{"id":2567,"date":"2012-10-25T00:36:25","date_gmt":"2012-10-25T00:36:25","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/25\/depois-de-40-anos-vitimas-da-ditadura-voltam-a-local-de-tortura-em-porto-alegre\/"},"modified":"2012-10-25T00:36:25","modified_gmt":"2012-10-25T00:36:25","slug":"depois-de-40-anos-vitimas-da-ditadura-voltam-a-local-de-tortura-em-porto-alegre","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/10\/25\/depois-de-40-anos-vitimas-da-ditadura-voltam-a-local-de-tortura-em-porto-alegre\/","title":{"rendered":"Depois de 40 anos, v\u00edtimas da ditadura voltam a local de tortura em Porto Alegre"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEra uma noite de final de maio de 1970. Eu n\u00e3o lembro o hor\u00e1rio exato, porque quando estamos face \u00e0 tortura, o tempo parece n\u00e3o ter fim\u201d, recorda a ex-presa pol\u00edtica Ignez Maria Ramminge. Quatro d\u00e9cadas depois, ela e outras mulheres que lutaram pelo regime democr\u00e1tico no Brasil durante a Ditadura Militar retornaram ao local onde foram presas e torturadas. Nesta ter\u00e7a-feira (23), as primeiras v\u00edtimas do per\u00edodo de exce\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul que estiveram na Penitenci\u00e1ria Feminina Madre Pelletier deram outro significado \u00e0s celas em que viveram parte da sua juventude. O ato foi promovido pelo Comit\u00ea Carlos de R\u00e9 \u2013 da Verdade e da Justi\u00e7a e demarcou o pres\u00eddio como um espa\u00e7o de repress\u00e3o no pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2560\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6720-19.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"200\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Diante das celas, ex-presas lembram como era dormir e viver na escurid\u00e3o. \u201cAt\u00e9 hoje s\u00f3 durmo de luz acesa\u201d, contou uma delas | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ignez Maria, conhecida como Martinha, fazia parte do grupo Vanguarda Armada Revolucion\u00e1ria Palmares, o mesmo em que militou a presidenta Dilma Rousseff. Seus crimes foram, diante dos agentes do estado \u00e0 \u00e9poca, subvers\u00e3o e amea\u00e7a a seguran\u00e7a nacional por causa das ideias contr\u00e1rias ao regime militar e o combate \u00e0 ditadura. \u201cParticipei de atos contra a ditadura. Eu vim a conhecer Dilma quando o Carlos Ara\u00fajo estava preso e ela veio para Porto Alegre. N\u00f3s lut\u00e1vamos por democracia. Gostar\u00edamos de ter alcan\u00e7ado uma sociedade mais justa e igualit\u00e1ria, n\u00e3o conseguimos. Mas eu continuo socialista\u201d, afirma.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2561\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6624-7.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\n<address>Ex-presa Martinha relatou noite de tortura em que foi espancada por militares | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Ela recordou detalhes do per\u00edodo em que esteve presa, como o ve\u00edculo em que foi transportada, o capuz negro que vestiram em sua cabe\u00e7a e caracter\u00edsticas dos autores da tortura que sofreu. Foi vis\u00edvel, por\u00e9m, que as pr\u00e1ticas violentas dos militares ficaram na sua mem\u00f3ria. \u201cEu n\u00e3o consigo mais\u201d, desculpou-se, diante de algumas autoridades e ativistas de Mem\u00f3ria e Direitos Humanos que estavam presentes.<\/p>\n<p class=\"p1\">Algumas ex-presas pol\u00edticas daquela \u00e9poca n\u00e3o compareceram, mas enviaram relatos. \u201cLembro de todas as coisas que sofri dentro desta cadeia, mas lembro de coisas boas tamb\u00e9m. Das tangerinas e caquis que furtivamente eram passados pelas presas comuns a n\u00f3s, consideradas \u2018terroristas perigosas\u2019, por cima do muro que nos separava. At\u00e9 hoje, quando estou triste, recorro ao p\u00e3o dormido com mel e caf\u00e9 preto que era nos dado como refei\u00e7\u00e3o\u201d, disse uma das presas em depoimento ao Comit\u00ea.<\/p>\n<p class=\"p1\">Outras enfrentaram pela primeira vez as emo\u00e7\u00f5es de compartilhar a tortura sofrida. \u201cAt\u00e9 quando? (suspiro) Eu tenho orgulho de ter feito parte daquela gera\u00e7\u00e3o. Valeu a pena\u201d, foram as poucas palavras sobre a \u00e9poca que a ex-presa Helena Hudof falou em p\u00fablico.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2562\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6682-13.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Ativistas de Direitos Humanos e ex-v\u00edtimas da ditadura colam adesivos para identificar Madre Pelletier como local de tortura | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Emocionada ao ouvir os depoimentos das colegas de sua m\u00e3e, Gorete Losada \u2013 filha de S\u00f4nia Ven\u00e2ncio Cruz e Antonio Losada, militantes do Sindicato dos Metal\u00fargicos \u2013 chorava ao ouvir relatos dos atos de brutalidade sofridos por elas. Mulheres que tiveram coragem de relatar os socos, tapas, pontap\u00e9s, choques e sess\u00f5es de pau-de-arara que sofreram para entregar informa\u00e7\u00f5es sobre os companheiros. \u201cEu tinha uns 10 anos de idade quando os militares invadiram a minha casa pela primeira vez e levaram meus pais para o DOPS (Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social)\u201d, contou Gorete. \u201cMinha m\u00e3e foi solta e depois de um ano presa outra vez, por um julgamento \u00e0 revelia. Passou mais de 10 anos na pris\u00e3o\u201d, disse, lembrando que vinha ao pres\u00eddio Madre Pelletier visitar a m\u00e3e.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Celas de tortura poder\u00e3o virar espa\u00e7o cultural e de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">A manifesta\u00e7\u00e3o em frente \u00e0 pris\u00e3o feminina deu prosseguimento ao processo de identifica\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de repress\u00e3o e resist\u00eancia na ditadura em Porto Alegre, promovido pelo Comit\u00ea Ga\u00facho da Mem\u00f3ria Verdade e Justi\u00e7a (Comit\u00ea Carlos de R\u00e9). Na ocasi\u00e3o, foi proposta uma ressignifica\u00e7\u00e3o do local pelas mulheres que atualmente est\u00e3o privadas de liberdade. Duas apenadas elaboraram um projeto para utiliza\u00e7\u00e3o das quatro celas utilizadas como local de tortura na ditadura, em que hoje funciona um canil.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2563\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6659-12.jpg\" border=\"0\" width=\"373\" height=\"560\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Com 21 anos de pena, Roselaine diz que lutar\u00e1 pelos direitos das mulheres porque a discrimina\u00e7\u00e3o de g\u00eanero ocorre em todos os lugares | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">\u201cQueremos reconstruir por nossas m\u00e3os este espa\u00e7o de dor e luta. Podemos utiliz\u00e1-lo como espa\u00e7o cultural e de preserva\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria do que ocorreu aqui com estas mulheres. Poderemos utilizar o local para expor nossos trabalhos manuais que fizemos aqui e oficinas de livre express\u00e3o cultural\u201d, prop\u00f4s a presa Roselaine Magnos. Segundo ela, \u00e9 importante preservar a hist\u00f3ria das ex-presas pol\u00edticas para combater \u00e0 tend\u00eancia torturante ainda presente no sistema prisional. \u201cTodas que relataram hist\u00f3rias aqui s\u00e3o iguais a n\u00f3s e iguais a voc\u00eas que estavam ouvindo. Porque \u00e9 a mesma sociedade em que vivemos. As ditaduras hoje est\u00e3o disfar\u00e7adas de racismo, homofobia, de julgamentos de dois pesos e duas medidas sobre nossos erros e acertos\u201d, falou.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em defesa do trabalho de reforma do sistema prisional ga\u00facho, a agente penitenci\u00e1ria e coordenadora da rec\u00e9m criada Coordenadoria Penitenci\u00e1ria da Mulher, Maria Jos\u00e9 Diniz, disse que desde 1999 foi extinto o castigo existente na penitenci\u00e1ria feminina e foram liberadas as visitas \u00edntimas. \u201cEra algo que apenas uma presa tinha e por crit\u00e9rio de merecimento pelo trabalho que prestava. Hoje temos uma pol\u00edtica p\u00fablica para garantir estes direitos. N\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m s\u00f3 liberar para o companheiro vir aqui. \u00c9 fazer a devida orienta\u00e7\u00e3o sobre o direito ao prazer, o cuidado com o corpo e sua sexualidade\u201d, explica.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em junho, o Comit\u00ea j\u00e1 havia realizado a<a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/2012\/06\/palacio-da-policia-do-rs-e-identificado-como-local-de-tortura-na-ditadura-militar\/\"> identifica\u00e7\u00e3o do Pal\u00e1cio da Pol\u00edcia Civil do Rio Grande do Sul<\/a>. O espa\u00e7o abrigou o Departamento de Ordem e Pol\u00edtica Social (Dops) na capital ga\u00facha e \u00e9 o primeiro pr\u00e9dio p\u00fablico em funcionamento a ser identificado como local de tortura no Brasil. As identifica\u00e7\u00f5es s\u00e3o realizadas com base no Plano Nacional de Direitos Humanos (PNH3), que possibilita a identifica\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio p\u00fablico onde foi comprovada a pr\u00e1tica de tortura e crimes de viola\u00e7\u00e3o dos direitos humanos em 1964.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2564\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6694-15.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Local de tortura na ditadura militar hoje \u00e9 canil dentro do Madre Pelletier | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2565\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6569-3.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Na mem\u00f3ria das mulheres torturadas durante a ditadura est\u00e3o atos violentos e nomes de agentes que permanecem impunes at\u00e9 hoje | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Por sua vez, o Dopinha, outro espa\u00e7o de Porto Alegre ligado ao Dops nos tempos de ditadura,<a href=\"http:\/\/sul21.com.br\/jornal\/2012\/06\/antigo-local-de-tortura-pode-virar-museu-da-memoria-verdade-e-justica-em-porto-alegre\/\">dever\u00e1 abrigar um Museu de Mem\u00f3ria e Justi\u00e7a<\/a>. A pedido do Comit\u00ea Carlos De R\u00e9, o governador Tarso Genro despachou a libera\u00e7\u00e3o de investimento em metade dos recursos necess\u00e1rios para reformar o pr\u00e9dio. A outra metade caber\u00e1 ao governo municipal de Porto Alegre. \u201cO prefeito Jos\u00e9 Fortunati nos recebeu e se comprometeu com a desapropria\u00e7\u00e3o da \u00e1rea e a entrada com os outros 50%\u201d, disse a membro do Comit\u00ea Cristiane Rondon. Na pr\u00f3xima segunda-feira (29), o grupo ter\u00e1 uma audi\u00eancia com a ministra dos Direitos Humanos Maria do Ros\u00e1rio para discutir uma administra\u00e7\u00e3o compartilhada entre membros do governo, do Comit\u00ea e sociedade civil para o futuro museu.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>V\u00edtimas da ditadura querem puni\u00e7\u00e3o dos torturadores<\/strong><\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2566\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/10\/OAF6642-9.jpg\" border=\"0\" width=\"560\" height=\"373\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<address>Emo\u00e7\u00e3o no reencontro de v\u00edtimas e em recordar os fatos do passado | Foto: Bernardo Jardim Ribeiro\/Sul21<\/address>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\">Apesar da identifica\u00e7\u00e3o dos locais de tortura e de nutrirem boas expectativas com as revela\u00e7\u00f5es da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade, as v\u00edtimas da ditadura militar desejam a penaliza\u00e7\u00e3o dos torturadores. \u201cInfelizmente eles n\u00e3o ser\u00e3o presos, mas os torturadores que foram anistiados pela Lei de Anistia deveriam ser julgados. Isso \u00e9 justi\u00e7a\u201d, diz a ex-presa Martinha. \u201cUma pessoa com 18 anos ser amarrada e apanhar de sujeitos armados \u00e9 muita covardia. Eu acredito que deveria haver puni\u00e7\u00e3o\u201d, disse outra ex-presa Jane Argolo.<\/p>\n<p class=\"p1\">\u201cHoje eles ainda n\u00e3o est\u00e3o na cadeia. N\u00f3s lutamos para que estejam. N\u00e3o importa as reinterpreta\u00e7\u00f5es da Lei de Anistia que fazem, n\u00e3o desistiremos. Queremos identific\u00e1-los, dar o direito \u00e0 defesa que eles n\u00e3o nos deram e queremos ver eles cumprindo a devida puni\u00e7\u00e3o\u201d, defende a filha de uma ex-presa pol\u00edtica e membro do Comit\u00ea Popular, Marta Cica.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; Sul 21<\/p>\n<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cEra uma noite de final de maio de 1970. 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