{"id":2868,"date":"2012-12-03T10:42:07","date_gmt":"2012-12-03T10:42:07","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/12\/03\/arapongas-da-ditadura-monitoravam-movimentos-negros-2\/"},"modified":"2012-12-03T10:42:07","modified_gmt":"2012-12-03T10:42:07","slug":"arapongas-da-ditadura-monitoravam-movimentos-negros-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/12\/03\/arapongas-da-ditadura-monitoravam-movimentos-negros-2\/","title":{"rendered":"Arapongas da ditadura monitoravam movimentos negros"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Movimentos sociais e art\u00edsticos, como o Black Rio e o black s\u00e3o paulo, estavam na mira dos arapongas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>O alerta acima, acompanhado de dois carimbos de \u201cconfidencial\u201d em cada uma das nove p\u00e1ginas do documento, foi dado pelo Centro de Informa\u00e7\u00e3o e Seguran\u00e7a da Aeron\u00e1utica (Cisa-RJ), em 20 de outubro de 1976. Com o sugestivo t\u00edtulo Racismo negro no Brasil, a pasta reflete a preocupa\u00e7\u00e3o dos \u00f3rg\u00e3os de seguran\u00e7a do governo comandado pelo general Ernesto Geisel com a infiltra\u00e7\u00e3o de entidades subversivas nos movimentos populares. Os agentes da ditadura seguiam cada passo, registravam cada palavra dita por militantes, simpatizantes e intelectuais em favor da inclus\u00e3o dos negros na sociedade brasileira.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O documento, que traz a chancela da Ag\u00eancia Central do Servi\u00e7o Nacional de Informa\u00e7\u00f5es, o SNI, detalha o que se passava nas palestras e nos debates promovidos por associa\u00e7\u00f5es culturais, respons\u00e1veis pelo trabalho de recrutar simpatizantes ligados \u00e0 causa negra. \u201cNesta fase, os conferencistas preocupavam-se em n\u00e3o falar ostensivamente em pol\u00edtica, mas condicionavam os ouvintes a aceitar a exist\u00eancia de um disfar\u00e7ado racismo branco no Brasil.\u201d Eram nessas palestras, segundo relata o agente, que os militantes identificam as pessoas mais sens\u00edveis \u00e0s ideias do movimento. Posteriormente, elas eram convidadas a participar de grupos de estudo, em car\u00e1ter reservado.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Obtido pelo Correio no Arquivo Nacional, o relato do araponga ligado ao servi\u00e7o secreto da Aeron\u00e1utica \u00e9 detalhado e cheio de min\u00facias, e cita os principais temas apresentados pelos militantes, tais como:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb Qualquer movimento cultural n\u00e3o pode ser desvinculado do pol\u00edtico, j\u00e1 que muitas manifesta\u00e7\u00f5es culturais, principalmente a negra, \u00e9 esmagada por uma for\u00e7a pol\u00edtica branca que \u00e9 adversa a qualquer outro motivo cultural de outra ra\u00e7a;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb O problema do negro no Brasil \u00e9 sociocultural, pois a sociedade dominante da \u00e9poca da escravid\u00e3o at\u00e9 os dias de hoje \u00e9 branca e n\u00e3o \u00e9 do seu interesse que a cultura negra vigore;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb Os negros devem se conscientizar do que s\u00e3o, e se honrar dos seus antepassados que lutaram at\u00e9 morrer por uma liberdade, como foi o caso do Quilombo dos Palmares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em determinado trecho do documento, o informante faz uma ressalva ao apontar que os moderados, durante os debates, evitam falar claramente em pol\u00edtica e problemas sociais. Mas a a\u00e7\u00e3o dos \u201cradicais\u201d \u00e9 direta e, segundo ele, s\u00e3o inspirados nos panteras negras, dos Estados Unidos, e no culto a Idi Amim Dada, ditador de Uganda. O grupo preferia recrutar simpatizantes nos clubes de soul onde jovens com cabelos black power e roupas coloridas lotavam as pistas de dan\u00e7a ao som de m\u00fasicas de James Brown, Tony Tornado e Gerson King Combo. \u201cAt\u00e9 o presente momento, n\u00e3o foi poss\u00edvel configurar se os conjuntos musicais de soul est\u00e3o envolvidos.\u201d Os grupos radicais, de acordo com o relato do servi\u00e7o de intelig\u00eancia, se autodenominavam \u201calmas negras\u201d e tinham o socialismo como base ideol\u00f3gica, al\u00e9m de possu\u00edrem algumas caracter\u00edsticas que os identificavam:<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb A sauda\u00e7\u00e3o entre homens e mulheres \u00e9 feita com um beijo na boca;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb O cumprimento entre os homens \u00e9 id\u00eantico ao usado pelos panteras negras (v\u00e1rios toques de m\u00e3o);<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb Em algumas reuni\u00f5es, alguns negros fizeram sauda\u00e7\u00e3o \u00e0 moda comunista (bra\u00e7o levantado e m\u00e3o fechada);<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00bb Usam alguns termos especiais e chamam o branco de \u201cmucala\u201d (mukala, branco, grifo nosso) e vestem-se com roupas extravagantes.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">At\u00e9 hoje o produtor cultural Asfil\u00f3fio de Oliveira Filho, o Fil\u00f3, \u00e9 um dos \u00edcones do movimento black do Rio. Ao Correio, ele revela como era press\u00e3o sofrida pelo movimento negro nos anos 1970. De um lado, a a\u00e7\u00e3o dos agentes militares, do outro a conduta da esquerda, quase sempre desconfiada, apesar de interessada em cooptar militantes da causa negra. \u201cA press\u00e3o era oculta, totalmente silenciosa. Eles (os arapongas) se infiltravam buscando entender o movimento e suas nuances. Acompanharam diversas vezes as lideran\u00e7as em seu dia a dia. Eventos como Encontro dos Blacks no Portel\u00e3o foram o grande marco para os agentes militares perceberem que nem tudo que eles pensavam era verdade. O momento era de efervesc\u00eancia. A esquerda questionava o Movimento Black Rio pela sua \u201ctend\u00eancia\u201d ao imperialismo americano e a direita tinha medo de uma revolu\u00e7\u00e3o negra. Na verdade, o objetivo final do movimento era constru\u00e7\u00e3o de uma identidade e uma pol\u00edtica cultural positiva.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fil\u00f3 se recorda tamb\u00e9m quando ficou preso num quartel do Ex\u00e9rcito no bairro da Tijuca: \u201cLembro-me de ser questionado: \u2018Onde estava o milh\u00e3o de d\u00f3lares que os americanos deram para o movimento?\u2019 Em julho de 1976, eles deflagaram uma mat\u00e9ria encomendada num grande jornal carioca para desqualificar o movimento. Mas o legado deixado pelo Movimento Black Rio nos brindou com uma gera\u00e7\u00e3o mais consciente e aberta na busca da sua identidade e na luta contra a discrimina\u00e7\u00e3o racial.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Panteras negras<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Grupo revolucion\u00e1rio norte-americano, criado em meados dos 1960 para lutar pelos direitos da popula\u00e7\u00e3o negra. Seus integrantes pregavam a\u00e7\u00f5es armadas contra a opress\u00e3o. Inicialmente, os ativistas agiam como patrulhas de guetos californianos e nova-iorquinos contra a viol\u00eancia policial (branca). O movimento se espalhou pelos Estados Unidos e chegou a ter mais de 2 mil integrantes. Enfrentamentos com a pol\u00edcia levaram a tiroteios em Nova York e Chicago, e, entre 1966 e 1970, pelo menos 15 policiais e 34 \u201cpanteras\u201d morreram em conflitos urbanos. No in\u00edcio dos anos 1980, a organiza\u00e7\u00e3o foi oificialmente dissolvida.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Correio Braziliense<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Movimentos sociais e art\u00edsticos, como o Black Rio e o black s\u00e3o paulo, estavam na mira dos arapongas. 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