{"id":2945,"date":"2012-12-14T15:54:13","date_gmt":"2012-12-14T15:54:13","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/12\/14\/saudades-de-1964-2\/"},"modified":"2012-12-14T15:54:13","modified_gmt":"2012-12-14T15:54:13","slug":"saudades-de-1964-2","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/12\/14\/saudades-de-1964-2\/","title":{"rendered":"Saudades de 1964"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em 1\u00ba de mar\u00e7o de 2010, uma reuni\u00e3o de milion\u00e1rios em luxuoso hotel de S\u00e3o Paulo foi festejada pela m\u00eddia nacional como o in\u00edcio de uma nova etapa na luta da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental contra o ate\u00edsmo comunista e a subvers\u00e3o dos valores crist\u00e3os. Autodenominado 1\u00ba F\u00f3rum Democracia e Liberdade de Express\u00e3o, o evento teve como anfitri\u00f5es tr\u00eas dos maiores grupos de m\u00eddia nacional: Roberto Civita, dono da Editora Abril, Ot\u00e1vio Frias Filho, da Folha de S.Paulo, e Roberto Irineu Marinho, da Globo.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O evento, que cobrou dos participantes uma taxa de 500 reais, foi uma das primeiras manifesta\u00e7\u00f5es do Instituto Millenium, organiza\u00e7\u00e3o muito semelhante ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), um dos fomentadores do golpe de 1964. Como o Ipes de quase 50 anos atr\u00e1s, o Millenium funda seus princ\u00edpios na liberdade dos mercados e no medo do &#8220;avan\u00e7o do comunismo&#8221;, hoje personificado nos movimentos bolivarianos de Hugo Ch\u00e1vez, Rafael Correa e Evo Morales. Muitos de seus integrantes atuais engrossaram as marchas da fam\u00edlia nos anos 60 e sustentaram a ditadura. Outros tantos, mais jovens, constru\u00edram carreiras, principalmente na m\u00eddia, e ganharam dinheiro com um discurso tosco de criminaliza\u00e7\u00e3o da esquerda, dos movimentos sociais, de minorias e contra qualquer pol\u00edtica social, do Bolsa Fam\u00edlia \u00e0s cotas nas universidades.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 muitos comediantes no grupo. No semin\u00e1rio de 2010, o &#8220;democrata&#8221; Arnaldo Jabor arrancou aplausos da plateia ao bradar: &#8220;A quest\u00e3o \u00e9 como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que n\u00e3o deveria mais existir no mundo?&#8221; Isso, como? A resposta \u00e9 t\u00e3o clara como a pergunta: com um golpe. No mesmo evento brilhou Marcelo Madureira, do Casseta &#038; Planeta. Como se ver\u00e1 ao longo deste texto, h\u00e1 um tra\u00e7o comum entre v\u00e1rios &#8220;especialistas&#8221; do Millenium: muitos se declaram ex-comunistas, ex-esquerdistas, em uma tentativa de provar que suas afirma\u00e7\u00f5es s\u00e3o fruto de uma experi\u00eancia real e n\u00e3o da mais tacanha origem conservadora. Madureira n\u00e3o foge \u00e0 regra: &#8220;Sou forjado no pior partido pol\u00edtico que o Brasil j\u00e1 teve&#8221;, anunciou o &#8220;arrependido&#8221;, em refer\u00eancia ao Partido Comunista Brasileiro (PCB), o velho Partid\u00e3o. Ap\u00f3s a autoimola\u00e7\u00e3o, o piadista atacou, ao se referir ao governo do PT de ent\u00e3o: &#8220;Eu conhe\u00e7o todos esses caras que est\u00e3o no poder, eram os caras que n\u00e3o estudavam&#8221;. Eis o n\u00edvel.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O s\u00edmbolo do Millenium \u00e9 um c\u00edrculo de sigmas, a letra grega da bandeira integralista, aquela turma no Brasil que apoiou os nazistas. Jabor e Madureira est\u00e3o perfilados em uma extensa lista de colaboradores no site da entidade, quase todos ass\u00edduos freq\u00fcentadores das p\u00e1ginas de opini\u00e3o dos principais jornais e de programas na tev\u00ea e no r\u00e1dio. Montado sob a tutela do suprassumo do pensamento conservador nacional e financiado por grandes empresas, o instituto vende a imagem de um refinado clube do pensamento liberal, uma cidadela contra a barb\u00e1rie. Mas a cr\u00edtica prim\u00e1ria e o discurso em un\u00edssono de seus integrantes t\u00eam pouco a oferecer al\u00e9m de uma narrativa obscura da pol\u00edtica, da economia e da cultura nacional. Replica, \u00e0s vezes com contornos acad\u00eamicos, as mesmas ideias que emanam do carcomido audit\u00f3rio do Clube Militar, espa\u00e7o de recrea\u00e7\u00e3o dos oficiais de pijama.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Meio empresa, meio quartel, o Millenium funciona sob uma impressionante estrutura hier\u00e1rquica comandada e financiada por medalh\u00f5es da ind\u00fastria. Baseia-se na dissemina\u00e7\u00e3o massiva de uma ideia central, o liberalismo econ\u00f4mico ortodoxo, e os conceitos de livre-mercado e propriedade privada. Tudo bem se fosse s\u00f3 isso. No fundo, o discurso liberal esconde um frequente flerte com o moralismo udenista, o discurso golpista e a desqualifica\u00e7\u00e3o do debate p\u00fablico. Criado em 2005 com o curioso nome de &#8220;Instituto da Realidade&#8221;, transformou-se em Millenium em dezembro de 2009 ap\u00f3s ser qualificado como Organiza\u00e7\u00e3o Social de Interesse P\u00fablico (Oscip) pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Bem a tempo de se integrar de corpo e alma \u00e0 campanha de Jos\u00e9 Serra, do PSDB, nas elei\u00e7\u00f5es presidenciais de 2010. Em pouco tempo, aparelhado por um batalh\u00e3o de &#8220;especialistas&#8221;, virou um bunker antiesquerda e principal irradiador do \u00f3dio de classe e do ressentimento eleitoral dedicado at\u00e9 hoje ao ex-presidente Lula.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O batalh\u00e3o de &#8220;especialistas&#8221; conta com 180 profissionais de diversas \u00e1reas, entre eles, o jornalista Jos\u00e9 N\u00eaumanne Pinto, o historiador Roberto DaMatta e o economista Rodrigo Constantino, autor do rec\u00e9m-lan\u00e7ado PrivatizeJ\u00e1. A obra \u00e9 um libelo privatizante feito sob encomenda para se contrapor ao livro A Privatar\u00eda Tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Jr., sobre as privatiza\u00e7\u00f5es nos governos de Fernando Henrique Cardoso que beneficiaram Serra e seus familiares. E n\u00e3o h\u00e1 um \u00fanico dos senhores envolvidos com as privatiza\u00e7\u00f5es dos anos 1990 que hoje n\u00e3o nade em dinheiro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os &#8220;especialistas&#8221; s\u00e3o todos, curiosamente, brancos. Talvez por conta da ades\u00e3o furiosa da agremia\u00e7\u00e3o aos manifestantes anticotas raciais. A tropa \u00e9 comandada pelo jornalista Eur\u00edpedes Alc\u00e2ntara, diretor de reda\u00e7\u00e3o da revista Veja, publica\u00e7\u00e3o onde, semanalmente, o Millenium v\u00ea seus evangelhos e autos de f\u00e9 renovados. Alc\u00e2ntara \u00e9 um dos dois titulares do Conselho Editorial da entidade. O outro \u00e9 Antonio Carlos Pereira, editorialista de O Estado de S. Paulo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Alc\u00e2ntara e Pereira n\u00e3o s\u00e3o presen\u00e7as aleat\u00f3rias, tampouco foram nomeados por filtros da meritocracia, conceito car\u00edssimo ao instituto. A dupla de jornalistas representa dois dos quatro conglomerados de m\u00eddia que formam a b\u00fassola ideol\u00f3gica da entidade, a Editora Abril e o Grupo Estado. Os demais s\u00e3o as Organiza\u00e7\u00f5es Globo e a Rede Brasil Sul (RBS).<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Millenium possui uma dire\u00e7\u00e3o administrativa formada por dez integrantes, entre os quais se destaca a diretora-executiva Priscila Barbosa Pereira Pinto. Embora seja a principal executiva de um instituto que tem entre suas maiores bandeiras a defesa da liberdade de imprensa e de express\u00e3o &#8211; e \u00e0 livre circula\u00e7\u00e3o de ideias Priscila Pinto n\u00e3o se mostrou muito disposta a fornecer informa\u00e7\u00f5es a CartaCapital. A executiva recusou-se a explicar o formid\u00e1vel organograma que inclui uma enorme gama de empresas e empres\u00e1rios.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Entre os &#8220;mantenedores e parceiros&#8221;, respons\u00e1veis pelo suporte financeiro do instituto, est\u00e3o empresas como \u00e0 Gerdau, a Localiza (maior locadora de ve\u00edculos do Pa\u00eds) e a Statoil, companhia norueguesa de petr\u00f3leo. No &#8220;grupo m\u00e1ster&#8221; aparece a Suzano, gigante nacional de produ\u00e7\u00e3o de papel e celulose. No chamado &#8220;grupo de apoio&#8221; est\u00e3o a RBS, o Estad\u00e3o e o Grupo Meio &#038; Mensagem.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">H\u00e1 ainda uma lista de 25 doadores permanentes, entre os quais, se incluem o vice-presidente das Organiza\u00e7\u00f5es Globo, Jo\u00e3o Roberto Marinho, o ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga e o presidente da Coteminas, Josu\u00e9 Gomes da Silva, filho do falecido empres\u00e1rio Jos\u00e9 Alencar da Silva, vice-presidente da Rep\u00fablica nos dois mandatos de Lula. O organograma do clube da rea\u00e7\u00e3o possui tamb\u00e9m uma &#8220;c\u00e2mara de fundadores e curadores&#8221; (22 integrantes, entre eles o ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco e o jornalista Pedro Bial), uma &#8220;c\u00e2mara de mantenedores&#8221; (14 pessoas) e uma &#8220;c\u00e2mara de institui\u00e7\u00f5es&#8221; com nove membros. Gente demais para uma simples institui\u00e7\u00e3o sem fins lucrativos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Uma das atividades fundamentais \u00e9 a coopta\u00e7\u00e3o, via concess\u00e3o de bolsas de estudo no exterior, de jovens jornalistas brasileiros. Esse trabalho n\u00e3o \u00e9 feito diretamente pelo instituto, mas por um de seus agregados, o Instituto Ling, mantido pelo empres\u00e1rio William Ling, dono da Petropar, gigante do setor de petroqu\u00edmicos. Endere\u00e7ado a profissionais com idades entre 24 e 30 anos, o programa &#8220;Jornalista de Vis\u00e3o&#8221; concede bolsas de mestrado ou especializa\u00e7\u00e3o em universidades dos Estados Unidos e da Europa a funcion\u00e1rios dos grupos de m\u00eddia ligados ao Millenium.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 2010, quando o programa se iniciou, cinco jornalistas foram escolhidos, um de cada representante da m\u00eddia vinculada ao Millenium: \u00c9poca (Globo), Veja (Abril), O Estado de S. Paulo, Folha de S.Paulo e Zero Hora (RBS). Em 2011, \u00e0 exce\u00e7\u00e3o de um rep\u00f3rter do jornal A Tarde, da Bahia, o crit\u00e9rio de escolha se manteve. Os agraciados foram da \u00c9poca (2), Estad\u00e3o (1), Folha (2), Zero Hora (1) e revista Galileu (1), da Editora Globo. Neste ano foram contemplados tr\u00eas jornalistas do Estad\u00e3o, dois da Folha, um da r\u00e1dio CBN (Globo), um da Veja, um do jornal O Globo e um da revista Capital Aberto, especializada em mercado de capitais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Para ser escolhido, segundo as diretrizes apresentadas pelo Instituto Ling, o interessado n\u00e3o deve ser filiado a partidos pol\u00edticos e demonstrar &#8220;capacidade de lideran\u00e7a, independ\u00eancia e esp\u00edrito cr\u00edtico&#8221;. Os aprovados s\u00e3o apresentados durante um caf\u00e9 da manh\u00e3 na entidade, na primeira semana de agosto, e s\u00e3o obrigados a fazer uma esp\u00e9cie de juramento: prometer trabalhar &#8220;pelo fortalecimento da imprensa no Brasil, defendendo os valores de independ\u00eancia, democracia, economia de mercado, Estado de Direito e liberdade&#8221;.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O Millenium investe ainda em palestras, lan\u00e7amentos de livros e debates abertos ao p\u00fablico, quase sempre voltados para assuntos econ\u00f4micos e para a discuss\u00e3o t\u00e3o obsessiva quanto in\u00fatil sobre liberdade de imprensa e liberdade de express\u00e3o. Todo ano, por exemplo, o Millenium promove o &#8220;Dia da Liberdade de Impostos&#8221; e organiza os debates &#8220;Democracia e Liberdade de Express\u00e3o&#8221;. Entre os astros especialmente convidados para esses eventos est\u00e3o Marcelo Tas, da Band, e Diogo Mainardi e Reinaldo Azevedo, ambos de Veja. Humoristas jornalistas. Ou vice-versa.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que toda essa gente faz e quanto cada um doa individualmente \u00e9 mantido em segredo. Apesar da insist\u00eancia de CartaCapital, a diretora-executiva Priscila Pinto mandou informar, via assessoria de imprensa, que n\u00e3o iria fornecer<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">as informa\u00e7\u00f5es requisitadas pela reportagem. Limitou-se a enviar nota oficial com um resumo da longa apresenta\u00e7\u00e3o reproduzida na p\u00e1gina eletr\u00f4nica do Millenium sobre a miss\u00e3o do instituto. Entre eles, listado na rubrica &#8220;c\u00f3digo de valores&#8221;, consta a premissa da transpar\u00eancia, voltada para &#8220;possibilidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o pela sociedade civil e imprensa&#8221;. Valores, como se v\u00ea, bem flex\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Josu\u00e9 Gomes e Gerdau tamb\u00e9m n\u00e3o atenderam aos pedidos de entrevista. O sil\u00eancio impede, no caso do primeiro, que se entenda o motivo de ele contribuir com um instituto cuja maioria dos integrantes sistematicamente atacou o governo do qual seu pai n\u00e3o s\u00f3 participou como foi um dos mais firmes defensores. E se ele \u00e9 contra, por exemplo, a redu\u00e7\u00e3o dos juros brasileiros a n\u00edveis civilizados. O industrial Jos\u00e9 Alencar passou os oito anos no governo a reclamar das taxas cobradas no Brasil. A turma do Millenium, ao contr\u00e1rio, brada contra o &#8220;intervencionismo estatal&#8221; na queda de bra\u00e7o entre o Pal\u00e1cio do Planalto e os bancos pela queda nos spreads cobrados dos consumidores finais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No caso de Gerdau, seria interessante saber se o empres\u00e1rio, integrante da c\u00e2mara de gest\u00e3o federal, concorda com a tese de que a tentativa de redu\u00e7\u00e3o no pre\u00e7o de energia \u00e9 uma &#8220;interven\u00e7\u00e3o descabida&#8221; do Estado, tese defendida pelo instituto que ele financia. Gerdau e Josu\u00e9 se perfilam, de forma consciente ou n\u00e3o, ao Movimento Endireita Brasil, defensor de teses esdr\u00faxulas como a de que os militares golpistas de 1964 eram todos de esquerda.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O que h\u00e1 de transpar\u00eancia no Millenium n\u00e3o vem do esp\u00edrito democr\u00e1tico de seus diretores, mas de uma obriga\u00e7\u00e3o legal comum a todas as ONGs certificadas pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a. Essas entidades s\u00e3o obrigadas a disponibilizar ao p\u00fablico os dados administrativos e informa\u00e7\u00f5es cont\u00e1beis atualizadas. A dire\u00e7\u00e3o do instituto se negou a informar \u00e0 revista os valores pagos individualmente pelos doadores, assim como n\u00e3o quis discriminar o tamanho dos aportes financeiros feitos pelas empresas associadas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A contabilidade dispon\u00edvel no Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, contudo, revela a pujan\u00e7a da receita da entidade, uma m\u00e9dia de 1 milh\u00e3o de reais nos \u00faltimos dois anos. Em tr\u00eas anos de funcionamento auditados pelo governo (2009, 2010 e 2011), o Millenium deu preju\u00edzos em dois deles.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 2009, quando foi certificado pelo Minist\u00e9rio da Justi\u00e7a, o instituto conseguiu arrecadar 595,2 mil reais, 51% dos quais oriundos de doadores pessoas f\u00edsicas e os demais 49% de recursos vindos de empresas privadas. Havia ent\u00e3o quatro funcion\u00e1rios remunerados, embora a dire\u00e7\u00e3o do Millenium n\u00e3o revele quem sejam, nem muito menos quanto recebem do instituto. Naquele ano, a entidade fechou as contas com preju\u00edzo de 8,9 mil reais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 2010, gra\u00e7as \u00e0 ades\u00e3o maci\u00e7a de empres\u00e1rios e doadores antipetistas em geral, a arrecada\u00e7\u00e3o do Millenium praticamente dobrou. A receita no ano eleitoral foi de 1 milh\u00e3o de reais, dos quais 65% vieram de doa\u00e7\u00f5es de empresas privadas. O n\u00famero de funcion\u00e1rios remunerados quase dobrou, de quatro para sete, e as contas fecharam no azul, com super\u00e1vit de 153,9 mil reais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Segundo as informa\u00e7\u00f5es referentes ao exerc\u00edcio de 2011, a arrecada\u00e7\u00e3o do Millenium caiu pouco (951,9 mil reais) e se manteve na mesma rela\u00e7\u00e3o porcentual de doadores (65% de empresas privadas, 35% de doa\u00e7\u00f5es de pessoas f\u00edsicas). O problema foi fechar as contas. No ano passado, a entidade amargou um preju\u00edzo de 76,6 mil reais, mixaria para o volume de recursos reunidos em torno dos patrocinadores e mantenedores. Apenas com verbas publicit\u00e1rias repassadas pelo governo federal, a turma midi\u00e1tica do Millenium faturou no ano passado 112,7 milh\u00f5es de reais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><strong>A inspira\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As duas fontes de inspira\u00e7\u00e3o do Millenium datam do fim dos anos 1950, in\u00edcio dos 60. Fundado em 1959, o Instituto Brasileiro de A\u00e7\u00e3o Democr\u00e1tica (Ibad) foi criado por anticomunistas financiados pela Ag\u00eancia Central de Intelig\u00eancia dos Estados Unidos, a CIA, como o primeiro n\u00facleo organizado do golpismo de direita nacional. 0 Ibad serviu de inspira\u00e7\u00e3o para a instala\u00e7\u00e3o, dois anos depois, do Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Jpes), respons\u00e1vel pelo aparato midi\u00e1tico e propagand\u00edstico que viabilizou o golpe de 1964.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Tanto o Ibad quanto o Ipes serviram, como o Millenium, para organizar um f\u00f3rum multidisciplinar, com forte financiamento empresarial, calcado no anticomunismo ena ideia de que o Brasil, como o mundo, estava prestes a cair na m\u00e3o dos subversivos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00c0 \u00e9poca os alvos eram Jo\u00e3o Goulart, Fidel Castro e Cuba.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Os institutos serviram ainda como central de financiamento, produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o de programas de r\u00e1dio, televis\u00e3o e textos reproduzidos em jornais por todo o Pa\u00eds. 0 material era anticomunista at\u00e9 a raiz e, como hoje, tinha como objetivo disseminar o medo entre a popula\u00e7\u00e3o e angariar simpatia para os golpistas, anunciados como salvadores da p\u00e1tria amea\u00e7ada pelos ateus e baderneiros socialistas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1962, a farra de dinheiro em torno do Ibad, sobretudo recursos vindos do exterior, come\u00e7ou a irrigar campanhas eleitorais e obrigou o Congresso Nacional a tomar uma atitude, Um ano depois, uma CPI foi instalada na C\u00e2mara dos Deputados para investigar a origem do financiamento. Apesar de boa parte da documenta\u00e7\u00e3o do instituto ter sido queimada antes da a\u00e7\u00e3o policial, ainda assim foi poss\u00edvel constatar um sem-n\u00famero de doa\u00e7\u00f5es iiegais captadas pela entidade, principalmente de empresas norte-americanas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Em 1963, com base nas conclus\u00f5es da CPI, o presidente Jo\u00e3o Goulart conseguiu dissolver o Ibad, mas era tarde demais.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Na cola de Jango continuava o Ipes, fincado na zona central do Rio de Janeiro, como o Millenium. Enquanto o Ibad se desfazia, o Ipes, presidido pelo general Golbery do Couto e Silva, conseguiu integrar os movimentos sociais ligados \u00e0 direita e estendeu seus tent\u00e1culos at\u00e9 S\u00e3o Paulo. Golbery agregou \u00e0 entidade mais de 300 empresas financiadoras, inclusive alguns dos gigantes econ\u00f4micos da \u00e9poca, como a Refinaria Uni\u00e3o, a companhia energ\u00e9tica Light, a companhia a\u00e9rea Cruzeiro do Sul e as Listas Telef\u00f4nicas Brasileiras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Assim como o Millenium, o Ipes reunia empres\u00e1rios, jornalistas, intelectuais e pol\u00edticos, principalmente da conservadora UDN. Durante a ditadura, o instituto ficou respons\u00e1vel pela produ\u00e7\u00e3o de document\u00e1rios ufanistas. Fechou as portas em 1972, quando os generais da linha-dura decidiram que n\u00e3o precisavam mais de linhas auxiliares para manter o regime de p\u00e9.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Carta Capital<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 1\u00ba de mar\u00e7o de 2010, uma reuni\u00e3o de milion\u00e1rios em luxuoso hotel de S\u00e3o Paulo foi festejada pela m\u00eddia nacional como o in\u00edcio de uma nova etapa na luta da civiliza\u00e7\u00e3o ocidental contra o ate\u00edsmo comunista e a subvers\u00e3o dos valores crist\u00e3os. Autodenominado 1\u00ba F\u00f3rum Democracia e Liberdade de Express\u00e3o, o evento teve como [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2945"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=2945"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/2945\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=2945"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=2945"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=2945"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}