{"id":2718,"date":"2012-11-12T12:17:43","date_gmt":"2012-11-12T12:17:43","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/12\/como-a-ditadura-ensinou-tecnicas-de-tortura-a-guarda-rural-indigena-no-brasil-2\/"},"modified":"2012-11-12T12:17:43","modified_gmt":"2012-11-12T12:17:43","slug":"como-a-ditadura-ensinou-tecnicas-de-tortura-a-guarda-rural-indigena-no-brasil-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/12\/como-a-ditadura-ensinou-tecnicas-de-tortura-a-guarda-rural-indigena-no-brasil-2\/","title":{"rendered":"Como a ditadura ensinou t\u00e9cnicas de tortura \u00e0 Guarda Rural Ind\u00edgena no Brasil"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Aquele 5 de fevereiro de 1970 foi um dia de festa no quartel do Batalh\u00e3o-Escola Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte. &#8220;Pelo menos mil pessoas, maioria de civis, meninos, jovens e velhos do bairro do Prado, em desusado interesse&#8221;, segundo reportagem da revista &#8220;O Cruzeiro&#8221;, assistiram \u00e0 formatura da primeira turma da Guarda Rural Ind\u00edgena (Grin).  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a portaria que a criou, de 1969, a tropa teria a miss\u00e3o de &#8220;executar o policiamento ostensivo das \u00e1reas reservadas aos silv\u00edcolas&#8221;. No palanque abarrotado, viam-se, sorridentes, autoridades federais e estaduais, civis e militares: o ministro do Interior, general Jos\u00e9 Costa Cavalcanti (um dos signat\u00e1rios do AI-5, de 13 de dezembro de 1968); o governador de Minas, Israel Pinheiro; o ex-vice-presidente da Rep\u00fablica e deputado federal Jos\u00e9 Maria Alkmin.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">L\u00e1 estavam tamb\u00e9m o presidente da Funai (Funda\u00e7\u00e3o Nacional do \u00cdndio), Jos\u00e9 Queir\u00f3s Campos; o comandante da Infantaria Division\u00e1ria 4, general Gentil Marcondes Filho &#8211;que ganharia fama no comando do 1\u00ba Ex\u00e9rcito em 1981, quando militares-terroristas tentaram explodir o Riocentro; secret\u00e1rios de governo e o comandante da PM local, coronel Jos\u00e9 Ortiga.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Os 84 \u00edndios, recrutados em aldeias xerente, maxacali, caraj\u00e1, krah\u00f4 e gavi\u00f5es, marcharam embandeirados e com fardas desenhadas para a ocasi\u00e3o: cal\u00e7a e quepe verdes, camisa amarela, coturnos pretos, tr\u00eas-oit\u00e3o no coldre.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Feito o juramento \u00e0 bandeira, quando prometeram &#8220;defender a nossa P\u00e1tria&#8221; (conforme registrou reportagem publicada pela Folha), desfilaram para mostrar o que aprenderam nos tr\u00eas meses de forma\u00e7\u00e3o, sob as ordens do capit\u00e3o da PM Manuel dos Santos Pinheiro, sobrinho do governador e chefe da Ajud\u00e2ncia Minas-Bahia, o bra\u00e7o regional da Funai.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>JUD\u00d4<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A primeira apresenta\u00e7\u00e3o, de alunos de jud\u00f4 do tradicional Minas T\u00eanis Clube, deu um ar benigno de confraterniza\u00e7\u00e3o infantil. Depois das crian\u00e7as, foi a vez de os \u00edndios &#8211;todos adultos&#8211; exibirem seus conhecimentos de defesa pessoal. Tamb\u00e9m &#8220;deram demonstra\u00e7\u00e3o de captura a cavalo e condu\u00e7\u00e3o de presos com e sem armas&#8221;, conforme publicaria o &#8220;Jornal do Brasil&#8221; no dia 6, com chamada e foto na primeira p\u00e1gina, sob o t\u00edtulo &#8220;Os Passos da Integra\u00e7\u00e3o&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O que nenhum \u00f3rg\u00e3o de imprensa mostrou &#8211;eram tempos de censura&#8211; foi o &#8220;gran finale&#8221;. Os soldados da Guarda Ind\u00edgena marcharam diante das autoridades &#8211;e de uma multid\u00e3o que inclu\u00eda crian\u00e7as&#8211; carregando um homem pendurado em um pau de arara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Gravadas h\u00e1 42 anos, as cenas v\u00eam a p\u00fablico pelas m\u00e3os do pesquisador Marcelo Zelic, 49, vice-presidente do Grupo Tortura Nunca Mais\/SP e membro da Comiss\u00e3o Justi\u00e7a e Paz da Arquidiocese de S\u00e3o Paulo. Zelic coordena uma pesquisa colaborativa feita pela internet intitulada &#8220;Povos Ind\u00edgenas e Ditadura Militar: Subs\u00eddios \u00e0 Comiss\u00e3o Nacional da Verdade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>ARARA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Pesquisando no Museu do \u00cdndio, no Rio de Janeiro, Zelic topou com o DVD &#8220;Arara&#8221;, fruto da digitaliza\u00e7\u00e3o de 20 rolos de filme 16 mm, sem \u00e1udio.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A etiqueta levava a crer que se tratava de material sobre a etnia arara &#8211;\u00edndios conhecidos nas cercanias de Altamira (PA) desde 1850. Mas, em vez do &#8220;povo das araras vermelhas&#8221;, como se denominam at\u00e9 hoje seus 361 remanescentes (dados de 2012), era outra &#8220;arara&#8221; que nomeava a caixa.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Tratava-se de pau de arara, a aut\u00eantica contribui\u00e7\u00e3o brasileira ao arsenal mundial de t\u00e9cnicas de tortura, usado desde os tempos da col\u00f4nia para punir &#8220;negros fuj\u00f5es&#8221;, como se dizia. Por lembrar as longas varas usadas para levar aves aos mercados, atadas pelos p\u00e9s, o supl\u00edcio ganhou esse nome.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">No cl\u00e1ssico &#8220;Viagem Pitoresca e Hist\u00f3rica ao Brasil&#8221; (1835), que retrata a escravid\u00e3o no pa\u00eds, o pintor franc\u00eas Jean-Baptiste Debret (1768-1848), membro da Miss\u00e3o Francesa de artistas e cientistas que dom Jo\u00e3o 6\u00ba patrocinou para estudar e retratar o pa\u00eds, mostra um negro sendo castigado no pau de arara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Na ditadura militar (1964-85), por\u00e9m, o pau de arara s\u00f3 aparecia sob a forma de den\u00fancia, estampando jornais alternativos, em filmes e document\u00e1rios realizados por militantes oposicionistas.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Entranhada nos por\u00f5es, a tortura jamais recebera tratamento t\u00e3o alegre e solto quanto naqueles 26 minutos e 55 segundos, que exibem o pau de arara orgulhosamente \u00e0 luz do dia, em ato oficial, sob os aplausos das autoridades e de uma multid\u00e3o de basbaques.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Fot\u00f3grafos e cinegrafistas cobriram o evento, mas a cena, que assusta pela impud\u00eancia, ficou de fora dos jornais e das revistas. Sobrou, ao que se saiba, apenas camuflada sob o t\u00edtulo inocente.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O filme \u00e9 parte do acervo sobre 60 povos ind\u00edgenas, coletado durante quatro d\u00e9cadas pelo documentarista Jesco von Puttkamer (1919-94) e doado em 1977 ao IGPA (Instituto Goiano de Pr\u00e9-Hist\u00f3ria e Antropologia), da Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica de Goi\u00e1s.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Descendente da nobreza alem\u00e3, mas nascido no Brasil, Von Puttkamer sabia o que era a repress\u00e3o. Foi preso pela Gestapo quando conclu\u00eda os estudos em qu\u00edmica na Universidade de Breslau (Alemanha), por se recusar a se alistar no Ex\u00e9rcito durante a Segunda Guerra (1939-45). Safou-se ao provar que era cidad\u00e3o brasileiro nato.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Trabalhou como fot\u00f3grafo no Tribunal de Nuremberg (1945-46), que julgou hierarcas nazistas por crimes de guerra. J\u00e1 de volta, foi um dos fot\u00f3grafos oficiais da constru\u00e7\u00e3o de Bras\u00edlia (1956-60). Nos anos 1960, integrou pela primeira vez uma expedi\u00e7\u00e3o em busca de tribos isoladas no Brasil central. Nunca mais largou os \u00edndios.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Deixou 43 mil slides, 2.800 p\u00e1ginas de di\u00e1rios de campo e filmes na bitola 16 mm que, desenrolados, chegariam a 330 km. S\u00e3o registros delicados e muitas vezes emocionantes da aproxima\u00e7\u00e3o dos \u00edndios e de seu encontro com as frentes de explora\u00e7\u00e3o &#8211;e tamb\u00e9m das epidemias e mortandades por gripe, var\u00edola e sarampo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em um document\u00e1rio sobre Von Puttkamer, o sertanista Apoena Meirelles afirma: &#8220;Jesco nunca se promoveu, nunca enriqueceu, permaneceu no anonimato, mas seu trabalho possibilitou que se denunciasse e se documentasse muita coisa errada da pol\u00edtica indigenista&#8221;. \u00c9 o caso das aulas de pau de arara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>GRIN<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A formatura foi o ponto alto de uma longa prepara\u00e7\u00e3o. Em 23 de novembro de 1969, reportagem no &#8220;Jornal do Brasil&#8221; mostrou os \u00edndios da Grin em sala de aula e contou o que aprendiam: princ\u00edpios de ordem unida, marcha e desfile, instru\u00e7\u00f5es gerais, contin\u00eancia e apresenta\u00e7\u00e3o, educa\u00e7\u00e3o moral e c\u00edvica, educa\u00e7\u00e3o f\u00edsica, equita\u00e7\u00e3o, lutas de defesa e ataque, patrulhamento, abordagem, condu\u00e7\u00e3o e guarda de presos.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em 12 de dezembro de 1969, nota no Informe JB, coluna pol\u00edtica do &#8220;Jornal do Brasil&#8221;, fazia tro\u00e7a de tipo racista dos &#8220;selvagens&#8221;: &#8220;O presidente da Funai, Queir\u00f3s Campos, dizia que a Guarda Ind\u00edgena vai de vento em popa. S\u00f3 h\u00e1 um problema, o do uniforme. Come\u00e7a que n\u00e3o h\u00e1 jeito de fazer com que os futuros guardas usem botina ou qualquer tipo de sapato, [&#8230;] machuca-lhes os p\u00e9s. O quepe j\u00e1 perdeu toda a tradicional seriedade porque \u00e9 logo enfeitado com uma pena atravessada. Finalmente, a fivela e os bot\u00f5es n\u00e3o param no lugar certo pois, como tudo o que brilha, s\u00e3o invariavelmente colocados na testa e nas orelhas.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Na formatura, por\u00e9m, botas, fivelas e bot\u00f5es tiniam, tudo no lugar e sem penachos &#8220;&#8221;o filme mostra o capit\u00e3o Pinheiro se desdobrando para ajeitar os cintos dos soldados. A ressalva foram os cabelos: n\u00e3o houve quem convencesse os krah\u00f4 a aparar as melenas que lhes desciam at\u00e9 os ombros. E assim eles desfilaram.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O ministro Cavalcanti discursou em nome do presidente Em\u00edlio Garrastazu M\u00e9dici: &#8220;Nada at\u00e9 hoje me orgulhou tanto quanto apadrinhar a formatura [&#8230;] da Guarda Ind\u00edgena, pois estou certo de que os ensinamentos recebidos por eles, neste per\u00edodo de treinamento intensivo, servir\u00e3o de exemplo para todos os pa\u00edses do mundo&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">No dia seguinte, &#8220;os \u00edndios l\u00edderes, h\u00edgidos, sadios, fortes e inteligentes&#8221;, segundo Cavalcanti, embarcaram rumo a suas respectivas aldeias. Decolaram fardados, armados e com soldo mensal de 250 cruzeiros novos (pouco mais de R$ 1.000, em valor atualizado).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>ANTROPOLOGIA<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Nunca vi cena como essa. J\u00e1 vi muitos filmes antigos, de 1920, 1930, 40, 50, 60. Mas cena como essa do pau de arara nunca apareceu&#8221;, disse Sylvia Caiuby Novaes, professora da USP, onde coordena o Lisa &#8220;&#8221;Laborat\u00f3rio de Imagem e Som em Antropologia. Ela assistiu ao filme &#8220;Arara&#8221; a convite da Folha.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Isso, por um lado, \u00e9 express\u00e3o do fato de os \u00edndios, naquele momento, muito antes dos celulares com c\u00e2meras, serem filmados o tempo todo. Desde os \u00edndios de &#8216;cart\u00e3o-postal&#8217; do Xingu, na \u00e9poca dos Villas B\u00f4as, passando pelos &#8216;\u00edndios gigantes&#8217;, Silvio Santos filmando na Amaz\u00f4nia, os \u00edndios eram objeto no nosso olhar curioso&#8221;, diz ela. &#8220;Eles eram aquilo que n\u00f3s n\u00e3o \u00e9ramos mais. O retrato da nossa alteridade. Moravam na &#8216;Mata Virgem&#8217;, eram [vistos como] puros, pr\u00f3ximos da natureza.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Segundo a antrop\u00f3loga, a cena do pau de arara demonstra a exist\u00eancia de uma &#8220;face muito sombria do contato entre o Estado brasileiro e os grupos ind\u00edgenas&#8221;. A face iluminada foram os esfor\u00e7os de &#8220;pacifica\u00e7\u00e3o&#8221;, encetada por iniciativa governamental e levada a cabo por homens corajosos e tantas vezes voluntaristas, como os irm\u00e3os Orlando e Cl\u00e1udio Villas B\u00f4as.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Primeiro como empregados e depois como l\u00edderes da Expedi\u00e7\u00e3o Roncador-Xingu, os irm\u00e3os foram a ponta de lan\u00e7a do plano de ocupa\u00e7\u00e3o do territ\u00f3rio brasileiro, a Marcha para o Oeste, anunciada \u00e0 meia-noite de 31 de dezembro de 1937, em discurso radiof\u00f4nico proferido por Get\u00falio Vargas, diretamente do Pal\u00e1cio Guanabara.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O verdadeiro sentido de brasilidade \u00e9 a Marcha para o Oeste&#8221;, bradou Vargas. &#8220;No s\u00e9culo 18, de l\u00e1 jorrou o caudal de ouro que transbordou na Europa e fez da Am\u00e9rica o continente das cobi\u00e7as e tentativas aventurosas. E l\u00e1 teremos de ir buscar: dos vales f\u00e9rteis e vastos, o produto das culturas variadas e fartas; das entranhas da terra, o metal, com que forjar os instrumentos da nossa defesa e do nosso progresso industrial.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Os irm\u00e3os Villas B\u00f4as embrenharam-se no Brasil central com a miss\u00e3o assinalada pelo presidente: &#8220;Encurtar dist\u00e2ncias, abrir caminhos e estender fronteiras econ\u00f4micas&#8221;. Constru\u00edram, por exemplo, 19 pistas de pouso ao longo de 1.500 km de picadas que abriram. Isso encurtou as viagens do Rio para os EUA, que, por falta de apoio em terra, eram bem mais longas, pois tinham de margear o litoral.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Os irm\u00e3os localizaram 14 povos ind\u00edgenas desconhecidos. A maioria acabaria transferida para o Parque Nacional do Xingu, idealizado pelos irm\u00e3os Villas B\u00f4as com o apoio do marechal C\u00e2ndido Rondon (1865-1958), do antrop\u00f3logo Darcy Ribeiro (1922-97) e do sanitarista Noel Nutels (1913-73). O presidente J\u00e2nio Quadros, em 1961, assinou o decreto de cria\u00e7\u00e3o do parque, garantindo uma \u00e1rea de 27.000 km2, quase uma B\u00e9lgica.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 sob a ditadura, virou show midi\u00e1tico o trabalho de atra\u00e7\u00e3o, contato e remo\u00e7\u00e3o dos \u00edndios encontrados no caminho das estradas em constru\u00e7\u00e3o. Em abril de 1973, &#8220;O Cruzeiro&#8221; estampou na capa o t\u00edtulo &#8220;Sensacional!&#8221;, seguido pela chamada: &#8220;Orlando Villas B\u00f4as fotografou com exclusividade os \u00cdNDIOS GIGANTES&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A foto mostrava os panar\u00e1, ent\u00e3o isolados e chamados de kreen-akarore. Al\u00e9m de ter suas terras invadidas por garimpeiros, estavam no meio do tra\u00e7ado da BR-163 &#8220;&#8221;que liga Cuiab\u00e1 (MT) a Santar\u00e9m (PA). Depois se viu que n\u00e3o se tratava de gigantes coisa nenhuma.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A popula\u00e7\u00e3o (ou o que restou dela) foi removida em 1975 para o Xingu, a 250 km da terra panar\u00e1. &#8220;Fizemos isso porque eles estavam morrendo por causa do contato com os brancos&#8221;, disse Orlando. Doen\u00e7as e massacres j\u00e1 haviam eliminado dois ter\u00e7os dos panar\u00e1.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><span class=\"s1\"><br \/> <\/span><strong>REFORMAT\u00d3RIO<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Nacional de Verdade, cujos trabalhos incluem os crimes do Estado contra os \u00edndios, tem mostrado que, al\u00e9m de &#8220;atrair&#8221;, &#8220;pacificar&#8221; e &#8220;remover&#8221;, a pol\u00edtica indigenista do regime de 64 tamb\u00e9m conjugou os verbos &#8220;reprimir&#8221;, &#8220;punir&#8221; e &#8220;torturar&#8221;. Obstinado em desenvolver um sistema de controle dos \u00edndios, o criador da Grin, capit\u00e3o Pinheiro, ergueu em 1969 um reformat\u00f3rio-pres\u00eddio para \u00edndios.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">O Reformat\u00f3rio Krenak (assim chamado por ficar em terras dos krenak), em Resplendor (MG), perto da divisa com o Esp\u00edrito Santo, funcionava como col\u00f4nia penal e de trabalhos for\u00e7ados, para &#8220;reeducar os desajustados e confinar os revoltosos que se recusavam a sair de suas terras tradicionais&#8221;, explica Benedito Prezia, antrop\u00f3logo e assessor do Cimi (Conselho Indigenista Mission\u00e1rio), entidade ligada \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica e respons\u00e1vel pelas mais contundentes den\u00fancias de desrespeito aos direitos humanos dos \u00edndios brasileiros durante o regime militar. &#8220;Aquilo era um verdadeiro campo de concentra\u00e7\u00e3o \u00e9tnico&#8221;, diz o pesquisador.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Nos registros oficiais consta a chegada de 94 \u00edndios ao Krenak entre 1969 e 1972, quando foram transferidos para a Fazenda Guarani, pertencente \u00e0 PM de Minas Gerais, no munic\u00edpio de Carm\u00e9sia. Os motivos alegados para as pris\u00f5es eram &#8220;atrito com chefe do posto ind\u00edgena&#8221;, &#8220;vadiagem&#8221;, &#8220;uso de drogas&#8221;, &#8220;embriaguez&#8221;, &#8220;prostitui\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;roubo&#8221;, &#8220;sa\u00edda da aldeia sem autoriza\u00e7\u00e3o&#8221;, &#8220;rela\u00e7\u00f5es sexuais indevidas&#8221;, &#8220;pederastia&#8221;, &#8220;homic\u00eddio&#8221;, &#8220;agress\u00e3o \u00e0 mulher&#8221;, &#8220;problemas mentais&#8221;. Mas s\u00e3o registros incompletos, que n\u00e3o permitem que se entenda o que se passava no local.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Para Jos\u00e9 Gabriel Silveira Corr\u00eaa, 39, professor de antropologia da Universidade Federal de Campina Grande (PB), a ditadura foi &#8220;um momento de recrudescimento das pr\u00e1ticas de viol\u00eancia que eram comuns nos postos ind\u00edgenas&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Ao formar a Grin e o Pres\u00eddio e Reformat\u00f3rio Agr\u00edcola Krenak&#8221;, diz Corr\u00eaa, &#8220;Pinheiro tornou sistem\u00e1ticas essas pr\u00e1ticas e ainda deu a elas uma apar\u00eancia de legalidade, j\u00e1 que ele era o representante oficial do \u00f3rg\u00e3o de tutela estatal.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Ele diz ter escutado diversos &#8220;relatos de aprisionamentos, trabalhos for\u00e7ados, regime de pris\u00e3o solit\u00e1ria, surras e desaparecimentos de presos&#8221;. Era uma pr\u00e1tica de viol\u00eancia recorrente, &#8220;mas o pior de tudo \u00e9 que o capit\u00e3o fez com que fosse praticada pelos pr\u00f3prios \u00edndios, submetidos que estavam a um regime policial&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Benedito Prezia aponta o &#8220;car\u00e1ter perverso&#8221; de transformar \u00edndios em &#8220;agentes colaboradores no massacre de seu pr\u00f3prio povo&#8221;. Mas nem nisso a ditadura foi original, ele salienta. &#8220;Relatos de jesu\u00edtas no s\u00e9culo 17 j\u00e1 mencionam o uso de ind\u00edgenas para capturar negros da Guin\u00e9 que haviam fugido do jugo da escravid\u00e3o&#8221;, diz.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em tempos de &#8220;Brasil Grande&#8221;, de integra\u00e7\u00e3o nacional (&#8220;integrar para n\u00e3o entregar&#8221;, dizia a propaganda oficial) e da constru\u00e7\u00e3o de estradas como a Transamaz\u00f4nica rasgando a floresta, os \u00edndios estiveram no centro do maior projeto estrat\u00e9gico do regime militar.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Apesar disso, curiosamente &#8220;a narrativa sobre os crimes da ditadura em rela\u00e7\u00e3o aos direitos humanos quase nunca inclui a quest\u00e3o ind\u00edgena&#8221;, observa Marcelo Zelic. Ele arrisca uma hip\u00f3tese: &#8220;No fundo, isso mostra como, mesmo nos c\u00edrculos democr\u00e1ticos mais combativos, as popula\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas ainda n\u00e3o s\u00e3o vistas como portadoras de direitos.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\"><strong>BALAN\u00c7O<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Tr\u00eas anos depois da pomposa formatura da primeira turma da Grin, o jornalista Jos\u00e9 Queir\u00f3s Campos, presidente da Funai, j\u00e1 tinha sido apeado do cargo e substitu\u00eddo pelo general Oscar Jer\u00f4nimo Bandeira de Mello. Fazia-se o balan\u00e7o das a\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;Tudo deu errado&#8221;, cravou o jornal &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221; em outubro de 1973, em reportagem escondida na parte inferior da p\u00e1gina 52, perto dos classificados.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Sobravam den\u00fancias de espancamentos, arbitrariedades, insubordina\u00e7\u00e3o e at\u00e9 estupros cometidos pelos guardas que retornaram \u00e0s aldeias. Na ilha do Bananal, um caboclo foi pego com quatro garrafas de cacha\u00e7a (o que era proibid\u00edssimo pela Funai). Apurou-se que foi obrigado &#8220;a praticar orgias com guardas caraj\u00e1s&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Os jornais relataram a tortura cometida por guardas ind\u00edgenas contra um pescador, tamb\u00e9m flagrado com cacha\u00e7a para uso pessoal. Preso, foi obrigado a ir caminhando at\u00e9 a delegacia, a cinco quil\u00f4metros de dist\u00e2ncia, sob golpes de borduna.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Outro agente da Grin usou o soldo que recebia para montar um bordel na aldeia. A situa\u00e7\u00e3o chegou a tal ponto, ainda segundo &#8220;O Estado de S. Paulo&#8221;, que o cacique caraj\u00e1 Arutan\u00e3, da ilha do Bananal, pediu \u00e0 For\u00e7a A\u00e9rea Brasileira (FAB) que extinguisse a Grin.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Em 1972, sem gl\u00f3rias, Pinheiro j\u00e1 havia sido destitu\u00eddo da Funai. N\u00e3o se formaram novas turmas. No final da d\u00e9cada a Guarda Rural Ind\u00edgena come\u00e7ou a ser desmobilizada. Segundo Corr\u00eaa, isso n\u00e3o bastaria para extinguir suas pr\u00e1ticas de viol\u00eancia. &#8220;H\u00e1 relatos sobre \u00edndios que, atualmente, quando precisam punir algu\u00e9m, levam-no \u00e0s proximidades da casa do &#8216;capit\u00e3o&#8217; ind\u00edgena, amarram-no em \u00e1rvores e surram-no, revivendo antigas pr\u00e1ticas ensinadas pelo \u00f3rg\u00e3o tutelar&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">&#8220;O reformat\u00f3rio e a Guarda Ind\u00edgena s\u00e3o apenas exemplos do muito que h\u00e1 a investigar pela Comiss\u00e3o Nacional da Verdade&#8221;, diz Zelic. &#8220;Outros casos j\u00e1 est\u00e3o em levantamento, como o dos guarani-caiov\u00e1, que sofreram algo que beira o genoc\u00eddio nas remo\u00e7\u00f5es feitas durante a ditadura.&#8221;<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">E conclui: &#8220;S\u00f3 assim, com a verdade, a sociedade n\u00e3o \u00edndia entender\u00e1 a necessidade de respeitarmos as terras e os direitos dos povos ind\u00edgenas&#8221;.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p3\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Em Rondonia<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aquele 5 de fevereiro de 1970 foi um dia de festa no quartel do Batalh\u00e3o-Escola Volunt\u00e1rios da P\u00e1tria, da Pol\u00edcia Militar de Minas Gerais, em Belo Horizonte. &#8220;Pelo menos mil pessoas, maioria de civis, meninos, jovens e velhos do bairro do Prado, em desusado interesse&#8221;, segundo reportagem da revista &#8220;O Cruzeiro&#8221;, assistiram \u00e0 formatura da [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2718"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2718"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2718\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2718"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2718"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2718"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}