{"id":2558,"date":"2012-10-25T00:18:39","date_gmt":"2012-10-25T00:18:39","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/25\/ex-militante-torturada-na-ditadura-conta-sensacao-de-voltar-ao-brasil\/"},"modified":"2012-10-25T00:18:39","modified_gmt":"2012-10-25T00:18:39","slug":"ex-militante-torturada-na-ditadura-conta-sensacao-de-voltar-ao-brasil","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/25\/ex-militante-torturada-na-ditadura-conta-sensacao-de-voltar-ao-brasil\/","title":{"rendered":"Ex-militante torturada na ditadura conta sensa\u00e7\u00e3o de voltar ao Brasil"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Maria C\u00e9lia Lundberg, 68, dava aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o para pessoas carentes em Sabar\u00e1 (MG) e era militante da ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional) quando foi presa, em 1971.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Sem nunca ter pego em armas, foi torturada e violentada por cinco dias e libertada sob amea\u00e7as. Acabou fugindo para o Chile e, depois, para a Su\u00e9cia, onde vive desde 1973.  <!--more-->  <span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>No in\u00edcio de outubro, voltou ao Brasil para participar da 62\u00aa edi\u00e7\u00e3o das Caravanas da Anistia, promovida pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. A comiss\u00e3o concedeu a ela indeniza\u00e7\u00e3o e pens\u00e3o vital\u00edcia pelas torturas no Dops, em Minas Gerais.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>&#8220;Dif\u00edcil descrever o que senti nos \u00faltimos dias antes de chegar aqui. \u00c9 uma ferida profunda.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>O que mais fiz nesta vida foi tentar esquecer coisas que me deixaram marcas. N\u00e3o apenas no corpo, mas na alma. Os anos de estudo foram deixados para tr\u00e1s.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Trabalhava dando aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o para pessoas pobres. Alfabetizava e conscientizava o povo brasileiro utilizando o m\u00e9todo do professor Paulo Freire.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Era da ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional), mas nunca peguei em armas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Acho que me prenderam porque, dias antes da pris\u00e3o, em 7 de janeiro de 1971, houve um assalto em Minas Gerais e atribu\u00edram \u00e0 ALN. Invadiram a minha casa e encontraram no ch\u00e3o pap\u00e9is da organiza\u00e7\u00e3o.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Me levaram. Fui violentada e torturada durante cinco dias. Al\u00e9m da dor f\u00edsica eu tinha outra certeza: estava s\u00f3.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Eu era a \u00fanica mulher ali. Sozinha em um cela.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ouvia gritos quando era tirada de minha cela para a sala de trabalho dos policiais.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Ouvia meu irm\u00e3o [Herv\u00ea] gritando enquanto sofria maus-tratos. \u00c0s vezes, nos encontr\u00e1vamos no corredor enquanto eu era retirada de minha cela. Era a certeza de que ele estava vivo. Nos fal\u00e1vamos atrav\u00e9s do olhar.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A ang\u00fastia da pris\u00e3o me fez pensar em suic\u00eddio. Vou me matar e acabar com tudo. Pensei isso v\u00e1rias vezes. Depois pensava que n\u00e3o podia dar a eles o argumento que queriam. Era dar for\u00e7a a eles.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Depois desses dias presa no Dops, sa\u00ed totalmente destru\u00edda.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>S\u00f3 me disseram que, se comentasse algo na rua, o meu irm\u00e3o, que era mantido preso, seria morto.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Os abusos resultaram numa gravidez. Veio a seguir um aborto espont\u00e2neo.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Depois que meu irm\u00e3o deixou a pris\u00e3o s\u00f3 me restou fugir para o Chile, em 1972, onde conheci o meu companheiro e, em 1973, fui para a Su\u00e9cia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Lembro-me quando um m\u00e9dico sueco disse-me na chegada ao seu pa\u00eds, durante um exame, que nunca poderia ter um filho por causa da viol\u00eancia que sofri enquanto estive presa.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Deus existe. Tive dois filhos e hoje sou at\u00e9 av\u00f3 de uma neta. Ou seja, de muitas formas tenho uma vida realizada na Su\u00e9cia. Sinto at\u00e9 que pude fechar o cap\u00edtulo da tortura com o qual sofri.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Hoje tenho o reconhecimento do Estado atrav\u00e9s da insist\u00eancia da minha fam\u00edlia e de meus amigos. Mas que fique claro que nenhuma indeniza\u00e7\u00e3o pode ressarcir o mal que o terrorismo fez a mim.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Esses terroristas nunca precisaram ser julgados. Muitos desses criminosos foram promovidos e at\u00e9 hoje continuam com suas regalias.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Espero que nunca mais a tortura f\u00edsica ou ps\u00edquica seja aplicada contra qualquer grupo ou pessoa.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Defendo a puni\u00e7\u00e3o dessas pessoas. Agora, elas nunca devem ser punidas com a mesma moeda.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Pena meus pais n\u00e3o estarem vivos para acompanhar este momento. \u00c9 bom voltar a pisar esse pa\u00eds sem o risco de ser torturada ou presa.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Sempre tive medo de voltar ao Brasil.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Vim em 2009 para sepultar a minha m\u00e3e. Ela foi sepultada e logo depois eu voltava para a Su\u00e9cia.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A Su\u00e9cia cuidou dos meus problemas f\u00edsicos, mas nunca pude ter um bom tratamento sobre as minhas torturas ps\u00edquicas.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>A \u00fanica coisa que sempre quis foi voltar ao Brasil. Meus filhos falam &#8220;incluso&#8221; [inclusive] portugu\u00eas. Mas nunca apareceram aqui porque temiam repres\u00e1lia contra mim.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Sentia saudades de tudo. Da terra, do cheiro.<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Agora penso em voltar e morrer no Brasil.&#8221;<span class=\"s1\"><\/p>\n<p> <\/span>Fonte &#8211; Folha.com<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maria C\u00e9lia Lundberg, 68, dava aulas de alfabetiza\u00e7\u00e3o para pessoas carentes em Sabar\u00e1 (MG) e era militante da ALN (Alian\u00e7a Libertadora Nacional) quando foi presa, em 1971. Sem nunca ter pego em armas, foi torturada e violentada por cinco dias e libertada sob amea\u00e7as. 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