{"id":2769,"date":"2012-11-20T15:08:53","date_gmt":"2012-11-20T15:08:53","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/20\/audiencia-da-comissao-da-verdade-reune-mais-200-pessoas-em-maraba-2\/"},"modified":"2012-11-20T15:08:53","modified_gmt":"2012-11-20T15:08:53","slug":"audiencia-da-comissao-da-verdade-reune-mais-200-pessoas-em-maraba-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/20\/audiencia-da-comissao-da-verdade-reune-mais-200-pessoas-em-maraba-2\/","title":{"rendered":"Audi\u00eancia da Comiss\u00e3o da Verdade re\u00fane mais 200 pessoas em Marab\u00e1"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade realizou neste s\u00e1bado (17), em Marab\u00e1, no Par\u00e1, uma audi\u00eancia p\u00fablica que reuniu mais de 200 camponeses e \u00edndios Suru\u00ed da regi\u00e3o do Araguaia. Durante cerca de tr\u00eas horas a representante da CNV Maria Rita Kehl e outros membros da comiss\u00e3o ouviram os relatos de mais de 10 pessoas que sofreram torturas de militares do Ex\u00e9rcito brasileiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2680\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/maria_rita_audiencia34870.jpg\" border=\"0\" width=\"225\" height=\"169\" style=\"vertical-align: middle;\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Entre os anos de 1972 e 1974, militares se estabeleceram no sul do Par\u00e1 para combater os militantes do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) que lideravam o movimento revolucion\u00e1rio conhecido como a Guerrilha do Araguaia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Durante a abertura do evento, Maria Rita afirmou que a investiga\u00e7\u00e3o dos crimes cometidos pela ditadura militar na regi\u00e3o do sul do Par\u00e1 \u00e9 essencial para o esclarecimento da hist\u00f3ria do pa\u00eds. \u201cPorque aqui foram praticadas as piores injusti\u00e7as. Quantas pessoas n\u00e3o foram maltratadas e perderam as suas terras? O Estado achava que podia tudo. \u00c9 muito importante que se saiba o que aconteceu para que isso n\u00e3o ocorra mais\u201d.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2685\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/camponeses_na_audiencia34869.jpg\" border=\"0\" width=\"425\" height=\"319\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Ela explicou a instala\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o Nacional da Verdade pela presidenta Dilma Rousseff em maio de 2012 representa a primeira iniciativa do Estado brasileiro para investigar e se responsabilizar pela culpa dos crimes praticados por agentes da repress\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">O representante do PCdoB no Grupo de Trabalho Araguaia (GTA) e membro do Comit\u00ea Paraense pela Mem\u00f3ria e Verdade, Paulo Fonteles Filho, refor\u00e7ou que a ditadura militar brasileira foi letal para todo o povo brasileiro, mas foi pior ainda na regi\u00e3o do Araguaia. \u201cA invas\u00e3o militar vitimou centenas de trabalhadores rurais, perseguiu os \u00edndios, camponeses e aqueles que com armas lutaram para restabelecer a liberdade e a democracia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Tamb\u00e9m participaram da atividade representantes da Comiss\u00e3o Pastoral da Terra (CPT), a Pastoral da Juventude, o Levante Popular da Juventude, a Federa\u00e7\u00e3o dos Estudantes de Agronomia do Brasil (Feab), o movimento Debate e A\u00e7\u00e3o \u2013 formado por alunos de ci\u00eancias sociais da UFPA \u2013, e do Conselho Indigenista Mission\u00e1rio (Cimi).<\/p>\n<p class=\"p1\">Osvaldo Bertolino, da Funda\u00e7\u00e3o Maur\u00edcio Grabois, falou que o resgate dos fatos que aconteceram no per\u00edodo da guerrilha \u00e9 fundamental \u201cpara estabelecer a verdade, criar elementos para que aqueles que cometeram crimes sejam punidos e para que os camponeses que lutaram com os guerrilheiros tenham seus direitos assegurados\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Relatos<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Em seus relatos, ind\u00edgenas e camponeses falaram do sofrimento que passaram durante os anos em que os militares aturam na regi\u00e3o. Al\u00e9m das agress\u00f5es f\u00edsicas, eles ainda carregam as marcas das torturas psicol\u00f3gicas e do medo.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2697\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/tiwacu34871.jpg\" border=\"0\" width=\"225\" height=\"169\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O ex-cacique da aldeia Itahy, Tiwabu Suru\u00ed \u2013 que viveu por oito anos em S\u00e3o Paulo \u2013 conta que quando retornou \u00e0 regi\u00e3o se assustou com a grande movimenta\u00e7\u00e3o dos soldados. Durante tr\u00eas anos ele foi obrigado a servir de guia dos militares na mata. Emocionado, ele relembra que teve que se despedir da fam\u00edlia sem saber se voltaria. Tiwabu diz que os soldados ordenaram que ele n\u00e3o fizesse perguntas, caso contr\u00e1rio seria jogado do avi\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para a \u00edndia Arihera Suru\u00ed, da aldeia Soror\u00f3, as piores lembran\u00e7as do conflito est\u00e3o relacionadas aos h\u00e1bitos e costumes do povo ind\u00edgena. Segundo ela, os \u00edndios foram proibidos de ca\u00e7ar e os mais jovens sofreram muito com a fome nesse per\u00edodo. Ela relata que quando ouvia o barulho dos tiros na mata pensava que seus irm\u00e3os e parentes estavam sendo mortos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O campon\u00eas Eucliedes Pereira de Sousa (o Beca) diz que foi preso no dia 14 de outubro de 1973 e levado como \u201cterrorista\u201d \u2013 designa\u00e7\u00e3o usada pelos militares para identificar os her\u00f3is da guerrilha \u2013 para o alto da Serra das Andorinhas. \u201cQuando cheguei em Xambio\u00e1 j\u00e1 tinham companheiros meus presos l\u00e1\u201d. Al\u00e9m de choques el\u00e9tricos, ele foi obrigado a cavar uma cova que, segundo os militares, seria usada para sepult\u00e1-lo. \u201cEles me mandaram cavar um buraco e falaram que iam me enterrar vivo\u201d. Ele afirma que em seguida viu a cabe\u00e7a do guerrilheiro Arildo Valad\u00e3o, o Ari, ser colocada na cova.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Lauro Rodrigues dos Santos, que hoje integra a diretoria da Associa\u00e7\u00e3o dos Torturados da Guerrilha do Araguaia, \u00e9 dos camponeses que carregam no corpo as piores marcas da repress\u00e3o militar. Aos 15 anos ele perdeu parte do bra\u00e7o quando desarmou por acidente uma granada do Ex\u00e9rcito. Filho de seu Jo\u00e3o do Araguaia, o primeiro campon\u00eas preso na regi\u00e3o, Lauro se emociona muito ao falar daquele per\u00edodo.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-2699\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/11\/lauro34872.jpg\" border=\"0\" width=\"225\" height=\"169\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Segundo ele, em 1969 chegaram o primeiros guerrilheiros na regi\u00e3o \u2013 que foram os vizinhos mais pr\u00f3ximos de sua fam\u00edlia por cerca de tr\u00eas anos. \u201cEm abril de 1972 o pessoal do Ex\u00e9rcito invadiu a nossa resid\u00eancia no Araguaia. Meu pai, o Eduardo, que est\u00e1 aqui foi o primeiro trabalhador rural a ser preso. Ele ficou quatro meses preso no Tiro de Guerra de Marab\u00e1 e em Bel\u00e9m. Depois que ele foi liberado o pessoal do Ex\u00e9rcito voltou na nossa regi\u00e3o e metralhou a casa dos guerrilheiros e colocou fogo na nossa casa. Meu pai, com 10 filhos teve que sair correndo para a cidade. N\u00f3s atravessamos o rio \u00e0 noite para n\u00e3o sermos metralhados.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\">As mem\u00f3rias de Lauro dos antigos guerrilheiros \u2013 conhecidos pelo povo da regi\u00e3o como os paulistas \u2013 s\u00e3o de muita amizade e admira\u00e7\u00e3o. \u201cEles eram um pessoal que tratava bem o povo da localidade, davam rem\u00e9dios para as pessoas. As coisas que eles faziam l\u00e1, at\u00e9 hoje, em muitos lugares o Poder P\u00fablico ainda n\u00e3o faz. Eles faziam o bem. Apelo para que o governo nos ajude. Muita gente, como eu, ainda n\u00e3o foi reparado.\u201d<\/p>\n<p class=\"p2\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\"><strong>Comiss\u00e3o da Verdade dos Camponeses do Araguaia<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\">Um dos marcos mais importantes da audi\u00eancia deste s\u00e1bado (17) foi a cria\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o da Verdade dos Camponeses do Araguaia. Segundo o presidente da Associa\u00e7\u00e3o dos Camponeses do Araguaia, Sez\u00f3strys Alves da Costa, a comiss\u00e3o \u2013 que ser\u00e1 composta por sete camponeses \u2013 ir\u00e1 subsidiar de forma mais consistente a quest\u00e3o dos camponeses no processo da Guerrilha. \u201cVamos produzir um relat\u00f3rio que contemple todos os camponeses. Ao final vamos apresentar esse documento para a Comiss\u00e3o Nacional da Verdade para que ela possa concluir seu relat\u00f3rio. Isso vai ser fundamental para que a hist\u00f3ria possa se tornar p\u00fablica e oficial.\u201d<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\">Fonte &#8211; Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o Nacional da Verdade realizou neste s\u00e1bado (17), em Marab\u00e1, no Par\u00e1, uma audi\u00eancia p\u00fablica que reuniu mais de 200 camponeses e \u00edndios Suru\u00ed da regi\u00e3o do Araguaia. 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