{"id":3171,"date":"2013-01-30T23:58:15","date_gmt":"2013-01-30T23:58:15","guid":{"rendered":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/01\/30\/relato-do-compacfon-sobre-a-vista-no-predio-da-rua-tutoia\/"},"modified":"2013-01-30T23:58:15","modified_gmt":"2013-01-30T23:58:15","slug":"relato-do-compacfon-sobre-a-vista-no-predio-da-rua-tutoia","status":"publish","type":"post","link":"http:\/\/anistiapolitica.org.br\/abap3\/2013\/01\/30\/relato-do-compacfon-sobre-a-vista-no-predio-da-rua-tutoia\/","title":{"rendered":"Relato do comp.A.C.Fon sobre a vista no predio da rua TUTOIA"},"content":{"rendered":"<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Camaradas,<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Convidados pela Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-SP, fizemos hoje (29\/01\/2013) uma visita de inspe\u00e7\u00e3o \u00e0s instala\u00e7\u00f5es onde funcionou, principalmente, nas d\u00e9cadas de 60 e 70 \u2013 depois, j\u00e1 sem tanto poder, nos anos 80 \u2013 o Doi-Codi de S\u00e3o Paulo, inicialmente batizado de Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes. A visita foi programada pela OAB-SP diante das informa\u00e7\u00f5es que o pr\u00e9dio onde funcionou o mais\u00a0sinistro aparelho de repress\u00e3o j\u00e1 montado neste pa\u00eds e onde dezenas de pessoas foram assassinadas, estava sendo descaracterizado como parte de uma estrat\u00e9gia para subtrair da mem\u00f3ria deste pa\u00eds os crimes ali perpetrados e seus autores, funcion\u00e1rios p\u00fablicos das tr\u00eas for\u00e7as armadas e da Secretaria de Seguran\u00e7a P\u00fablica do Estado de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n<p>  <!--more-->  <\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Fiquei encarregado de fazer o relat\u00f3rio da visita, coisa que pretendo fazer nos pr\u00f3ximos dias com a colabora\u00e7\u00e3o dos demais companheiros que fizeram a visita, especialmente da Darci, Cl\u00f3vis e Rose. Esse, por\u00e9m, \u00e9 um relato pessoal e impressionista dessa visita. Desde o dia 16 de outubro de 1969, quando deixamos a Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes, algemados uns aos outros, eu o Manoel Cyrillo e o Paulo de Tarso, nunca mais eu havia colocado os p\u00e9s sequer no p\u00e1tio do 36\u00ba Distrito Policial, em cujos fundos funcionava a Oban. Eu at\u00e9 j\u00e1 participei de manifesta\u00e7\u00f5es ali em frente, mas nunca tive a coragem de passar da cal\u00e7ada.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Dizem que, como num filme, a vida inteira passa por nossos olhos na hora de morrer. Se for verdade, eu morri um pouco hoje. Apesar de todas as obras e mudan\u00e7as feitas, quando cheguei na porta da ed\u00edcula onde funcionava a Oban, todas as imagens daqueles 17 dias no inferno desfilaram pela minha cabe\u00e7a, a come\u00e7ar pelas palavras do delegado Raul Nogueira \u2013 membro do CCC, assassino do comandante Marquito e, mais tarde, condenado pelo assassinato de um soldado do ex\u00e9rcito \u2013 ao me entregar a uma dupla de psicopatas, o capit\u00e3o do ex\u00e9rcito Benone de Arruda Albernaz e o sargento PM Paulo Bordini \u2013 que ficou conhecido como \u201cRisadinha\u201d, devido ao riso hist\u00e9rico enquanto torturava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">\u201cEsse \u00e9 daqueles que n\u00e3o sabem nada. Tratem bem dele\u201d, recomendou o Raul Careca ao Albernaz. Eu logo descobriria o que era o bom tratamento do lugar.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">O filme continuou se desenrolando enquanto subia as escadas. No primeiro andar ficava a sala do major Waldir Coelho, primeiro comandante da Oban, que uma noite me tirou da cela para fazer caf\u00e9 e conversar a minha e a sua situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">No segundo andar, na parte dos fundos da ed\u00edcula, uma sala maior, na \u00e9poca separada por divis\u00f3rias de Eucatex em tr\u00eas salas de interrogat\u00f3rio: duas menores, onde era armado o pau-de-arara; a terceira, mais espa\u00e7osa, com uma escrivaninha e a cadeira-do-drag\u00e3o. Foi nesta terceira sala que eu fui jogado, as pernas paralisadas devido a algo entre tr\u00eas e quatro horas de pau-de-arara, para que a c\u00e2mara de torturas pudesse ser usada para assassinar o Virg\u00edlio Gomes da Silva, nosso Comandante Jonas.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">As lembran\u00e7as de 43 anos atr\u00e1s devem ter feito minha press\u00e3o arterial chegar a 18 ou 19. Tive de sentar nas escadas para recuperar o f\u00c3?lego.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">E consegui, finalmente, entender um detalhe que n\u00e3o conseguia explicar. Por que eu n\u00e3o ouvi os gritos do Celso Horta, torturado na outra c\u00e2mara de torturas, separada da minha apenas por uma divis\u00f3ria de Eucatex, e ouvi os assassinos do Jonas enquanto o interrogavam? Quem matou a charada foi a Darcy, que passou por essa experi\u00eancia in\u00fameras vezes: a gente n\u00e3o ouve os gritos das outras pessoas enquanto n\u00f3s mesmos estamos gritando.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o entrei na \u00e1rea onde ficavam as celas \u2013 a carga emocional do dia j\u00e1 era bastante pesada e as pessoas estavam preocupadas com minha rea\u00e7\u00e3o. E confesso que eu tamb\u00e9m estava.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">De qualquer forma, pudemos comprovar que foram e est\u00e3o sendo feitas mudan\u00e7as para descaracterizar o que foi o maior centro de torturas j\u00e1 instalado neste pa\u00eds.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Enfim, companheiros, sa\u00ed com a impress\u00e3o que n\u00f3s e nossos companheiros continuamos a ser torturados. E que as for\u00e7as armadas precisam decidir se v\u00e3o continuar, por puro esp\u00edrito de corpo, a defender e procurar encobrir os crimes desses criminosos ou v\u00e3o renega-los para ajudar a construir o Brasil que todos n\u00f3s queremos.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Foi um dia doloroso, mas essencial para entender muita coisa sobre nosso passado, presente e futuro.<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Um abra\u00e7o a todos<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">A.C.Fon<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ou ficar a p\u00e1tria livre<\/p>\n<p class=\"p1\" style=\"text-align: justify;\">Ou morrer pelo Brasil<\/p>\n<p>\u00a0<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00a0 Camaradas, Convidados pela Comiss\u00e3o de Direitos Humanos da OAB-SP, fizemos hoje (29\/01\/2013) uma visita de inspe\u00e7\u00e3o \u00e0s instala\u00e7\u00f5es onde funcionou, principalmente, nas d\u00e9cadas de 60 e 70 \u2013 depois, j\u00e1 sem tanto poder, nos anos 80 \u2013 o Doi-Codi de S\u00e3o Paulo, inicialmente batizado de Opera\u00e7\u00e3o Bandeirantes. 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