{"id":296,"date":"2012-05-14T18:20:48","date_gmt":"2012-05-14T18:20:48","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/levante-esculacha-torturador-da-presidenta-dilma-rousseff\/"},"modified":"2012-05-14T18:20:48","modified_gmt":"2012-05-14T18:20:48","slug":"levante-esculacha-torturador-da-presidenta-dilma-rousseff","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/levante-esculacha-torturador-da-presidenta-dilma-rousseff\/","title":{"rendered":"Levante esculacha torturador da presidenta Dilma Rousseff"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Cem jovens do Levante Popular da Juventude fizeram o esculhacho do tenente-coronel reformado Maur\u00edcio Lopes Lima, que foi reconhecido pela presidenta Dilma Roussef como torturador da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, no munic\u00edpio do Guaruj\u00e1, no litoral de S\u00e3o Paulo (Rua Tereza Moura, 36).<\/p>\n<p class=\"p1\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-294\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/Torturador_Mauricio1-300x211.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"211\" \/>  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em depoimento \u00e0 Justi\u00e7a Militar, em 1970, quando tinha 22 anos, Dilma afirmou ter sido amea\u00e7ada de novas torturas por dois militares chefiados por Lopes. Ao perguntar-lhes se estavam autorizados pelo Poder Judici\u00e1rio, recebeu a seguinte resposta: \u201cVoc\u00ea vai ver o que \u00e9 o juiz l\u00e1 na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante\u201d (um dos centros de tortura da ditadura militar).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Maur\u00edcio Lopes Lima foi apontado pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico Federal (MPF), em a\u00e7\u00e3o civil p\u00fablica ajuizada em novembro de 2010, como um dos respons\u00e1veis pela morte ou desaparecimento de seis pessoas e pela tortura de outras 20 nos anos de 1969 e 1970. Segundo o MPF, o militar foi \u201cchefe de equipe de busca e orientador de interrogat\u00f3rios\u201d da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante (Oban) e do DOI\/Codi (veja destaques).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\n<p class=\"p1\">Lopes nega ter torturado qualquer preso, incluindo a presidenta, mas admite que a tortura era um procedimento comum \u00e0 repress\u00e3o. Em entrevista ao jornal A Tribuna, de Santos, em 2010, declarou: \u201cEu sou uma testemunha da tortura. Sim, eu sou. (\u2026) a tortura, no Brasil, era uma coisa comum (\u2026) da pol\u00edcia nossa.\u201d<\/p>\n<p class=\"p1\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-295\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/562603_357415167657377_162474053818157_1011667_630082089_n-300x225.jpg\" border=\"0\" width=\"300\" height=\"225\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\">Em entrevista em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho, Dilma foi perguntada de quem apanhava quando estava presa e respondeu: \u201cO capit\u00e3o Maur\u00edcio sempre aparecia\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Dilma, que era uma das l\u00edderes da VAR-Palmares, foi presa em 16 de janeiro de 1970. Ela foi brutalmente torturada e seviciada, submetida a choques e pau-de-arara durante 22 dias. No depoimento \u00e0 Justi\u00e7a Militar, em Juiz de Fora, em 18 de maio, cinco meses depois de ser presa, Dilma deu detalhes da tortura no Dops. \u201cRepete-se que foi torturada f\u00edsica, ps\u00edquica e moralmente; que isso de seu durante 22 dias ap\u00f3s o dia 16 de janeiro (dia em que foi presa)\u201d, diz trecho do depoimento.<\/p>\n<p class=\"p1\">Abaixo, leia a entrevista publicada pela Folha de S. Paulo, no 21 de junho de 2005, concedida em 2003 ao jornalista Luiz Maklouf Carvalho.<\/p>\n<p class=\"p1\">Que lembran\u00e7as a sra. guardou dos tempos de cadeia?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma Rousseff \u2013 A pris\u00e3o \u00e9 uma coisa em que a gente se encontra com os limites da gente. \u00c9 isso que \u00e0s vezes \u00e9 muito duro. Nos depoimentos, a gente mentia feito doido. Mentia muito, mas muito.<\/p>\n<p class=\"p1\">Em um dos seus depoimentos da fase judicial, a sra. denunciou que o capit\u00e3o Maur\u00edcio foi amea\u00e7\u00e1-la de tortura por estar indignado com as propositais contradi\u00e7\u00f5es de seus depoimentos.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Voltei v\u00e1rias vezes para a Oban, a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante. Descobriam que uma hist\u00f3ria n\u00e3o fechava com a outra, e a\u00ed voltava. Mas a\u00ed eu j\u00e1 era preso velho. Preso velho \u00e9 um bicho muito dif\u00edcil de pegar na curva. Preso novo, voc\u00ea n\u00e3o sabe o tamanho da dor.<\/p>\n<p class=\"p1\">Como era essa hist\u00f3ria de mentir diante da tortura?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 A gente tinha que fazer uma moldura e s\u00f3 se lembrar da moldura, da hist\u00f3ria que se inventava, e n\u00e3o sa\u00eda disso. Tinha que ter uma hist\u00f3ria. Na rela\u00e7\u00e3o do torturador com o torturado a \u00fanica coisa que n\u00e3o pode acontecer \u00e9 voc\u00ea falar \u201cn\u00e3o falo\u201d. Se voc\u00ea falar \u201cn\u00e3o falo\u201d, dali a cinco minutos voc\u00ea pode ser obrigado a falar, porque eles sabem que voc\u00ea tem algo a dizer. Se voc\u00ea falar \u201cn\u00e3o falo\u201d, voc\u00ea diz pra eles o seguinte: \u201cEu sei o que voc\u00ea quer saber e n\u00e3o te direi\u201d. A\u00ed voc\u00ea entrega a arma pra ele te torturar e te perguntar. Sua hist\u00f3ria n\u00e3o pode ser \u201cn\u00e3o falo\u201d. Tem que ser uma hist\u00f3ria e dali para a frente voc\u00ea n\u00e3o sabe mais nada, n\u00e3o pode saber.<\/p>\n<p class=\"p1\">Pergunta \u2013 \u00c9 um jogo dif\u00edcil.<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 \u00c9 uma arte. A dificuldade \u00e9 convenc\u00ea-lo de que voc\u00ea n\u00e3o sabe mais do que aquela moldura. N\u00e3o \u00e9 um jogo s\u00f3 de resist\u00eancia f\u00edsica, \u00e9 de resist\u00eancia ps\u00edquica. At\u00e9 porque uma das coisas que voc\u00ea descobre \u00e9 que voc\u00ea est\u00e1 sozinho.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quais s\u00e3o as cenas que est\u00e3o vindo na sua cabe\u00e7a, agora?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Eu lembro de chegar na Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, presa, no in\u00edcio de 70. Era aquele neg\u00f3cio meio terreno baldio, n\u00e3o tinha nem muro, direito. Eu entrei no p\u00e1tio da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante e come\u00e7aram a gritar \u201cmata!\u201d, \u201ctira a roupa\u201d, \u201cterrorista\u201d, \u201cfilha da puta\u201d, \u201cdeve ter matado gente\u201d. E lembro tamb\u00e9m perfeitamente que me botaram numa cela. Muito estranho. Uma por\u00e7\u00e3o de mulheres. Tinha uma menina gr\u00e1vida que perguntou meu nome. Eu dei meu nome verdadeiro. Ela disse: \u201cXi, voc\u00ea est\u00e1 ferrada\u201d. Foi o meu primeiro contato com o esperar. A pior coisa que tem na tortura \u00e9 esperar, esperar para apanhar. Eu senti ali que a barra era pesada. E foi. Tamb\u00e9m estou lembrando muito bem do ch\u00e3o do banheiro, do azulejo branco. Porque vai formando crosta de sangue, sujeira, voc\u00ea fica com um cheiro\u2026<\/p>\n<p class=\"p1\">Por onde a tortura come\u00e7ou?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Palmat\u00f3ria. Levei muita palmat\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quem batia?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 O capit\u00e3o Maur\u00edcio sempre aparecia. Ele n\u00e3o era interrogador, era da equipe de busca. Dos que dirigiam, o primeiro era o Homero, o segundo era o Albernaz. O terceiro eu n\u00e3o me lembro o nome. Era um baixinho. Quem comandava era o major Waldir [Coelho], que a gente chamava de major Ling\u00fcinha, porque ele falava assim [com l\u00edngua presa].<\/p>\n<p class=\"p1\">Quem torturava?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 O Albernaz e o substituto dele, que se chamava Tom\u00e1s. Eu n\u00e3o sei se \u00e9 nome de guerra. Quem mandava era o Albernaz, quem interrogava era o Albernaz. O Albernaz batia e dava soco. Ele dava muito soco nas pessoas. Ele come\u00e7ava a te interrogar. Se n\u00e3o gostasse das respostas, ele te dava soco. Depois da palmat\u00f3ria, eu fui pro pau-de-arara.<\/p>\n<p class=\"p1\">D\u00e1 pra relembrar?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Mandaram eu tirar a roupa. Eu n\u00e3o tirei, porque a primeira rea\u00e7\u00e3o \u00e9 n\u00e3o tirar, p\u00f4. Eles me arrancaram a parte de cima e me botaram com o resto no pau-de-arara. A\u00ed come\u00e7ou a prender a circula\u00e7\u00e3o. Um outro xingou n\u00e3o sei quem, a\u00ed me tiraram a roupa toda. Da\u00ed depois me botaram outra vez.<\/p>\n<p class=\"p1\">Com choques nas partes genitais, como acontecia?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 N\u00e3o. Isso n\u00e3o fizeram. Mas fizeram choque, muito choque, mas muito choque. Eu lembro, nos primeiros dias, que eu tinha uma exaust\u00e3o f\u00edsica, que eu queria desmaiar, n\u00e3o ag\u00fcentava mais tanto choque. Eu comecei a ter hemorragia.<\/p>\n<p class=\"p1\">Onde eram esses choques?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Em tudo quanto \u00e9 lugar. Nos p\u00e9s, nas m\u00e3os, na parte interna das coxas, nas orelhas. Na cabe\u00e7a, \u00e9 um horror. No bico do seio. Botavam uma coisa assim, no bico do seio, era uma coisa que prendia, segurava. A\u00ed cansavam de fazer isso, porque tinha que ter um envolt\u00f3rio, pra enrolar, e largava. A\u00ed voc\u00ea se urina, voc\u00ea se caga todo, voc\u00ea\u2026<\/p>\n<p class=\"p1\">Quanto tempo durava uma sess\u00e3o dessas?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Nos primeiros dias, muito tempo. A gente perde a no\u00e7\u00e3o. Voc\u00ea n\u00e3o sabe quanto tempo, nem que tempo que \u00e9. Sabe por qu\u00ea? Porque p\u00e1ra, e quando p\u00e1ra n\u00e3o melhora, porque ele fala o seguinte: \u201cAgora voc\u00ea pensa um pouco\u201d. Parava, me retiravam e me jogavam nesse lugar do ladrilho, que era um banheiro, no primeiro andar do DOI-Codi. Com sangue, com tudo. Te largam. Depois, voc\u00ea treme muito, voc\u00ea tem muito frio. Voc\u00ea est\u00e1 nu, n\u00e9? \u00c9 muito frio. A\u00ed voltava. Nesse dia foi muito tempo. Teve uma hora que eu estava em posi\u00e7\u00e3o fetal.<\/p>\n<p class=\"p1\">D\u00e1 pra pensar em resistir, em n\u00e3o falar?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 A forma de resistir era dizer comigo mesmo: \u201cDaqui a pouco eu vou contar tudo o que eu sei\u201d. Falava pra mim mesmo. A\u00ed passava um pouquinho. E mais um pouco. E a\u00ed voc\u00ea vai indo. Voc\u00ea n\u00e3o pode imaginar que vai durar uma hora, duas. S\u00f3 pode pensar no daqui a pouco. N\u00e3o pode pensar na dor.<\/p>\n<p class=\"p1\">A sra. ag\u00fcentou?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Eu ag\u00fcentei. N\u00e3o disse nem onde eu morava. N\u00e3o disse quem era o Max [codinome de Carlos Franklin Paix\u00e3o de Ara\u00fajo, ent\u00e3o seu marido]. N\u00e3o entreguei o Breno [Carlos Alberto Bueno de Freitas], porque tinha muita d\u00f3. Vou dizer uma coisa que uma tupamara, presa com a gente, disse pra mim. A tupamara ficou at\u00e9 com les\u00e3o cerebral. Ela disse: \u201cSabe por que eu n\u00e3o disse, naquele dia, quem era quem? Porque eu era mulher do fulano de tal e queria provar que o uruguaio \u00e9 t\u00e3o bom quanto o brasileiro\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Qual \u00e9 o significado da frase?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Que as raz\u00f5es que levam a gente a n\u00e3o falar s\u00e3o as mais variadas poss\u00edveis.<\/p>\n<p class=\"p1\">Quais foram as suas?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Tinha um menino da ALN que chamava \u201cMister X\u201d. Eu o vi completamente destru\u00eddo. N\u00e3o sei o que foi feito dele. Nunca vou esquecer o quadro em que ele estava. Primeiro, eu n\u00e3o queria que meus companheiros estivessem numa situa\u00e7\u00e3o daquelas. Segundo, eu tinha medo que algum deles morresse. Terceiro, porque teve um dia que eu tive uma hemorragia muito grande, foi o dia em que eu estive pior. Hemorragia, mesmo, que nem menstrua\u00e7\u00e3o. Eles tiveram que me levar para o Hospital Central do Ex\u00e9rcito. Encontrei uma menina da ALN. Ela disse: \u201cPula um pouco no quarto para a hemorragia n\u00e3o parar e voc\u00ea n\u00e3o ter que voltar\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">Palmat\u00f3ria, pau-de-arara, choque. O que mais?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 N\u00e3o comer. O frio. A noite. Eles te botam na sala e falam: \u201cDaqui a duas horas eu volto pra te interrogar\u201d. Ficar esperando a tortura. Tem um n\u00edvel de dor em que voc\u00ea apaga, em que voc\u00ea n\u00e3o ag\u00fcenta mais. A dor tem que ser infligida com o controle deles. Ele tem que demonstrar que tem o poder de controlar tua dor.<\/p>\n<p class=\"p1\">E o torturado?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 O jogo \u00e9 jamais revelar pra ele o que voc\u00ea acha. Ele n\u00e3o pode saber o que voc\u00ea pensa e ele nunca pode achar que voc\u00ea s\u00f3 fala depois de apanhar. Jamais. \u00c9 melhor voc\u00ea n\u00e3o deixar ele perceber que te tira informa\u00e7\u00e3o por tortura. Tem que ter uma hist\u00f3ria. O ruim \u00e9 quando a sua hist\u00f3ria rui, por qualquer motivo. Ele acha que voc\u00ea mentiu. Se ele achar que voc\u00ea mentiu, voc\u00ea est\u00e1 roubada. Ele descobriu qual \u00e9 o jogo. Quando voc\u00ea volta, e \u00e9 por isso que voltar \u00e9 ruim, ele diz: \u201cVoc\u00ea mentiu, p\u00f4, o neg\u00f3cio \u00e9 que voc\u00ea mente\u201d.<\/p>\n<p class=\"p1\">A sua hist\u00f3ria caiu?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Uma vez caiu tudo, mas a\u00ed era tarde demais. Caiu tudinho da Silva. Porque eu dizia que o meu marido tinha seq\u00fcestrado o avi\u00e3o e que, se eu n\u00e3o tinha sa\u00eddo com ele, \u00e9 que eu era uma pessoa que n\u00e3o sabia de nada, que, se soubesse, teria ido junto. A\u00ed eles descobrem que eu era da dire\u00e7\u00e3o da VAR, e que portanto era imposs\u00edvel n\u00e3o saber do seq\u00fcestro. Tava zebrado. A\u00ed tem que falar: \u201cN\u00e3o, eu era da dire\u00e7\u00e3o, mas estava separada dele\u201d. Se a sua hist\u00f3ria cai, voc\u00ea est\u00e1 roubado.<\/p>\n<p class=\"p1\">O que \u00e9 que ajuda, nesses momentos?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Se eu tivesse ficado sozinha na cadeia, teria muito mais problemas. Devo grande parte de ter superado, absorvido e em alguns momentos chegado at\u00e9 a ironizar a tortura, para ag\u00fcentar, \u00e0s minhas companheiras. Eu lembro do povo do [pres\u00eddio] Tiradentes, que esteve comigo.<\/p>\n<p class=\"p1\">De algum momento em particular?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 Quando alguma de n\u00f3s era chamada para o repique, que era voltar \u00e0 Oban, havia um processo de cont\u00e1gio, de medo, e de uma identifica\u00e7\u00e3o muito forte entre n\u00f3s. Como forma de ter controle da situa\u00e7\u00e3o, a gente dessolenizava. Ent\u00e3o, tinha uma variante de grito de guerra. N\u00e3o mostra que a gente foi hero\u00edna, cois\u00edssima nenhuma, e n\u00e3o \u00e9 nesse sentido. Mas foi a tentativa mais humana de dominar o indiz\u00edvel, que era dizer: \u201cFulana, n\u00e3o liga n\u00e3o, se voc\u00ea for torturada a gente denuncia\u201d. E ria disso, pela ironia absoluta que \u00e9. O que \u00e9 que adianta denunciar? Para torturado, o que \u00e9 que adianta? Mas a gente gritava isso na hora que a pessoa estava saindo da cela, como uma forma de manter o n\u00edvel de controle sob seu destino, que voc\u00ea n\u00e3o tinha. Voc\u00ea n\u00e3o sabia para onde voc\u00ea ia ou para onde a sua companheira ia.<\/p>\n<p class=\"p1\">Que balan\u00e7o a sra. faz da experi\u00eancia desse per\u00edodo?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 N\u00e3o daria certo. A gente fez uma an\u00e1lise errada. Achamos que a ditadura estava em crise, e estava iniciando o \u201cmilagre\u201d [econ\u00f4mico]. A gente n\u00e3o percebeu em que condi\u00e7\u00f5es a atuava. Se a gente tivesse feito uma an\u00e1lise correta da realidade, se tivesse visto o que estava acontecendo\u2026 Mas a gente n\u00e3o percebeu, apesar da ret\u00f3rica, qual era o n\u00edvel de endurecimento pol\u00edtico e de repress\u00e3o que eles iam desenvolver.<\/p>\n<p class=\"p1\">O que dizia a ret\u00f3rica?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 A gente achava que o neg\u00f3cio era uma guerra revolucion\u00e1ria prolongada, ou era um processo de guerrilha urbana, no momento em que o sistema estava em expans\u00e3o ou ia come\u00e7ar uma baita expans\u00e3o e o endurecimento pesado. N\u00e3o se esque\u00e7a que no meio de 69 tem a Junta Militar, e da\u00ed para a frente voc\u00ea tem talvez o per\u00edodo mais pesado da ditadura, que \u00e9 o per\u00edodo M\u00e9dici. \u00c9 o prende, prende, mata, mata. Numa situa\u00e7\u00e3o dessas, n\u00f3s est\u00e1vamos muito isolados, talvez umas 240 pessoas. O que \u00e9 que eles fizeram? Eles nos cercaram, desmantelaram, e uma parte mataram. Foi isso que eles fizeram conosco. Eles isolaram a gente e mataram.<\/p>\n<p class=\"p1\">E por que se avaliou t\u00e3o mal?<span class=\"s1\"><br \/> <\/span>Dilma \u2013 De uma certa forma, a gente tinha um modelo na cabe\u00e7a. De todo forma, eu acho que a minha gera\u00e7\u00e3o tem um grande m\u00e9rito, que \u00e9 o neg\u00f3cio da Var-Palmares: \u201cOusar Lutar, Ousar Vencer\u201d. Esse lado de uma certa ousadia. A gente tinha uma imensa generosidade e acredit\u00e1vamos que era poss\u00edvel fazer um Brasil mais igual. Eu tenho orgulho da minha gera\u00e7\u00e3o, de a gente ter lutado e de ter participado de todo um sonho de construir um Brasil melhor. Acho que aprendemos muito. Fizemos muita bobagem, mas n\u00e3o \u00e9 isso que nos caracteriza. O que n\u00f3s caracteriza \u00e9 ter ousado querer um pa\u00eds melhor.<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cem jovens do Levante Popular da Juventude fizeram o esculhacho do tenente-coronel reformado Maur\u00edcio Lopes Lima, que foi reconhecido pela presidenta Dilma Roussef como torturador da Opera\u00e7\u00e3o Bandeirante, no munic\u00edpio do Guaruj\u00e1, no litoral de S\u00e3o Paulo (Rua Tereza Moura, 36).<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":294,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=296"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/296\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/294"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=296"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=296"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=296"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}