{"id":279,"date":"2012-05-14T14:24:33","date_gmt":"2012-05-14T14:24:33","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/a-comissao-de-memoria-e-o-ex-ditador-videla\/"},"modified":"2012-05-14T14:24:33","modified_gmt":"2012-05-14T14:24:33","slug":"a-comissao-de-memoria-e-o-ex-ditador-videla","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/a-comissao-de-memoria-e-o-ex-ditador-videla\/","title":{"rendered":"A Comiss\u00e3o de Mem\u00f3ria e o Ex-Ditador Videla"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cDeus sabe o que faz, porque o faz e para qu\u00ea. Aceito a vontade de Deus e acredito que Deus nunca soltou a minha m\u00e3o\u201d. &#8211;\u00a0Jorge Rafael Videla, ex-ditador argentino, a um jornalista.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Recentemente, apareceram nos jornais brasileiros duas not\u00edcias relacionadas com o terrorismo de Estado.\u00a0Uma \u00e9 que o governo do Brasil divulgou os nomes da Comiss\u00e3o de Mem\u00f3ria criada para estudar os crimes da ditadura.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-277\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/videla-poder.jpg\" border=\"0\" width=\"460\" height=\"1039\" \/><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A outra cont\u00e9m informa\u00e7\u00e3o sobre a publica\u00e7\u00e3o, na Argentina, de um livro do jornalista Ceferino Reato intitulado Disposi\u00e7\u00e3o Final, em que divulga v\u00e1rias horas de conversa com o ex-l\u00edder do pior genoc\u00eddio do continente: Jorge Rafael Videla (1925-????).\u00a0<a href=\"http:\/\/advivo.com.br\/blog\/luisnassif\/videla-general-da-ditadura-argentina-comeca-a-falar\">Vide<\/a>. Esse livro foi lan\u00e7ado em Buenos Aires em 27 de abril.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Confiss\u00e3o do Genocida<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O jornalista que entrevistou Videla ficou apavorado pela crueldade e frieza do aposentado carrasco, mas, no fundo, essa atitude era previs\u00edvel. Se orgulhar de seus crimes era o que sempre se esperou dele e de seus \u201ccolegas\u201d e similares em qualquer lugar do mundo (<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/videla-reconhece-8-mil-mortes-ditadura-na-argentina-4645924\">Vide<\/a>).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Num julgamento anterior, outro idoso exterminador, autor do aniquilamento de mais de 2.000 pessoas em Tucum\u00e1n (Noroeste do pa\u00eds, perto da fronteira com Bol\u00edvia), ouvindo sua senten\u00e7a em cadeira de rodas, bradou a seus ju\u00edzes que se arrependia de n\u00e3o ter matado mais inimigos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Veja mais detalhes sobre Videla,\u00a0<a href=\"http:\/\/oglobo.globo.com\/mundo\/videla-reconhece-8-mil-mortes-ditadura-na-argentina-4645924#ixzz1uZt11jlo\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Desde a forma\u00e7\u00e3o da Comiss\u00e3o de Verdade na Argentina (chamada CONADEP) em 15\/12\/1983, todos sabem que nunca se encontrou um \u00fanico quadro alto ou m\u00e9dio, seja dos militares, da pol\u00edcia, ou dos c\u00famplices civis e religiosos, que tenha mostrado o m\u00ednimo arrependimento, compaix\u00e3o ou pena por suas v\u00edtimas. A tortura e mutila\u00e7\u00e3o por semanas ou meses (at\u00e9 morrer por sangramento) de mulheres gr\u00e1vidas, crian\u00e7as, nen\u00e9ns e outras pessoas, foi para eles uma mistura de dever divino, divers\u00e3o e catarse.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma vis\u00e3o humanit\u00e1ria do direito n\u00e3o pode descartar que um criminoso, por brutal que seja, tenha possibilidade de recupera\u00e7\u00e3o. O problema \u00e9 que, entre os terroristas de estado, os exemplos de arrependidos s\u00e3o pouqu\u00edssimos e, quase sempre, chegaram ao remorso no meio a fortes surtos de psicose.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Usando os dados informais dos pa\u00edses pesquisados desde 1945 at\u00e9 2001, incluindo os da \u00c1frica, onde houve o maior n\u00famero de arrependidos, a propor\u00e7\u00e3o de genocidas que lamentaram seu passado, foi de menos de 7 casos em 10.000. Isso faz que a probabilidade de encontrar algum destes \u201cautocr\u00edticos\u201d, seja menor que 0,0007, ou seja: \u201cquase\u201d zero.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos julgamento de Nuremberg, onde o impacto emocional da amea\u00e7a de enforcamento deve ter sido intenso, houve apenas quatro arrependidos:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00a0\u00a0Baldur von Schirach (1917-1974), chefe da juventude hitlerista, poupado da forca.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00a0\u00a0Hans Frank (1900-1946), chefe de ocupa\u00e7\u00e3o da Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00a0\u00a0Arthur Seyss-Inquart (1892-1946), chefe de ocupa\u00e7\u00e3o da Holanda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00a0\u00a0Albert Speer (1905 \u2013 1981), ministro de armamentos desde 1942, condenado a 20 anos de pris\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Veja os detalhes\u00a0<a href=\"http:\/\/en.wikipedia.org\/wiki\/Nuremberg_Trials#The_main_trial\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tiranos, torturadores, genocidas, etc., n\u00e3o s\u00e3o criminosos pol\u00edticos, como inventou o STF brasileiro para encobri-los com a anistia de 1978, mas tampouco s\u00e3o criminosos comuns. Desde 1947, durante os julgamentos de Nuremberg, cunhou-se uma nova categoria de crime: crime contra a humanidade. \u00c9 uma pena que alguns magistrados n\u00e3o tenham tido tempo ainda para aprender este conceito.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nos 10 pa\u00edses (ou menos) onde existem regimes penitenci\u00e1rios mais ou menos\u00a0humanit\u00e1rios (Noruega, Su\u00e9cia, Costa Rica e alguns outros), a propor\u00e7\u00e3o de criminosos comuns recuperados \u00e9 muito alta, porque, afinal, ningu\u00e9m quer cometer delitos por voca\u00e7\u00e3o. Quem \u00e9 empurrado ao delito \u00e9, em quase todos os casos, o sujeito que sofreu discrimina\u00e7\u00e3o, abusos e mis\u00e9ria. Isto, ali\u00e1s, foi feito expl\u00edcito por Karl Marx, que o utilizou como argumento essencial em seu artigo sobre o roubo de lenha de 1842 (Rheinische Zeitung, num 298 supp.\u00a0<a href=\"http:\/\/www.marxists.org\/archive\/marx\/works\/1842\/10\/25.htm\">Vide<\/a>).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Inversamente, o criminoso contra a humanidade sente que sua crueldade \u00e9 justa e, portanto, deve orgulhar-se, jamais se arrepender. Ali\u00e1s, o establishment o trata como her\u00f3i, e seus crimes s\u00e3o vistos como proezas, s\u00e3o atos qualificados com nomes cafonas e rid\u00edculos como \u201ccumprimento do dever\u201d, \u201camor \u00e0 p\u00e1tria\u201d e outras pieguices. Eles recebem promo\u00e7\u00f5es de seus superiores (e \u00e0s vezes propinas de seus patrocinadores) pelo n\u00famero de pessoas mortas, povoados devastados e assim em diante.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem \u00e9 recompensado oficialmente por matar e torturar est\u00e1 obrigado a continuar sua carreira de morte e sangue at\u00e9 se aposentar. A destrui\u00e7\u00e3o gradativa de sua sensibilidade e intelig\u00eancia, caso tivesse, deixar\u00e1 nele, na maturidade da vida, apenas rancor e uma confusa esperan\u00e7a de que ser\u00e1 reivindicado por Deus e pela Hist\u00f3ria. Ali\u00e1s, achar\u00e1 que, desde algum local do universo, poder\u00e1 ver sua \u201cglorifica\u00e7\u00e3o\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Quem entrou numa corpora\u00e7\u00e3o violenta por causa do desemprego ou do acaso, mas sem voca\u00e7\u00e3o linchadora, pode \u00e0s vezes manter-se \u00e0 margem dos crimes de seus chefes at\u00e9 que seja expulso ou aposentado. Nestes casos, se o sujeito deveu se enlamear com alguns atos criminosos, \u00e9 poss\u00edvel que o arrependimento realmente pese, mas, mesmo assim, as verifica\u00e7\u00f5es encontradas s\u00e3o escassas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Homens como Videla n\u00e3o s\u00e3o muito comuns, pois algozes e destrutoresvocacionais formam minoria no mundo. Pensemos que os seis pa\u00edses mais militarizados do planeta (em propor\u00e7\u00e3o de soldados e n\u00e3o de or\u00e7amento) s\u00e3o uma parte \u00ednfima de popula\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Pa\u00eds \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a0Porcentagem de militares (profissionais e recrutados)<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Cor\u00e9ia do Norte \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a041,89%<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Cor\u00e9ia do Sul \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a017,36%<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">R\u00fassia \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a015,34%<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Singapura \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0\u00a011,22<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Cuba \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a010,78%<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Israel \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a0 \u00a010,34%<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fora destes, em apenas 11 pa\u00edses os soldados ultrapassam o 5% da popula\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, dentro destes grupos, os militares vocacionais s\u00e3o minoria e, em alguns ex\u00e9rcitos, mesmo as altas lideran\u00e7as s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0 tortura e o genoc\u00eddio. Ou seja, a propor\u00e7\u00e3o de pessoas como o general Videla na popula\u00e7\u00e3o mundial deve ser menor de 1%.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Mas tampouco deve pensar-se que homens como ele s\u00e3o raridades absolutas que s\u00f3 aparecem de vez em quando. Mesmo 0,1% da humanidade seria uma quantidade enorme, a suficiente para tornar muitos pa\u00edses um verdadeiro inferno. \u00c9 um fetichismo manique\u00edsta acreditar que pessoas como Videla, Pinochet, Hitler, Stalin, Sadam Hussein, al Assad, Gadaffi, George Bush, e muitos outros, s\u00e3o cria\u00e7\u00f5es do diabo, e que as institui\u00e7\u00f5es a que eles pertencem s\u00e3o \u201cinocentes\u201d desses elementos \u201cindignos\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Muito pelo contr\u00e1rio: Videla foi apoiado pela maioria dos quadros altos, m\u00e9dios e at\u00e9 baixos das FFAA, foi financiado por empres\u00e1rios, banqueiros e elites abastadas, e aplaudido por toda a m\u00eddia, pelos magistrados, pela pol\u00edcia e por todos menos 3 dos 124 bispos cat\u00f3licos. Al\u00e9m disso, salvo num caso, teve apoio dos partidos tradicionais, inclusive o que reunia os res\u00edduos do stalinismo. M\u00e9dicos e outros profissionais colaboraram nas torturas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Se pessoas como Videla parecem esquisitas \u00e9 apenas porque tiveram a \u201csorte\u201d de chegar a cume do poder. Entre tropas operativas, c\u00famplices civis, propagandistas e delatores, o genoc\u00eddio argentino teve cerca de 150 mil autores; isto significava 0,5% da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds na d\u00e9cada de 70.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na reportagem do jornalista argentino Ceferino Reato, Videla se considera respons\u00e1vel direito da morte de 8.000 pessoas. Ele parece aludir aos que foram assassinados ap\u00f3s sua autoriza\u00e7\u00e3o expressa. Com efeito, as v\u00edtimas feitas pelas for\u00e7as repressivas durante sua ditadura s\u00e3o muito mais de 8.000.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 durante o 2\u00ba ano da gest\u00e3o da Videla, um cidad\u00e3o chileno, Enrique Arancibia Clavel (1944-2011), aparentemente agente da DINA, foi encontrado com documentos sigilosos que estava enviando \u00e0 ditadura chilena, onde estimava em mais de 22.000 os desaparecidos argentinos. Videla esteve mais outros 3 anos no comando, e s\u00f3 no final do mesmo as desapari\u00e7\u00f5es come\u00e7aram a diminuir. Ent\u00e3o, mesmo admitindo um decr\u00e9scimo nos 3 anos seguintes, \u00e9 prov\u00e1vel que tenha havido entre 10 e 20.000 novos desaparecidos. O n\u00famero de 30.000 desaparecidos, que se tornou popular em 1978, talvez subestime o tamanho do massacre. Algo entre 35.000 e 45.000 parece bem mais prov\u00e1vel (<a href=\"http:\/\/www.pagina12.com.ar\/2000\/00-11\/00-11-12\/pag18.htm\">Vide<\/a> aqui a mat\u00e9ria sobre os memos da Opera\u00e7\u00e3o Condor).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Gera\u00e7\u00e3o da Mentalidade Terrorista<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Como Videla n\u00e3o \u00e9 um cidad\u00e3o comum, mas tampouco muito diferente de outros guerreiros, ele pode ser usado como exemplo para entender como se gera a mentalidade genocida. A pesquisa sobre esta mentalidade fez progressos ap\u00f3s 1930, gra\u00e7as \u00e0 Escola de Frankfurt, a Hanna Arendt e aos marxistas n\u00e3o leninistas. Mas, as doutrinas elaboradas por esses pesquisadores, apesar de sua indubit\u00e1vel validez, n\u00e3o parecem suficientes para uma descri\u00e7\u00e3o completa dos criminosos de lesa humanidade.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A bi\u00f3loga italiana Rita Levi-Montalcini, ganhadora do Nobel de fisiologia de 1986, tem tentado explicar a afetividade positiva das pessoas (como a solidariedade e o altru\u00edsmo) com base nas fun\u00e7\u00f5es do c\u00e9rebro. Pode acontecer, ent\u00e3o, que as emo\u00e7\u00f5es negativas e s\u00e1dicas como a dos l\u00edderes castrenses devam explicar-se tamb\u00e9m dessa maneira (veja\u00a0<a href=\"http:\/\/www.vitodibari.com\/en\/interview-italian-neurologist-rita-levimontalcini-progress-depends-brain-important-part-brain-neocortical-discoveries.html\">aqui<\/a>), como defasagem entre a evolu\u00e7\u00e3o intelectual humana e sua parcial estagna\u00e7\u00e3o emocional, o que teria criado \u201cfalhas\u201d que s\u00e3o incompat\u00edveis com os instintos naturais de outros animais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Estas observa\u00e7\u00f5es de Montalcini sugerem, acredito, que boa parte da esp\u00e9cie humana est\u00e1 carregada de sentimentos destrutivos desconhecidos em outras esp\u00e9cies, mas que podem ser mantidos sob controle, sendo que s\u00e3o deflagrados apenas por \u201ccat\u00e1strofes\u201d cognitivas, como supersti\u00e7\u00f5es, del\u00edrios e cren\u00e7as em valores abstratos e sem sentido. Isto n\u00e3o significa necessariamente que a crueldade seja sempre uma doen\u00e7a, mas, pelo menos, seria uma derrota dos componentes generosos e racionais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O caso de Videla ilustra bem o surgimento da mentalidade s\u00e1dica de um genocida sistem\u00e1tico, de um l\u00edder destacado de um grande massacre (<a href=\"http:\/\/www.lainsignia.org\/2001\/abril\/cul_095.htm\">Veja<\/a> um excelente ensaio na revista uruguaia Brecha).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sua fam\u00edlia \u00e9 um caso t\u00edpico de \u201caristocracia\u201d de origem colonial, profundamente cat\u00f3lica e cheia de militares. Ele \u00e9 lembrado por seus bi\u00f3grafos como soturno e medroso, obediente e cerimonioso, cioso das hierarquias, arrogante e d\u00e9spota, fiel devoto, homem sem amizades nem namoradas, sem intelig\u00eancia nem simpatia, frio e sem esp\u00edrito solid\u00e1rio.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Talvez por isso, h\u00e1 alguns dias, quando o jornalista Reato publicou seu depoimento em forma de livro, muitas pessoas se surpreenderam de que o ditador em pessoa tenha ordenado as torturas, mutila\u00e7\u00f5es e desapari\u00e7\u00f5es. Por que tanta surpresa? V\u00e1rios intelectuais que estudaram bem o caso de Videla afirmam:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEle \u00e9 uma pessoa med\u00edocre, sem intelig\u00eancia, incapaz de juntar duas id\u00e9ias. Ningu\u00e9m pensava que teria habilidade nem mesmo para matar. \u00c9 parecido com o ditador espanhol Francisco Franco\u201d (<a href=\"http:\/\/news.bbc.co.uk\/hi\/spanish\/specials\/newsid_1235000\/1235555.stm\">Vide<\/a>)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 um fato na vida de Videla que mostra interessante semelhan\u00e7a de conduta com ditadores de diferentes pa\u00edses, especialmente nazistas. Casado com uma mulher da \u201cnobreza\u201d argentina, o futuro ditador teve com ela todos os filhos que Deus mandou(neste caso, sete). Entre eles, havia um menino com defici\u00eancia mental, que qualquer fam\u00edlia normal teria ajudado a viver com carinho. No entanto, fiel \u00e0s suas id\u00e9ias, o casal o internou num asilo, uma esp\u00e9cie de dep\u00f3sito de seres humanos, onde morreu em 1971, aos 19 anos. (<a href=\"http:\/\/www.pagina12.com.ar\/1998\/98-06\/98-06-23\/pag03.htm\">Vide<\/a> uma not\u00edcia fi\u00e1vel sobre o caso\u00a0<a href=\"http:\/\/www.pagina12.com.ar\/1998\/98-06\/98-06-23\/pag03.htm\">aqui<\/a>)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 serem desmascarados pela m\u00eddia em 2000, os esposos negaram a exist\u00eancia desse filho. Ap\u00f3s as den\u00fancias dos jornais, admitiram ter tido uma crian\u00e7a doente, mas n\u00e3o reconheceram t\u00ea-la abandonado, apesar dos numerosos testemunhos opostos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria n\u00e3o acaba por aqui. Os asilos argentinos eram usualmente administrados por religiosos, \u00e0s vezes estrangeiros. O filho de Videla foi cuidado por duas freiras francesas, que prestaram voluntariado naquele dep\u00f3sito humano. Durante o pico da repress\u00e3o, em 1978, um tenente da Marinha (o primeiro que se rendeu aos ingleses durante a guerra das Malvinas, Alfredo Astiz), sequestrou as duas freiras, por pedido de bispos de Buenos Aires, que as acusaram a ajudar familiares das v\u00edtimas da ditadura.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ambas foram mantidas durante algum tempo no pior centro de tortura do pa\u00eds (ESMA), com o conhecimento de Videla, mas ele e sua mulher se recusaram a providenciar sua liberdade, apesar de elas terem sido o principal apoio da crian\u00e7a epil\u00e9ptica naquele asilo. As duas religiosas foram torturadas at\u00e9 agonizar. Anos depois, o sequestrador Astiz (hoje cumprindo pris\u00e3o perp\u00e9tua) admitiu ter lan\u00e7ado seus corpos ainda vivos no mar. (<a href=\"http:\/\/news.bbc.co.uk\/hi\/spanish\/specials\/newsid_1235000\/1235555.stm\">Vide<\/a> um fragmento do livro da escritora Maria Seoane, intitulado O Ditador)<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um sobrinho de Videla teve sorte ainda pior. Capturado por suspeitas, foi enviado a um campo de exterm\u00ednio, do qual nunca saiu. Quando a irm\u00e3 do ditador lhe pediu pela vida de seu filho, ele recusou. Afinal, toda a fam\u00edlia era muito cat\u00f3lica: tinha sido a vontade de Deus!<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Misticismo e Del\u00edrio<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por que os criminosos de lesa humanidade n\u00e3o se arrependem? V\u00e1rios autores de assaltos e latroc\u00ednios e membros de gangues organizadas t\u00eam sido recuperados at\u00e9 em sociedades pouco avan\u00e7adas. Muitos querem terminar \u201cesse tipo de vida\u201d e que a sociedade lhes ofere\u00e7a uma oportunidade de viver normalmente. J\u00e1 nos pa\u00edses mais civilizados, como os do Norte da Europa, a reabilita\u00e7\u00e3o de infratores \u00e9 expressiva, e os casos de criminosos irreconcili\u00e1veis s\u00e3o raros.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por que isso n\u00e3o acontece com os genocidas? Por que eles n\u00e3o sentem remorso, por que n\u00e3o se autocriticam, por que n\u00e3o mudam de vida? H\u00e1 v\u00e1rias raz\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Por um lado, o genocida est\u00e1 animado de forte misticismo. O ep\u00edgrafe a este artigo \u00e9 uma declara\u00e7\u00e3o de f\u00e9 do ditador Videla. Ali\u00e1s, todos os membros das juntas militares argentinas, ao longo das seis ditaduras, foram ferventes cat\u00f3licos e, \u00e0s vezes, proferiram seus discursos de joelhos como homenagem \u00e0 padroeira do pa\u00eds, o que foi motivo de chacota na comunidade internacional (<a href=\"http:\/\/commons.wikimedia.org\/wiki\/File:Ongan%C3%ADa_rezando.JPG?uselang=es\">Vide<\/a> uma foto do ditador Ongan\u00eda, que governou entre 1966 e 1970).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-278\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/563px-Ongan%C3%ADa_rezando%20-%20C%C3%B3pia.JPG\" border=\"0\" width=\"563\" height=\"600\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m disso, a capacidade para ordenar ou praticar torturas de maneira cont\u00ednua, assassinar crian\u00e7as, mulheres e outros indefensos, exige contrariar fortemente os sentimentos dominantes da esp\u00e9cie humana, como o carinho e o apego por outros membros. Para projetar um banho de sangue, \u00e9 necess\u00e1ria a cren\u00e7a em algo que transcenda o natural, algo que permita ao carrasco justificar-se fingindo (ou crendo realmente), que a divindade o recompensar\u00e1 pelos crimes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A id\u00e9ia m\u00edstica de que a condi\u00e7\u00e3o humana ou animal nada vale e \u00e9 puro produto da vontade divina, e que a crueldade purificar\u00e1 os pecados, \u00e9 essencial para for\u00e7ar milhares de pessoas a participar em guerras, chacinas e outros atos de barb\u00e1rie.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ali\u00e1s, algumas mitologias enaltecem os sofrimentos e torturas eternos num lugar chamado \u201cinferno\u201d, centro de dor e ang\u00fastia inventado por mentes doentias e por ascetas hebefr\u00eanicos. Se a divindade que, segundo estes credos, \u00e9 puro amor, criou um centro eterno de torturas, porque os simples mortais n\u00e3o podem aplicar alguns supl\u00edcios por uns poucos meses at\u00e9 arrebentar sua v\u00edtima?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Finalmente, um fator essencial do sadismo m\u00edstico \u00e9 a necessidade do sofrimento sacrificial. Este sentimento uniu desde o s\u00e9culo 4\u00ba militares e religiosos, sob as diretrizes filos\u00f3ficas de Santo Agostinho e outros grandes te\u00f3logos. A hist\u00f3ria da Inquisi\u00e7\u00e3o, hoje melhor conhecida e mais dificilmente ocultada, mostra a necessidade dos algozes (geralmente homens insanos afetados por diversos tabus e limita\u00e7\u00f5es sexuais) de fazer sofrer suas v\u00edtimas e, sobre tudo, derramar sangue e arrancar \u00f3rg\u00e3os. A emo\u00e7\u00e3o de mutilar \u00f3rg\u00e3os sexuais, especialmente femininos, dava a estes farrapos humanos uma oportunidade patol\u00f3gica de orgasmo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na ditadura argentina, tamb\u00e9m o prazer sacrificial sob a forma de \u201ccastigo sagrado\u201d, teve numerosos representantes, especialmente entre bispos e padres, mas tamb\u00e9m entre freiras e laicos \u201cpiedosos\u201d a eles submetidos. Mas, nenhum foi t\u00e3o famoso como Christian von Wernich, capel\u00e3o da pol\u00edcia condenado a pris\u00e3o perp\u00e9tua por v\u00e1rios assassinatos e d\u00fazias de torturas que ele estimulou ou aplicou com sua pr\u00f3pria m\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Sobreviventes do campo de exterm\u00ednio onde ele \u201ctrabalhava\u201d contam que o dedicado sacerdote adorava aplicar choque el\u00e9trico em zonas especiais do corpo, para sentir o cheiro dos pelos queimados. Alguns deles afirmam que, apesar de ter passado anos em campos de tortura, nenhuma figura lhes produzia mais pavor que a daquele padre. Uma mat\u00e9ria emocionante e inteligente sobre este arauto de Deus pode ser lida<a href=\"http:\/\/www.independent.co.uk\/news\/world\/americas\/argentinas-disappeared-father-christian-the-priest-who-did-the-devils-work-396564.html\">aqui<\/a>.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A crueldade desmedida e cont\u00ednua, elevada a princ\u00edpio de a\u00e7\u00e3o e cren\u00e7a fundamental, s\u00f3 pode ser exercida sob algumas formas de del\u00edrio, como aconteceu com Hitler, Ante Pavelic, Franco, Pinochet e muitos outros, entre eles, nosso personagem, o general Videla.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alguns autores argumentam que esse del\u00edrio n\u00e3o precisa ser m\u00edstico, e d\u00e3o como exemplo o caso de Stalin e Mao, l\u00edderes de movimentos considerados ateus. Mas, o misticismo, embora representado de maneira completa nos cultos monote\u00edstas, tamb\u00e9m est\u00e1 parcialmente representado por formas de irracionalismo n\u00e3o teol\u00f3gico. Esse misticismo precisa apenas de transcend\u00eancia, e pode \u00e0s vezes prescindir das divindades. A transcend\u00eancia se manifesta na devo\u00e7\u00e3o fan\u00e1tica por objetos irreais, imposs\u00edveis de entender, que viram imagens de adora\u00e7\u00e3o e se transformam, gra\u00e7as ao fanatismo, em objetos sagrados. Esse \u00e9 o caso de entes como a Na\u00e7\u00e3o, o Ra\u00e7a, a Terra, o Sangue, e os s\u00edmbolos que as representam.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Entidades concretas, definidas cientificamente por Marx e Engels a partir de seus componentes humanos, foram transformadas pelo stalinismo e por outras degenera\u00e7\u00f5es do comunismo, em entidades m\u00edsticas e sagradas: uma suposta revolu\u00e7\u00e3o que nunca se realiza, um socialismo que n\u00e3o existe, um povo heterog\u00eaneo, cuja divis\u00e3o em classe e ideologia os ditadores ignoram, colocando todos no mesmo rebanho a ser dirigido.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Portanto, o militarismo stalinista e todas suas crueldades, \u00e9 tamb\u00e9m produto de uma m\u00edstica, embora n\u00e3o representada pelas religi\u00f5es tradicionais. Lembre-se que, recentemente, quando faleceu o brutal tirano de Cor\u00e9ia do Norte, o povo venerou seu cad\u00e1ver como o de um santo de qualquer religi\u00e3o, e os \u00f3rg\u00e3os de governo lhe atribu\u00edram milagres. A ag\u00eancia oficial dizia que, ao morrer Kim Jong Il, os rios e lagos se secaram, e as plantas e os animais choravam. Que \u00e9 isto se n\u00e3o uma imagem religiosa, produto de uma mitologia simplista e rid\u00edcula?<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A Import\u00e2ncia da Mem\u00f3ria<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A compara\u00e7\u00e3o entre o Brasil e a Argentina mostra a import\u00e2ncia das comiss\u00f5es de mem\u00f3ria. No Brasil, apenas uma pequena minoria conhece os detalhes da \u00e9poca da ditadura militar. Fora dos ambientes mais socializados e com maior compromisso, mesmo pessoas pac\u00edficas e democr\u00e1ticas t\u00eam apenas uma vaga id\u00e9ia do \u201cgoverno militar\u201d ou da \u201crevolu\u00e7\u00e3o de 1964\u201d e poucos usam a palavra \u201cditadura\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em geral, a imagem hist\u00f3rica desse processo \u00e9 difusa, como se tivesse acontecido numa \u00e9poca totalmente desligada da atual, e como se os militares que nela interviram n\u00e3o tivessem nenhum projeto em comum com os atuais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, como na Alemanha, a manuten\u00e7\u00e3o permanente da mem\u00f3ria tem aumentado pelo menos a consci\u00eancia antimilitarista de grande parte da popula\u00e7\u00e3o. Deve observar-se que, numa sociedade como Brasil, onde a maioria popular \u00e9 miscigenada, pac\u00edfica e alheia ao fascismo, seria razo\u00e1vel que o passado repressivo fosse lembrado com preocupa\u00e7\u00e3o. Mas a falta de mem\u00f3ria torna isso dif\u00edcil.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na Argentina, apesar do tradicional militarismo da maioria do pa\u00eds, formado pela classe m\u00e9dia e alta e os setores mais favorecidos das classes populares, a imagem dos militares \u00e9 aterrorizadora, e at\u00e9 pessoas apol\u00edticas ou de centro direita olham com pavor a possibilidade da volta de uma ditadura. Isto pode chamar a aten\u00e7\u00e3o, tendo em conta que uma enorme maioria dos argentinos apoia reivindica\u00e7\u00f5es fascistas de integridade territorial, mas, apesar disso, a preocupa\u00e7\u00e3o com as casernas \u00e9 algo cont\u00ednuo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A entrevista do ditador Videla estimulou a publica\u00e7\u00e3o em jornais brasileiros de algumas not\u00edcias pitorescas, como a seguinte:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O sobrenome \u201cVidela\u201d \u00e9 relativamente frequente. N\u00e3o \u00e9 equivalente a um \u201cSilva\u201d brasileiro, mas talvez a um \u201cMendon\u00e7a\u201d. Ali\u00e1s, n\u00e3o \u00e9 raro que uma fam\u00edlia espanhola (que nada entendia de pol\u00edtica) \u00a0colocasse nomes como \u201cJorge\u201d e \u201cRafael\u201d. Foi assim que uma crian\u00e7a nascida nos anos 70 passou a ser xar\u00e1 do ditador.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O rapaz, agora com mais de 30 anos, conseguiu trocar seus nomes, ap\u00f3s ter passado uma vida de vexames. Quando procurava um emprego, em seguida era rejeitado. Quando dizia seu nome, lhe perguntavam se era parente do ditador. Todos acreditavam que seu pai o tinha batizado assim porque admirava o criminoso.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No Brasil, entretanto, ningu\u00e9m se preocupa de que tiranos e torturadores sejam homenageados com nomes de escolas, viadutos, bairros, ruas e at\u00e9 uma asa do Senado. Isso n\u00e3o significa que as pessoas aprovem essas figuras. A enorme maioria simplesmente n\u00e3o sabe quem foram esses caras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O enorme poder da mem\u00f3ria se evidencia comparando as mudan\u00e7as que produziu numa sociedade t\u00e3o conservadora como a Argentina.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Argentina \u00e9 um pa\u00eds com 92% de cat\u00f3licos, com um longo passado nacionalista, com culto aos militares e aos \u201cher\u00f3is\u201d, uma not\u00f3ria \u00eanfase na monoetnicidade, e uma forte tradi\u00e7\u00e3o nazifascista. A ditadura de Videla foi resultado do golpe de 1976, que foi o 6\u00ba do s\u00e9culo 20, sendo alguns deles\u00a0 explicitamente nazistas (1930\/43) e integralistas (1955\/62\/66).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Todos os golpes, incluso o \u00faltimo, foram apoiados por enormes maiorias. No entanto, ap\u00f3s a derrota da 6\u00aa ditadura na guerra do Atl\u00e2ntico Sul, as massas se voltaram contra ela.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1984, o povo votou um referendum em favor da paz com Chile, com uma maioria de mais de 80%, um fato dif\u00edcil de acreditar. A surpresa mostrou que os horrores da recente chacina, com 0,2 % de desaparecidos, 7% de exilados e 15% de presos, tinham mudado em algo a mentalidade das massas, e que era necess\u00e1rio manter a mem\u00f3ria ativa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Hoje, apesar da reapari\u00e7\u00e3o da neurose xen\u00f3foba, apenas um 5% apoiaria uma guerra com o Reino Unido (Em 1982, mais de 90% da popula\u00e7\u00e3o apoiou a invas\u00e3o). Al\u00e9m disso, o fato de que o governo argentino tenha diminu\u00eddo as provoca\u00e7\u00f5es, j\u00e1 \u00e9 um indicador de que um novo confronto carece de respaldo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m de outras vari\u00e1veis, grande parte da rejei\u00e7\u00e3o a uma nova ditadura na Argentina deve ser produto da memoria, da lembran\u00e7a nefasta da pior massacre de Ocidente ap\u00f3s 1945.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Nada disso se teria conseguido sem um longo processo de luta dos parentes das v\u00edtimas da ditadura e pelos ativistas de direitos humanos, a despeito de todos os governos. O julgamento e pris\u00e3o de uma centena de militares e policiais, apesar de significar apenas algo como 1% do total de respons\u00e1veis do genoc\u00eddio, \u00e9 pelo menos, um alerta.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Claro que mesmo a mem\u00f3ria n\u00e3o \u00e9 suficiente para garantir um futuro de paz e justi\u00e7a. \u00c9 indispens\u00e1vel a transforma\u00e7\u00e3o dos pa\u00edses (tenham tido ou n\u00e3o ditaduras) em aut\u00eanticas sociedades civis.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Blog A Luz Protegida<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cDeus sabe o que faz, porque o faz e para qu\u00ea. Aceito a vontade de Deus e acredito que Deus nunca soltou a minha m\u00e3o\u201d. &#8211;\u00a0Jorge Rafael Videla, ex-ditador argentino, a um jornalista. 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