{"id":299,"date":"2012-05-14T18:41:01","date_gmt":"2012-05-14T18:41:01","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/as-cinco-maneiras-de-dizer-a-verdade\/"},"modified":"2012-05-14T18:41:01","modified_gmt":"2012-05-14T18:41:01","slug":"as-cinco-maneiras-de-dizer-a-verdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2012\/05\/14\/as-cinco-maneiras-de-dizer-a-verdade\/","title":{"rendered":"As cinco maneiras de dizer a verdade"},"content":{"rendered":"<p><p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A Comiss\u00e3o da Verdade est\u00e1 composta e pronta para come\u00e7ar a atuar. Em homenagem a seu trabalho e ao passado que a Comiss\u00e3o vai escavar, Vermelho transcreve aqui este texto escrito em 1934, na Alemanha, na\u00a0resist\u00eancia contra o nazismo.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" size-full wp-image-298\" src=\"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-content\/uploads\/2012\/05\/bertolt-brecht26905.jpg\" border=\"0\" width=\"305\" height=\"250\" style=\"vertical-align: middle;\" \/><\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>\n<address \/>Brecht: a coragem de dizer, reconhecer e manejar a verdade como uma arma  <!--more-->  <\/address>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Hoje, o escritor que deseje combater a mentira e a ignor\u00e2ncia tem de lutar, pelo menos, contra cinco dificuldades. \u00c9-lhe necess\u00e1ria a coragem de dizer a verdade, numa altura em que por toda a parte se empenham em sufoc\u00e1-la; a intelig\u00eancia de reconhec\u00ea-la, quando por toda a parte a ocultam; a arte de torn\u00e1-la manej\u00e1vel como uma arma; o discernimento suficiente para escolher aqueles em cujas m\u00e3os ela se tornar\u00e1 eficaz; finalmente, precisa ter habilidade para difundir entre eles. Estas dificuldades s\u00e3o grandes para os que escrevem sob o jugo do fascismo; aqueles que fugiram ou foram expulsos tamb\u00e9m sentem o peso delas; e at\u00e9 os que escrevem num regime de liberdades burguesas n\u00e3o est\u00e3o livres da sua a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>1 &#8211; A coragem de dizer a verdade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00c9 evidente que o escritor deve dizer a verdade, n\u00e3o a calar nem a abafar, e nada escrever contra ela. \u00c9 sua obriga\u00e7\u00e3o evitar rebaixar-se diante dos poderosos, n\u00e3o enganar os fracos, naturalmente, assim como resistir \u00e0 tenta\u00e7\u00e3o do lucro que adv\u00e9m de enganar os fracos. Desagradar aos que tudo possuem equivale a renunciar seja o que for. Renunciar ao sal\u00e1rio do seu trabalho equivale por vezes a n\u00e3o poder trabalhar, e recusar ser c\u00e9lebre entre os poderosos \u00e9 muitas vezes recusar qualquer esp\u00e9cie de celebridade. Para isso precisa-se de coragem. As \u00e9pocas de extrema opress\u00e3o costumam serem tamb\u00e9m aquelas em que os grandes e nobres temas est\u00e3o na ordem do dia. Em tais \u00e9pocas, quando o esp\u00edrito de sacrif\u00edcio \u00e9 exaltado ruidosamente, precisa o escritor de muita coragem para tratar de temas t\u00e3o mesquinhos e t\u00e3o baixos como a alimenta\u00e7\u00e3o dos trabalhadores e o seu alojamento.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Quando os camponeses s\u00e3o cobertos de honrarias e apontados como exemplo, \u00e9 corajoso o escritor que fala da maquinaria agr\u00edcola e dos pastos baratos que aliviariam o t\u00e3o exaltado trabalho dos campos. Quando todos os alto-falantes espalham aos quatro ventos que o ignorante vale mais do que o instru\u00eddo, \u00e9 preciso coragem para perguntar: vale mais por qu\u00ea? Quando se fala de ra\u00e7as nobres e de ra\u00e7as inferiores, \u00e9 corajoso o que pergunta se a fome, a ignor\u00e2ncia e a guerra n\u00e3o produzem odiosas deformidades. \u00c9 igualmente necess\u00e1ria coragem para se dizer a verdade a nosso pr\u00f3prio respeito, sobre os vencidos que somos. Muitos perseguidos perdem a faculdade de reconhecer as suas culpas. A persegui\u00e7\u00e3o parece-lhes uma monstruosa injusti\u00e7a. Os perseguidores s\u00e3o maus, dado que perseguem, e eles, os perseguidos, s\u00e3o perseguidos por causa da sua virtude. Mas essa virtude foi esmagada, vencida, reduzida \u00e0 impot\u00eancia. Bem fraca virtude ela era! M\u00e1, inconsistente e pouco segura virtude, pois n\u00e3o \u00e9 admiss\u00edvel aceitar a fraqueza da virtude como se aceita a umidade da chuva. \u00c9 necess\u00e1ria coragem para dizer que os bons n\u00e3o foram vencidos por causa da sua virtude, mas antes por causa da sua fraqueza. A verdade deve ser mostrada na sua luta com a mentira e nunca apresentada como algo de sublime, de amb\u00edguo e de geral; este estilo de falar dela conv\u00e9m justamente \u00e0 mentira. Quando se afirma que algu\u00e9m disse a verdade \u00e9 porque houve outros, v\u00e1rios, muitos ou um s\u00f3, que disseram outra coisa, mentiras ou generalidades, mas aquele disse a verdade, falou em algo de pr\u00e1tico, concreto, imposs\u00edvel de negar, disse a \u00fanica coisa que era preciso dizer.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o se carece de muita coragem para deplorar em termos gerais a corrup\u00e7\u00e3o do mundo e para falar num tom amea\u00e7ador, nos lugares onde a coisa ainda \u00e9 permitida, da desforra do Esp\u00edrito. Muitos simulam a bravura como se os canh\u00f5es estivessem apontados sobre eles; a verdade \u00e9 que apenas servem de mira a bin\u00f3culos de teatro. Os seus gritos atiram algumas vagas e generalizadas reivindica\u00e7\u00f5es, \u00e0 face dum mundo onde as pessoas inofensivas s\u00e3o estimadas. Reclamam em termos gerais uma justi\u00e7a para a qual nada contribuem, apelam pela liberdade de receber a sua parte dum esp\u00f3lio que sempre t\u00eam partilhado com eles. Para esses, a verdade tem de soar bem. Se nela s\u00f3 h\u00e1 aridez, n\u00fameros e fatos, se para encontr\u00e1-la forem precisos estudos e muito esfor\u00e7o, ent\u00e3o essa verdade n\u00e3o \u00e9 para eles, n\u00e3o possui a seus olhos nada de exaltante. Da verdade, s\u00f3 lhes interessa o comportamento exterior que permite clamar por ela. A sua grande desgra\u00e7a \u00e9 n\u00e3o possu\u00edrem a m\u00ednima no\u00e7\u00e3o dela.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>2 &#8211; A intelig\u00eancia de reconhecer a verdade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Como \u00e9 dif\u00edcil dizer a verdade, j\u00e1 que por toda a parte a sufocam, diz\u00ea-la ou n\u00e3o parece \u00e0 maioria uma simples quest\u00e3o de honestidade. Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade s\u00f3 precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. N\u00e3o se pode dizer que seja f\u00e1cil encontrar a verdade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Em primeiro lugar, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil descobrir qual verdade merece ser dita. Hoje, por exemplo, as grandes na\u00e7\u00f5es civilizadas v\u00e3o so\u00e7obrando uma ap\u00f3s outra na pior das barb\u00e1ries diante dos olhos pasmados do universo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Acresce ainda o fato de todos sabermos que a guerra interna, dispondo dos meios mais horr\u00edveis, pode transformar-se dum momento para o outro numa guerra exterior que s\u00f3 deixar\u00e1 um mont\u00e3o de escombros no lugar onde outrora havia o nosso continente. Esta \u00e9 uma verdade que n\u00e3o admite d\u00favidas, mas \u00e9 claro que existem outras verdades. Por exemplo: n\u00e3o \u00e9 falso que as cadeiras sirvam para a gente se sentar e que a chuva caia de cima para baixo. Muitos poetas escrevem verdades deste g\u00eanero. Assemelham-se a pintores que esbo\u00e7assem naturezas mortas a bordo dum navio em risco de naufragar. A primeira dificuldade de que falamos n\u00e3o existe para eles e, contudo, t\u00eam a consci\u00eancia tranquila. \u201cEsgalham\u201d o quadro num desprezo soberano pelos poderosos, mas tamb\u00e9m sem se deixarem impressionar pelos gritos das v\u00edtimas. O absurdo do seu comportamento engendra neles um \u201cprofundo\u201d pessimismo que se vende bem; os outros \u00e9 que t\u00eam motivos para se sentirem pessimistas ao verem o modo como esses mestres se vendem. J\u00e1 nem sequer \u00e9 f\u00e1cil reconhecer que as suas verdades dizem respeito ao destino das cadeiras e ao sentido da chuva: essas verdades soam normalmente de outra maneira, como se estivessem relacionadas com coisas essenciais, pois o trabalho do artista consiste justamente em dar um ar de import\u00e2ncia aos temas de que trata.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">S\u00f3 olhando os quadros de muito perto \u00e9 que podemos discernir a simplicidade do que dizem: \u201cUma cadeira \u00e9 uma cadeira\u201d e \u201cNingu\u00e9m pode impedir a chuva de cair de cima para baixo\u201d. As pessoas n\u00e3o encontram ali a verdade que merece a pena ser dita.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Alguns se consagram verdadeiramente \u00e0s tarefas mais urgentes, sem medo aos poderosos ou \u00e0 pobreza, e, no entanto, n\u00e3o conseguem encontrar a verdade. Faltam-lhe conhecimentos. As velhas supersti\u00e7\u00f5es n\u00e3o os largam, assim como os preconceitos ilustres que o passado frequentemente revestiu de uma forma bela. Acham o mundo complicado em demasia, n\u00e3o conhecem os dados nem distinguem as rela\u00e7\u00f5es. A honestidade n\u00e3o basta; s\u00e3o precisos conhecimentos que se podem adquirir e m\u00e9todos que se podem aprender. Todos os que escrevem sobre as complica\u00e7\u00f5es desta \u00e9poca e sobre as transforma\u00e7\u00f5es que nela ocorrem necessitam de conhecer a dial\u00e9tica materialista, a economia e a hist\u00f3ria. Estes conhecimentos podem adquirir-se nos livros e atrav\u00e9s da aprendizagem pr\u00e1tica, por m\u00ednima que seja a vontade necess\u00e1ria. Muitas verdades podem ser encontradas com a ajuda de meios bastante mais simples, atrav\u00e9s de fragmentos de verdades ou dos dados que conduzem \u00e0 sua descoberta. Quando se quer procurar, \u00e9 conveniente ter-se um m\u00e9todo, mas tamb\u00e9m se pode encontrar sem m\u00e9todo e at\u00e9 sem procura. Contudo, atrav\u00e9s dos diversos modos como o acaso se exprime, n\u00e3o se pode esperar a representa\u00e7\u00e3o da verdade que permite aos homens saber como devem agir. As pessoas que s\u00f3 se empenham em anotar os fatos insignificantes s\u00e3o incapazes de tornar manej\u00e1veis as coisas deste mundo. O objetivo da verdade \u00e9 uno e indivis\u00edvel. As pessoas que apenas s\u00e3o capazes de dizer generalidades sobre a verdade n\u00e3o est\u00e3o \u00e0 altura dessa obriga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Se algu\u00e9m est\u00e1 pronto a dizer a verdade e \u00e9 capaz de a reconhecer, ainda tem de vencer tr\u00eas dificuldades.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>3 &#8211; A arte de tornar a verdade manej\u00e1vel como uma arma<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O que torna imperiosa a necessidade de dizer a verdade s\u00e3o as consequ\u00eancias que isso implica no que diz respeito \u00e0 conduta pr\u00e1tica. Como exemplo de verdade inconsequente ou de que se poder\u00e3o tirar consequ\u00eancias falsas, tomemos o conceito largamente difundido, segundo o qual em certos pa\u00edses reina um estado de coisas nefasto, resultante da barb\u00e1rie. Para esta concep\u00e7\u00e3o, o fascismo \u00e9 uma vaga de barb\u00e1rie que alagou certos pa\u00edses com a viol\u00eancia de um fen\u00f4meno natural.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Os que assim pensam, entendem o fascismo como um novo movimento, uma terceira for\u00e7a justaposta ao capitalismo e ao socialismo (e que os domina). Para quem partilha esta opini\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 o movimento socialista, mas tamb\u00e9m o capitalismo teriam podido, se n\u00e3o fosse o fascismo, continuar a existir, etc. Naturalmente que se trata de uma afirma\u00e7\u00e3o fascista, de uma capitula\u00e7\u00e3o perante o fascismo. O fascismo \u00e9 uma fase hist\u00f3rica na qual o capitalismo entrou; por consequ\u00eancia, algo de novo e ao mesmo tempo de velho. Nos pa\u00edses fascistas, a exist\u00eancia do capitalismo assume a forma do fascismo, e n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel combater o fascismo sen\u00e3o enquanto capitalismo, sen\u00e3o enquanto forma mais nua, mais c\u00ednica, mais opressora e mais mentirosa do capitalismo.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Como se poder\u00e1 dizer a verdade sobre o fascismo que se recusa, se quem diz essa verdade se abst\u00e9m de falar contra o capitalismo que engendra o fascismo? Qual ser\u00e1 o alcance pr\u00e1tico dessa verdade?<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Aqueles que est\u00e3o contra o fascismo sem estar contra o capitalismo, que choramingam sobre a barb\u00e1rie causada pela barb\u00e1rie, assemelham-se a pessoas que querem receber a sua fatia de assado de vitela, mas n\u00e3o querem que se mate a vitela. Querem comer vitela, mas n\u00e3o querem ver sangue. Para ficarem contentes, basta que o a\u00e7ougueiro lave as m\u00e3os antes de servir a carne. N\u00e3o s\u00e3o contra as rela\u00e7\u00f5es de propriedade que produzem a barb\u00e1rie, mas s\u00e3o contra a barb\u00e1rie.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">As recrimina\u00e7\u00f5es contra as medidas b\u00e1rbaras podem ter uma efic\u00e1cia epis\u00f3dica, enquanto os auditores acreditarem que semelhantes medidas n\u00e3o s\u00e3o poss\u00edveis na sociedade onde vivem. Certos pa\u00edses gozam do raro privil\u00e9gio de manter rela\u00e7\u00f5es de propriedade capitalistas por processos aparentemente menos violentos. A democracia ainda lhes presta os servi\u00e7os que noutras partes do mundo s\u00f3 podem ser prestados mediante o recurso \u00e0 viol\u00eancia, quer dizer, a\u00ed a democracia chega para garantir a propriedade privada dos meios de produ\u00e7\u00e3o. O monop\u00f3lio das f\u00e1bricas, das minas, dos latif\u00fandios gera em toda a parte condi\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras; digamos que em alguns lugares a democracia torna essas condi\u00e7\u00f5es menos vis\u00edveis. A barb\u00e1rie torna-se vis\u00edvel logo que o monop\u00f3lio j\u00e1 s\u00f3 pode encontrar prote\u00e7\u00e3o na viol\u00eancia nua.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Certas na\u00e7\u00f5es que conseguem preservar os monop\u00f3lios b\u00e1rbaros sem renunciar \u00e0s garantias formais do direito, nem a comodidades como a arte, a filosofia, a literatura, acolhem carinhosamente os h\u00f3spedes cujos discursos procuram desculpar o seu pa\u00eds natal de ter renunciado a semelhantes confortos: tudo isso lhes ser\u00e1 \u00fatil nas guerras vindouras. \u00c9 licito dizer-se que reconheceram a verdade, aqueles que reclamam a torto e a direito uma luta sem quartel contra a Alemanha, apresentada como verdadeira p\u00e1tria do mal da nossa \u00e9poca, sucursal do inferno, caverna do Anticristo? Desses, n\u00e3o ser\u00e1 exagerado pensar que n\u00e3o passam de impotentes e nefastos imbecis, j\u00e1 que a conclus\u00e3o do seu bl\u00e1bl\u00e1bl\u00e1 aponta para a destrui\u00e7\u00e3o desse pa\u00eds inteiro e de todos os seus habitantes (o g\u00e1s asfixiante, quando mata, n\u00e3o escolhe os culpados).<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O homem fr\u00edvolo, que n\u00e3o conhece a verdade, exprime-se atrav\u00e9s de generalidades, em termos nobres e imprecisos. Encanta-o perorar sobre \u201cos\u201d alem\u00e3es ou lan\u00e7ar-se em grandes tiradas sobre \u201co\u201d Mal, mas a verdade \u00e9 que n\u00f3s, aqueles a quem o homem fr\u00edvolo fala, ficamos embara\u00e7ados, sem saber que fazer de semelhantes ditames. Afinal de contas, o nosso homem decidiu deixar de ser alem\u00e3o? E l\u00e1 por ele ser bom, o inferno vai desaparecer? S\u00e3o desta esp\u00e9cie as grandes frases sobre a barb\u00e1rie. Para os seus autores, a barb\u00e1rie vem da barb\u00e1rie e desaparece gra\u00e7as \u00e0 educa\u00e7\u00e3o moral que vem da educa\u00e7\u00e3o. Que mis\u00e9ria a destas generalidades, que n\u00e3o visam qualquer aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica e, no fundo, n\u00e3o se dirigem a ningu\u00e9m.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o nos admiremos que se digam de esquerda, \u201cmas\u201d democratas, os que s\u00f3 conseguem elevar-se a t\u00e3o fracas e improf\u00edcuas verdades. A \u201cesquerda democr\u00e1tica\u201d \u00e9 outra destas generalidades-\u00e1libis onde correm a acoitarem-se as pessoas inconsequentes, isto \u00e9, os incapazes de viver at\u00e9 as \u00faltimas consequ\u00eancias as verdades que quer a esquerda, quer a democracia cont\u00eam. Reclamar-se algu\u00e9m da \u201cesquerda democr\u00e1tica\u201d significa, em termos pr\u00e1ticos, que pertence ao grupo dos ineptos para revolucionar ou conservar as coisas, ao cl\u00e3 dos generalistas da verdade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o \u00e9 a mim, fugido da Alemanha com a roupa que tinha no corpo, que me v\u00e3o apresentar o fascismo como uma esp\u00e9cie de for\u00e7a motriz natural imposs\u00edvel de dominar. A obscuridade dessas descri\u00e7\u00f5es esconde as verdadeiras for\u00e7as que produzem as cat\u00e1strofes. Um pouco de luz, e logo se v\u00ea que s\u00e3o homens a causa das cat\u00e1strofes. Pois \u00e9, amigos: vivemos num tempo em que o homem \u00e9 o destino do homem.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O fascismo n\u00e3o \u00e9 uma calamidade natural, que se possa compreender a partir da \u201cnatureza\u201d humana. Mas mesmo confrontados com cat\u00e1strofes naturais, h\u00e1 um modo de descrev\u00ea-las digno do homem, um modo que apela para as suas qualidades combativas.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">O cronista de grandes cat\u00e1strofes como o fascismo e a guerra (que n\u00e3o s\u00e3o cat\u00e1strofes naturais) deve elaborar uma verdade pratic\u00e1vel, mostrar as calamidades que os que possuem os meios de produ\u00e7\u00e3o infligem \u00e0s massas imensas dos que trabalham e n\u00e3o os possuem.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Se se pretende dizer eficazmente a verdade sobre um mau estado de coisas, \u00e9 preciso diz\u00ea-la de maneira que permita reconhecer as suas causas evit\u00e1veis. Uma vez reconhecidas as causas evit\u00e1veis, o mau estado de coisas pode ser combatido.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>4 &#8211; Discernimento suficiente para escolher os que tornar\u00e3o a verdade eficaz<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Tirando ao escritor a preocupa\u00e7\u00e3o pelo destino dos seus textos, as tradi\u00e7\u00f5es seculares do com\u00e9rcio da coisa escrita no mercado das opini\u00f5es deram-lhe a impress\u00e3o de que a sua miss\u00e3o terminava logo que o intermedi\u00e1rio, cliente ou editor, se encarregava de transmitir aos outros a obra acabada. O escritor pensava: falo e ouve-me quem me quiser ouvir. Na verdade, ele falava e quem podia pagar ouvia-o. Nem todos ouviam as suas palavras, e os que as ouviam n\u00e3o estavam dispostos a ouvir tudo o que se lhes dizia. Tem-se falado muito desta quest\u00e3o, mas mesmo assim ainda n\u00e3o chega o que se tem dito: limitar-me-ei aqui a acentuar que \u201cescrever a algu\u00e9m\u201d tornou-se pura e simplesmente \u201cescrever\u201d. Ora n\u00e3o se pode escrever a verdade e basta: \u00e9 absolutamente necess\u00e1rio escrev\u00ea-la a \u201calgu\u00e9m\u201d que possa tirar partido dela. O conhecimento da verdade \u00e9 um processo comum aos que leem e aos que escrevem. Para dizer boas coisas, \u00e9 preciso ouvir bem e ouvir boas coisas. A verdade deve ser pesada por quem a diz e por quem a ouve. E para n\u00f3s que escrevemos, \u00e9 essencial saber a quem a dizemos e quem no-la diz.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Devemos dizer a verdade sobre um mau estado de coisas \u00e0queles que o consideram o pior estado de coisas, e \u00e9 desses que devemos aprender a verdade. Devemos n\u00e3o s\u00f3 dirigir-nos \u00e0s pessoas que t\u00eam uma certa opini\u00e3o, mas tamb\u00e9m aos que ainda a n\u00e3o t\u00eam e deviam t\u00ea-la, ditada pela sua pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o. Os nossos auditores transformam-se continuamente! At\u00e9 se pode falar com os pr\u00f3prios carrascos quando o pr\u00eamio dos enforcamentos deixa de ser pago pontualmente ou o perigo de estar com os assassinos se torna muito grande. Os camponeses da Baviera n\u00e3o costumam querer nada com revolu\u00e7\u00f5es, mas quando as guerras duram demais e os seus filhos, no regresso, n\u00e3o arranjam trabalho nas quintas, tem sido poss\u00edvel ganh\u00e1-los para a revolu\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Para quem escreve, \u00e9 importante saber encontrar o tom da verdade. Um acento suave, lamentoso, de quem \u00e9 incapaz de fazer mal a uma mosca, n\u00e3o serve. Quem, estando na mis\u00e9ria, ouve tais lam\u00farias, sente-se ainda mais miser\u00e1vel. Em nada o anima a cantilena dos que, n\u00e3o sendo seus inimigos, n\u00e3o s\u00e3o certamente seus companheiros de luta. A verdade \u00e9 guerreira, n\u00e3o combate s\u00f3 a mentira, mas certos homens bem determinados que a propagam.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>5 &#8211; Habilidade para difundir a verdade<\/strong><\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Muitos, orgulhosos de ter a coragem de dizer a verdade, contentes por a terem encontrado, porventura fatigados com o esfor\u00e7o necess\u00e1rio para lhe dar uma forma manej\u00e1vel, aguardam impacientemente que aqueles cujos interesses defendem a tomem em suas m\u00e3os e consideram desnecess\u00e1rio o uso de manhas e estratagemas para difundi-la. Frequentemente, \u00e9 assim que perdem todo o fruto do seu trabalho. Em todos os tempos, foi necess\u00e1rio recorrer a \u201ctruques\u201d para espalhar a verdade, quando os poderosos se empenhavam em abaf\u00e1-la e ocult\u00e1-la. Conf\u00facio falsificou um velho calend\u00e1rio hist\u00f3rico nacional, apenas lhe alterando algumas palavras. Quando o texto dizia: \u201co senhor de Kun condenou \u00e0 morte o fil\u00f3sofo Wan por ter dito frito e cozido\u201d, Conf\u00facio substitu\u00eda \u201ccondenou \u00e0 morte\u201d por \u201cassassinou\u201d. Quando o texto dizia que o Imperador Fulano tinha sucumbido a um atentado, escrevia \u201cfoi executado\u201d. Com este processo, Conf\u00facio abriu caminho a uma nova concep\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Na nossa \u00e9poca, aquele que em vez de \u201cpovo\u201d, diz \u201cpopula\u00e7\u00e3o\u201d, e em lugar de \u201cterra\u201d, fala de \u201clatif\u00fandio\u201d, evita j\u00e1 muitas mentiras, limpando as palavras da sua magia de pacotilha. A palavra \u201cpovo\u201d exprime uma certa unidade e sugere interesses comuns; a \u201cpopula\u00e7\u00e3o\u201d de um territ\u00f3rio tem interesses diferentes e opostos. Da mesma forma, aquele que fala em \u201cterra\u201d e evoca a vis\u00e3o pastoral e o perfume dos campos favorece as mentiras dos poderosos, porque n\u00e3o fala do pre\u00e7o do trabalho e das sementes, nem no lucro que vai parar aos bolsos dos rica\u00e7os das cidades e n\u00e3o aos dos camponeses que se matam a tornar f\u00e9rtil o \u201cpara\u00edso\u201d. \u201cLatif\u00fandio\u201d \u00e9 a express\u00e3o justa: torna a trapa\u00e7a menos f\u00e1cil. Nos lugares onde reina a opress\u00e3o, deve-se escolher, em vez de \u201cdisciplina\u201d, a palavra \u201cobedi\u00eancia\u201d, j\u00e1 que mesmo sem amos e chefes a disciplina \u00e9 poss\u00edvel, e caracteriza-se portanto por algo de mais nobre que a obedi\u00eancia. Do mesmo modo, \u201cdignidade humana\u201d vale mais do que \u201chonra\u201d: com a primeira express\u00e3o o indiv\u00edduo n\u00e3o desaparece t\u00e3o facilmente do campo visual; por outro lado, conhece-se de sobra o g\u00eanero de canalha que costuma apresentar-se para defender a honra de um povo, e com que prodigalidade os gordos desonrados distribuem \u201chonrarias\u201d pelos fam\u00e9licos que os engordam.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Ao substituir avalia\u00e7\u00f5es inexatas de acontecimentos nacionais por nota\u00e7\u00f5es exatas, o m\u00e9todo de Conf\u00facio ainda hoje \u00e9 aplic\u00e1vel. Lenin, por exemplo, amea\u00e7ado pela pol\u00edcia do czar, quis descrever a explora\u00e7\u00e3o e a opress\u00e3o da ilha Sakalina pela burguesia russa. Substituiu \u201cR\u00fassia\u201d por \u201cJap\u00e3o\u201d e \u201cSakalina\u201d por \u201cCor\u00e9ia\u201d. Os m\u00e9todos da burguesia japonesa faziam lembrar a todos os leitores os m\u00e9todos da burguesia russa em Sakalina, mas a brochura n\u00e3o foi proibida, porque o Jap\u00e3o era inimigo da R\u00fassia. Muitas coisas que n\u00e3o podem ser ditas na Alemanha a prop\u00f3sito da Alemanha podem s\u00ea-lo a prop\u00f3sito da \u00c1ustria. H\u00e1 muitas maneiras de enganar um Estado vigilante.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Voltaire combateu a f\u00e9 da Igreja nos milagres, escrevendo um poema libertino sobre a Donzela de Orleans, no qual s\u00e3o descritos os milagres que sem d\u00favida foram necess\u00e1rios para Joana d\u2019Arc permanecer virgem no ex\u00e9rcito, na Corte e no meio dos frades.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Pela eleg\u00e2ncia do seu estilo e a descri\u00e7\u00e3o de aventuras galantes inspiradas na vida relaxada das classes dirigentes, levou estas a sacrificar uma religi\u00e3o que lhes fornecia os meios de levar essa vida dissoluta. Mais e melhor deu assim \u00e0s suas obras a possibilidade de atingir por vias ilegais aqueles a quem eram destinadas. Os poderosos que Voltaire contava entre os seus leitores favoreciam ou toleravam a difus\u00e3o dos livros proibidos, e desse modo sacrificavam a pol\u00edcia que protegia os seus prazeres. E o grande Lucr\u00e9cio sublinha expressamente que, para propagar o ate\u00edsmo epicurista confiava muito na beleza dos seus versos.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 d\u00favida de que um alto n\u00edvel liter\u00e1rio pode servir de salvo-conduto \u00e0 express\u00e3o de uma ideia. Contudo, muitas vezes desperta suspeitas. Ent\u00e3o, pode ser indicado baix\u00e1-lo intencionalmente. \u00c9 o que acontece, por exemplo, quando sob a forma desprezada do romance policial, se introduz \u00e0 socapa, em lugares discretos, a descri\u00e7\u00e3o dos males da sociedade. O grande Shakespeare baixou o seu n\u00edvel por considera\u00e7\u00f5es bem mais fracas, quando tratou com uma volunt\u00e1ria aus\u00eancia de vigor o discurso com que a m\u00e3e de Coriolano tentou travar o filho, que marchava sobre Roma: Shakespeare pretendia que Coriolano desistisse do seu projeto, n\u00e3o por causa de raz\u00f5es s\u00f3lidas ou de uma emo\u00e7\u00e3o profunda, mas por uma certa fraqueza de car\u00e1ter que o entregava aos seus velhos h\u00e1bitos. Encontramos igualmente em Shakespeare um modelo de manhas na difus\u00e3o da verdade: o discurso de Marco Ant\u00f4nio perante o corpo de C\u00e9sar, quando repete com insist\u00eancia que Brutus, assassino de C\u00e9sar, \u00e9 um homem honrado, descrevendo ao mesmo tempo o seu ato, e a descri\u00e7\u00e3o do ato provoca mais impress\u00e3o que a do autor.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Jonathan Swift prop\u00f4s numa das suas obras o seguinte meio de garantir o bem-estar da Irlanda: meter em salmoura os filhos dos pobres e vend\u00ea-los como carni\u00e7a no talho. Atrav\u00e9s de minuciosos c\u00e1lculos, provava que se podem fazer grandes economias quando n\u00e3o se recua diante de nada. Swift armava voluntariamente em imbecil, defendendo uma maneira de pensar abomin\u00e1vel e cuja ignom\u00ednia saltava aos olhos de todos. O leitor podia-se mostrar mais inteligente, ou pelo menos mais humano que Swift, sobretudo aquele que ainda n\u00e3o tinha pensado nas consequ\u00eancias decorrentes de certas concep\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">S\u00e3o consideradas baixas as atividades \u00fateis aos que s\u00e3o mantidos no fundo da escala: a preocupa\u00e7\u00e3o constante pela satisfa\u00e7\u00e3o de necessidades; o desd\u00e9m pelas honrarias com que procuram engodar os que defendem o pa\u00eds onde morrem de fome; a falta de confian\u00e7a no chefe quando o chefe nos leva a todos \u00e0 cat\u00e1strofe; a falta de gosto pelo trabalho quando ele n\u00e3o alimenta o trabalhador; o protesto contra a obriga\u00e7\u00e3o de ter um comportamento de idiotas; a indiferen\u00e7a para com a fam\u00edlia, quando de nada serve a gente interessar-se por ela. Os esfomeados s\u00e3o acusados de gulodice; os que n\u00e3o t\u00eam nada a defender, de covardia; os que duvidam dos seus opressores, de duvidar da sua pr\u00f3pria for\u00e7a; os que querem receber a justa paga pelo seu trabalho, de pregui\u00e7a, etc.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Numa \u00e9poca como a nossa, os governos que conduzem as massas humanas \u00e0 mis\u00e9ria, t\u00eam de evitar que nessa mis\u00e9ria se pense no governo, e por isso est\u00e3o sempre a falar em fatalidade. Quem procura as causas do mal, vai parar \u00e0 pris\u00e3o antes que a sua busca atinja o governo. Mas \u00e9 sempre poss\u00edvel opormo-nos \u00e0 conversa fiada sobre a fatalidade: pode-se mostrar, em todas as circunst\u00e2ncias, que a fatalidade do homem \u00e9 obra de outros homens. At\u00e9 na descri\u00e7\u00e3o de uma paisagem se pode chegar a um resultado conforme \u00e0 verdade, quando se incorporam \u00e0 natureza as coisas criadas pelo homem.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>Recapitula\u00e7\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">A grande verdade da nossa \u00e9poca (s\u00f3 seu conhecimento em nada nos faz avan\u00e7ar, mas sem ela n\u00e3o se pode alcan\u00e7ar nenhuma outra verdade importante) \u00e9 que o nosso continente se afunda na barb\u00e1rie porque nele se mant\u00eam pela viol\u00eancia determinadas rela\u00e7\u00f5es de propriedade dos meios de produ\u00e7\u00e3o. De que serve escrever frases corajosas mostrando que \u00e9 b\u00e1rbaro o estado de coisas em que nos afundamos (o que \u00e9 verdade), se a raz\u00e3o de termos ca\u00eddo nesse estado n\u00e3o se descortina com clareza? \u00c9 nossa obriga\u00e7\u00e3o dizer que, se se tortura, \u00e9 para manter as rela\u00e7\u00f5es de propriedade. Claro que ao dizermos isso perdemos muitos amigos; aqueles que s\u00e3o contra a tortura porque julgam ser poss\u00edvel manter sem ela as rela\u00e7\u00f5es de propriedade (o que \u00e9 falso).<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">Devemos dizer a verdade sobre as condi\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras que reinam no nosso pa\u00eds a fim de tornar poss\u00edvel a a\u00e7\u00e3o que as far\u00e1 desaparecer, isto \u00e9, que transformar\u00e1 as rela\u00e7\u00f5es de propriedade.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Devemos diz\u00ea-la aos que mais sofrem com as rela\u00e7\u00f5es de propriedade e est\u00e3o mais interessados na sua transforma\u00e7\u00e3o, ou seja: aos oper\u00e1rios e aos que podemos levar a aliarem-se com eles, por n\u00e3o serem propriet\u00e1rios dos meios de produ\u00e7\u00e3o, embora associados aos lucros e benef\u00edcios da explora\u00e7\u00e3o de quem produz. E, \u00e9 claro, devemos proceder com ast\u00facia.<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Devemos resolver em conjunto, e ao mesmo tempo, estas cinco dificuldades, j\u00e1 que n\u00e3o podemos procurar a verdade sobre condi\u00e7\u00f5es b\u00e1rbaras sem pensar nos que sofrem essas condi\u00e7\u00f5es e est\u00e3o dispostos a utilizar esse conhecimento. Al\u00e9m disso, temos de pensar em apresentar-lhes a verdade sob uma forma suscept\u00edvel de se transformar numa arma nas suas m\u00e3os, e simultaneamente com a ast\u00facia suficiente para que a opera\u00e7\u00e3o n\u00e3o seja descoberta e impedida pelo inimigo.<\/p>\n<p class=\"p3\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\"><strong>S\u00e3o estas as virtudes exigidas ao escritor empenhado em dizer a verdade.<\/strong><\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Traduzido por Ernesto Sampaio para o Di\u00e1rio de Lisboa, 25 de abril de 1982. Edi\u00e7\u00e3o brasileira: Brecht, B. &#8220;Cinco maneiras de dizer a verdade&#8221;. Revista Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira. N\u00ba 5\/6, Mar\u00e7o de 1966.<\/p>\n<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p2\" style=\"text-align: justify;\">Fonte &#8211; Vermelho<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A Comiss\u00e3o da Verdade est\u00e1 composta e pronta para come\u00e7ar a atuar. Em homenagem a seu trabalho e ao passado que a Comiss\u00e3o vai escavar, Vermelho transcreve aqui este texto escrito em 1934, na Alemanha, na\u00a0resist\u00eancia contra o nazismo. Brecht: a coragem de dizer, reconhecer e manejar a verdade como uma arma<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":298,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"_links":{"self":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299"}],"collection":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=299"}],"version-history":[{"count":0,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/299\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media\/298"}],"wp:attachment":[{"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=299"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=299"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=299"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}