{"id":273,"date":"2012-05-14T03:11:55","date_gmt":"2012-05-14T03:11:55","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/mst-luta-pela-desapropriacao-de-area-onde-militantes-contra-a-ditadura-eram-incinerados\/"},"modified":"2012-05-14T03:11:55","modified_gmt":"2012-05-14T03:11:55","slug":"mst-luta-pela-desapropriacao-de-area-onde-militantes-contra-a-ditadura-eram-incinerados","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/mst-luta-pela-desapropriacao-de-area-onde-militantes-contra-a-ditadura-eram-incinerados\/","title":{"rendered":"MST luta pela desapropria\u00e7\u00e3o de \u00e1rea onde militantes contra a ditadura eram incinerados"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cO local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vest\u00edgio humano. A usinapassou, em contrapartida, a receber benef\u00edcios dos militares pelos bons servi\u00e7os prestados. Era um per\u00edodo de dificuldade econ\u00f4mica e os usineiros da regi\u00e3o estavam pendurados em d\u00edvidas. Mas o pessoal da Cambahyba, n\u00e3o. Eles tinham acesso f\u00e1cil a financiamentos e outros benef\u00edcios que o Estado poderia prestar.\u201d (Cl\u00e1udio Guerra, ex-delegado do DOPS)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-272\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/usina-campos-300x175.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"175\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Uma usina de a\u00e7\u00facar em Campos dos Goytacazes servia como pal\u00e1cio dos horrores durante a ditadura militar  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cA t\u00edtulo de sugest\u00e3o, optando pela retirada for\u00e7ada, deve-se agir sem aviso pr\u00e9vio, compartimentada, mais cedo poss\u00edvel, despejando-se imediatamente, com o m\u00ednimo de di\u00e1logo, todos aqueles que estiverem nas constru\u00e7\u00f5es, bem como os seus pertences, prendendo se necess\u00e1rio e na seq\u00fc\u00eancia, destruir as casas.\u201d (Adriano Dias Teixeira Amorim do Vale \u2013 Delegado Federal \u2013 Dezembro de 2005)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1997, a \u00e1rea no munic\u00edpio de Campos dos Goytacazes (RJ) onde as usinas de a\u00e7\u00facar Cambahyba, Santa Maria, Carapebus e Quissam\u00e3 se localizam, composta por sete fazendas que totalizam 3500 hectares, foi considerada improdutiva. Mas o Instituto Nacional de Coloniza\u00e7\u00e3o e Reforma Agr\u00e1ria (Incra), com exce\u00e7\u00e3o de uma \u00e1rea de 550 hectares \u2013 que deu origem ao assentamento Via Lopes -, at\u00e9 hoje n\u00e3o foi capaz de realizar as desapropria\u00e7\u00f5es em toda a \u00e1rea, pois o Poder Judici\u00e1rio acatou liminares dos propriet\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para Fernando Moura, da coordena\u00e7\u00e3o do MST, \u201cessa morosidade revela o poder dos fazendeiros. Vale lembrar que as \u00e1reas t\u00eam d\u00edvidas grandes com a Uni\u00e3o, al\u00e9m do fato de ter sido encontrado trabalhadores em condi\u00e7\u00f5es an\u00e1logas \u00e0 escravid\u00e3o na regi\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Viol\u00eancia intermin\u00e1vel<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um fato at\u00e9 ent\u00e3o desconhecido sobre a usina de Cambahyba chocou a sociedade brasileira. A usina foi palco, no per\u00edodo da Ditadura Militar, de um crime b\u00e1rbaro. O ex-delegado do Departamento de Ordem Pol\u00edtica e Social (DOPS), Cl\u00e1udio Guerra, conta no livro Mem\u00f3rias de uma Guerra Suja que a usina de Cambahyba foi usada pelos militares para incinerar corpos de militantes de esquerda que haviam sido mortos devido \u00e0s torturas praticadas pelo regime em \u00f3rg\u00e3os como o pr\u00f3prio DOPS. Guerra conta que ele mesmo incinerou dez corpos, dentre os quais estavam os de David Capistrano, Jo\u00e3o Massena Mello, Jos\u00e9 Roman e Luiz Ign\u00e1cio Maranh\u00e3o Filho, dirigentes hist\u00f3ricos do Partido Comunista Brasileiro (PCB).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEm determinado momento da guerra contra os advers\u00e1rios do regime passamos a discutir o que fazer com os corpos dos eliminados na luta clandestina. Est\u00e1vamos no final de 1973. Precis\u00e1vamos ter um plano. Embora a imprensa estivesse sob censura, havia resist\u00eancia interna e no exterior contra os atos clandestinos, a tortura e as mortes\u201d, relata Guerra.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A solu\u00e7\u00e3o encontrada foi utilizar os fornos da usina e queimar os corpos, de forma a n\u00e3o deixar vest\u00edgios. A usina, \u00e0 \u00e9poca, era propriedade do ex-vice-governador do estado do Rio, Heli Ribeiro, que topou o acordo, pois ele \u201cfaria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil\u201d. Al\u00e9m disso, o regime militar oferecia armas a Heli para que ele combatesse os sem terra da regi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Passados d\u00e9cadas desse tr\u00e1gico epis\u00f3dio, a viol\u00eancia na regi\u00e3o de Cambahyba continua. Em 2006, o acampamento Oziel Alves, que abrigava 150 fam\u00edlias sem terra h\u00e1 mais de seis anos, foi destru\u00eddo em uma opera\u00e7\u00e3o pelas pol\u00edcias militar e federal, com aval da Justi\u00e7a do Estado e acompanhados do dono usina, Crist\u00f3v\u00e3o Lisandro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o houve di\u00e1logo nem negocia\u00e7\u00e3o com a popula\u00e7\u00e3o, que al\u00e9m de habitar a \u00e1rea, produzia hortifrutigranjeiros e gado de leite: as pessoas foram retiradas \u00e0 for\u00e7a de seus lares, sem poder salvar seus pertences. As estradas pr\u00f3ximas ao acampamento foram trancadas, o que impediu que a imprensa pudesse cobrir os fatos quando a opera\u00e7\u00e3o come\u00e7ou \u2013 ela s\u00f3 teve acesso ao acampamento cinco horas ap\u00f3s o in\u00edcio da opera\u00e7\u00e3o policial -, e os policiais entraram nas casas sem apresentar ordem judicial, destruindo pertences dos moradores.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os Sem Terra que tentaram negociar foram presos, agredidos f\u00edsica e moralmente, e s\u00f3 sa\u00edram da delegacia ap\u00f3s assinarem declara\u00e7\u00e3o de que portavam \u201carmas brancas\u201d, que eram na verdade as ferramentas de trabalho dos produtores. Ap\u00f3s a revista nas casas pelos policiais, elas foram derrubadas por m\u00e1quinas, deixando os moradores sem qualquer amparo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Desapropria\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Francisco conta que, desde outubro do ano passado, a decis\u00e3o de desapropriar as \u00e1reas est\u00e1 na 2\u00aa Vara de Justi\u00e7a do Estado. O MST pretende pressionar para que a decis\u00e3o seja favor\u00e1vel \u00e0 Reforma Agr\u00e1ria. Segundo Francisco, ap\u00f3s saber do passado tr\u00e1gico da usina, diz que \u201ca viol\u00eancia da Ditadura e do latif\u00fandio tem uma rela\u00e7\u00e3o grande. Agora, a luta se intensifica, para tornar esta terra produtiva com a Reforma Agr\u00e1ria e denunciar a postura de um Judici\u00e1rio que favorece os propriet\u00e1rios\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio do Brasil<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cO local foi aprovado. O forno da usina era enorme. Ideal para transformar em cinzas qualquer vest\u00edgio humano. A usinapassou, em contrapartida, a receber benef\u00edcios dos militares pelos bons servi\u00e7os prestados. Era um per\u00edodo de dificuldade econ\u00f4mica e os usineiros da regi\u00e3o estavam pendurados em d\u00edvidas. Mas o pessoal da Cambahyba, n\u00e3o. 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