{"id":3170,"date":"2013-01-30T23:56:11","date_gmt":"2013-01-30T23:56:11","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/01\/30\/mercia-albuquerque-10-anos-sem-a-advogada-da-liberdade\/"},"modified":"2013-01-30T23:56:11","modified_gmt":"2013-01-30T23:56:11","slug":"mercia-albuquerque-10-anos-sem-a-advogada-da-liberdade","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/01\/30\/mercia-albuquerque-10-anos-sem-a-advogada-da-liberdade\/","title":{"rendered":"M\u00e9rcia Albuquerque \u2013 10 anos sem a advogada da Liberdade!"},"content":{"rendered":"<p \/>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\" \/>Em 29 de janeiro de 2003 o Brasil perdia uma incans\u00e1vel guerreira da liberdade, a advogada M\u00e9rcia Albuquerque. Atuou em cerca de 500 casos em defesa de presos pol\u00edticos na ditadura civil-militar, entre 1964 e 1985.  <!--more-->  <\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um fato presenciado ent\u00e3o pela rec\u00e9m formada em Direito, em dois de abril de 1964, na Pra\u00e7a de Casa Forte em Recife, foi determinante para sua op\u00e7\u00e3o de advogada dos acusados de subvers\u00e3o pelo regime militar: a tortura p\u00fablica de um velho militante comunista, Greg\u00f3rio Bezerra, pelo ex\u00e9rcito brasileiro. Diante da bestialidade humana de farda e testemunhada s\u00f3 havia um caminho a ser trilhado \u2013 a defesa incondicional dos perseguidos pela repress\u00e3o ditatorial.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Participou ativamente desde os primeiros tempos da instala\u00e7\u00e3o do regime de exce\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o e articula\u00e7\u00e3o de uma rede informal de advogados que defenderiam os presos pol\u00edticos: sindicalistas, trabalhadores rurais, estudantes, militantes de partidos de esquerda, lideran\u00e7as dos movimentos sociais e familiares dos presos pol\u00edticos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essa rede informal de advogados possu\u00eda articula\u00e7\u00f5es nacionais. Para elaborar as defesas, impetrar os recursos jur\u00eddicos, analisar os milhares de processos, seria imposs\u00edvel a atua\u00e7\u00e3o individual. S\u00f3 um esfor\u00e7o profissional e pol\u00edtico coletivo daria conta de tentar frear a sanha repressora da ditadura em sua dimens\u00e3o jur\u00eddica e repressiva. Esse trabalho foi ainda mais dif\u00edcil com o fim do habeas corpus a partir da edi\u00e7\u00e3o do AI-5 em dezembro de 1968.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A persegui\u00e7\u00e3o, a intimida\u00e7\u00e3o, e mesmo o isolamento social marcaram a vida destes profissionais da liberdade nos chamados \u201canos de chumbo\u201d. Esses fatos foram registrados pela Dra M\u00e9rcia Albuquerque como uma forma de desabafo e de preserva\u00e7\u00e3o da sanidade diante de tempos insanos, em cartas, reflex\u00f5es e poemas, formando um impressionante acervo que representa um retrato sens\u00edvel de uma \u00e9poca de terror estatal numa sociedade castrada e atemorizada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Diversas vezes sequestrada pela pol\u00edcia, Dra M\u00e9rcia Albuquerque, foi levada sem ruma pelas madrugadas recifences em cambur\u00f5es onde se misturavam meganhas e empres\u00e1rios, que juntos vociferavam improp\u00e9rios de baixo cal\u00e3o a fim de agredirem secretamente uma defensora dos direitos humanos. Presa sem mandato juducial, chamada a depor sobre defesas realizadas, amea\u00e7ada de morte mesmo na gravidez, Dra M\u00e9rcia n\u00e3o sucumbiu. Ao lado de seus colegas continuou a exerc\u00edcio da profiss\u00e3o nas condi\u00e7\u00f5es mais duras.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Essa escolha, que abra\u00e7ava igualmente todos os presos pol\u00edticos defendidos por ela, independente de suas op\u00e7\u00f5es partid\u00e1rias e de serem da resist\u00eancia pac\u00edfica ou da luta armada, atingiu tamb\u00e9m a sua fam\u00edlia, particularmente o seu \u00fanico filho Aradin, em virtude da aus\u00eancia da m\u00e3e, que teve que se dedicar integralmente na defesa dos seus clientes. Estes que nem sempre pagavam seus honor\u00e1rios, por estarem presos. E seus familiares que pagavam quando podiam&#8230;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Advogada, mas tamb\u00e9m, segundo seus relatos, tantas vezes m\u00e3e e confidente dos perseguidos, torturados, ensandecidos e apavorados opositores da ditadura. Igualmente solid\u00e1ria com os familiares dos presos e desaparecidos pol\u00edticos. Resposta a um apelo desesperado de uma m\u00e3e imersa na dor da incerteza do paradeiro de um filho. \u00daltima esperan\u00e7a de uma companheira privada do seu namorado ou marido que desaparecera nos por\u00f5es do terror. Not\u00edcias em que se alternavam a alegria de um informa\u00e7\u00e3o do parente preso, e tantas tristezas no relato da morte do filho, do marido, do pai&#8230;<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Encontro cara a cara com a morte \u2013 nos necrot\u00e9rios diante dos jovens cad\u00e1veres seviciados \u2013 nos cemit\u00e9rios na exuma\u00e7\u00e3o de um suposto indigente para ser sepultado secretamente pelos familiares.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Encontro constante com a repress\u00e3o, seja no DOPS, no DOI-CODI, na Casa de Deten\u00e7\u00e3o do Recife e nas in\u00fameras sess\u00f5es dos Tribunais Militares e seus famigerados IPM\u2019s. Como da vez que diante do diretor da Casa de Deten\u00e7\u00e3o, defendendo um cliente, ouviu a pergunta \u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0\u00a0 \u201c\u00a0 \u2013 Por que se importa com esses comunistas ? Eles s\u00e3o uns animais \u2013 como cavalos ! \u201c, ao que retrucou prontamente, \u201c Diretor, o senhor cuide dos seus, que eu defendo os seres humanos ! \u201c<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Falar e rememorar a trajet\u00f3ria profisional, pol\u00edtica e \u00e9tica da Dra M\u00e9rcia Albuquerque \u00e9 um ato de repara\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, n\u00e3o s\u00f3 com ela, mas com toda uma gera\u00e7\u00e3o de advogados, em sua maioria an\u00f4nimos, que combateram a repress\u00e3o nos tempos mais dif\u00edceis. \u00c9 tamb\u00e9m falar do presente, pois a luta pelos Direitos Humanos \u00e9 cotidiana e sempre premente.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Homenagear a luta da Dra M\u00e9rcia Albuquerque \u00e9 lembrar que a Liberdade \u00e9 algo que se conquista !<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Felipe Gallindo &#8211; Historiador<\/p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 29 de janeiro de 2003 o Brasil perdia uma incans\u00e1vel guerreira da liberdade, a advogada M\u00e9rcia Albuquerque. 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