: a Maria Lucia Petit, em 1996, e o Bergson Gurj\u00e3o Farias, em 2009. As primeiras expedi\u00e7\u00f5es ao Araguaia come\u00e7aram com os familiares no in\u00edcio da d\u00e9cada de 80. O trabalho do GT Araguaia da Comiss\u00e3o come\u00e7ou em 2011, dando continuidade ao trabalho do GT Tocantins, que era do Minist\u00e9rio da Defesa e que iniciou em 2008. H\u00e1 uma s\u00e9rie de outras ossadas que j\u00e1 foram recolhidas e que est\u00e3o aguardando an\u00e1lise. Existem problemas para a identifica\u00e7\u00e3o. Com a passagem do tempo, muitas ossadas j\u00e1 perderam seu material gen\u00e9tico e se tornaram minerais, impedindo a extra\u00e7\u00e3o de DNA pela tecnologia existente hoje. Em outros casos, h\u00e1 uma dificuldade para conseguir cruzar os dados e encontrar informa\u00e7\u00f5es que levem \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o. H\u00e1 familiares que n\u00e3o disponibilizaram material gen\u00e9tico. Ent\u00e3o, \u00e9 um processo lento.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Os militares participam desse trabalho de busca dos corpos?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB:<\/strong> Sim. O Minist\u00e9rio da Defesa participa institucionalmente do grupo de trabalho Araguaia. Nos trabalhos realizados em campo, o trabalho da log\u00edstica \u00e9 feito pelo batalh\u00e3o de infantaria da regi\u00e3o de Marab\u00e1. Esse trabalho log\u00edstico envolve deslocamento, aluguel de hot\u00e9is, disponibiliza\u00e7\u00e3o de helic\u00f3pteros, entre outras coisas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: E quanto a informa\u00e7\u00f5es sobre a poss\u00edvel localiza\u00e7\u00e3o dos corpos? Os militares n\u00e3o anotaram em algum caderno onde foram enterrados os corpos (se \u00e9 que foram)?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span><\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>A gente sonha muito em encontrar esse &#8220;caderno&#8221;. O grupo de trabalho Tocantins levou a campo, algumas vezes, militares combatentes do Araguaia para ajudar no reconhecimento do terreno. Alguns disseram que ocorreu uma mudan\u00e7a geogr\u00e1fica no entorno, que havia bastante mata que n\u00e3o existe mais, o que impedia o reconhecimento. Outros, quando chegam \u00e0 regi\u00e3o, sofrem uma amn\u00e9sia meio inexplic\u00e1vel. Lembram tudo at\u00e9 chegar \u00e0 regi\u00e3o. Quando chegam, esquecem bastante o que aconteceu por l\u00e1. Mas eles forneceram importantes sobre a localiza\u00e7\u00e3o de bases militares, sobre como era o transporte das tropas e sobre a pr\u00f3pria a\u00e7\u00e3o repressiva, que, j\u00e1 sabe, era muito compartimentada. Havia uma equipe que fazia a captura, outra que fazia o recolhimento dos capturados, outra que fazia a entrega, outra que fazia o interrogat\u00f3rio e assim por diante. Isso gera uma dilui\u00e7\u00e3o de responsabilidade muito grande e uma segmenta\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o. Uma equipe n\u00e3o tinha informa\u00e7\u00f5es sobre o que a outra fazia. <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>N\u00f3s sabemos, pelo relato de ex-mateiros, ex-guias do Ex\u00e9rcito, que a maioria dos guerrilheiros desaparecidos, foi feita prisioneira. Eles lembram deles presos em v\u00e1rias bases militares, antes de desaparecerem.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span><strong>CM: Qual foi o ponto de partida de sua pesquisa de doutorado e qual o ponto de chegada que resultou neste livro sobre as ditaduras no Brasil e na Argentina, desaparecimentos e pol\u00edticas de mem\u00f3ria?<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>CB: <\/strong>O trabalho come\u00e7ou com um sentimento de inquietude com essa ideia de que a ditadura no Brasil foi diferente. Eu frequentava muitas palestras sobre o tema, ouvia depoimentos de familiares e pensava: n\u00e3o foi diferente. Os relatos s\u00e3o muito familiares com os de outros pa\u00edses. Por que, afinal, \u00e9 que seria diferente? Foi a partir desse sentimento, que comecei a pesquisar a repress\u00e3o em outros pa\u00edses. Incomodava-me muito tamb\u00e9m o chamado argumento num\u00e9rico que diz: na Argentina houve 30 mil mortos, qualquer outro caso pode ser relativizado. Nunca aceitei isso. Como \u00e9 que se mede isso? Qual \u00e9 a unidade de medida? N\u00e3o era, e n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de mais ou menos. A quest\u00e3o \u00e9 que existe no Brasil uma estrutura que, se for necess\u00e1rio, vai matar 30 mil, 60 mil ou 90 mil.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Depois eu fui fazer um est\u00e1gio em Barcelona, onde tomei contato com essas investiga\u00e7\u00f5es a respeito de pol\u00edticas de mem\u00f3ria. Estudei como hoje em dia os governos democr\u00e1ticos estavam pensando os passados ditatoriais e o que estavam fazendo como forma de repara\u00e7\u00e3o e como garantia do direito de mem\u00f3ria, verdade e justi\u00e7a. A partir da\u00ed passei a fazer duas compara\u00e7\u00f5es: uma entre diferentes situa\u00e7\u00f5es de repress\u00e3o para relativizar o argumento num\u00e9rico e outra sobre as pol\u00edticas de mem\u00f3ria e suas diferen\u00e7as. Eu n\u00e3o queria que essas diferen\u00e7as fossem estabelecidas pelo fato de que, por exemplo, na Argentina, houve 30 mil mortos e h\u00e1, portanto, uma pol\u00edtica de mem\u00f3ria forte, e no Brasil, que teve 300, n\u00e3o tem. Faltava algo no meio para ligar uma coisa \u00e0 outra. E a conclus\u00e3o a que cheguei foi que esse meio \u00e9 a transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Na Argentina, em 1983, houve uma ruptura com o passado ditatorial. Houve o estabelecimento da Justi\u00e7a, a liberdade de mem\u00f3ria, de investigar o que ocorreu e de tornar isso p\u00fablico. Essa foi uma ruptura dr\u00e1stica, por mais que depois tenham ocorrido alguns retrocessos. No Brasil, a transi\u00e7\u00e3o foi marcada por uma continuidade. Se pensarmos cronologicamente os marcos da transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica brasileira, que se estende de 1974 at\u00e9 1985, temos mais per\u00edodo de transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica que per\u00edodo de governo propriamente militar. Quase n\u00e3o d\u00e1 para falar em transi\u00e7\u00e3o, de t\u00e3o longo que foi esse per\u00edodo. No final, n\u00e3o houve uma mudan\u00e7a qualitativa, mas uma troca. Isso n\u00e3o garantiu que v\u00e1rios direitos suprimidos no per\u00edodo ditatorial fossem reestabelecidos neste per\u00edodo p\u00f3s \u201ctransi\u00e7\u00e3o\u201d. O livro, ent\u00e3o, tem basicamente tr\u00eas momentos: repress\u00e3o, transi\u00e7\u00e3o e atualidade, onde tento entender por que hoje h\u00e1 na Argentina v\u00e1rias pol\u00edticas de mem\u00f3ria sendo implementadas e o Brasil ainda est\u00e1 engatinhando nesta \u00e1rea.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Maior<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Carta Maior, a historiadora Caroline Silveira Bauer, autora de uma pesquisa premiada sobre os aparatos de repress\u00e3o das ditaduras do Brasil e da Argentina, desaparecimentos e pol\u00edticas de mem\u00f3ria, fala sobre seu trabalho e analisa o longo processo da transi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica no Brasil e a ideologia da reconcilia\u00e7\u00e3o que tem impacto no [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":2428,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2513"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2513"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2513\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/2428"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2513"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2513"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2513"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}