{"id":2853,"date":"2012-11-30T00:17:23","date_gmt":"2012-11-30T00:17:23","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/30\/tortura-como-cisao-de-corpo-e-mente-2\/"},"modified":"2012-11-30T00:17:23","modified_gmt":"2012-11-30T00:17:23","slug":"tortura-como-cisao-de-corpo-e-mente-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/11\/30\/tortura-como-cisao-de-corpo-e-mente-2\/","title":{"rendered":"Tortura como cis\u00e3o de corpo e mente"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<p class=\"p1\" \/>Com o funcionamento da Comiss\u00e3o Mem\u00f3ria e Verdade vem \u00e0 tona com toda a sua barb\u00e1rie a tortura como m\u00e9todo sistem\u00e1tico do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. J\u00e1 se estudaram detalhadamente os processos de desumaniza\u00e7\u00e3o do torturado e tamb\u00e9m do torturador. Este precisa reprimir sua pr\u00f3pria humanidade para praticar seu ato desumano. N\u00e3o sem raz\u00e3o que muitos torturadores acabaram se suicidando por n\u00e3o aguentarem tanta perversidade.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\">Quero, entretanto, destacar um ponto nem sempre suscitado na discuss\u00e3o que foi muito bem analisado pelos psicanalistas, especialmente na Alemanha p\u00f3s-nazista e entre n\u00f3s por H\u00e9lio Peregrino, j\u00e1 falecido. O mais terr\u00edvel da tortura pol\u00edtica \u00e9 o fato de que ela obriga o torturado a lutar contra si mesmo. A tortura cinde a pessoa ao meio. Coloca a mente contra o corpo. A mente quer ser fiel \u00e0 causa dos companheiros, n\u00e3o quer, de forma alguma, entreg\u00e1-los. O corpo, submetido \u00e0 extrema intimida\u00e7\u00e3o e aviltamento, para ver-se livre da tortura, tende a falar e assim a fazer a vontade do torturador. Essa \u00e9 a cis\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\">Mas h\u00e1 um ponto a se ressaltar: a pessoa torturada quando levada ao p\u00e2nico e ao pavor pode ser v\u00edtima de mecanismos inconscientes de identifica\u00e7\u00e3o com o agressor. Ao identificar-se com ele, consegue psicologicamente exorcizar, por um momento, o p\u00e2nico e assim sobreviver.<\/p>\n<p class=\"p1\">O torturado, que sucumbiu a esta desesperada conting\u00eancia de autodefesa, incorpora sinistramente a figura do torturador. O torturador consegue abrir uma brecha na alma do torturado, alcan\u00e7a penetrar naquela \u00faltima intimidade, l\u00e1 onde moram os segredos mais sagrados e onde a pessoa alimenta seu mist\u00e9rio. Ultrapassa, portanto, os umbrais derradeiros da profundidade humana, para possuir a v\u00edtima e faz\u00ea-la um outro, algu\u00e9m que acaba reconhecendo ser de fato subversivo, inimigo da p\u00e1tria e da humanidade, um traidor da religi\u00e3o, um amaldi\u00e7oado por Deus, um excomungado da Igreja, algu\u00e9m da parte do dem\u00f4nio.<\/p>\n<p class=\"p1\">Os torturadores Albernaz e Fleury eram peritos nesta perversidade. Fleury disse diretamente ao frei Tito, como aparece no terrificante filme de Ratton Batismo de sangue, baseado no livro de Frei Betto com o mesmo nome, que deixaria nele marcas que jamais esqueceria. Efetivamente, conseguiu cindir-lhe a mente e o corpo e penetrar na sua mais profunda intimidade a ponto de ele, no ex\u00edlio na Fran\u00e7a, sentir a todo momento a presen\u00e7a de seu algoz. Deixou um bilhete antes de tirar-se a vida: &#8220;Prefiro tirar minha vida a morrer&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">Este tipo de tortura \u00e9 especialmente perverso porque faz da desumaniza\u00e7\u00e3o o eixo de uma pr\u00e1tica sistem\u00e1tica de agentes do Estado. Se a categoria anti-Cristo ainda significa alguma coisa, ela deve<\/p>\n<p class=\"p1\">ser configurada dentro deste quadro infernal. Trata-se da completa subvers\u00e3o do humano e de suas refer\u00eancias sagradas. \u00c9 seguramente um dos maiores crimes de lesa-humanidade que possam existir. Tais perversidades n\u00e3o podem cair sob anistia nenhuma. Os torturadores carregam em sua alma e em sua mente-testa o estigma de Caim. Por onde andarem, a vida os acusar\u00e1 porque violaram a sua suprema sacralidade.<\/p>\n<p class=\"p1\">E h\u00e1 ainda a tortura dos desparecidos, crucificando seus entes queridos. Por exemplo, houve uma guerrilha do Araguaia, at\u00e9 hoje n\u00e3o reconhecida totalmente pelos militares. L\u00e1 se cometeram todos os excessos: cortaram a cabe\u00e7a e os dedos dos guerrilheiros mortos e os enviavam a Bras\u00edlia para reconhecimento. Sumiram com seus cad\u00e1veres. Fizeram desparecer as vidas e pretendem agora apagar as mortes. E as fam\u00edlias carregam um pesadelo que n\u00e3o tem fim. Cada campainha que toca em casa funciona como um vento a soprar as cinzas e reanimar a brasa da esperan\u00e7a, seguida de amarga decep\u00e7\u00e3o: &#8220;Ser\u00e1 que n\u00e3o \u00e9 ele que est\u00e1 chegando?&#8221; Outros dizem: &#8220;N\u00e3o mudemos de casa porque ele pode ainda chegar&#8230; e se n\u00f3s n\u00e3o estivermos mais aqui para o abra\u00e7o, o beijo, as l\u00e1grimas&#8230;que ser\u00e1 dele?&#8221;<\/p>\n<p class=\"p1\">Os torturadores e seus mandantes est\u00e3o a\u00ed, agora amea\u00e7ados pelo esculacho do movimento Levante Popular da Juventude, que n\u00e3o lhes deixa a consci\u00eancia descansar. A estes, quisera eu, como te\u00f3logo, perseguido, mas n\u00e3o torturado, gritar-lhes ao ouvido o clamor de Jesus Cristo: &#8220;Da vossa gera\u00e7\u00e3o ser\u00e1 pedida a conta do sangue de todos os profetas, dos perseguidos e dos torturados, sangue derramado desde o princ\u00edpio do mundo. Sim, vos asseguro que vos ser\u00e1 pedida a conta deste sangue&#8221; (Lc 11,50-51).<\/p>\n<p class=\"p1\">Poder\u00e1 haver anistia pactuada dos homens. Mas n\u00e3o haver\u00e1 anistia perante a consci\u00eancia e perante aquele que se apresentou sob a figura de um preso, torturado, executado na Cruz, Jesus, o Nazareno, feito Juiz Supremo, que julgar\u00e1 especialmente aqueles que violaram a humanidade m\u00ednima. Chegar\u00e1 o dia, supremo dia, em que todos os desparecidos aparecer\u00e3o. Eles vir\u00e3o, como diz o Apocalipse, da grande tribula\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Sim, eles voltar\u00e3o junto com o Vivente. E ent\u00e3o n\u00e3o haver\u00e1 mais espera nem palpita\u00e7\u00e3o dos cora\u00e7\u00f5es. O Vivente, tamb\u00e9m um dia torturado, anular\u00e1 todas as dist\u00e2ncias, enxugar\u00e1 todas as l\u00e1grimas e inaugurar\u00e1 o Reino dos sacrificados e desaparecidos, agora vivos, libertos e encontrados. Ent\u00e3o ser\u00e1 definitivamente verdadeiro: &#8220;Nunca mais uma ditadura. Nunca mais desaparecidos. Nunca mais a tortura&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\">Por &#8211; Leonardo Boff, te\u00f3logo e fil\u00f3sofo, \u00e9 escritor<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com o funcionamento da Comiss\u00e3o Mem\u00f3ria e Verdade vem \u00e0 tona com toda a sua barb\u00e1rie a tortura como m\u00e9todo sistem\u00e1tico do Estado ditatorial militar de enfrentar seus opositores. J\u00e1 se estudaram detalhadamente os processos de desumaniza\u00e7\u00e3o do torturado e tamb\u00e9m do torturador. 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